A Ang-(1-7) é um peptídeo vasoativo formado pela conversão direta a partir da Ang I e pela hidrólise da Ang II. A formação da Ang-(1-7) ocorre a partir da Ang I é mediada por endopeptidases, tais como prolil-endopeptidase (PEP), em células endoteliais vasculares, endopeptidase neutra (NEP) na circulação ou no rim e “thimet-oligopeptidase” (TOP) em células do músculo liso vascular conforme ilustrado na figura 6 (Ferrario e cols., 1998; Schindler e cols., 2007).
A hidrólise da Ang II em Ang-(1-7) é mediada pela isoforma 2 da enzima
conversora de angiotensina (ECA2) além da PEP e da prolil-carboxipeptidase
(PCP). Porém a ECA2 é cerca de 10 e 60 vezes mais eficiente em formar a Ang-(1-7) que a PEP e a PCP, respectivamente. Além disso, a ECA2 apresenta uma afinidade 400 vezes maior pela Ang II que pela Ang I, realçando a importância da ECA2 na regulação do equilíbrio Ang-(1-7)/Ang II (Vickers e
cols., 2002; Campbell e cols., 2004; Iusuf e cols., 2008). Esses dados estão de
acordo com estudos em corações isolados de ratos hipertensos, em que a ECA2 foi a principal enzima responsável pela formação da maior parte de Ang- (1-7) a partir da administração exógena de Ang II (Trask e Ferrario, 2007). As outras vias de formação da Ang-(1-7) são a partir da Ang-(1-9) ou da Ang-(1- 12). A ECA2 catalisa a conversão de Ang I em Ang-(1-9) que é posteriormente metabolizada em Ang-(1-7) pela enzima conversora de angiotensina (ECA) ou pela NEP (Rice e cols., 2004), enquanto a Ang-(1-12) é proveniente diretamente do angiotensinogênio podendo formar a Ang-(1-7) pela ECA e NEP, e Ang I pela ECA (Nagata e cols., 2006; Popescu e cols., 2012).
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FIGURA 6 – Representação das vias de formação da Ang II e Ang-(1-7). ECA: enzima
conversora da angiotensina; Ang: angiotensina; AT1: receptor tipo 1 da Ang II; AT2: receptor
tipo 2 da Ang II; Mas: receptor acoplado à proteína G, codificado como Mas proto-oncogene, o
qual medeia os efeitos da Ang-(1-7); AT17P7-s: receptor da Ang-(1-7) que é inibido pela pro-
Angiotensina-(1-7); PCP: prolil-carboxipeptidase; PEP: prolil-endopeptidase; NEP: neutral- endopeptidase; TOP: oligopeptidase; AMP: aminopeptidase (Fonte: adaptado de Santos e
Ferreira 2007; Iusuf e cols., 2008, Popescu e cols., 2012).
A ECA é a principal enzima responsável pelo metabolismo da Ang-(1-7) levando à formação da Ang-(1-5). Isso foi confirmado com o aumento de 4 a 6 vezes nos níveis de Ang-(1-7) após administração crônica de inibidor da ECA, o lisinopril, em artérias mamárias de humanos (Yamada e cols., 1998). Outro metabólito de degradação da Ang-(1-7) é a Ang-(3-7) encontrado nos rins. A Ang-(3-7) atua como potente agonista do receptor AT4, enquanto a Ang-(1-5)
inibe a ECA com a mesma potência que a Ang I. As ações da Ang-(1-5) não afetam a vasoconstrição induzida pela Ang II plasmática nos receptores AT1
(Chappell et al., 1998; Handa, 2000). A Ang-(1-7) foi um inibidor potente da conversão da Ang I em Ang II pela ACE, com nenhum efeito sobre as demais enzimas conversoras da Ang I (Roks e cols., 1999) Essa afinidade da Ang-(1- 7) pela ECA é maior do que a afindiade da Ang I pela ECA o que contribui para os efeitos da Ang-(1-7) principalmente nos tecidos em que as taxas de Ang-(1- 7) e Ang I estão na mesma concentração como no coração, pulmão, aorta, e tecido adiposo (Campbell e cols., 1994; Duncan e cols., 1996; Campbell, 2003).
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As ações Ang-(1-7) são vasodilatação, anti-hipertrofia, antifibrose e inibição da agregação plaquetária (Gironacci e cols., 2000; Sampaio e cols., 2003; Walters e cols., 2005; Gironacci e cols., 2007). A resposta vasodilatadora da Ang-(1-7) foi demonstrada em artérias coronárias de cães, em aorta e arteríolas renais de ratos e de coelhos. Tal vasodilatação é mediada por receptores situados no endotélio (Tallant e cols., 1997; Brosnihan e cols., 1998) e é decorrente da produção de NO, como comprovado em anéis de aorta de humanos pré-contraídos com fenilefrina em que a Ang-(1-7) não foi capaz de causar relaxamento na presença do inibidor não-seletivo da NOS, o L-NG
monometil citrato de arginina (L-NMMA) (Roks e cols., 1999). Os mecanismos propostos para explicar esse efeito vasodilatador da Ang-(1-7) são: estimulação das prostaglandinas vasodilatadoras ou do fator de relaxamento derivado do endotélio (EDRF); aumento na produção de NO e potencialização do efeito vasorrelaxante da bradicinina (Tallant e cols., 1997; Fernandes e cols., 2001; Santos e cols., 2003a; Faria-Silva e cols., 2005). Os efeitos da Ang-(1-7) devem-se à sua interação com o receptor Mas expresso predominantemente no cérebro, testículos e em níveis moderados no coração e rins dos mamíferos (Vickers, 2002; Paula e cols., 1995; Santos e cols., 2003b; Alenina e cols., 2008). O receptor Mas apresenta sete domínios transmembrânicos e é acoplado à proteína G heterodimérica (GPCR). A sua principal via de sinalização é ativação da proteína G estimulatória com produção de NO, através da estimulação da enzima fosfatidilinositol-3-quinase (PI3K-AKT) que leva à diminuição dasconcentrações de Ca2+ intracelular e consequentemente
relaxamento celular (Ferrario e cols., 1998; Santos e cols., 2003b; Sampaio e
cols., 2007; Santos e Ferreira, 2007).
Além da vasodilatação os efeitos anti-fibróticos, anti-hipertróficos e anti- trombóticos da Ang-(1-7) mediados pelo receptor Mas são opostos aos efeitos da Ang II com estimulação do subtipo 1 do receptor para Ang II (AT1). Isso
evidencia que a Ang-(1-7) contrarregula as ações hemodinâmicas da Ang II (Gironacci e cols., 2000; Walters e cols., 2005; Gironacci e cols., 2007). O receptor Mas também pode agir como um antagonista funcional do receptor AT1
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cols., 2001; Kostenis e cols., 2005).
A identificação do receptor Mas, em áreas relacionadas ao controle cardiovascular no SNC de ratos, demonstra a participação da Ang-(1-7) como neuromodulador principalmente nas áreas relacionadas com o controle reflexo da pressão arterial (PA) tais como no hipotálamo e no bulbo ventro-lateral e dorsomedial (Sampaio e cols., 2003; Becker, 2007). Estudos demonstraram que Ang-(1-7) atua, no hipotálamo, exibindo efeito anti-hipertensivo por diminuir a liberação de NA (Gironacci e cols., 2004). Além disso, a microinjeção de Ang- (1-7), na região caudal do bulbo ventro-lateral, induziu efeito hipotensor envolvendo uma via relacionada ao NO. Tais efeitos foram bloqueados pela microinjeção dos antagonistas do receptor da Ang-(1-7), o D-Ala7-Ang-(1-7) (A- 779), e o D-Pro7-Ang-(1-7). Assim, esses resultados comprovam os efeitos centrais da Ang-(1-7) mediados por receptores sensíveis ao A-779 e ao D-Pro7- Ang-(1-7) (Santos e Campagnole-Santos, 1994; Fontes e cols., 1997; Santos e
cols., 2003a; Gironacci e cols., 2004).
No tecido cavernoso peniano, a Ang-(1-7) é responsável pelo relaxamento dependente do NO pela ativação dos receptores Mas em contraposição a Ang II que suprime a ereção peniana através da sua interação com receptores AT1 (Yousif e cols., 2007). O receptor Mas está localizado nas
células de músculo liso trabecular e arteriolar e nas células endoteliais do corpus cavernoso (da Costa Goncalves e cols., 2007). Estudos demonstraram que a Ang-(1-7) induziu efeito vasodilatador dependente do endotélio em anéis de aorta de ratos Sprague-Dawley, sendo esse efeito inibido pela remoção do endotélioe pelo bloqueio da NOS por L-NAME. Além disso, o D-Pro7-Ang-(1-7)
também foi capaz de abolir essa vasodilatação. Esses dados sugerem a existência de um subtipo do receptor Ang-(1-7 ) diferente do Mas (Silva e cols., 2007).
Na avaliação da resposta erétil periférica, in vivo, a infusão de Ang-(1-7) no corpo cavernoso, não só potencializou o aumento da pressão intracavernosa induzida por estimulação elétrica do GPM em ratos normotensos, como também normalizou a ereção peniana prejudicada, em
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ratos hipertensos. Essa resposta facilitadora da Ang-(1-7) foi completamente abolida na presença do antagonista específico do receptor Mas, o A-779 (da Costa Goncalves e cols., 2007). Também foi observado que a deleção do receptor Mas, em camundongos, além de comprometer severamente a resposta erétil favoreceu o desenvolvimento de fibrose no corpo cavernoso (Santos e cols., 1994; Santos e cols., 2003b; da Costa Goncalves e cols., 2007). Além desses efeitos, estudos demonstraram que o A-779 também foi capaz de inibir a angiogênese e o efeito antitrombótico da Ang-(1-7) (Cardini e
cols., 1988; Machado e cols., 2001). Somado a isso, a injeção do inibidor
inespecífico da NOS, o NG-nitro-L-arginina metil éster (L-NAME), no corpo
cavernoso, atenuou significativamente a resposta erétil. Atenuação essa que não pode ser revertida pela posterior administração intracavernosa de Ang-(1- 7). Esses resultados confirmam a importância do NO como mediador da ereção no relaxamento dos tecidos cavenosos decorrente da interação da Ang-(1-7) com receptor Mas (da Costa Goncalves e cols., 2007).
A melhora da função endotelial, in vivo, pode ser observada também pela ação do agonista não-peptídico do receptor Mas, o AVE 0991, através da facilitação da liberação de NO (Wiemer e cols., 2002). O efeito vasodilatador dependente do endotélio causado pelo AVE 0991, em aorta de camundongos do tipo selvagem, foi abolido completamente não só com o bloqueio do receptor Mas mas também em camundongos com deleção genética do receptor Mas. Além disso, o AVE 0991 foi capaz de induzir melhora na função endotelial, in vivo, com a ativação da eNOS e liberação de NO endotélial. Esses efeitos são explicados pela maior potência do AVE 0991 na liberação de NO em relação a Ang-(1-7). Além disso estudos demonstraram que o AVE 0991 foi capaz de gerar menores quantidades de superóxido (O2-) quando
comparado com Ang-(1-7). O O2-,sendo uma das espécies reativas de oxigênio
(ROS), contribui para o estresse oxidativo celular e favorece a disfunção endotelial e em paralelo a disfunção erétil. (Wiemer e cols., 2002). Esses resultados comprovam a grande importância do AVE 0991 para a preservação da funcionalidade do sistema vascular. Assim, o composto AVE 0991 é um
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potente agonista do receptor Mas e possui ação vasodilatadora como a Ang-(1- 7), apresentado um efeito facilitatório na ereção peniana. A administração, no corpo cavernoso, do AVE 0991 foi capaz de potencializar a resposta erétil através da ativação do receptor Mas e da liberação de NO (da Costa Gonçalves e cols., 2012). Dessa forma, o agonista não peptídico do receptor Mas, o AVE 0991, apresenta um potencial para o desenvolvimento de novas terapias para tratamento da disfunção erétil de administração oral (da Costa Goncalves e cols., 2007; Sampaio e cols., 2007).
1.6 ADMINISTRAÇÃO DA ANG-(1-7) INCORPORADA À Β-