• Sonuç bulunamadı

A aquisição da competência linguístico-interativa, ou a capacidade de participar de interações cada vez mais complexas, consiste num dos núcleos fundamentais para a formação da identidade do sujeito. O desenvolvimento da capacidade interativa está intimamente

122 Habermas (1983, p. 60-61) apresenta um esquema mais detalhado sobre a definição de cada um desses níveis

morais. Em ‘Consciência moral e agir comunicativo’ (Habermas, 2003c, p. 143-233), encontramos extensas referências aos estágios do desenvolvimento moral em Kohlberg. No nosso caso, optamos apenas por citá-los, uma vez que não é do nosso interesse uma descrição psicológica detalhada sobre cada um dos estágios referidos. Temos interesse apenas de situar os elementos constitutivos da argumentação de Habermas acerca da moralidade.

relacionado ao desenvolvimento cognitivo, ao desenvolvimento moral e ao desenvolvimento da linguagem proposicionalmente diferenciada.

De acordo com Habermas, a psicologia cognitiva, especialmente a corrente piagetiana, centrou a análise no desenvolvimento das estruturas cognitivas, com algumas derivações para o campo do desenvolvimento da consciência moral. Quem mais se aproximou de uma teoria da competência interativa foi a teoria dos papéis sociais, embora nunca tematizou adequadamente os níveis evolutivos da capacidade de interação. O mesmo ocorreu com a psicologia analítica do eu. Por isso, Habermas entende que os ensaios sobre o desenvolvimento da identidade, procedentes da psicologia analítica e do interacionismo simbólico, também não contemplam adequadamente a questão, uma vez que falham na distinção das dimensões evolutivas e na descrição das competências que são desenvolvidas de modo interdependente.

A competência interativa consiste numa competência universal, que se adquire mediante uma série de estágios distintos, que podem ser percebidos numa ordem lógico- evolutiva123. Ela tem origem no contato estabelecido pelo aprendiz com outros sujeitos socializados, capazes de fala e de interação. No desenvolvimento da criança e dos jovens, sob o viés da interação, o papel da família e das primeiras instituições socializadoras, dentre as quais a escola, adquire contornos decisivos. Os padrões interativos vivenciados nessas instituições servirão de pré-requisito e de modelo para os desenvolvimentos posteriores.

Habermas reconhece que o desenvolvimento do eu, enquanto competência interativa, caracterizado pelos conceitos de descentração ou de diferenciação, pode ser expresso a partir da configuração de quatro etapas evolutivas: a simbiótica, a egocêntrica, a sociocêntrica- objetivista e a universalista124.

A etapa simbiótica caracteriza-se pela inexistência, por parte da criança, de uma clara separação entre sujeito e objeto, como tampouco percebe os limites entre o próprio corpo e o restante dos objetos. Por isso, de acordo com Habermas (2011, p. 170), nesta etapa “a simbiose entre a criança, a pessoa de referência e o entorno físico é tão estreita que somente com reservas é possível falar de uma diferenciação da subjetividade”.

Na etapa egocêntrica, que coincide com a fase sensório-motora e pré-operacional de Piaget, a criança progride no processo de diferenciação entre o ‘eu’ e o entorno. Aprende a

123 De acordo com Habermas (2011, p. 161), “o emprego da expressão ‘competência interativa’ sinaliza a

hipótese básica, da qual vou partir, de que as capacidades do sujeito que atua socialmente podem ser investigadas desde o ponto de vista de uma competência universal, ou seja, independente desta ou daquela cultura, igual do que acontece com as competências linguísticas e cognitivas, quando se desenvolvem com normalidade”.

124 Seguimos o esquema proposto por Habermas (2011, p. 170-171). McCarthy (2002, p. 397-403) comenta essas

ver a própria conduta e suas próprias intenções desde a perspectiva da satisfação delas por um ‘outro’, uma vez que a motivação de base é a gratificação (prazer e desprazer) proporcionada por esse ‘outro’. O que podemos perceber é a existência de um egocentrismo cognitivo e moral, uma vez que “a criança não pode perceber, entender e julgar situações com independência de seu próprio ponto de vista” (HABERMAS, 2011, p. 170).

A etapa sociocêntrica-objetivista de interação corresponde à fase do pensamento operacional concreto. Nela o indivíduo adquire a capacidade de diferenciar entre objetos manipuláveis, ações sociais e manifestações linguísticas carregadas de significados. Torna-se consciente do perspectivismo do próprio ponto de vista, aprendendo a “diferenciar sua subjetividade frente à natureza externa e à sociedade” (HABERMAS, 2011, p. 170-171). A criança também aprende a desempenhar papéis sociais, inicialmente na família e, posteriormente, em grupos sociais mais amplos e, ao mesmo tempo, a perceber e cumprir com as expectativas de comportamento ligadas aos diversos papéis sociais que pode desempenhar. Ao perceber a possibilidade de intercâmbios dos papéis sociais, a criança também descobre a perspectiva do ‘observador’ na interação.

A última etapa, a universalista, somente pode ser alcançada a partir da fase da adolescência e do desenvolvimento da capacidade de pensamento operacional-formal. Nesta fase, o jovem ou o adulto desenvolve a capacidade de participar de situações discursivas, de pensar hipoteticamente e de refletir acerca da própria condição. Há sensível aumento da abstração e de diferenciação, que são possíveis através de uma formação discursiva da vontade. A essa etapa corresponde a capacidade de agir comunicativamente, ou seja, de agir autonomamente diante do mundo, resolvendo as questões epistêmicas, morais e interativas mediante o recurso ao diálogo e ao discurso com vistas ao entendimento. Além disso, sob o ponto de vista da interação, a capacidade almejada, enquanto consciência moral, é a da reciprocidade.

No intuito de fundamentar o processo de desenvolvimento da capacidade de interação linguística, Habermas demonstra o caminho de desenvolvimento social da linguagem, desde os rudimentos dos gestos até o surgimento da linguagem proposicionalmente diferenciada. Para tal, recorre às contribuições de G. H. Mead, mediante a utilização dos conceitos de adoção da atitude do outro e de diferenciação.

A adoção da atitude do outro é um mecanismo que parte da reação comportamental do outro aos gestos do primeiro, porém depois se torna extensiva aos outros componentes da interação. Depois que o primeiro organismo aprendeu interpretar os próprios gestos de forma igual como faz o outro organismo, não pode evitar produzir o gesto com a expectativa que tenha para o segundo organismo um significado determinado. Porém, com essa consciência modifica-se a atitude do primeiro

organismo em relação ao segundo. Este aparece agora como um objeto social que já não se limita a reagir adaptativamente ao gesto do primeiro, mas com sua reação comportamental da expressão de uma interpretação desse gesto. O segundo organismo aparece agora ante o primeiro como intérprete do comportamento deste último, ou seja, sob um conceito distinto, com o qual muda também sua atitude frente a ele. O primeiro organismo se relaciona agora com o outro como com um destinatário que interpreta de uma determinada forma o gesto que lhe é feito; e isto significa que daqui em diante fará seu gesto com uma intenção comunicativa (HABERMAS, 2003b, p. 24).

O processo de diferenciação simbólica engloba três etapas, as quais permitirão a passagem dos gestos à comunicação simbólica e, posteriormente, à linguagem proposicionalmente diferenciada. A primeira etapa refere-se à interação mediada por gestos, no qual se pode verificar um intercâmbio de gestos significativos num nível ainda primitivo: um indivíduo ‘A’ faz um gesto a ‘B’ e, ao mesmo tempo, percebe a reação de ‘B’ ao seu gesto; numa situação posterior, ‘A’ antecipará a reação de ‘B’ e aprenderá a interpretar seu comportamento como ‘B’ o interpreta. A partir disso, é possível que ‘A’ assuma a perspectiva de ‘B’ através da internalização da reação de ‘B’. Na linguagem gestual é a reação de um organismo diante do comportamento do outro que constitui o fundamento objetivo do significado do gesto.

A segunda etapa consiste na interação simbólica, englobando, além do significado do gesto dado, determinadas expectativas em relação ao enunciado: um indivíduo ‘A’ faz gestos para ‘B’ com intenção comunicativa. Habermas exemplifica esse modo de interação através do uso de palavras como ‘comida’, ‘fogo’, ou ‘ataque’. As expressões usadas podem ser vocálicas, logomórficas ou convencionais, não possuindo ainda uma diferenciação linguística de significados.

Na etapa da interação simbólica, o mecanismo de internalização da atitude do outro opera a partir dos gestos ou das expressões que um sujeito dirige ao outro. Nesse nível interativo os sujeitos “comportam-se entre si como um ego que dá a entender algo a um alter

ego” (HABERMAS, 2003b, p. 25). Emerge, desse modo, a possibilidade de que, ao adotar a atitude do outro125, cada um internalize e aprenda a interagir sob os papéis de falante e de ouvinte.

A terceira etapa refere-se à interação concretizada através da linguagem modalmente diferenciada: um sujeito ‘A’, ao dirigir-se a ‘B’, possui a expectativa de que ‘B’ tome uma posição em relação ao seu ato de fala e às pretensões de validade nele contidas. Segundo Habermas (2003b, p. 28), essa passagem “da interação mediada por gestos à interação

125 Para Habermas (2003b, p. 25), “adotar a atitude do outro significa, de um lado, antecipar a reação do outro ao

mediada simbolicamente, representa, por sua vez, a constituição de um comportamento regido

por regras, de um comportamento que pode ser explicado em termos de uma orientação por

convenções semânticas”. O avanço a essa terceira etapa da interação capacita o sujeito a agir linguisticamente, a criticar os atos de fala e a aceitar ou rejeitar a oferta linguística do outro. Com a estruturação da capacidade de interação linguística, faculta-se aos sujeitos sociais a possibilidade de entendimento, de coordenação da ação e a socialização individuadora. Desse modo, o processo de constituição de uma identidade de si está atrelado ao desenvolvimento da capacidade de interação, a partir de uma linguagem simbolicamente diferenciada, através da qual se torna possível o emprego de símbolos e de gestos com significado idêntico.

Benzer Belgeler