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A professora P1 ressalta que a formação foi responsável, em muitos momentos, por trazer calma e diminuir a ansiedade das professoras. No início do projeto UCA na escola, com a formação, se sentiu um pouco mais segura, mas continuava preocupada com o momento em que iria usar o laptop com seus alunos.

A formação tranquilizou um pouco. Só que, a maior parte das formações tem mais teorias, mas você precisa saber a prática. É na prática com as crianças. Então, tranquilizou em parte, porque, pelo menos, deu um pouco mais de segurança (Professora P1 -

Entrevista).

Mesmo se sentindo mais segura, a professora P1 ainda estava preocupada com o uso do laptop em sala de aula, com as crianças, e as possíveis dificuldades em manusear o equipamento.

122 Lidar com uma máquina que você não está acostumada, que não tinha habilidades, é difícil! Fui aprendendo aos poucos. Mas foi difícil! Hoje já tenho mais facilidade com a máquina (Professor P1 - Entrevista).

A professora P1 ainda ressalta que a formação para o projeto UCA auxiliou nas atividades da escola, entre elas, o planejamento para o Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic) (Anexo A).

Como trabalhamos com o Paic, o tema gerador é sempre alguma atividade planejada. Então, pensamos primeiro a realidade da criança, o que está estudando em sala, e começamos a pesquisar. Sempre temos a ajuda, claro, dos profissionais da Escola (Professora P1 - Entrevista).

A professora afirma que consegue trabalhar normalmente o projeto UCA e os demais projetos (referindo-se ao Paic), mostrando que o laptop em sala de aula pode agregar, além de valores, também parcerias, aos demais projetos desenvolvidos, ampliando as possibilidades e os ganhos ao currículo.

Ao longo do relato, a professora P1 fornece os primeiros indícios de integração dos laptop ao currículo da Escola. Apesar de estar na fase inicial, o projeto UCA na Escola começar a mostrar os primeiros resultados de uma prática pedagógica em “consonância com as especificidades das propostas curriculares de suas escolas” (BRASIL, 2009b, p. 5).

Sobre o Paic, percebe-se que não enfrentaram dificuldades em trabalhar com os dois projetos, na verdade, afirmam que, após o projeto UCA, ficou mais fácil. Esse dado revela os primeiros indicativos de integração entre o projeto UCA e as demais iniciativas desenvolvidas na Escola.

Para a professora P2, a formação docente ocorreu de maneira diferenciada. Ela relata que esse momento fez com que se sentisse motivada e curiosa, pois a formação despertou o desejo de começar logo, conhecer os problemas e buscar as soluções. Ela menciona que ficou um pouco insegura, devido à possibilidade de alguns alunos saberem mais do que ela. Outro temor seria a incompatibilidade do projeto com a estrutura da escola.

123 A professora P2 ainda indica que a formação docente foi cuidadosa e ofereceu um trabalho diferenciado. A Secretaria da Educação enviou professoras substituta, que ficaram em sala de aula enquanto as titulares estavam em formação. Todas essas professoras (substitutas) realizaram nossos planejamentos, do jeito delas, mas era o nosso planejamento. Então, elas tinham planejamento, não chegaram perdidas, não foram jogadas em um lugar qualquer! (Professora P1 - Entrevista).

Os depoimentos revelam que a professora percebeu o cuidado da formação, em que tudo foi pensado, planejado e adaptado para o desenvolvimento da ação. Sobre a formação, a professora P2 revela:

Foi pensada sim! Teve a formação e ganhamos o direito exclusivo, que não existia ainda, de ter professores substitutos em todas as salas da Escola. Mesmo estando na Escola, tivemos a ajuda para que pudéssemos ir para essa capacitação de forma tranquila

(Professora P2 - Entrevista).

A professora reconhece que o planejamento foi bem elaborado, e que se sentiu respeitada. Como fator relevante, ainda indica que, ao ser substituída em sala de aula, pôde focar sua atenção no momento de formação.

Não me preocupei com o que estava acontecendo na sala, com quem os alunos iriam ficar. Não fiquei preocupada com a reposição dessas aulas. (...) Então, tivemos direito a essa tranquilidade, que foi uma ajuda e tanto! (Professora P2 - Entrevista).

A análise do relato da professora P2 nos remete a dois aspectos fundamentais previstos na Formação Brasil. O primeiro, as condições necessárias para a formação: “Garantia de tempo, nos planejamentos dos professores, para que possam realizar a formação em serviço” (BRASIL, 2009b, p. 7). E, o segundo, relembra a importância da parceria com a Secretaria Municipal de Educação, que deu condições aos professores para a formação, entendendo o projeto como uma ação agregadora.

Além disso, ficou perceptível que todos estavam, naquele momento, voltados para as necessidades da implementação do projeto. Isso indica que

124 ocorreu a valorização docente e o respeito ao trabalho das professoras. Através do relato, percebe-se que existe um reconhecimento que mostra consciência das professoras a respeito dessas ações.

A professora P2 ressalta a importância da formação, sobre isso, Nóvoa (1997, p. 25) aponta que se “deve estimular uma perspectiva crítica reflexiva, que forneça aos professores os meios de um pensamento autônomo e que facilite as dinâmicas de autoformação participada”. Dessa forma, o professor deve se perceber como parte integrante do planejamento da formação, como também ser participativo no processo.

A formação docente foi dividida em duas etapas, a primeira realizada na própria Escola e a segunda estrategicamente realizada no CRP. Esse fato ocorreu devido à necessidade de realizar a reforma na estrutura da Escola. A professora P3 relembra os detalhes da formação:

Todos nós participamos da formação. Uma parte foi ministrada aqui na Escola, outra parte no CRP. A formação deu o suporte de como íamos trabalhar com esses alunos! (...) Foi muito complicado quando chegaram os computadores aqui na Escola. Ficamos preocupados com a adaptação à estrutura da escola (Professora P2 - Entrevista).

Segundo relatório emitido pelo grupo de formação UCA no ano de 2013 a rede elétrica foi adaptada e funciona de forma trifásica e a internet com banda larga (1,5 Mb). Mesmo ocorrendo problemas na oscilação, e queda frequente da conexão, várias atividades foram realizadas. Isso mostra que o professor tem interesse e empenho em usar o laptop em sala, mesmo enfrentando adversidades.

Por outro lado, a reclamação a respeito das condições de lentidão e oscilação da rede é fato agravante nas dificuldades surgidas na realização prática das atividades.

A internet que não ajuda, às vezes, o laptop trava muito! Então, geralmente, as dificuldades são essas! Eles gostam muito de usar a Internet, aí fica aquela expectativa de quando não dá certo, quando não conseguem (Professora P1 – Entrevista).

Assim como a professora P3, a professora P4 também reconhece que a formação foi planejada.

125 A formação aconteceu. Todos foram muito atenciosos conosco, muito pacientes! Tinha professor, aqui na Escola, que dizia assim: “Ah, meu Deus, não nasci para isso!”. Pensou em mudar de escola (...) (Professora P4 – Entrevista).

A professora P4, por se considerar um pouco mais experiente com tecnologia e uso do computador, conseguiu ajudar no processo de aprendizagem das professoras menos experientes.

Como já tenho mais intimidade com a máquina, eu ajudava. Mas as pessoas que ministraram a formação foram muito atenciosas com as professoras! (Professora P4 – Entrevista).

Percebe-se, assim, que, ao longo da formação, foi possível estabelecer movimentos e processos de cooperação e solidariedade entre as professoras. As mais experientes partilhavam e ajudavam as professoras que ainda não tinham tanta experiência com o uso da tecnologia. Essa ação é prevista nas estratégias de implementação defendida no planejamento das ações da Formação Brasil (BRASIL, 2009b).

Sobre os processos estabelecidos na formação docente, Nóvoa (2009, p. 23) indica que devem ser reconhecidas como um direito necessário e não apenas como atualização do saber docente.

Muitos programas de formação contínua têm-se revelado inúteis, servindo apenas para complicar um quotidiano docente já de si fortemente exigente. É necessário recusar o consumismo de cursos, seminários e ações que caracteriza o atual “mercado da formação” sempre alimentado por um sentimento de “desatualização” dos professores. A única saída possível é o investimento na construção de redes de trabalho coletivo que sejam o suporte de práticas de formação baseadas na partilha e no diálogo profissional.

Com as novas informações e aprendizagem, a professora P5 percebe a importância do momento, e relembra que a apropriação tecnológica foi importante no processo de formação.

126 Teve uma formação sobre a máquina. Como utilizar, como abrir, como ligar, como encontrar as pesquisas, como encontrar jogos e sites. Eu nunca tinha feito isso! Então, para mim valeu, foi muito produtivo. (Professora P5 - Entrevista).

Assim como a professora P4, a professora P5 também menciona que recebeu ajuda das demais professoras, ao longo da formação. “Recebi ajuda dos formadores, das próprias professoras da escola, da coordenadora do projeto, aqui na Escola” (Professa P5 – Entrevista).

Para quem nunca tinha manuseado o laptop, eu não sabia o que era! E, na formação, ficou claro que tínhamos que partir do zero. Como eu, algumas de nós não sabiam nem abrir, não sabiam como começar. Tivemos que fazer uma formação passo a passo. (...) A utilização da máquina trouxe benefícios para a aula!” (Professora P5 -

Entrevista).

A formação contemplou os diferentes “níveis de preparação da professora: tanto para uso do laptop em sala de aula, como o reconhecimento do papel das tecnologias e suas implicações nos modos de pensar e agir e, consequentemente, a importância de sua inserção na comunidade escolar” conforme previsto na Formação Brasil (BRASIL, 2009b, p.6).

A seguir, são destacados os aspectos sintetizados da percepção das professoras.

- A formação tranquilizou o grupo de professores, dando mais segurança e diminuindo o medo do uso do computador (Professora P1).

- A formação foi pensada com cuidado. Houve preocupação em trazer professores substitutos para que as professoras tivessem condições de participar da formação com tranquilidade (Professora P2).

- A formação deu o suporte para saber como iriam trabalhar com esses alunos em sala de aula (Professora P3).

- Todos os responsáveis pela formação foram muito atenciosos e muito pacientes (Professora P4).

- Ao longo da formação, percebeu-se o interesse e a preocupação em dar dicas. Pensaram em formar primeiro os aspectos relacionados à máquina (aspectos

127 técnicos), para depois deixar o professor preparado para utilizar pedagogicamente o laptop (Professora P5).

- A formação contribuiu muito com o planejamento das aulas, mesmo já sabendo usar a Internet, ajudou no processo (Professora P6).

Os dados remetem a um apoio e respeito ao professor na formação docente, e a metodologia desenvolvida nesse período foi indicada como fator positivo. O fato indica quanto foi importante a inserção cuidadosa do projeto UCA, entendida pelas professoras como um momento de respeito, apoio e tranquilidade.

Com os conteúdos apreendidos na formação, as professoras iniciaram seu processo de aquisição de conhecimento sobre a tecnologia, como também sua integração ao cotidiano escolar. Os dados refletem que professores sem nenhum tipo de contato com o laptop (Professora P5) e que se mostravam resistentes inicialmente, conseguiram, a partir dos conteúdos vivenciados na formação inicial, desenvolver uma aula com laptop sem dificuldades.

Ao analisar os primeiros dados sobre as perspectivas das professoras, nota- se forte elo entre a satisfação docente em participar desse momento e o respeito que caracterizou a formação realizada na escola. Ao longo das entrevistas, identifica-se que a formação inicial e a maneira como o projeto UCA chegou à Escola contribuíram de forma direta no envolvimento das professoras, como também no reconhecimento da importância daquela formação oferecida.

Segundo Freire (2013a, p. 26), participar de uma experiência formativa é bem mais do que um simples ato de aprender:

Quando vivemos a autenticidade exigida pela prática de ensinar- aprender participamos de uma experiência total, diretiva, política, ideológica, gnosiológica, pedagógica, estética e ética, em que a boniteza deve achar-se de mãos dadas com a decência e com a serenidade.

Assim, a formação contribuiu não apenas para a aprendizagem e o conhecimento das professoras, mas também foi fundamental para que as professoras dominassem o manuseio do equipamento. Também ofereceu meios para que ocorresse a integração das tecnologias ao cotidiano escolar.

A formação docente permitiu que as professoras entendessem as mudanças na metodologia das aulas, adquirissem respeito e credibilidade na capacidade dos alunos. Os professores conheceram o potencial do uso das tecnologias e mesmo

128 ainda de maneira tímida, já conseguem dar indícios das primeiras mudanças em direção à integração do laptop com as atividades desenvolvidas.

Ao analisar as aulas (Apêndice J) e os dados (Apêndice L), as professoras revelam ter estabelecido uma prática centrada no diálogo, utilizando como estratégia a flexibilidade em adaptar novas atividades, como também mudar o planejamento inicial, inserindo, assim, novas articulações diante das dificuldades. Existem indícios de que essa postura foi aprendida na formação docente e em experiências vivenciadas após.

Além disso, a formação mostrou às próprias professoras como são capazes e, acima de tudo, criadoras de nova perspectiva.

Outras instâncias mostram os professores resistentes, segundo o relatório da síntese das avaliações dos experimentos UCA Inicial (Brasil 2010, p. 53), ao longo da implementação, no projeto ainda em fase pré-piloto. Alguns professores, em uma escola de Porto Alegre, “não se engajaram na mudança questionam a proposta de inovação implementada pelos colegas, mas sentem a necessidade de apoiar ou, pelo menos, não se opor a ela”.

O fato não ocorreu na escola pesquisada, pois, no projeto UCA no Ceará, todas as professoras concordaram com a proposta. Além disso, os dados apontam que a formação influenciou na autoestima relacionada à utilização do laptop em sala de aula pelos sujeitos de pesquisa.

De acordo com os aspectos analisados, percebem-se as vivências e mudanças das professoras a partir do que foi aprendido na formação. Essas mudanças constam na categoria 1 apenas nos discursos, em relatos, mas são mostradas na ação com as práticas em sala de aula, na categoria 2, intitulada O Professor e as Práticas Pedagógicas com o Uso do Laptop, apresentada a seguir.

4.2 Categoria 2: O professor e as práticas pedagógicas com o uso do laptop