BÖLÜM 1: ULUSLARARASI İLİŞKİLERDE İNSAN HAKLARI VE SAVAŞ
1.2. Savaş ve İnsancıl Hukuk
1.2.3. İnsan Hakları Antlaşmalarının Değerlendirmesi
Qual o interesse de José Dias em recordar a Glória a promessa de enviar Bento ao seminário? Essa questão se coloca mais de uma vez no livro: Bento responde a Capitu que José Dias não teria interesse algum, ―foi só para fazer o mal. É um sujeito muito ruim‖ (Cap. 18). Justina afirma o mesmo: ―Note que é só para fazer mal‖ (Cap. 21). Em ambos os casos, no entanto, os interlocutores comentam a recordação da promessa sem vinculá-la à sua causa imediata, a denúncia da proximidade de Bento e Capitu. Bento a omite de Capitu por pudor; Justina indica haver algo que não podia revelar (ela desconhecia que o jovem já conhecia a denúncia, uma vez que a ouvira atrás da porta). Então tratemos de colocar a questão em seus termos: por que José Dias conspira contra o namoro entre Bento e Capitu?
Partamos da motivação que o próprio José Dias oferece. Ele justifica a denúncia pela estima à família, para cumprir ―um dever amargo, um dever amaríssimo...‖ (Cap. 3). Embora seu discurso seja um tanto lacônico, seu dever amaríssimo é alertar sobre o perigo de namoro entre Bento e Capitu, dada a desvantajosa assimetria entre as condições financeiras das famílias. Pode-se depreender isso da referência pejorativa aos vizinhos, ―a gente do Pádua‖, e à Capitu, ―a filha do Tartaruga‖, e do arremate com a afirmação de que seria muito propícia ao Pádua uma aliança com os Santiago:
o pai faz que não vê; tomara ele que as cousas corressem de maneira que... Compreendo o seu gesto; a senhora não crê em tais cálculos, parece-lhe que todos têm a alma cândida... (Cap. 3)
Em ―Um agregado (capítulo de um livro inédito)‖, trecho de Dom Casmurro publicado nos jornais anos antes da efetiva publicação do romance, a motivação de José Dias fica mais evidente:
o pai faz que não vê.... Pudera! Quer naturalmente subir; casa rica, casa
respeitável, onde é que ele achará genro igual, nem que de longe se aproxime? Compreendo o seu gesto, minha senhora, não se pode admitir que
a ideia de que semelhante enlace entre na cabeça de um homem tão reles,
tão ínfimo... Provoca, realmente, uma estrondosa gargalhada. (ASSIS, 1969,
p. 253; grifos nossos)
A versão definitiva é muito mais sutil do que essa, em que Pádua é explicitamente acusado de ambicioso, alguém que deseja usar a filha para ascender socialmente, um homem ordinário que almeja o despropósito de unir sua filha a um membro da elite, de ―casa rica, respeitável‖. Em outra passagem dessa versão preliminar, ainda, qualifica-se Pádua como ―velhaco‖ e Capitu como ―não (...) menos velhaca, apesar de desmiolada‖ (ASSIS, 1969, p. 253).
Essa não é a única ação de José Dias contra Pádua. Ao mencionar a passagem em que este perde o cargo de administrador interino e pensa em se matar, José Dias afirma que era por vaidade (Cap. 16). Na já mencionada cena do Santíssimo, age junto ao sacristão para privar Pádua do privilégio de carregar uma das varas do pálio, obrigando-o a carregar uma simples tocha. A ―glória pia e risonha‖ que o pai de Capitu vivera, ao carregar o pálio da vez anterior, dá lugar à ―dor e humilhação‖, com que ele ―roía a tocha amargamente‖ (Cap. 30). A própria alcunha ―Tartaruga‖, surge como iniciativa de desqualificar Pádua junto aos Santiago. José Dias criou o apelido e é o único a chamá-lo assim, em uma referência grosseira à silhueta do vizinho:
Era um homem baixo e grosso, pernas e braços curtos, costas abauladas, donde lhe veio a alcunha de Tartaruga, que José Dias lhe pôs. Ninguém lhe chamava assim lá em casa; era só o agregado (Cap. 15).
A ridicularização da figura acompanha a desqualificação de sua condição social:
(...) ouça-me, já que falamos nisto, não é bonito que você ande com o Pádua na rua.
- Mas eu andei algumas vezes...
- Quando era mais jovem; em criança, era natural, ele podia passar por criado. Mas você está ficando moço e ele vai tomando confiança. (...) A gente Pádua não é de todo má. (...) D. Fortunata merece estima, e ele não nego que seja honesto, tem um bom emprego, possui a casa em que mora, mas honestidade e estima não bastam, e as outras qualidades perdem muito de valor com as más companhias em que ele anda. Pádua tem uma tendência para gente reles. Em lhe cheirando a homem chulo é com ele. (Cap. 25)
José Dias diz a Bento que, apesar de Pádua possuir algumas qualidades – como a de ser honesto, ter um bom emprego e ser proprietário da casa onde mora – anda em más companhias e tem tendência para gente reles, para homem chulo (Cap. 25). As amizades baixas acompanham a consideração de que o próprio Pádua é reles. A posição social inferior passa a ser um atributo que desaconselha andar em sua companhia. Antes seria considerado um criado; agora há o risco de serem tomados por semelhantes. José Dias educa o filhinho de Glória sob o preceito de que sua condição de capitalista confere-lhe superioridade sobre Pádua e seus amigos e inviabiliza tratá-lo em pé de igualdade. A classe social é tomada como atributo moral: trata-se de infundir em Bento uma concepção classista de existência.
José Dias, nesse ponto, nada mais faz que explicitar a tônica da relação entre as famílias, cuja origem é emblemática. Segundo Glória, as relações entre os Santiago e os Pádua iniciam quando ela lhes presta um favor. Há relação entre famílias desde a ―grande enchente (...) em que a família Pádua perdeu tanta cousa‖ (Cap. 4). A informação de que suas relações iniciaram justamente no contexto de um desastre natural em que os Pádua sofreram tão grandes perdas sugere que Glória os amparou em alguma medida. Novamente, a versão publicada previamente nos jornais, ―Um agregado (capítulo de um livro inédito)‖, é bem menos sutil, e a natureza da aproximação fica mais explícita:
Não se esqueça que são companheiros de infância. Quando a família Fialho13
veio para essa casa ao pé, tive ocasião de lhe fazer um favor, e assim começaram as relações entre os pequenos. (ASSIS: 1969, p. 253)
Ao comparar as passagens, John Gledson assinala como, na versão definitiva, não há a palavra ―favor‖ e sua ocorrência fica implícita na menção à enchente; já na primeira, fica explícito que a relação entre as famílias inicia-se assimetricamente e só se estabelece quando Glória tem possibilidade de prestar um favor, posicionar-se como bem-feitora, satisfazendo assim as reservas de sua superioridade social (GLEDSON, 1999, p. 66). Na versão definitiva, a percepção de que a relação só começa quando pode se dar assimetricamente fica mais dependente do leitor.14
A autoridade de Glória junto aos vizinhos se reflete no fato de que ela, por duas vezes, é procurada por Fortunata para que intervenha junto a Pádua. Em uma, a vizinha obtém dele que desista de matar-se; na segunda, que use responsavelmente o dinheiro de um prêmio de loteria (Cap. 16). O próprio Pádua expressa a assimetria de condições diante dos Santiago, colocando-se explicitamente como alguém que reconhece o valor dos favores recebidos:
Todos nós estimamos muito o senhor, como merece. Se lhe disserem outra cousa, não acredite. São intrigas. Também eu, quando me casei, fui vítima de intrigas; desfizeram-se. Deus é grande e descobre a verdade. Se algum dia perder sua mãe e seu tio - cousa que eu, por esta luz que me alumia, não desejo, porque são boas pessoas, excelentes pessoas, e eu sou grato às finezas recebidas... (Cap. 52)
Na menção às intrigas, Pádua manifesta conhecer a campanha do agregado contra ele. A frágil posição de José Dias permite compreender a encarniçada disputa que estabelece com Pádua e os constantes comentários desabonadores sobre ele. A alegação de que José Dias denuncia o casal para prevenir a família da possibilidade de aliança desvantajosa, com pessoas vulgares, encobre o fato de que ele tem interesses pessoais em se opor a um dos concorrentes junto aos favores de Glória. Para José Dias trata-se, sobretudo, de garantir sua posição na família, distanciando os Pádua, que também são seus concorrentes na influência sobre Bentinho.
Já vimos que o agregado não tem independência suficiente para apresentar abertamente seus desígnios (seja o de ir ao teatro, seja o de ir à Europa), razão por que precisa conferir a eles a aparência de que atendem a outras demandas. John Gledson afirma que José Dias não é movido por uma maldade inata; suas motivações brotam diretamente de sua
13 A família de Capitu é nomeada Fialho, nessa versão.
14 A maior sutileza da versão definitiva em comparação a ―Um agregado (capítulo de um livro inédito)‖ é
situação, pois teme perder sua ascendência sobre Glória e Bento, dada sua condição de dependente que pode ser dispensado a qualquer momento. A influência de José Dias sobreviveu à morte de seu protetor anterior, o pai de Bento, trata-se então de preparar o terreno para a próxima transição. Uma vez que Bento se constitua padre, estão descartadas não só a hipótese de Pádua e Capitu tomarem-lhe essa ascendência, mas também a do surgimento de quaisquer outros:
tendo sobrevivido a uma mudança de regime, José Dias prepara o terreno para a próxima. Não teme apenas a ascendência de Capitu e Pádua; tem um motivo mais forte para desejar que Bento seja padre: é que este não se casaria, evitando assim a perspectiva do aparecimento de quaisquer rivais (GLEDSON, 1999, p. 51).
Eugênio Gomes já havia chamado a atenção para o fato de que o intento de José Dias era ―separar, fosse como fosse, os dois namorados‖ uma vez que ele ―não tolerava o pai de Capitu e supunha que sua segurança no lar de D. Glória entraria em colapso se o namoro da vizinhança resultasse em casamento‖ (GOMES, 1967, p. 118; grifo nosso). Vê-se então que a recordação da promessa atende a mais de um propósito: previne a família de uma aliança desabonadora e garante a José Dias a influência de que precisa junto aos Santiago. Posteriormente, conhecida a decisão de escapar ao seminário, a oposição a Capitu, sem perder esse caráter geral, se subordinará à finalidade particular de abrir caminho para a viagem à Europa junto a Bento.
Não é à toa, portanto, que o agregado trata Capitu como uma concorrente. Em encontro em que a família parabeniza Cabral pelo título de protonotário apostólico, como Capitu tratasse o padre duas vezes em cinco minutos pelo título, José Dias, ―para se desforrar da concorrência‖, faz um discurso em honra do papa Pio IX (Cap. 39). Em outras passagens, o agregado qualifica Capitu como ―uma desmiolada‖ (Cap. 3), uma ―aduladora‖ cujos olhos de ―cigana oblíqua e dissimulada‖ foram dados pelo ―diabo‖ (Cap. 25), uma ―tontinha‖ que estava alegre com a permanência de Bento no seminário e andava em busca de ―algum peralta da vizinhança‖ que casasse com ela, uma moça sobre a qual vale cogitar ―a conta que dará de si‖ (Cap. 62). Bento não compreende essa última referência, perdido que estava em conjecturar como Capitu trataria o peralta da vizinhança. Dado o hábito de José Dias de falar segundo os modos da Bíblia, trata-se provavelmente de referência ao capítulo 14 dos
Romanos, em que se lê que ―cada um de nós prestará contas a Deus de si próprio‖ e que
devemos nos abster ―portanto, de julgar uns aos outros‖ (Bíblia, 2011, p. 1988). Ali José Dias já a havia julgado e condenado.
Como ocorre com Justina em menor escala (como vimos, ela também se sentiu ameaçada pela ascendência de Capitu sobre Glória), a concorrência com a família Pádua é uma das expressões da subordinação de José Dias e uma das origens de seus juízos contra Capitu, que alimentaram o ciúme de Bento Santiago e prevaleceram em seu espírito ao fim. Esse papel de estimular o ciúme de Bento, desempenhado por Justina, também valeu a José Dias a caracterização de Iago. O primeiro a caracterizá-lo assim foi o próprio narrador, ao nomear ―Uma ponta de Iago‖ o capítulo em que José Dias lhe insufla o ciúme ao propor que Capitu procurava um ―peralta da vizinhança‖ para casar, fato notado por Azzi, em 1939 (AZZI, 2008, p. 375). Caldwell afirma que ele é, inicialmente, ―o Iago do enredo‖, mas ―uma espécie miserável de Iago, de ambições humildes e pouco interesse em dinheiro‖ (CALDWELL, 2002, p. 22, 32). Quando Bento conclui que Capitu o enganava desde o princípio, indiretamente considera que Justina fora precisa em suas insinuações e José Dias estava efetivamente certo ao acusá-la ainda menina. Não é de se espantar, portanto, que algumas das mais virulentas leituras de Capitu tenham sido feitas por críticos que, sem enxergar as relações sociais figuradas na obra, desprezaram a concorrência com a família Pádua, consideraram o agregado como um observador neutro e pautaram-se em seus juízos para apoiar a tese de Bento de que o romance retrata a maldade ingênita de uma mulher fatal. Augusto Meyer e Mário Matos, que, como vimos no capítulo anterior, são responsáveis por diversos dos mais violentos juízos contra Capitu, a ponto de reduzi-la, por meio de imagens e raciocínios, à condição animal, afirmam que José Dias tinha razão em qualificar seus olhos como de cigana oblíqua e dissimulada, uma vez que, ―era melhor observador, porque não os vira transfigurados pela paixão‖ (MEYER, 2008, p. 115) e, ao contrário de Bentinho, que ―ama‖ e ―é romântico‖, é capaz de defini-la com isenção (MATOS, 1939, p. 236). A desconsideração do estatuto do agregado, tão extensamente configurado ao longo da obra, levaram esses autores a tomá-lo como alguém neutro, capaz, portanto, de atestar a verdadeira natureza diabólica de Capitu. As passagens ilustram o vínculo entre a demonização da mulher e o desprezo das relações sociais figuradas no romance.15
15 Esse desprezo fez Augusto Meyer acusar ―o Machado escritor – o verdadeiro Machado‖ de ―não saber
despojar-se dos seus preconceitos de homem‖ diante da ―mulher, outra metade humana que nos completa e reproduz‖. O escritor seria um observador curioso de um espetáculo absurdo, reduzindo toda a ―fecunda complexidade feminina‖ à ―cabra-cega dos instintos em luta, à comédia do amor no sentido mais triste do termo: como uma contradança de desejos‖. A constante preocupação de Machado pelas mulheres ―sensuais e pérfidas‖ indicaria que ―falta saúde à sensualidade machadiana‖ (MEYER, 2008, p. 112). Cabe-nos questionar a quem falta saúde e quem reduz a complexidade feminina ao espetáculo dos instintos. Sem enxergar a subordinação do agregado e a trama que envolve a interpretação de Bento acerca de sua trajetória, Meyer identifica essa visão à do autor, atribuindo a Machado a concepção de Bento, e assim expõe os próprios preconceitos. Páginas atrás vimos como expediente semelhante fez Carvalho Filho atribuir a Machado a concepção de que os homens são escravos da fatalidade orgânica e a crença na escola lombrosiana, o que faria dele um determinista franco em
Também com Escobar o agregado dará mostras de competir pela afeição de Bento, embora de maneira atenuada, já que Escobar, filho de advogado aparentado com comerciante da corte, muito rapidamente assume uma posição social sensivelmente superior às de Pádua, Capitu e José Dias. No entanto, percebe-se que José Dias não está alheio às relações entre os amigos: ―A amizade de Escobar fez-se grande e fecunda; a de José Dias não lhe quis ficar atrás‖ (Cap. 95). Quando Bento sai do seminário, e na família já se fala em casá-lo com Capitu, José Dias reclama a afeição do jovem bacharel:
Ah! Você não confiou tudo ao velho José Dias! O pobre José Dias está aí para um canto, é caju chupado, não vale nada; e agora são os novos, os Escobares (...), enfim, velho também sabe amar... (Cap. 100)
Novamente vemos José Dias conciliar amor e subordinação. As duas passagens, acima citadas, passam-se respectivamente quando da saída do seminário e da conclusão do curso de direito, momento em que o agregado, como vimos páginas atrás, empreende a segunda transição, alternando-se entre Glória e o filho. Consolidado o casamento com Capitu e a amizade com Escobar, nada lhe resta a fazer senão reclamar sua parte na afeição do rapaz.
De qualquer modo, é muito mais significativa a concorrência com Pádua. Este, por sua vez, apesar de ter algum ―medo‖ do agregado de Glória (Cap. 30), reagirá aos ataques, tocando sem piedade no ponto fraco de José Dias, a situação de completa dependência. Pádua ria de seus sapatos gastos (Cap. 25) e é o único no romance a qualificá-lo como ―parasita‖, juízo que, como já vimos, reverberou amplamente na fortuna crítica. Ele diz a Bentinho:
Não, eu não sou como outros, certos parasitas, vindos de fora para desunião das famílias, aduladores baixos, não; eu sou de outra espécie; não vivo papando os jantares nem morando em casa alheia... Enfim, são os mais felizes! (Cap. 52)
Sua visão acerca do agregado o reduz a um dos tipos proposto por Manuel Antônio de Almeida: o vadio, parasita, que trabalha para desunião da família. O pai de Capitu descreve-se por contraste: não mora nem papa jantares em casa alheia, não é um adulador baixo, não é parasita, é de ―outra espécie‖.
A que outra ―espécie‖ pertence Pádua? Como vimos, ele se reconhece como beneficiário de favores de Glória e esta se reconhece como sua benfeitora, o que explica porque José Dias identifica nele e em Capitu os principais concorrentes na influência de seus
direito penal. Essa capacidade do romance machadiano se alinha à proposição de Schwarz, apresentada em nossas considerações finais, de que Dom Casmurro age como armadilha ao pensamento conservador.
protetores. No entanto, Pádua e sua família, ao contrário de José Dias e Justina, não são dependentes dos favores que recebem. Pádua é homem livre e pobre, mas não é agregado, não vive em casa alheia, e goza de relativa independência, já que vive de seu salário de funcionário público: ―É um funcionário público e, assim, está bem abaixo da família Santiago na escala social, conquanto seja independente na medida em que ganha seu salário‖ (GLEDSON, 1999, p. 66). E é a partir de sua visão, de assalariado, que o clientelismo é visto como sinônimo de parasitismo.
Pádua era empregado em repartição subordinada ao Ministério da Guerra. Trabalhava muito e ganhava pouco. O excesso de trabalho transparece em passagem em que justifica a Bentinho a impossibilidade de visitar-lhe a família: ―ando com trabalhos de repartição, em casa; escrevo todas as noites que é um desespero; negócio de relatório‖ (Cap. 15). Percebe-se que ganhava pouco tanto pela afirmação direta do narrador de que o vizinho ―não ganhava muito‖ (Cap. 16), quanto indiretamente, pelo fato de que só é proprietário de sua residência por um acaso da loteria; pela moderação de Fortunata, que ―gastava pouco‖ (Cap. 16) e ralhava com a filha se acendesse vela (Cap. 43); pela simplicidade e pobreza das roupas, sapatos e adereços de Capitu, cujas mãos ―não cheiravam a sabões finos nem águas de toucador‖ (Cap. 13), e que trajava ―um vestido de chita, meio desbotado‖ (Cap. 13), calçava ―sapatos de duraque, rasos e velhos‖ a que ela mesma dera alguns pontos (Cap. 13), usava um ―espelhinho de pataca (...) comprado a um mascate italiano‖ (Cap. 32) e prendia os cabelos com ―um triste pedaço de fita enxovalhada‖ (Cap. 33).
Capitu e a mãe realizavam seu trabalho com diligência, desdobrando-se no cuidado da casa, conforme fala em que José Dias dá a dimensão da capacidade de trabalho da filha, ao mostrar que assume as atividades da mãe:
uma dona de casa, que não lhe digo nada. Depois da morte da mãe, tomou conta de tudo. Pádua (...) não faz mais do que receber o ordenado e entregá- lo a filha. A filha é que distribui o dinheiro, paga as contas, faz o rol das despesas, cuida de tudo, mantimento, roupa, luz (Cap. 100).
Essa capacidade de exercer com maestria a economia doméstica será confirmada na quantia economizada por Capitu e convertida em libras esterlinas por Escobar. Capitu, segundo Bento, ―era poupada‖ (Cap. 106). A capacidade de trabalho doméstico de Capitu também transparece na fala de Bento de que a jovem dava pontos em seus próprios sapatos (Cap. 13), costurava (Cap. 36, 66, 81); e desempenhava ―alguns ofícios rudes‖, a despeito dos quais trazia as mãos ―curadas com amor‖ (Cap. 13). Fortunata desempenha também o papel de
cuidar de Capitu, atentando a sua saúde (Cap. 42), acompanhando seu namoro com Bento (Cap. 34, 44, 46), chegando mesmo a aconselhá-la a esquecê-lo (Cap. 65).
O capítulo 16, em que Pádua é nomeado administrador interino de sua repartição, dá dimensão dos constrangimentos que enfrenta. Segundo Bento, a elevação nos honorários trouxe-lhe certa ―vertigem‖, que lhe fez reformar a roupa e a copa, e atirar-se a despesas ―supérfluas‖: dar joias à mulher, matar leitões em dias de festa, frequentar teatros, usar sapatos de verniz. Terminados os vinte e dois meses, em que Pádua vive ―na suposição de uma eterna interinidade‖, aparece aflito e desvairado, a rogar que cuidassem das infelizes que deixava, já que não poderia sofrer a desgraça de perder a interinidade, iria se matar. Fortunata recorre a Glória, que obtém dele a resignação. Humilhado, entra e sai de casa ―cosido à parede‖ com a ―cara no chão‖. Algumas semanas bastam para que volte à alegria de costume.