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Tecelino e seus filhos não foram os únicos milites apresentados na obra de Guilherme. Após ter cumprido seus votos e se tornado abade de Claraval, São Bernardo, em uma data difícil de se estabelecer devido às poucas coordenadas oferecidas por Guilherme, mas que pode ser localizada após o ano de 1115, recebe em seu monastério alguns cavaleiros. Estes pretendiam participar de alguns torneios ou simulações de combate condenadas pela Igreja, devido às turbulências que poderiam causar (FLORI, 1998: 62-70). A atitude de Bernardo quanto a esse séqüito de militares não é tão consoante com seu posicionamento perante seus irmãos:

Certa vez, foi um grupo de cavaleiros nobres a Claraval para verem esse lugar e o seu santo abade. Estava próximo o tempo da quaresma e todos eles eram jovens e dados à

cavalaria secular, e andavam desejando aqueles execráveis jogos chamados torneios. Ele começou a pedir que naquele ínterim dos poucos dias que eram antes da quaresma não empregassem armas. Os quais com espírito obstinado recusaram

consentir as suas advertências. E ele disse: “eu confio no Senhor que Ele me dará a trégua que vós me negastes”. E chamou um frade e mandou que lhes oferecesse cerveja e, benzendo-a, disse-lhes que bebessem a poção das almas. Então, todos beberam, alguns deles, ainda forçados pelo amor do século, temendo aquele amor da divina virtude que depois são experimentados os efeitos. Como, portanto, saíram pelas portas do mosteiro começaram a acender uns com os outros em palavra porque o coração de todos ardia. Portanto, Deus inspirando e correndo rapidamente a sua palavra, reversos nessa mesma hora e conversos de seus caminhos, ofereceram suas destras a cavalaria

apponens: “Veniet”, inquit, “dies, et cito veniet, cum lancea , lateri huic infixa, pervium iter ad cor tuum faciet consilio salutis tuae, quod aspernaris: et timebis quidem, sed minime morieris”. Sic dictum, sicque factum est. Paucissimis interpositis diebus circumvallatus ab inimicis, captus et vulneratus juxta verbum fratris, lanceam gestans ipsi lateri, eidemque infixam loco cui ille digitum applicuerat, trahebatur, et mortem quasi jam praesentem metuens clamabat: “Monachus sum, monachus sum Cisterciensis”. Nihilominus tamen captus et reclusus in custodia est. Vocatus est Bernadus per celerem nuntium, se non venit. “Sciebam”, inquit, “et praedixeram quod durum esset ei contra stimulum calcitrare: nec tamen ad mortem ei vulnus hoc, sed ad vitam”.

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espiritual. Dos quais alguns ainda agora servem da Deus, outros, desembaraçados os

vínculos carnais, já reinam com Ele.

Não é maravilha que a maioridade honre este homem com devotos serviços quando em devoção dele a divina virtude excita essa infância ainda ignorante e não conhecedora da devoção e da razão? Muitos conheceram o nobre varão Valtero de Monte

Maravilhoso, sobrinho de Frei Valtero que entre aqueles cavaleiros que dissemos foi professo na santa cavalaria 36. (VP, v. 185, t. 01: 257. trad. e grifos nossos).

Guilherme permite que um detalhe seja vislumbrado: ao utilizar a expressão ne

armis interim uterentur, o autor diz que o desejo de Bernardo era conseguir que os milites não empregassem armas naqueles dias próximos da quaresma. A expressão interim – que significa durante este tempo, enquanto isto, por um instante (FARIA,

2003: 517), da mesma forma na língua portuguesa – demonstra perfeitamente o que Guilherme apreende de Bernardo neste episódio. Este não pediu que os cavaleiros abandonassem a militia, mas apenas que se abstivessem das armas em um momento preciso e restrito no tempo.

O que se segue é uma adequação dos eventos aos já apresentados na biografia. Os jovens milites resistiram a seguir os conselhos de Bernardo. Somente após beberem a cerveja benzida, eles abandonam a militia e ingressam na cavalaria espiritual. Guilherme cita o nome de um desses cavaleiros convertidos e de seu sobrinho, procurando estabelecer referências ou testemunhas que possam confirmar o ocorrido em Claraval. Mais importante do que confirmar o evento é a possibilidade de demonstrar e testemunhar a santidade de seu abade.

Os cavaleiros se converteram, mas, aparentemente, a intenção de Bernardo não era essa. Cada conversão cavaleiresca é um fato singular na biografia, nenhuma ocorre da mesma forma. Contudo, a acima referida mantém-se mais afastada das demais por demonstrar que o abade de Claraval não exigiu a conversão, apenas a abstinência

36 Diverti aliquando nobilium cohors militum ad Claram-Vallem, ut viderent locum, ac sanctum ejus

Abbatem. Prope autem erat sacrum Quadragesimae tempus: et illi omnes fere juvenes dediti militiae saeculari, circumibant quaerentes exsecrabiles illa nundinas, quas vulgo tornetas vocant. Coepit itaque ab eis petere, paucos illos qui ante Quadragesimam supererant dies, ne armis interim uterentur. Quibus obstinato animo ejus acquiescere monitis renuentibus: “Confido”, ait, “in Domino, quod ipse mihi dabit inducis quas negastis”. Et accersito fratre, jubet eis cerevisiam propinari, benedicens eam, et dicens ut potionem biberent animarum. Biberunt ergo pariter, quidam tamen inviti prae amore saeculi, metuentes eum quem postea sunt experti dininae virutis effectum. Ut enim egressi sunt monasterii fores, mutuis sese coeperunt inflammare sermonibus, quia cor eorum ardens erat in eis. Inspirante igitur Deo, et currente velocite verbo ejus, eadem hora reversi, et conversi a viis suis, spirituali militiae dextras dedereunt. Quorum quidam adhuc militant Deo, quidam autem cum eo jam regnant, carnis vinculis absoluti.

Quid autem mirum quod devotis hunc hominem colit osbequiis major aetas, in cujus devotionem divina virtus ipsam quoque infantiam excitat expertem adhuc rationis, et devotionis ignaram? Norunt multi illustrem juvenem Waltherum de Monte-Mirabili, cujus patruus frater Waltherus, inter eos quos praediximus milites, sacram in Clara-Valle militiam est professus.

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temporária dos milites. O desenrolar da interação entre o abade e os milites re-introduz a coerência no relato ao ficar evidente que todos os milites da Vita Prima abandonam abertamente ou discretamente a militia.

Não obstante os resultados alcançados, a posição de São Bernardo quanto à cavalaria, na sua juventude, junto de sua família e perante os milites que chegam a Claraval não é apreendida, inicialmente, da mesma forma. Pelo menos, não seria tão radical ou contundente no caso dos últimos. Essa consideração apóia-se no fato de seu biógrafo não registrar uma tentativa inicial de conversão, apenas um aconselhamento de restrição prática. Pensando nas diferenças existentes entre a conversão de André e Geraldo e dos milites de Claraval é possível evidenciar uma mudança de atitude bernardina frente à cavalaria?

São Bernardo não pediu aos milites convertidos que voltassem para a cavalaria. Mantinha-se a conversão. Nesse sentido, não se pode assinalar uma mudança de postura de São Bernardo quanto à cavalaria. Mesmo que sua intenção inicial não fosse a conversão, o abade de Claraval não se opunha ao abandono da militia. Se a juventude cavaleiresca comporia “a ponta de lança da agressividade feudal” (DUBY, 1989: 137), São Bernardo era elogiado na hagiografia por “conduzir à razão esta infância” (VP, v. 185, t. 01: 257). Guilherme de Saint-Thierry não permite analisar, dentro de sua obra, uma mudança de atitude de São Bernardo quanto à cavalaria. Percebemos um distanciamento entre as narrativas de conversão, mas os resultados delas remetem a um comportamento e um posicionamento de São Bernardo apreendidos e traduzidos de maneira coerente pelo autor da Vita Prima: todos os cavaleiros, de uma forma ou de outra tem seus estados militares modificados pela atuação do Santo.

Benzer Belgeler