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Ao se considerar o texto como evento, (BEAUGRANDE, 1997 e MARCUSCHI, 1999) pode-se afirmar que as sentenças dispostas intencionalmente sobre o papel por um escritor são resultado de um trabalho lingüístico empreendido por esse sujeito. Essa noção insere-se na perspectiva sociointeracionista da linguagem que vê o processo de elaboração de textos, falados ou escritos, como uma atividade que, embora realizada por um indivíduo, revela “um movimento contínuo e recursivo entre inter-intra-inter-individual” (GERALDI 1996, p.137). Nessa atividade, entra em funcionamento um complicado processo de detecção e resolução de problemas, para que a tarefa seja realizada com sucesso. Tomando como verdade que todo falante nativo de uma língua domina a gramática dessa língua, a tarefa de produzir textos escritos aparenta ser relativamente fácil. No entanto, paradoxalmente, escrever também significa acionar habilidades extremamente complexas, pois múltiplas operações se realizam simultaneamente, todas elas motivadas pelas condições de produção do discurso. Marcuschi (1994, p.17) aponta alguns fatores que ele considera relevantes na produção de textos, tais como participantes, objetivos, público, tema, conhecimento (lingüístico e enciclopédico, do autor e do leitor), estilo, situação comunicativa e gênero do texto.

A relevância desses elementos consiste no fato de que são eles que determinam as escolhas que fazemos quando falamos ou escrevemos. É bom frisar que esses fatores não são apenas externos, mas sobretudo internos, e apresentam-se como representações mentais dos sujeitos; por isso não são estáticos; pelo contrário, são dinâmicos na medida em que vão mudando no decorrer do processo de interlocução. Sobre as influências do contexto histórico e social nas decisões do sujeito ao produzir um texto, Geraldi (1997) comenta:

as interações não se dão fora de um contexto social e histórico mais amplo; na verdade, elas se tornam possíveis enquanto acontecimentos singulares, no interior e nos limites de uma determinada formação social, sofrendo as interferências, os controles e as seleções impostas por esta. Também não são, em relação a estas condições, inocentes. São produtivas e históricas e como tais, acontecendo no interior e nos limites do social, constroem por sua vez limites novos. (GERALDI, 1997, p.6-7)

Assim, ao discutir o caráter social da escrita, o autor acentua o caráter interativo da produção textual, apontando a influência do interlocutor nas produções linguísticas. Ao mesmo tempo, aponta a escrita como trabalho de um sujeito social, em constante transformação:

os sujeitos se constituem como tais à medida que interagem com os outros, sua consciência e seu conhecimento de mundo resultam como “produto” deste mesmo processo. Neste sentido, o sujeito é social já que a linguagem não é o trabalho de um artesão, mas trabalho social e histórico seu e dos outros e é para os outros e com os outros que ela se constitui. Também não há um sujeito dado, pronto, que entra na interação, mas um sujeito se completando e se construindo nas suas falas. (GERALDI 1997, p. 6)

A partir do desenvolvimento dessas concepções, a leitura e a escrita não podem mais ser consideradas apenas como ações de decodificar/codificar textos, mas como um trabalho (GERALDI, 1992) em que os sujeitos sociais engajam-se, orientados por seus objetivos e intenções. Essas concepções estão em consonância com as idéias de Bahktin (1992, p.41), para quem “As palavras são tecidas a partir de uma multidão de fios ideológicos e servem de trama a todas as relações sociais em todos os domínios.”

Na fala, principalmente na interação face a face, esse engajamento pode ser mais observado, pois as condições de produção do discurso oral são relativamente instáveis. Isso acontece porque há muito mais possibilidades de que o falante faça modificações, mesmo em um discurso pré- planejado, à medida que monitora e gerencia o processo de interlocução, influenciado pela presença, intervenção e colaboração constantes do interlocutor que podem desfazer as possíveis formações imaginárias inadequadas. Na escrita, por outro lado, o escritor precisa tomar muitas decisões baseando-se apenas em suas impressões sobre os elementos da situação discursiva. Castilho (1989) avalia que a construção de qualquer discurso, falado ou escrito, constitui-se de três atividades, não seqüenciais ou lineares: a situação, a cognição e a verbalização. Devido às especificidades da fala espontânea, a situação e a cognição são mais perceptíveis nessa modalidade da língua, o que não significa que estejam ausentes na formulação de textos escritos; pelo contrário, é a partir das considerações que se fazem nessas duas atividades que se tomam decisões sobre a organização linguística do texto. Dessa forma, a situação, longe de configurar-se como um cenário definido e estático, seria antes a análise que o produtor de textos realiza das condições de produção do seu discurso, que se constituem na interação dele com o seu interlocutor. Nessa análise podem entrar em funcionamento, além dos aspectos mais concretos

como intenções e objetivos, as formações imaginárias do falante/escritor sobre o interlocutor e a situação de produção do discurso; e é a partir da avaliação que faz dessas condições que o falante/escritor decide a maneira mais eficaz de organizar seu texto, definindo o ato de fala mais adequado; ou seja, é o momento da definição da estrutura composicional na concepção de Bakhtin, ou da superestrutura, como quer Van Dijk (1996).

A cognição, ainda segundo Castilho (1989), “é a fase em que o falante/escritor se relaciona com o mundo circundante” e faz suas escolhas quanto à organização temática do seu discurso, segundo Bakhtin, ou constrói a macroestrutura semântica, segundo Van Dijk (1996).

A definição do estilo (cf. Bakthin) ocorre na atividade denominada verbalização por Castilho (1989, p. 250), que seria “a representação da cena por meio da linguagem articulada”. Para Van Dijk (1996), isso significa a construção da microestrutura ou “a execução da base textual de maneira estratégica, nos níveis local e linear” (VAN DIJK 1996, p.31). É o momento da explicitação, através das representações semântica, gramatical e fonológica (no caso da fala) das escolhas realizadas pelo falante/escritor em função das condições de produção do texto, já que “é sob a influência do destinatário e de sua presumida resposta que o locutor seleciona todos (grifos do autor) os recursos linguísticos de que necessita” (BAKHTIN, 1992, p.326)

Em Costa Val (1998) também podem ser encontradas discussões sobre esse conjunto de atividades mentais que realizamos quando nos envolvemos na produção de um texto. Nesse artigo, a autora enfatiza que as formas linguísticas mobilizadas pelo locutor em sua produção só ganham sentido quando o funcionamento interlocutivo desse texto é considerado. Assim, quando produzimos um texto nos concentramos em uma série de atividades que “não são lineares nem estanques, mas recursivas e interdependentes.” (COSTA VAL 1998, p.36).

Uma dessas atividades consistiria, segundo Costa Val (1998), em uma análise, pelo escritor, das condições de produção do texto - seus objetivos, intenções e conhecimentos sobre o assunto. Também são feitas considerações sobre o interlocutor previsto - quem é, o que sabe sobre o assunto, em que acredita, quais seus objetivos ao ler o texto - e sobre as circunstâncias em que o texto está sendo produzido - o que é partilhado pelos interlocutores, que situação sócio-histórica orienta a produção, qual o suporte de circulação desse texto. É essa análise que leva à definição

do gênero, da variedade e do registro lingüístico a serem utilizados, tudo em função dos objetivos e da intenção do autor e, principalmente, do leitor a quem o texto se destina.

Ao mesmo tempo em que processa a análise das condições de produção do seu texto, o escritor mobiliza os recursos disponíveis e necessários para a produção. Essa mobilização pode ser entendida como uma busca (tanto em seus próprios “arquivos mentais” quanto em vários outros suportes externos) de informações sobre o tema; orientado por uma demanda específica de produção, o escritor seleciona as informações mais pertinentes à tarefa, descartando as demais ou colocando-as em segundo plano – em estado de espera – para utilizá-las caso haja necessidade. Ao iniciar efetivamente o processo mecânico de escrita, o produtor do texto tentaria colocar o que foi planejado em execução. Isso não significa que o planejamento não será retomado, revisto, reavaliado. Não significa também que planejamentos anteriores à escrita sejam obrigatórios, pois é muito comum que essas duas atividades ocorram concomitantemente. O fato é que, para realizar a tarefa e construir a textualidade, o escritor provavelmente recorrerá inúmeras vezes ao que ele sabe sobre a natureza da tarefa e fará prospecções para avaliar seus efeitos, monitorando a própria escrita. Nesse processo, baseado em suas análises preliminares e nos objetivos pretendidos, o escritor faria opções relativas à organização das informações e ao emprego de elementos linguísticos garantidores da coesão e da coerência, buscando, enfim, utilizar certos padrões da escrita – ortográficos e morfossintáticos – para garantir a eficácia e adequação do seu texto àquela situação específica de produção. Outra atividade que é feita durante todo o processo é a avaliação do texto ainda em processo de produção. Nessa avaliação, o produtor utiliza como critérios os elementos constantes do seu planejamento, o que pode levá-lo a reescrever, alterar, acrescentar ou suprimir partes do texto.

Cabe enfatizar, em relação à descrição desse processo, que os momentos descritos nos parágrafos anteriores – a que Costa Val (1998) denomina planejamento, mobilização, execução e revisão – não são procedimentos que guardam entre si uma relação linear, mas sim recursiva, ou seja, esses movimentos alternam-se e se repetem quantas vezes o escritor julgar necessário. Isso leva à compreensão de que a escrita é uma atividade que envolve seleções, escolhas, decisões e avaliações constantes durante toda a sua realização.

O esquema a seguir busca ilustrar o que foi discutido nos parágrafos anteriores. Note-se que as setas que unem uma etapa a outra procuram evidenciar o caráter recursivo das tarefas descritas.

ESQUEMA 1: O processo de produção de textos

P

M

R

E

Planejamento: Análise das Condições de produção Execução: Seleção dos elementos linguísticos que comporão o texto Monitoramento: controle da escrita Revisão: Avaliação da adequação do texto aos propósitos comunicativos

Uma das contribuições dessa maneira de enxergar a escrita é a desconstrução do mito de que escrever é resultado de inspiração, um dom que poucas pessoas têm. A partir dessa visão, passou- se a buscar a compreensão desse processo, especialmente com a finalidade de orientar ações pedagógicas para o trabalho com a produção de textos na escola. Os resultados dessa busca já se fazem sentir nas mudanças, ainda tímidas, que podem ser observadas nas atividades de produção de textos propostas nas salas de aula pelos professores e pelos livros didáticos de Língua Portuguesa. O que se pode notar é que propostas como “produza um texto sobre qualquer assunto”, freqüentes nos manuais didáticos até há pouco tempo, cederam seu lugar para outras mais comprometidas com a visão de escrita como processo e com o caráter interativo dessa tarefa, mudanças que só se tornaram possíveis graças à divulgação de várias pesquisas científicas sobre a escrita.

Considerando o impacto dessas pesquisas nas orientações oficiais sobre o ensino de língua e sua conseqüente influência nas produções didáticas, na próxima seção serão discutidos alguns pontos centrais desses estudos. Muito dessa discussão baseou-se em reflexões sobre os processamentos cognitivos envolvidos na tarefa de produzir textos, nas considerações de Bentes (2001) sobre o percurso de elaboração de uma teoria de texto e nas discussões de Garcez (1998) sobre a trajetória das pesquisas sobre a escrita nas últimas décadas.

Benzer Belgeler