Kumanda Devresi 0-60 sn.
BÖLÜM 7. İRDELEME VE SONUÇ
No nível convencional de identidade, como visto anteriormente, o sujeito cria uma imagem de si mesmo mediante a internalização da perspectiva do ‘outro generalizado’. Ele assume, de modo não reflexivo, a vontade coletiva, passando a interagir segundo as regras, normas e valores socialmente estabelecidos. Entretanto, o sujeito, sob os pressupostos da autonomia e da autorrealização de si, não pode operar sempre ao nível convencional. Determinadas situações existenciais exigem que o ser humano, num contexto pós-metafísico, assuma sua vida sob o prisma da liberdade, responsabilizando-se por ela e construindo novos modos de autoentendimento e de representação do eu.
Além disso, “a necessidade de evitar convenções petrificadas, impostas pela sociedade, sobrecarrega o indivíduo com decisões morais próprias e com um esboço individual da vida resultante de um autoentendimento ético” (HABERMAS, 2002b, p. 217). Em situações sociais complexas, que exigem atitudes, respostas e decisões diferenciadas, exige-se que os sujeitos operem a partir de outros modelos de autoentendimento e de ação, somente possíveis mediante a superação da identidade convencional pela identidade pós- convencional.
A emergência da identidade pós-convencional ou do eu indica a superação gradativa da identidade convencional mediante um processo de socialização individualizadora, através do qual o indivíduo diferencia o seu eu do todo da sociedade, aumentado os níveis de autonomia, de descentração e de liberdade para criar a si mesmo e ao próprio mundo. O
indivíduo adulto, neste nível de personalização, adquire a capacidade de agir comunicativamente, de julgar a partir de princípios universais e a possibilidade de entender e de representar o mundo a partir de hipóteses abstratas.
Na identidade do Eu se expressa a relação paradoxal pela qual o Eu, como pessoa em geral, é igual a todas as outras pessoas, ao passo que – enquanto indivíduo – é diverso de todos os demais indivíduos. Por isso, a identidade do Eu pode se confirmar na capacidade que tem o adulto de construir, em situações conflitivas, novas identidades, harmonizando-as com as identidades anteriores agora superadas, com a finalidade de organizar – numa biografia peculiar – a si mesmo e às próprias interações, sob a direção de princípios e modos de procedimento universal (HABERMAS, 1983, p. 69-70).
A identidade pós-convencional é caracterizada como uma identidade afirmada por conta própria, implicando na capacidade de agir autonomamente, orientar a própria ação em bases universais e realizar-se a si mesmo enquanto uma biografia assumida responsável e autonomamente127. No nível de identidade do eu, o indivíduo adulto adquire a capacidade de construir novas identidades e, ao mesmo tempo, integrá-las e superá-las num movimento próprio de autobiografar-se constantemente.
Para Habermas (2003b, p. 144), a identidade do eu “capacita uma pessoa para realizar-se a si mesma sob as condições de um comportamento autônomo”, a manter uma relação reflexiva em relação ao mundo externo e em relação à sua própria subjetividade. Permite assumir a condução da própria vida e a vida da comunidade de modo responsável e, ao mesmo tempo, possibilita ser reconhecida enquanto ser humano distinto dos demais, capaz de fala e de interação128. Capacita o indivíduo a olhar o futuro e projetar a própria existência de forma crítica e reflexiva.
No nível da identidade de papéis, a pessoa se entende a si mesma respondendo, com a ajuda de predicados atribuídos, à questão de qual tipo de homem é (chegou a ser), de que caráter possui (adquiriu). No nível da identidade do eu, a pessoa se entende de outra maneira, a saber: respondendo à questão de quem ou de que classe de homem quer ser. A orientação em direção ao passado é substituída por uma orientação em direção ao futuro, que faz com que o passado se converta em problema (HABERMAS, 2003b, p. 153).
No nível de uma identidade pós-convencional, ao referir-se a si mesmo como ‘eu’, o sujeito demonstra que pode ser identificado enquanto ser individual, único e irrepetível, capaz
127 Reese-Schäfer (2008, p. 65) chama a atenção para o substrato existencial que sustenta a possibilidade de
estabilização de uma identidade pós-convencional. Tal substrato pode ser percebido na necessidade de que cada pessoa, embora em contexto intersubjetivo, possa “assumir a responsabilidade pela história da própria vida” mediante uma decisão livre.
128 Para Habermas (2004c, p. 06), tais questões existenciais, que também são questões éticas, pois incluem uma
referência ao eu e à comunidade, “se estabelecem no contexto de uma determinada história de vida ou de uma forma de vida especial. Elas se identificam com questões sobre a identidade: como devemos nos compreender, quem somos e quem queremos ser”.
de agir autonomamente e de dar continuidade à sua própria vida, assumindo-a e responsabilizando-se por ela e, ao mesmo tempo, enquanto um ser genérico, partícipe de um grupo social e de sociedades mais amplas. Isso denota que o sujeito tem a capacidade de reconhecer que o processo de individuação e de criação de si mesmo não ocorreu de modo solipsista, mas no recurso ao outro, à interação e aos processos de socialização129.
Cabe ressaltar que a identidade pós-convencional somente pode ser estabilizada num contexto de agir comunicativo. A ação comunicativa é condição para a emergência e a manutenção desse modelo de identidade.
No agir comunicativo as suposições de autodeterminação e de autorrealização mantêm um sentido rigorosamente intersubjetivo: quem julga e age moralmente tem de poder esperar o assentimento de uma comunidade de comunicação ilimitada e quem se realiza numa história de vida assumida responsavelmente tem de poder esperar o reconhecimento dessa mesma comunidade. De acordo com isso, a minha identidade própria, ou seja, minha autocompreensão como um ser individuado que age autonomamente, só pode estabilizar-se se eu for reconhecido como pessoa e como esta pessoa (HABERMAS, 2002b, p.226).
A identidade pós-convencional somente será possível no recurso ao agir comunicativo e mediante a pressuposição de uma comunidade ideal. É importante notar que, mesmo diante de um alargamento dos níveis de autonomia e de liberdade individual, uma das referências da identidade do Eu continua sendo o processo de socialização, ou a inserção e a relação do sujeito com a sociedade. Tal referência dá-se nas relações concretas que ocorrem no dia-a-dia, no enfrentamento das normas e das convenções sociais, mas também num nível de antecipação contrafática de uma comunidade ideal.
Um nível de identidade pós-convencional de julgamento moral, de intelecção da realidade e de agir comunicativo, somente será viável a partir da pressuposição de uma comunidade ideal 130. Isso ocorre porque, necessariamente, a referência ao grupo social deve ser superada, em algum momento. Se o elemento convencional deve ser superado, qual o critério de universalidade restaria para pautar o julgamento moral e o agir prático dos diversos sujeitos? Somente a antecipação das estruturas comunicativas de uma comunidade ideal pode dar conta, enquanto princípio contrafactual, da configuração de uma identidade do Eu. A pressuposição de uma comunidade ideal, portanto totalmente abstrata, sob o pressuposto de
129Nesse sentido, Habermas (2004c, p. 16) afirma: “A autocompreensão ‘correta’ e ética tampouco é ‘dada’
explicitamente ou de qualquer outro modo. Ela só pode ser adquirida num esforço comum. A partir dessa perspectiva, aquilo que nosso ser si mesmo torna possível surge antes como um poder transubjetivo do que como um poder absoluto”.
130Habermas já esboça esse problema em “Para a reconstrução do materialismo histórico” (1983, p. 80-81)
apresentando, mesmo que de modo rudimentar, a necessidade de pressupor uma comunidade ideal como antecipação e segurança de universalidade das identidades individuais e da própria sociedade.
uma homologia ontofilogenética, consiste num pré-requisito central para a fundamentação dos níveis mais elevados de universalização do julgamento moral e da evolução da sociedade.
Para Habermas (2003b, p. 141), “à comunidade ideal de comunicação corresponde uma identidade do eu que possibilita a autorrealização sobre a base de um comportamento autônomo” e também individuado. Essa identidade do eu se funda na capacidade de dar continuidade à própria biografia ou à sua própria história de vida.
Somente quem se encarrega da própria vida pode ver nela a realização de si mesmo. Tomar conta da própria vida, responsabilizando-se dela, significa ter claro quem se
quer ser, e desde este horizonte, considerar os sinais das próprias interações como se fossem sedimentos das ações de um autor dono de seus atos, de um sujeito, portanto,
que tem atuado sobre a base de uma relação reflexiva consigo mesmo (HABERMAS, 2003b, p. 142).
Além disso, cumpre notar que o desenvolvimento de uma identidade do eu e o fato de o indivíduo atingir níveis mais elevados de discernimento epistêmico e de julgamento moral não implicam, necessariamente, numa orientação clara e segura ao agir moral. O que estamos tentando explicitar é que “são frequentes as discrepâncias entre juízo moral e agir moral” (HABERMAS, 1983, p. 70). Ou seja, a formação da identidade pessoal está sujeita às interferências internas e externas, aos fatores psicológicos, sexuais, conflitivos e de estresse, entre outros, que condicionam e interferem na disponibilidade para a ação, mesmo diante da capacidade de julgar moral com perspectiva universal.
Se, por um lado, a identidade pós-convencional pressupõe a referência a uma comunidade socializadora, por outro, existe a necessidade de uma desvinculação social da identidade para não cairmos numa vala comum de anomia. Ou seja, para que o sujeito humano desenvolva a capacidade de agir autonomamente, a partir de razões fundamentadas, mesmo diante de uma determinada situação de desaprovação social, é necessário que desenvolva uma identidade com características de autodeterminação e autorrealização. Na perspectiva da teoria da individuação social de Habermas isso é possível por que
O processo da individualização social possui dois aspectos diferentes na visão dos indivíduos atingidos por eles. Deles se exige cultural e institucionalmente, e em medida crescente, tanto a autonomia como também uma conduta consciente de vida. Os padrões culturais e as expectativas sociais de autodeterminação e
autorrealização diferenciam-se, além disso, uns dos outros, na medida em que os
acentos se deslocam para as realizações próprias dos sujeitos (HABERMAS, 2002b, p. 217).
A autodeterminação e a autorrealização, características centrais da identidade pós- convencional, resguardam um senso de respeito e de valorização de si mesmo131. O respeito por si mesmo e a valorização de si são recursos necessários para o autorreconhecimento e para a confirmação do valor subjetivo de si. Mediante eles, pode o sujeito humano individualizado pressupor pretensão de originalidade e de insubstituibilidade. Muito embora o ser humano configure a própria identidade simbolicamente e num contexto intersubjetivo, ela somente será concretizada na perspectiva de uma construção de sentido para a própria existência.
Uma vez que agora se articula uma identidade-eu através de uma pretensão incondicionada de singularidade e de insubstituibilidade, a qual não se prende mais exclusivamente ao ‘tipo social’, sendo, pois, pós-convencional, também desta vez entra em jogo um momento de idealização. Esse momento não se refere somente ao círculo virtual que abrange todos os destinatários, a comunidade ilimitada de comunicação, mas a própria pretensão de individualidade; ele diz respeito à garantia que eu assumo conscientemente em relação à continuidade de minha história de vida, à luz de um projeto de vida individual e refletido (HABERMAS, 2002b, p. 220).
O ser humano, para desenvolver uma identidade do eu pós-convencional, que faça frente aos desafios epistêmicos, morais e interativos do mundo atual, necessitará, portanto, constituir um universo de sentido próprio, uma autorreferência simbólica de si mesmo ou um mundo subjetivo de sentido. Além de interagir sob os pressupostos de uma comunidade ideal de comunicação, antecipando suas estruturas contrafactuais do agir comunicativo, necessitará biografar-se quotidianamente sob o signo da autonomia, da autodeterminação e da autorrealização.
131 De acordo com Habermas (2003b, p. 140), “os dois aspectos da identidade do eu, autodeterminação e
autorrealização, são ilustrados por Mead com o recurso a propriedades como o respeito a si mesmo (self-respect) e o sentido de superioridade (sense of superiority)”, ou valorização de si mesmo.
4 A FORMAÇÃO DO EU EM MEAD E EM HABERMAS: PRESSUPOSTOS E