Indagados sobre os aspectos da formação no curso em linguagens e códigos, MAGISTER-UFC quanto à contribuição dos referenciais teóricos artísticos e estéticos para referendar suas práticas docentes no ensino de arte, podemos perceber que dentre os dez professores protagonistas da pesquisa, somente dois não citaram fontes teóricas ou de experiências estéticas, conforme ressaltam em suas falas:
P1L1: Entendi[...] Sei, nós estudamos muitos teóricos, é verdade! Deixa eu ver se eu lembro, você quer dizer do ensino de artes, nós no Magister, tivemos um curso com a carga horária muito grande, estudamos com muita gente, era muito teórico mesmo, sempre tinha práticas, mas teorias e todos eles eu tinha demais, acho que podia ser menos, é papel demais... Mas eu repasso para os alunos, você quer ver minhas apostilas? Estão ali no armário. Pois é, nas aulas eu uso esse material todo, eu não largo eles não...
P2L1M: Dos teóricos, né, na prática de Arte são muitos, deixa eu lembrar, no teatro teve a Tutti, ela puxa mesmo, pela gente, logo ela é atriz mesmo, aquela peça de teatro que nós assistimos no Pici foi linda demais... Deixa ver era tempo, temporão, ou era “temporão, tempo” não, acho que troquei, mas Val era uma mãe e uma filha lembra? Que falava, do tempo, da vida... Eu me emocionei, chorei até. .
P4L2E: Teve muita teoria de todos do Betinho. Lembrei do Coral “Macho Pero no Mucho”, era esse o nome, engraçado, daquele que tem a banda de música, sai é muito, na TV, a banda de latas, os meninos tudo tocando nas latas, é bonito demais. Você sabe... Você é amiga dele. Tem aqueles do coral era dois, o Elvis, eu só lembrei por causa do cantor de rock que morreu, o nome dele é igualzinho ao dele. O outro é bem alto, branco, bonito ele né? Sabia que as nossas colegas era tudo doida por ele, chamavam ele era de “deus grego”... Pense aí, se os maridos delas sabe disso? Era confusão na certa né? Sei lembrei do bonitão, O Erwin, tem tantos outros teóricos assim maravilhosos.
Em dança eu vejo o LABAN, que foi um autor que desenvolveu muito o lado da dança, tem também no teatro a Olga Reverbel, tem também no folclore, no folclore eu estou terminando uma monografia, a questão do
Maracatu, na UECE, é também sobre o preconceito as pessoas que não se reconhecem como negro, ou é pardo, ou é moreninho, nunca preto, a questão da cor na Escola, eu acho que as pessoas tem que começar a ver né, a categoria étnica.
Três protagonistas confundiram referências teóricas e experiências estéticas com a carga horária do curso, que foi de 3.600 horas, distribuídas das seguintes formas:
Quanto aos teóricos nenhum deles está em seu discurso. Permite-nos perceber uma concepção tradicional de ensino quando se refere “ao repassar para os alunos”, os conteúdos das apostilas, nesta abordagem tradicional Ferraz e Fusari enfatizam:
[...] o ensino e a aprendizagem de Arte concentram-se apenas na “transmissão” de conteúdos reprodutivistas, desvinculando-se da realidade social e das diferenças individuais. O conhecimento continua centrado no professor, que procura desenvolver em seus alunos também habilidades manuais e hábitos de precisão, organização e limpeza. (1993, p. 30).
Confunde o número dos professores com os dos teóricos estudados nas disciplinas, depois faz críticas ao excesso de teoria estudada na formação, que segundo relata deveria ter tido mais práticas de ensino e menos teoria, revelando a fragmentação entre teoria e prática, que povoa sua forma de concepção teórica e metodológica na docência após a formação no curso Magister-UFC não conseguiu dissipar da sua suposta compreensão anterior, arraigada por uma formação tecnicista, onde os cursos de formação para o magistério em nível médio, dado o
contexto da Lei No 5.692/71, era a formação organizada em blocos distintos, primeiro
estudavam-se as teorias traduzindo-as nas disciplinas e depois se realizavam as práticas de ensino.
A fragmentação entre teoria e prática consiste ainda, num entrave a ser superado nos cursos de formação apesar da formação no programa de formação MAGISTER-UFC, ter uma proposta concebida como um processo contínuo e permanente, conforme manual programa (p. 12):
A formação do professor - sujeito reflexivo - remete-nos à compreensão da prática docente como prática de investigação. Assim, reafirmamos ser necessária a inter-relação entre teoria e prática no decorrer de todo o processo de exercício da 'profissão professor', sobretudo porque constantemente este se vê compelido a tomar decisões com base nos saberes adquiridos e nos dados observáveis - que nada mais são do que a
essência do processo de investigação. [...] a reflexão sobre a prática como princípio essencial da formação docente - uma prática reflexiva feita pelo docente no exercício de sua prática e reflexionada feita conjuntamente por docentes em formação e formadores, o que significa iniciar o docente em uma prática contínua de investigação, ainda que com objetivos diferenciados dos da pesquisa acadêmica. [...] a formação uma dimensão política, considerando o trabalho como princípio educativo.
Segundo Tarfid (2002), os saberes relativos à formação profissional dos professores são sancionados pelas universidades, por sua vez, por seu corpo de formadores, pelo do estado e seus agentes, que definem, decidem e executam os saberes curriculares, (disciplinares e pedagógicos). Afirma que nenhum saber é por si mesmo formador, a posse dos saberes científico não garante maestria, se os mestres não souberem ensinar, como alerta o autor “Os mestres assistem a uma mudança na natureza da sua maestria: ela se desloca dos saberes para os procedimentos de transmissão.” (2002, p.44).
Os relatos deixam clara a confusão feita pelo professor-aluno entre os professores formadores e os teóricos estudados, no entanto, vale salientar que a professora em seu discurso narra várias experiências artísticas e estéticas desenvolvidas pelos professores-formadores no decorrer do curso, como o teatro, na peça teatral do grupo de teatro é o caso idealizado pelo teatrólogo cearense Ricardo Guilherme, a atriz e professora Maria Ednea Gonçalves (a professora Tutti) da qual fala a professora-aluna e a professora Susy Elida, que nesta peça representavam respectivamente avó (Tutti) e neta (Susy). Ao longo da narrativa do enredo teatral falam da vida passada e presente e da ritualização do amadurecimento vital das duas personagens. Na narrativa, avó e neta começam e terminam em papéis inversos, a avó começa velha e termina como se fosse uma criança e a neta termina velha, demonstrando o círculo que constitui a vida das pessoas.
Diz de outros professores de músicas também confundidos como teóricos de sua atuação nas aulas de música nas disciplinas, seminários e oficinas, inclusive demonstrando em conceito de beleza, quando fala do “deus grego” que é uma concepção de beleza renascentista dos gregos e romanos, ou seja, a estética do perfeccionismo, de formas ideais, de uma estética naturalista.