2.11. Birleşik Kelimeler
2.11.2. İsim Soylu Birleşik Kelimeler
Historiadores como Demurger (2005), Duby (1989) e Flori (1998) assinalaram um entusiasmo religioso no Ocidente que decorre da pregação do Papa Urbano II na cidade de Clermont – no mês de novembro de 1095 – o êxito da Primeira Cruzada e da tomada de Jerusalém aos muçulmanos em 1099. Pode-se considerar este entusiasmo observando uma convenção feita entre o abade de Cluny e um miles, que deixava seus bens aos cuidados do dito abade para partir rumo a Jerusalém. Convenção que se realizou em abril de 1096, ou seja, cerca de cinco meses após o a pregação de Urbano II:
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Que fosse conhecido aos cristãos presentes e futuros que eu, Acardo, cavaleiro, do castelo que chamam Monte Merulo, por outro lado, filho de Wicardo, o mesmo também é chamado Monte Merulo, eu, digo, Acardo, desejoso de ir a Jerusalém para lutar contra os pagãos e sarracenos, em benefício de Deus, nesta tão numerosa e máxima excitação ou expedição do povo cristão, e, agitado por tal intenção, querendo ir armado naquela, desta maneira faço convenção com o senhor Hugo, abade venerável cluniacense e com os monges dele. Verdadeiramente ante, outros monges são autores comigo desta convenção: senhor Bernardo camareiro e senhor Gaufredo, prior de Monte Bertoldo, e senhor Geraldo de Cavariaco. Por isso, certa possessão minha, que está disponível a mim por direito hereditário paterno, agora ponho em convenção com os ditos senhores, aceitando destes dois mil soldos em moeda lugdunense e quatro mulas. Por tal continuidade, faz-se verdadeiramente essa convenção, afim de que nenhuma pessoa consangüínea ou aparentada possa me redimir, a não ser eu próprio. Que se nesta peregrinação a Jerusalém eu for morto, ou de algum modo desejar permanecer naquelas partes, isto que em convenção é tido, agora então, não em convenção, mas em possessão legítima e hereditária, o monastério de Cluny tenha em direito perpétuo 37. (ACARDO MILES. Carta de convenção feita com o abade de
Cluny. In: BERNARD & BRUEL, v. 05, 1876-1903: 51-53. trad nossa).
Acardo abandonara tudo para cumprir o ato “piedoso” e penitencial de lutar em defesa dos lugares considerados santos na Palestina contra os muçulmanos (DEMURGER, 2002: 22-24). Esse abandono não significava apenas deixar família, amigos e propriedades no Ocidente, mas também recusar as guerras fratricidas e as rapinagens que, nas palavras do clero, a cavalaria exercia no Ocidente (DUBY, 1994: 55). Nas palavras do cronista Foucher de Chartres, Urbano II teria dito:
Que eles marchem, diz ainda o Papa no final, contra os infiéis, e terminem pela vitória uma luta que desde longo tempo já deveria ser começada, estes homens que, até o presente, tiveram o hábito criminoso de se abandonar às guerras internas contra os fiéis; que eles se tornem verdadeiros cavaleiros, aqueles que por tão longo tempo foram somente ladrões; que eles combatam agora, como é justo, contra os bárbaros, aqueles que outrora brandiam suas armas contra os irmãos de mesmo sangue que eles; que eles procurem as recompensas eternas, esta gente que durante tantos anos venderam seus serviços como mercenários por um miserável pagamento; que eles trabalhem por adquirir uma dupla glória, aqueles que há pouco tempo sofriam tantas fadigas em detrimento de seu corpo e de sua alma. Que mais eu acrescentaria? De um lado seriam miseráveis privados dos verdadeiros bens, de outro, homens cobertos pelas verdadeiras
37 Notum sit fidelibus Christi presentibus et futuris, quod ego Acardus, miles, de castro quod vocant
Montem Merulum, filius autem Wicardi, qui et ipse dictus est de Monte Merulo, ego, inquam, Acardus in hac tam multa et permaxima excitatione uel expeditione christiani populi decertantis ire in Iherusalem, ad belligerandum contra paganos et Sarracenos pro Deo, et ipse tali intentione permotus, cupiensque illo ire armatus, facio conventionem hujusmodi cum domino Hugone, abbate venerabili Cluniacensi, et cum monachis ejus. Ante alios vero monachos hujus conventionis auctores mecum sunt: domnus Bernadus camerarius et domnus Gaufredus, prior de Monte Bertaldi, et domnus Geraldus de Cavariaco; itaque quandam possessionem meam que ex paterne hereditatis jure mihi obvenit pono in convadium jam dictis senioribus, accipiens ab eis duo milia solidorum Lugdunensis monete, et quatuor mulas. Fit vero convadium istud tali tenore, ut a nulla persona cumsanguinitatis uel cognationis mee redimi possit, nisi a me ipso. Quod si in hac peregrinatione Iherosolimitana mortuus fuero, uel quoquomodo illis in partibus remorari voluero, istud quod pro cumvadio nunc hagetur, jam tunc non convadium, sed possessio legitima atque hereditas Cluniacensis monasteriis erit jure perpetuo.
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riquezas; de uma parte os inimigos do senhor combaterão, do outro, seus amigos 38. FOUCHER DE CHARTRES. Histoire des Croizades. In: GUIZOT, 1825: 09, trad. nossa).
Um dos resultados mais importantes do contato entre esta expeditia da cristandade e a cavalaria é a possibilidade da representação do miles peregrinus. Este cavaleiro não derramaria sangue cristão, mas pagão, em defesa do próprio Cristo. Um desses nobres que atendera ao apelo de Urbano II, não de imediato, mas viajou para a Palestina e retornou para o Ocidente em sussecivas viagens, entre os anos de 1114 e 1125, foi o conde Hugo de Champagne (GIOVANDO, 1944: 268). Realizar essas viagens, sob os auspícios do clero, instituindo penitências, era uma prática comum entre a nobreza guerreira. Ir, combater os muçulmanos e voltar para a casa se convertia em uma purgação dos pecados cometidos pelos cavaleiros.
Todavia, em uma de suas viagens, o Conde Hugo decidira se fixar em Jerusalém. Além de permanecer naquela cidade, ele abandonara a dignidade condal, se tornara um simples miles e ingressara na confraria dos cavaleiros Templários, cujo líder era exatamente seu vassalo Hugo de Payns. Pessoa próxima de São Bernardo, Hugo de Champagne informou-lhe sua decisão e recebeu do abade de Claraval a seguinte resposta:
Se, pela causa de Deus, te fizeste simples cavaleiro e pobre, de riquíssimo que tu eras, disto vos felicitamos e em ti damos glória a Deus, sabendo bem que esta é uma mutação da destra do Altíssimo. De outra parte, confesso de não ser insensível,
encontrando-me privado, não só por aquela razão de Deus, da tua amável presença, tanto que não posso ver-te nem uma vez, ao passo que teria voltado, se me fosse possível, a encontrar-me contigo. Possamos nós esquecer o antigo afeto e os benefícios que com tanta generosidade tem provido à nossa casa? Se dignificas o senhor, pelo qual amor igual te comporta, não serás esquecido na eternidade! Porque, por aquilo que depende de nós, longe de mostrar-te ingratos, conservamos altamente impresso no coração a recordação da abundância da tua caridade e, na oportunidade mostraremos de fato. Oh! Quanto prazer teríamos em prover ao bem de tua alma e de teu corpo, se nos fosse concedido de estar aqui conosco! Mas porque não é assim, nos resta somente que, não podendo ter-te presente, sempre oramos por ti ausente 39. (BERNARDO DE
38 Qu’ils marchent, dit ancore le pape en finissant, contre les infidèles, et terminent par la victoire une
lutte qui depuis long-temps déjà devrait être commencée, ces hommes qui jusqu’à présent ont eu la criminelle habitude de se livrer à des guerres intérieures contre les fidèles; qu’ils deviennent de véritables chevaliers, ceux qui si long-temps n’ont été que des pilards; qu’ils combattent maintenant, comme il est juste, contre les barabares, ceux qui autrefois tournaient leurs armes contre des fréres d’un même sang , qu’eux; qu’ils recherchent des récompenses éternelles, ces gent qui pendant tant d’annés ont vendu leurs services comme des mercenaires pour une misérable paie: qu’ils travaillent à acquérir une double gloire ceux qui naguère bravaient tant de fatigues, au détriment de leur corps et de leur ame. Qu’ajouterai-je de plus? Dans côté seront des misérables privés des vrais biens, de l’autre des hommes comblés des vrais richesses; d’une part combattront les ennemis du Seigneur, de l’autre ses amis.
39 Si causa Dei factus es ex comite miles, et pauper ex divite, in hoc profecto tibi ut iustum est,
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CLARAVAL. Carta ao conde Hugo de Champagne. In: GIOVANDO, v. 12, t. 01, 1944: 269-271, trad. nossa).
O conde Hugo havia repudiado sua esposa, considerada infiel, deserdado o filho, que acreditava não fosse seu e transmitido o condado de Champagne para seu sobrinho Teobaldo (READ, 2001: 102-103). Hugo recusara os bens materiais e se tornara um simples e pobre cavaleiro. Na sua resposta, São Bernardo lamentou de não ter a presença do Conde em Claraval. Ao dizer que gostaria de “prover ao bem da alma e do corpo” de Hugo, Bernardo demonstraria que desejava a sua entrada em Claraval. O abade lamentava sua vontade não ser satisfeita.
Inicialmente, se poderia imaginar que as palavras de Bernardo significariam apenas uma espécie de saudade ou cortesia de um anfitrião ao seu suserano bem-feitor, pois Claraval localizava-se no condado de Champagne e seu abade lembrara os benefícios que o conde havia cumulado seu monastério. Contudo, considerando a conversão de seus parentes milites e as palavras escolhidas por ele para se expressar, conclui-se que Bernardo acharia melhor que o conde abandonasse sua dignidade e poder para se tornar monge e não miles (DEMURGER, 2005: 58). Com palavras de afeto, Bernardo tentaria, não de forma incisiva, converter o Conde Hugo.
No início da carta, Bernardo louvou a mutatio de Hugo, afirmando que fora obra do altíssimo. A consideração de que a mudança do rico conde para o pobre cavaleiro ocorria pela destra do altíssimo não deixa dúvidas quanto à sinceridade ou à seriedade da apreciação bernardina. De fato, São Bernardo deveria desejar a conversão de Hugo, no entanto, o felicitou e não impôs maiores restrições ou empecilhos à profissão militar do conde. A carta do Santo a Hugo de Champagne permite que uma aceitação reticente das práticas militares seja perceptível. Se não foi possível trazer o conde para Claraval, a decisão de abandonar a riqueza e o poder, nas condições descritas pela missiva, deveria não ser tão desagradável a Bernardo.
Na Vita Prima encontra-se a idéia de que o miles se associa a uma espécie de poder local. Os milites Tecelino e Gaudrico estavam à frente de castelanias,
tua iucunda praesentia nobis ita nescio quo Dei est subtracta iudicio, ut ne interdum quidem videre te valeamus, sine quo nunquam, si fieri posset, esse vollemus, aequanimiter, fateor, non portamus. Quid enim? Possumusne oblivisci antiqui amoris, et beneficiorum quae domui nostrae tam largiter contulisti? Utinam ipse pro cuius amore fecisti, in aeternum non obliviscatur Deus! Nam nos, quantum in nobis est, minime prorsus ingrati, memoriam abundantiae suavitatis tuae mente retinemus, et, si liceret, opere monstraremus. O quam libenti animo et corpori tuo pariter et animae providissemus, si datum fuisset, ut simul fuissemus! Quod quia non est, restat ut, quem praesentem habere non possumus, pro absente semper oremus.
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respectivamente em Fontaine-Le-Dijon e Touilon. Já o jovem irmão de Bernardo, André, no momento de sua conversão, era dito que “de tirano do século se fez cavaleiro de cristo”. Obviamente eles estão intimamente ligados a uma teia de relações vassálicas, devendo obrigações aos seus senhores. Trata-se de nobres, de sangue de antiga origem e reconhecidos por suas obras militares que deteriam direitos e poderes locais. Por outro lado, as referidas oposições entre cavaleiros e condes, evocadas por São Bernardo, enfatizam, não o poder ou a influência política dos milites, mas a sua inferioridade em uma hierarquia social e de poder.
Em uma carta, escrita em 1127 ao sucessor de Hugo, o conde Teobaldo II, Bernardo o lembrara que: Se acaso, algum de vossos cavaleiros ou ministros se
comportar injustamente com seus bens, ou pretender alguma vez alterar a paz que devem gozar em Deus, saiba por certo que com ele ferirão muito gravemente o vosso favor 40 (BERNARDO DE CLARAVAL. Carta ao conde Teobaldo II. In: ARAGUREN
& BALANO, v. 07, 1983: 204. trad. e grifo nossos). Evidencia-se a posição do Conde de Champagne que comanda e está acima de cavaleiros e ministros. Compreender o que significava a palavra miles para São Bernardo naquele momento é de fundamental relevância. A cavalaria, na carta a Hugo de Champagne, provavelmente não deixa de trazer uma conotação de autoridade política restrita, mas o seu significado principal é o do serviço e da subordinação militar simples e humilde (GUILHIERMOZ, 1902: 331- 345).
Para São Bernardo, estaria o conde Hugo cumprindo uma espécie de ascese militar? Ao se tornar Templário, o mesmo conde não estaria realizando uma espécie de “conversão”? Os elementos que conduzem a esse entendimento da ação de Hugo de Champagne são fortes. Se não fosse possível trazer o conde para o monastério, a deposição do poder condal, o abraço da pobreza e a adoção de um modo de vida considerado mais simples e humilde – em uma hierarquia secular – submetido às ordens de um ex-vassalo conduzem a uma “conversão” para um estado particular. Tal estado Bernardo ainda pensa que não seja perfeito, mas o Santo caminha para uma aceitação reticente e restrita. O entusiasmo cruzado de Hugo de Champagne se apresentou para
40 Et si quis forte militum seu ministrorum vestrorum res illorum iniuste contingere, aut quietem, quam in
Deo habere debent, infestare in aliquo tentauerit, pro certo se sciat vestram sibi ob hanc rem gratiam gravissime redditurum infesam.
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São Bernardo de uma forma particular e o fez considerar e pesar possibilidades para a cavalaria.
O principal ponto a se destacar na carta é a não oposição férrea do Santo quanto ao estado militar do conde. Bernardo lamentava a ausência do amigo e bem-feitor, mas não impunha suas condições e não realizava ameaças em forma de profecias. Assinala- se uma mudança de atitude formatada na relação entre o conde/miles e o Abade. A perspectiva constituída no seio familiar e sob a forte influência materna foi colocada em questão na medida em que novas interações, em novas condições, levaram Bernardo a repensar ou a reconsiderar suas concepções. A felicitação do Santo ao conde, associada à sua lamentação de não recebê-lo em Claraval, demonstrava as dificuldades da modificação do habitus bernardino. Não obstante, evidenciamos certa maleabilidade e flexibilidade das concepções e posicionamentos na intervenção de novos espaços de socialização, nos quais, certezas e seguranças adquirem um caráter modificado ou de incerteza.