• Sonuç bulunamadı

Uma vez que a análise da documentação cartorária nos permitiu pensar as formas de argumentação existentes nos discursos como meios de utilização social da linguagem escrita, optamos por não trabalhar com níveis ou escalas de letramento. Essa opção está pautada na ideia de que os níveis hierarquizariam a multiplicidade das maneiras pelas quais as mulheres se posicionaram diante da escrita, reduzindo as possibilidades de identificação da capacidade inventiva do sujeito.

Entendemos, porém, que o domínio das habilidades de ler e escrever autonomamente encerra um poder concreto, diferenciado daquele por nós denominado poder simbólico,

referente às capacidades de organização das ideias e de interpretação. Ao ditarem, as mulheres, mesmo forjando e participando da escrita, apresentavam outra vinculação com esse saber, diferente daquela que, sem mediadores, os detentores das habilidades de ler e escrever possuíam. Queremos deixar claro que, se não denominamos as mulheres de analfabetas – no sentido de não apresentarem nenhuma vinculação com o escrito, quando, por exemplo, não escreviam sequer o nome –, tampouco chegamos ao extremo oposto de igualá-las a quem redigia com as próprias mãos. Isso porque acreditamos que os modos de “diálogo” com a escrita vão de um extremo ao outro, e, seja de maneira concreta ou de forma simbólica, como denominamos, esses caminhos levam ao exercício de um poder real que é o da comunicação.

Nesse sentido, optamos por construir uma estratégia investigativa que apresentou a intenção de realçar os usos da escrita e não os níveis de letramento, haja vista, também, como veremos no próximo capítulo, que, para alguns autores, é impossível dissociar letramento de alfabetização. Partimos da hipótese, portanto, de que, independentemente dos níveis de letramento, a pessoa poderia possuir grande capacidade comunicativa. Assim, a pluralidade dos modos de envolvimento com o escrito serviu de parâmetro para a construção das categorias analíticas.

Nesse processo de seleção e interpretação dos conteúdos discursivos das fontes, a atenção aos argumentos contidos nos textos, que guardam nexos com as especificidades sociais dos sujeitos e com os cenários em que estavam inseridos, é indispensável para o desenvolvimento das análises. Portanto, a elaboração dessas categorias parte da substância contida na própria fonte, isto é, fundamentalmente de pontos preponderantes na escrita da documentação. Esse instrumental analítico configurou-se como referência para a leitura e a análise das relações estabelecidas pelos sujeitos com a escrita, identificáveis nos textos dos denominados documentos oficiais, como demonstraremos nos Capítulos 3 e 4. Nessa perspectiva, construímos um instrumental analítico que assumiu a geometria de um quadrilátero:

1. explicitamos as características sociais dos sujeitos: naturalidade, pertencimentos sociais, relações familiares;

2. reconhecemos os eixos condutores das narrativas, ou seja, classificamos, nos textos mais expressivos, a ênfase dada a temas específicos;

3. identificamos, ao mesmo tempo, a tônica das principais diretrizes e determinações contidas no texto, o que significou definir se os trechos de relevo do discurso

dizem respeito a aspectos referentes ao passado do sujeito ou a disposições relativas ao futuro;

4. por último, buscamos, em caráter complementar, identificar indícios da utilização ou da convivência com a escrita em diferentes momentos das vidas dessas mulheres. Por exemplo, a existência de cartas, cadernos ou outros materiais escritos.

Dessa forma, objetivamos distinguir usos, diferenciar conexões (poder real), conhecer acessos, compreender o simbólico e seus significados, observar práticas e capacidades de uso e aplicação da escrita. Entendemos que, por meio do destaque dos elementos (temáticas) mais recorrentes nas “elaboraçoes textuais” das mulheres, tornou-se possível realçar as finalidades principais a que a escrita se prestava e de que forma esses sujeitos elaboraram seus discursos.

Por que construir categorias analíticas a partir dos elementos recorrentes? Porque, a despeito da formalidade discursiva dos documentos, os usos da escrita não apenas revelam representações que compõem o imaginário social da época, como também possibilitam o rastreamento de aspectos da oralidade e da individualização dos discursos. Reconhecer o viés temático preponderante nos documentos permite qualificar, juntamente com os dados de natureza social, as utilizações da escrita. A identificação e a caracterização das incursões e do trânsito numa sociedade marcada pela escrita – e que se dá pelo uso da palavra escrita –, em simultâneo, esclarecem acerca da continuidade discursiva comum, revelam suas rupturas ao longo do tempo. Por meio da abordagem e classificação dos fios condutores das narrativas, é possível compreender a elaboração do documento e a importância atribuída a determinados aspectos do cotidiano, num quadro de valorização das experiências sociais.

Sem dúvida, os assuntos/temas que compõem a base para o enquadramento dos conteúdos discursivos variam de acordo com a natureza da documentação analisada. No caso de nossas fontes cartorárias, esse aspecto parece privilegiado, pois o testamento, apesar de suas finalidades iminentemente religiosas e de transmissão dos bens, comporta a redação de uma gama diversificada de temas. Seja como for, o que se ressalta na construção analítica é a premissa da utilização da escrita para além do domínio do alfabeto. No caso dos eixos analíticos aqui criados, a ênfase recaiu sobre os modelos e estratégias na/para a composição discursiva.

Defendemos que os estudos que buscam analisar os usos da escrita em períodos pré- estatísticos, bem como as investigações que possuem como foco os processos de alfabetização

nesse contexto, devem considerar os meios da constituição do discurso na documentação. Tal movimento analítico somente é possível a partir da definição de categorias que considerem o ato de ditar enquanto elemento produtor da escrita. O ditado do documento, nessa perspectiva, permite apreensões e formulações conceituais organizadas sucessivamente, em que as ideias são encadeadas de maneira lógica e representadas pela escrita. Nesse contexto, a escrita

mediada surge como decorrência de uma prática social comum às sociedades do Antigo

Regime.

Dessa maneira, compreendemos o social como condição/potência (variável independente) que permite e potencializa as utilizações da escrita. O cultural, entendido como o próprio texto escrito, forja-se como produto e chegada (variável dependente). Em decorrência, a análise documental se processou a partir de temas que emergiram com base nas experiências sociais. Acreditamos, assim, que as construções narrativas presentes nos testamentos foram edificadas com referência no vivido.

Benzer Belgeler