• Sonuç bulunamadı

“Com efeito, um topônimo aparece em um determinado lugar, às vezes não se sabe dado por quem, fruto da população anônima, entranha-se de tal forma ao lugar que passa a incorporar o significado do local, como se um e outro fossem a mesma coisa, verdadeira imagem mimética do referente, reprodução de suas características; por mais de uma geração, o nome pode permanecer definindo a área até que fatos posteriores, aleatoriamente ou não, acabem por imprimir novo rumo ao chamamento.”209

O sistema denominativo é um reflexo de tudo aquilo que representa, cumulativamente, hábitos, usos, costumes, moral, ética, política e religião. Os parâmetros são proporcionais às impressões provocadas por um conjunto de circunstâncias comuns210. No processo denominativo inicial das partes das cidades do Brasil colonial é comum que a natureza e a religião sejam referenciais denominativos, evidenciando, inclusive, na religião a crença do português, e na natureza o que lhe salta aos olhos como diferencial da nova terra. Com a formação dos núcleos urbanos, os ‘cantos’ das cidades são paulatinamente batizados também pela população, que imprime nos espaços nomes que revelam suas especificidades através de seus atores, cotidiano,

1910 - Antiga Praça das Mercês, atual praça 1817. Observa-se a implantação incial de arborização ordenada e a delimitação dos passeios. Porém, ainda guarda forte relação com a ‘ordem’ dos espaços públicos de antes. Vê-se também, à esquerda, um bonde à tração animal. FONTE: Acervo Laudereida Marques.

209 DICK, Maria Vicentina de Paula do Amaral. A Dinâmica dos Nomes na Cidade de São Paulo 1554-1897. São Paulo: Annablume,

1996, p.22..

1910- Jardim Público. Ao fundo Palácio do Governo, Igreja da Conceição e Lyceu Paraybano. FONTE: Acervo Laudereida Marques

Antigo Largo do Carmo. FONTE: Acervo Humberto Nóbrega

1910 - Antiga Praça das Mercês, atual praça 1817. FONTE: Acervo Laudereida Marques.

Dissertação de Mestrado - Maria Cecília Almeida

77

Capítulo 2 - A cidade oitocentista: formas e usos dos espaços públicos acontecimentos locais, etc.

Considerando a comum ocorrência da fundação de cidades nos cursos de rios, pela necessidade de comunicação com outras terras e de atividades portuárias, é recorrente a influência recíproca da denominação da terra e do rio. Assim, muitas vezes, o rio empresta seu nome à localidade urbana que lhe surge às margens. A exemplo da relação entre os rios Acre e Amazonas e os estados que esses banham, o rio Parahyba deixa seu nome não apenas no estado, mas também na sua capital.

No tempo dos portugueses, quando essa região é feita capitania, que significa “província onde tem

mando um capitão” 211, essa terra é batizada de Parahyba, palavra que significa

“um mar corrompido, uma água má, outrossim, um porto mau para se entrar , e, segundo explicam as pessoas mais versadas nessa língua, quer dizer um porto sinuoso , cuja entrada é má; pois Pará quer dizer rio ou porto com uma curva, e Yba significa máu, donde se segue que esse rio, o maior dessa região, tira seu nome da boca ou entrada sinuosa que tem, e por sua vez a região tira seu nome do rio, que se chama Paraíba”212.

A capital do estado da Parahyba do Norte, banhada por um dos braços do rio de mesmo nome, por sua vez batizado de Sanhauá, recebe no momento de sua fundação o nome de cidade de Nossa Senhora das Neves, “por causa dos incômodos que passaram, de tormentas e ventos, até o dia em que começaram a estabelecer-

se aí e a construir casa”213, dia esse, segundo o calendário religioso, reservado a essa santa. Mais tarde, recebe o nome de Felipéia de Nossa Senhora das Neves, em homenagem a Felipe, rei da Espanha, nome que se conserva até a tomada da cidade pelos holandeses, quando, em homenagem ao Príncipe Orange, substitui-se a denominação pela de Frederica ou Frederikstadt. Expulso os holandeses, a capital passa a ser homônima do estado a que pertence, chamando-se Cidade da Parahyba do Norte até a morte do governador João Pessoa, em 1930, de quem herda o nome até os dias atuais.

Percebe-se que as alterações denominativas da cidade contam parte de sua história, onde cada nome simboliza um acontecimento, uma referência que justifique seu batismo. Da mesma forma, os nomes dos espaços que compõem a cidade em diferentes períodos, ao serem designados ou alterados, revelam os valores e as preocupações urbanísticas de cada momento, tornando-se uma veia de interpretação das transformações urbanas.

A capital paraibana de 1889, segundo a Monographia apresentada por Gomes Jardim, é uma cidade formada por espaços denominados de ladeiras, becos, ruas, travessas, pátios, campos, caminhos, praças e largos. Apesar da presença ainda marcante de becos e travessas no cenário urbano, as reformas ainda incipientes naquele momento, além de sinalizarem alterações formais, apresentam os primeiros ajustes referentes aos nomes dos espaços públicos, a fim de alinhá-los com os ideais que os conduzem às novas formas.

“O fenômeno se opéra na Paraíba, como alhures, ora à razão de transformações materiais, ora pela idéia de consagrar vultos e fatos da História, só raramente por méros preitos pessoais ou por simples ogerisa de ouvido a velhas denominações”214.

Muitos desses espaços ainda têm nomes provenientes de referenciais do entorno no qual estão inseridos, como edificações ou elementos da natureza, e ainda que se remetem a alguma personagem local ou um fato

211 HERCKMAN, Elias. Descrição Geral da Capitania da Paraíba - 1939. João Pessoa: A União, 1982, p. 40. 212 Ibid.

213 MENEZES, José Luís Mota. Algumas notas a respeito da evolução urbana de João Pessoa. Recife: Pool Editora, 1985, s/p. 214 MARIZ, Celso. Cidades e Homens. João Pessoa: A União, 1945.

característico do lugar. Dessa forma, a Rua da Bica dos Milagres “foi assim chamada porque ali existia,

jorrando abundante água, uma fonte que abastecia a população desde o começo da cidade”215.

Esse tipo de noomenclatura é comum até meados do século XIX, quando a população e o uso do espaço público têm o poder de oficializar a denominação urbana. Assim, surgem o beco do Hospital, o Largo do Palácio, a rua da Cadeia Nova, a travessa do Chão Duro, o beco das Almas ou de Luzia Gaga, etc. É também comum a existência de vários espaços próximos com o mesmo nome, a exemplo da rua, da travessa e do largo da Mangueira, onde o nome se remete a uma característica específica da área.

Registros mostram que, a partir de 1870, as denominações dos espaços públicos não mais são criadas de forma tão vinculada aos elementos urbanos, mas, sobretudo, em homenagem a personagens históricos e políticos, geralmente não locais. Sob esse parâmetro, os antigos nomes são alterados. A referência a elementos locais característicos daqueles logradouros específicos dão lugar aos nomes de duques, barões, marqueses, viscondes, etc, que mais à frente também são novamente trocados, homenageando, dessa vez, políticos locais. Assim, a rua Direita passa a Duque de Caxias, a rua da Ponte torna-se Visconde de Pelotas, a rua da Areia passa, na década de 1870, a Barão da Passagem e na década de 1890, a Dr. Aristides Lobo.

“A rua Silva Jardim outrora se chamou Rua da Palha, pois suas casinhas eram feitas desse material. Silva Jardim destacou-se como republicano histórico e inspirado orador. Nasceu no estado do Rio de Janeiro”216.

Apesar de poucas alterações formais, os largos passam a se chamar praças, mudando também seus nomes, a exemplo do Largo do Erário, que em 1890 torna-se Praça Cel. João Vieira, e o Largo Conselheiro Diogo Velho, convertido na Praça João Vieira. A alteração toponímica dos espaços públicos faz parte da política de transformação urbana que se acelera com a chegada do século XX. Porém, essa intervenção também passa a interessar à população, que algumas vezes não concorda nem incorpora no seu cotidiano tais mudanças e outras vezes as enaltece e até as solicita, a exemplo da mudança de nome da Rua da Lagoa para Rua Pedro Américo, a pedido dos moradores217.

De meados do século XIX até a primeira década do século XX, a interferência formal em logradouros existentes é mais enfatizada que a abertura de novos espaços públicos. Dessa forma, os novos nomes que anunciam esses espaços são, geralmente, provenientes da alteração de sua denominação, e não do batismo inicial de um espaço. A mudança denominativa anuncia o novo pensamento de reordenação da cidade, de forma que, muitas vezes, a alteração toponímica não corresponde a uma transformação formal. Apesar de anunciar tais alterações referentes às denominações dos espaços públicos de então, a cidade desse momento ainda apresenta muito dos nomes que se remetem a seu passado, acentuado tais modificações de forma mais incisiva a partir da década de 1920.

Apesar de poucas alterações formais e seus ainda leves reflexos nos usos e nos nomes dos espaços públicos da capital paraibana, essa etapa é essencial para o desencadeamento das reformas urbanas. É um momento rico em críticas e sugestões acerca da organização da cidade, com questionamentos a respeito de seu funcionamento e de sua estética. O levantamento da cidade através de mapas e descrições revela essa preocupação, tornando-se elemento fundamental para as intervenções que culminam nos ciclos de reformas urbanas ao longo da primeira metade do século XX.

215AGUIAR, Wellington. “Velhas Ruas”. Revista do IHGP. ANO n 33, p63-69, p. 74. 216 Ibid., p. 75.

Capítulo 3

Benzer Belgeler