GEREÇ VE YÖNTEMLER
İSTATİSTİKSEL ANALİZ
Na documentação portuguesa relativa à implantação dos primeiros povoados brasileiros, percebe-se, entre os primeiros espaços a serem instalados, a designação de incluir uma praça, para onde convergem alguns dos mais importantes elementos urbanos, sejam vias ou edificações administrativas, eclesiásticas e residenciais.
“Sou servido ordenar-vos que, passando às referidas freguezias, depois de haverdes feito a relação dos moradores que se oferecem para povoar as referidas vilas, convocareis todos para determinados dias, nos quais sendo presente o povo, determineis o lugar mais próprio para servir de praça a cada uma das ditas vilas, fazendo levantar no meio delas o pelourinho, assinando área, para se edificar uma igreja, capaz de receber um competente número de fregueses, quando a povoação se aumentar, como também das outras áreas competentes para as casas, das recreações e Audiências, cadeias, e mais oficinas públicas, fazendo delinear as casas dos moradores por linha reta, de sorte que fiquem largas e direitas as ruas”196.
Segundo Manuel Teixera, no Brasil, as primeiras praças geometrizadas surgem no século XVI, vinculadas a espaços religiosos, afirmando-se seu rigor formal ao longo dos século XVII e XVIII. Centralizados na malha urbana, neles se implantam as principais funções da cidade. A partir do século XVII, a praça vai adquirindo o papel de gerador do traçado e passa a ser concebida como “centro simbólico, funcional e formal da cidade”*197.
“As praças, com uma forma regular e localizadas centralmente na malha urbana, assumiam o papel de elemento gerador do traçado: era nelas que se implantavam os principais edifícios institucionais da cidade – nomeadamente a casa da câmara e cadeia, a misericórdia, e a igreja matriz – e era a partir delas que se definiam as principais direcções e o traçado ortogonal das ruas”198.
Nestor Goulart afirma que a organização desses centros utiliza as praças como forma de valorização das áreas de maior interesse da comunidade, onde algumas edificações de importância articulam-se à geração de um espaço livre destinado à aglomeração popular. Essa estratégia, de certo modo, revela uma intenção de controle, onde algumas funções administrativas se concentram em locais específicos, conferindo às ruas as funções de ligação e acesso a esses pontos principais.
Esses locais recebem tratamento especial, assumindo escalas compatíveis com sua importância simbólica. Constituem pontos focais urbanos, possibilitando maior riqueza de perspectivas que valorizam suas formas, através, inclusive, das principais fachadas dos edifícios oficiais ou religiosos que se encontram em seu entorno, além do seu valor simbólico, reservado às reuniões cívicas e, geralmente, abrigando o pelourinho, símbolo da autonomia municipal.
A capital paraibana, não fugindo à regra, também tem seu núcleo inicial reunido numa praça, em torno da qual se concentram as principais edificações do povoado e a partir da qual se desenvolvem as primeiras ruas,
196 Carta Régia de 19/6/1761. In: SANTOS, Paulo Ferreira. Formação de cidades no Brasil Colonial. Rio de Janeiro: UFRJ, 2001, p.57. 197 TEIXERA, C. Manuel. “Os modelos urbanos portugueses da cidade brasileira”. In: TEIXERA, C. Manuel (coord.). A construção da
cidade brasileira. Lisboa: Livros horizonte, 2004, p. 29.
como também ocorre, segundo Nestor Goulart Filho, em centros urbanos menores. Porém, percebe-se nesse caso específico, no período oitocentista, características que, segundo o mesmo autor, são típicas das grandes cidades em formação, cujas praças ganham especialização, “diferindo segundo funções cívicas ou religiosas”199, como ocorre em Salvador.
Na toponímia dos espaços públicos da antiga João Pessoa, as praças aparecem como elementos típicos do início do século XX. Até o século anterior prevalecem pátios, largos e campos que, a partir de então, passam a conviver com as praças. Nesse caso, as atribuições e formas conferidas às ‘praças’ das cidades coloniais são assumidas por esses outros espaços, que condensam em si tais significados. Por outro lado, a praça assume, no século XX, outros significados, formas e funções que refletem um novo contexto urbano. A observação da sua toponímia e dos seus usos aponta para uma provável utilização do termo praça de forma não específica para os demais espaços de uso permanente, assim como se percebe nas descrições desse período, que se referem aos espaços batizados de largos, campos e pátios, através do nome praça.
Dessa forma, nessa cidade, até fins do século XIX, percebe-se a predominância de largos, pátios e campos, enquanto o espaço com a denominação de praça firma-se no início do século XX como um espaço simbólico de novos ideais urbanísticos.
“CÁMPO, pedaço de terra baixa, e plana. Terra fora da cidade. O arraial militar”200.
Áreas não edificadas e sem tratamento urbanístico, os espaços assim intitulados são, na maioria das vezes, utilizados para fins militares. Instalados na periferia da cidade, não são objeto de uso cotidiano pela população, destinando-se a atividades e treinamento militares. Na capital paraibana, são encontrados, geralmente, nas proximidades dos conventos que, no início, situam-se comumente nas periferias, a exemplo do Campo do Commendador Felizardo, localizado na frente do Convento dos Jesuítas. Com o crescimento urbano, esses espaços são englobados pelo conjunto urbano e passam, gradativamente, a assumir outros papéis no novo contexto em que são absorvidos. Em fins do século XIX, essa cidade apresenta alguns desses espaços antes afastados, que aos poucos desempenham outras funções, recebendo também novas formas e outros nomes, a exemplo do Campo do Commendador Felizardo, nesse momento transformado em Jardim Público e, posteriormente, na Praça João Pessoa. Quando englobados pela cidade, aproximando-se das áreas de movimento cotidiano, os campos deixam de ter função predominantemente militar. Mesmo mantendo a denominação de campo, eles passam a abrigar diferentes tipos de atividades como jogos, feiras e festas.
“LARGO, s.m. pequena praça”201.
Formalmente apresentados na conformação urbana como alargamento de vias diante de uma edificação de referência, os largos da capital paraibana se apresentam, no fim do século XIX, como espaços quantitativamente relevantes e de grande representatividade na cidade. O Largo da Matriz é o primeiro “espaço público” construído na cidade, reunindo as primeiras edificações referenciais do conjunto urbano, o que lhe confere o papel das “praças” atribuídos pela Coroa portuguesa no processo de formação das cidades brasileiras. Sua importância na formação da cidade da Parahyba do Norte encontra-se sempre explícita nos primeiros relatos acerca da cidade:
199 REIS FILHO, Nestor Goulart. Contribuição ao estudo da evolução urbana do Brasil (1500-1720) São Paulo : Liv. Pioneira e Ed. da
Universidade, 1968, p.136.
200 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da Língua portugueza dos vocabulários impressos ate’ agora, e nessa segunda edição
novamente emendado, e muito accrescentado. Lisboa: Typographia Lacérdina, 1813.
201 VIEIRA, Frei Domingos. Grande Diccionario Portuguez ou Thesouro da Língua Portugueza. Porto: Casa dos editores Ernesto
Dissertação de Mestrado - Maria Cecília Almeida
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Capítulo 2 - A cidade oitocentista: formas e usos dos espaços públicos
“A casa para Cadeia, Camara e Açougues foi logo também levantada defronte da Matriz e dahi mudada depois. Diversos moradores accolhidos a [sua] sombra estenderam suas edificações rua afora, (...) [formando] a primeira rua construída na Capital”202.
Assim, o Largo da Matriz reune em si um conjunto de funções: administração, comércio, religião e moradia. O largo, conforme assinala Murilo Marx referindo-se às cidades brasileiras da época, abriga a “ feira,
a procissão, o pretexto de encontro”203. São palcos importantes da vida urbana colonial, legando esse perfil ao período oitocentista.
Geralmente situados em frente às igrejas, mas também nas imediações de edificações de função representativa da ordem urbana ou de outros elementos referenciais - a exemplo dos largos da Cadeia, da Viração, da Gameleira -, os largos atraem para seu entorno as principais atividades e construções do período colonial, ainda visíveis no final do século XIX . Concentrando os principais elementos urbanos, deles partem as primeiras ruas, becos e travessas, estabelecendo perspectivas onde eles podem ser lidos como continuação das vias, que se alargam diante das edificações mais significativas, proporcionando um espaço de aglomeração. Assim, assumem papel de grande representatividade dos espaços urbanos, tanto na relação formal que estabelecem com os demais elementos do conjunto, quanto nas atividades que movem o cotidiano citadino. Essa participação dos largos na vida citadina também é acentuada pelo papel da Igreja na cidade de então, quando essa instituição é referência essencial para a vida cotidiana. Seu sino organiza o uso do tempo e é mensageiro de boas e más notícias. Os largos são palcos de atividades religiosas e onde se organizam os cortejos.
Além de refletir como a população utiliza os espaços urbanos, os largos são de grande representatividade formal. Como ocorre desde a fundação da cidade, a ascendência de igrejas entre as edificações do conjunto urbano204 apresenta como conseqüência natural a forte presença de largos no cenário citadino. Esse quadro se
202 PINTO, Irineu F. Datas e notas para a história da Paraíba. 2ª ed. João Pessoa: Editora Universitária, 1977, p. 22. 203 MARX, Murilo. Cidades brasileiras - 1945. São Paulo: Melhoramentos: Ed. da Universidade de São Paulo,1980, p.43.
204 Nos relatos e mapas seiscentistas, a cidade da Parahyba do Norte conta com três ruas escassamente edificadas, além de becos
e travessas, e dispõe de seis edificações eclesiásticas, entre igrejas e conventos, número que se multiplica no século XVIII.
estende até fins do século XIX, como se verifica no ano de 1889, quando dos vinte “espaços públicos”205 existentes nessa capital, assinalados por Vicente Gomes Jardim, oito eram largos206.
“PRÁÇAS, s.f., lugar público, descoberto, espaçoso nas villas, ou cidades, onde se fazem feiras,
mercados, leilões; onde se tratão coisas de commercio”207. Percebe-se que até o século XIX a
praça é descrita muito mais pelo tipo de apropriação desse espaço, enquanto palco de atividades urbanas, que pela sua organização formal. No século seguinte, esses espaços destacam-se, na capital paraibana, como renovadores do conjunto urbano. Até então em minoria, entre largos, pátios e campos, as praças passam a predominar nesse cenário. Nesse momento, elas se comportam mais como anunciadoras do interesse de remodelação das formas urbanas que como consolidadoras desse ideal, pois apesar de assim intituladas, sua aparência pouco se diferencia da
daqueles espaços tipicamente coloniais, o que ocorre, de fato, no início do século seguinte.
A praça, não mais idealizada como espaço aberto propício às atividades comerciais, passa a ser vista como um espaço predominantemente de lazer e contemplação, formada por uma área dotada de jardins e coretos, e destinadas a atividades de recreação. É nesse momento que surge o primeiro Jardim Público na cidade: “o jardim público, com as palmeiras imperiais, arvoredos altos, renques de pitangueira, fechado em
gradil de ferro (...) foi construído pelo vice-presidente padre Galvão cerca de 1870”208.
Na passagem do século XIX para o XX o espaço urbano da capital paraibana sofre intervenções pontuais, no intuito de transformar os ‘traços da cidade colonial’ que nela permanecem. Algumas vias são alinhadas e calçadas, e, principalmente nas décadas de 1910 e 1920, é visível a inserção de elementos precursores da nova etapa de reestruturação do cenário da cidade, onde praças se instalam em antigos largos, pátios, e campos.
Praças passam a ser dotadas de elementos como jardins, bancos, rink de patinação, coretos, etc, o que lhes conforma um uso inovador de lazer e contemplação. Muitos são os artigos e as crônicas que revelam a mudança da utilização e do significado desses espaços para a sociedade, onde as novas formas urbanas e os diferentes tipos de apropriação revelam a transformação das áreas públicas nesse período.
Largos, pátios e campos dão lugar às praças que dispõem de grande dimensão simbólica diante do contexto em que se encontram. Elas não representam apenas um espaço, mas o anúncio de uma concepção de cidade que se constrói e se põe em prática naquele momento, representada pela sua forma, pelos usos a ela conferidos e pela sua denominação. Sinalizando as alterações das ‘formas coloniais’, a aparição desses
205O termo espaço público é utilizado no sentido de espaços urbanos de uso público, onde se enumeram largos, campos, pátios, praças, etc. 206 JARDIM, Vicente Gomes. “Monographia da Cidade da Parahyba do Norte”. Revista do IHGP. João Pessoa, n.3, p.83-111, 1911 207 SILVA, Antonio de Moraes. Diccionario da Língua portugueza dos vocabulários impressos ate’ agora, e nessa segunda
edição novamente emendado, e muito accrescentado. Lisboa: Typographia Lacérdina, 1813.
208 MARIZ, Celso. Evolução econômica da Paraíba. João Pessoa: A União, 1978. p.89.
1910 - Praça Rio Branco, antigo Largo do Erário, vendo-se o prédio da Cadeia Velha, na época Paço Municipal. FONTE: Acervo Walfredo Rodrigues.
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Capítulo 2 - A cidade oitocentista: formas e usos dos espaços públicos elementos no espaço urbano, em fins do século XIX, é de grande significado para o processo de intervenções que se desencadea nessa cidade nas primeiras décadas do século seguinte, onde a praça é a principal inovação da forma urbana.