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BÖLÜM 2: ULUSLARARASI İNSANCIL HUKUKUN TEMEL KONULARINA

2.1. İnsancıl Hukukun İslami Terminolojideki Uygulanma alanı: Cihad

2.1.1. Cihad İlkeleri

Bento conhece Escobar no seminário. Quando a amizade deles se estreita, Bento confessa que, além dele, não tem propriamente amigos (Cap. 78) e, embora o narrador refira amigos da cidade (Cap. 1), de data recente (Cap. 2), e outros que foram estudar a geologia dos campos santos (Cap. 2), é Escobar o único que nos dá a conhecer em suas memórias. A principal paixão de Escobar nos é revelada logo que é introduzido na narrativa. Quando, em troca de confidências, Bento confessa não poder ser padre, o companheiro confessa que não tem intenção de acabar o curso, já que seu ―desejo é o comércio‖, em suas palavras: ―não é que eu não seja religioso; sou religioso, mas o comércio é minha paixão‖ (Cap. 71). O valor da confissão é confirmado durante toda a narrativa, na qual a paixão pelo comércio confere unidade às características e ações de Escobar.

Retomemos sua trajetória. Como já mencionamos, Escobar pertence às camadas médias, que se ampliaram com o processo de modernização e urbanização da segunda metade do século. É filho de advogado curitibano, que não deveria ser completamente destituído de importância, já que José Dias se recorda de o já ter visto no Rio uma vez, quando conhece Escobar na casa de Glória (Cap. 71). O pai é aparentado com um comerciante da capital, que lhe servia de correspondente e tinha armazém na rua dos Pescadores, onde o jovem ficava quando não estava no seminário.

O objetivo de Escobar é tornar-se capitalista e, para isso, ao longo do enredo, revela dispor de uma estratégia. Já se mencionou que estreitar laços com uma família como a de Glória iria ao encontro de sua ambição de ascender socialmente. Vimos ainda que é por meio da interlocução com Escobar que o capital da família Santiago nos é revelado, em momentos em que a Bento interessa apresentar-se no esplendor de sua condição de herdeiro e capitalista. Nos capítulos 93 e 94, observa-se como Escobar muito facilmente faz a estimativa da dimensão e da composição dos capitais da família, de onde ele percebe ser possível obter parte do capital inicial de que necessita seu empreendimento. Sua postura é claramente aduladora. Em sua primeira visita, tem a perspicácia de iniciar a conquistar a família por meio da louvação do patriarca. Bento apresenta-lhe o retrato do pai, e depois de alguns instantes de contemplação, Escobar afirma: ―– Vê-se que era um coração puro!‖ (Cap. 71). Para conquistar Bento, após essa primeira visita, afirma que gostou de todos da casa, e acrescenta: ―se é possível fazer distinção, confesso-lhe que sua mãe é uma senhora adorável‖, deixando

Bento ―cheio de alvoroço‖ (Cap. 71). Em outra visita, embora não costumasse ter problemas com as palavras, ao dar a Glória notícias da situação de Bento no seminário, ―um tanto atado‖, com ―voz engasgada e trêmula‖ afirma que todos queriam bem ao filho, e que nem poderia deixar de ser assim, dada a educação, os bons exemplos, ―a doce e rara mãe‖, que o céu havia lhe dado... Depois, em conversa com Bento, volta a elogiar Glória, como uma senhora ―grave, distinta e moça, muito moça...‖. Ele parece chegar mesmo a avaliar a possibilidade de casar com ela, ao questionar sua idade e há quanto tempo enviuvara (Cap. 93). Nesse mesmo capítulo, ele e Bento conversam também sobre as casas de aluguel e a quantidade de escravos, o que lhe faz afirmar, ―a propósito da beleza moral que se ajusta à física‖, que Glória era ―um anjo dobrado‖ (Cap. 93). Vemos como para Escobar é capital a beleza moral. Em sua postura, manifesta estar em contato com algo da ―bondade (...) transcendental dos pais e chefes‖, que forma ―um halo em volta da propriedade‖, que Roberto Schwarz identifica em Glória (SCHWARZ, 1997, p. 28).

Justina confirma a hipótese de que Escobar ―afagara a ideia de convidar‖ a mãe de Bento ―a segundas núpcias‖ (Cap. 98). A prima percebe que a aproximação do jovem não é desinteressada, ao afirmar que ele era ―um tanto metediço‖ e ―tinha uns olhos policiais a que não escapava nada‖ (Cap. 93). Cosme caracteriza os olhos de Escobar como ―refletidos‖. Também José Dias tenta criticá-lo, mas é subitamente interrompido por Glória, que lhe tolhe a opinião, como já vimos anteriormente. Vimos também que o agregado, que já lutara contra Pádua e Capitu para garantir sua ascendência junto a Glória e Bentinho, disputará a afeição de Bento com Escobar, embora mais sutilmente e por breves períodos.

De qualquer forma, a família aceita Escobar, que não precisa casar-se com Glória para dela obter capital. Ele começa a negociar café após trabalhar por quatro anos em uma das primeiras casas comerciais do Rio de Janeiro e conseguir ―alguns dinheiros‖ emprestados dela, a pedido de Bento (Cap. 98). Ele se casa com Sancha, filha de Gurgel, um comerciante de objetos importados dos Estados Unidos, mas nada se menciona sobre apoio do sogro em seus negócios.

Tudo leva a crer que Escobar ascende rapidamente como comerciante. Restitui, logo que pode, o dinheiro a Glória, a quem ainda manifesta censura:

Talvez ele não pensasse em mais que associá-la aos seus primeiros tentâmens comerciais, e de fato, a pedido meu, minha mãe adiantou-lhe alguns dinheiros, que ele lhe restituiu, logo que pôde, não sem este remoque: "D. Glória é medrosa e não tem ambição." (Cap. 98)

Nesse momento, Escobar cumpre a primeira etapa de sua ambição, após obter da família de Bento a condição sine qua non para ser capitalista. Depois disso, Escobar passará de favorecido a favorecedor, ao contribuir ―muito‖ para ―as estreias‖ de Bento no foro, intervindo junto a um advogado célebre para que o admitisse à sua banca. Arranjou-lhe também algumas procurações, de forma que o amigo ―era advogado de algumas casas ricas‖ (Cap. 104). Quem poderia prever tamanha inversão de papéis? O garoto que balbuciava tímido na casa do colega de seminário, de cuja mãe emprestaria parte do capital inicial para se estabelecer, seis anos depois já seria quem o introduz no centro do comércio da época.

Cumprida essa primeira etapa de sua ascensão, estabelecido como comerciante, Escobar poderia ter dado as costas a Bento, caso sua aproximação se devesse só a esse interesse. No entanto o que vemos é exatamente o oposto. A amizade deles, que fora bem próxima desde o princípio, fortalece-se ainda mais. Ainda adolescentes, quando Bento o faz confidente do namoro com Capitu, afirma que Escobar lhe ―veio abrindo a alma toda, desde a porta da rua até o quintal. (...) Cá o achei dentro, cá ficou‖ (Cap. 56). No seminário, os abraços efusivos dos jovens provocam a censura de um padre, que lhes recomenda ―estimar- se com moderação‖ (Cap. 94) e ao ouvir de Bento a possibilidade de ir à Roma para obter o perdão da promessa, Escobar tem olhos que ―quase‖ o ―comeram de contemplação‖ (Cap. 96). É de Escobar a sugestão de transação que livra o amigo do seminário, a troca pela ordenação de um menino pobre (Cap. 98). Ele viabiliza a correspondência entre Capitu e Bento, à época da faculdade em São Paulo e o anima no amor por Capitu (Cap. 98). É quando já está estabelecido como comerciante, quando não precisaria mais manter relacionamento motivado por interesse, que Bento o considera ―mais pegado ao coração‖ e as visitas deles ―foram-se tornando mais próximas, e as (...) conversações, mais íntimas‖ (Cap. 107). Escobar ampara Bento quando tarda a chegada de um filho (Cap. 104). Sancha cuida de Capitu, convalescente do parto, e Escobar, com cujo primeiro nome a criança foi batizada, faz o almoço da cerimônia em sua casa (Cap. 108). Escobar fala na hipótese de casarem os filhos entre si, ―pacto‖ a que sucede a proposição de que encaminhassem as crianças a esse fim, ―pela educação igual e comum, pela infância unida e correta‖ (Cap. 108). Assim é sintetizada, capítulos adiante, a proximidade entre os amigos:

Enquanto viveu, uma vez que estávamos tão próximos, tínhamos por assim dizer uma só casa, eu vivia na dele, ele, na minha, e o pedaço de praia entre a Glória e o Flamengo era como um caminho de uso próprio e particular (Cap. 117).

Parece ocorrer na relação com Escobar algo semelhante ao que ocorre com Capitu. John Gledson afirma que não há dúvida de que Capitu aspira a subir na escala social e é consciente das diferenças sociais entre ela e Bentinho, mas que isso não impede que seja movida por um sentimento autêntico por ele: ―afinal, não existe lei contra estar apaixonado e, ao mesmo tempo, desejar subir na vida‖ (GLEDSON, 1999, p. 67). Como Capitu, Escobar almeja ascender socialmente e é bem consciente das diferenças que o separam do amigo; também em seu caso não existe lei contra almejar subir na vida e desenvolver amizade autêntica.

A vigorosa ascensão de Escobar só transparece em sua integridade, porém, com sua morte. Bento já havia afirmado que o amigo era bom comerciante (Cap. 110), e passagens atestam seu grau de dedicação aos negócios: ―descíamos à praia ou íamos ao Passeio Público, fazendo ele os seus cálculos, eu, os meus sonhos‖ (Cap. 108), mas só com a morte temos dimensão de sua consideração pública. A comoção social é bem grande, conta Bento que ―a afluência dos amigos foi numerosa. Praia, ruas, praça da Glória, tudo eram carros, muitos deles particulares. A casa, não sendo grande, não podiam lá caber todos‖ (Cap. 122). Há mais carros no velório de Escobar do que pessoas no de Brás Cubas. Também se percebe que, pelo número de carros particulares, há muitos membros da elite. A casa, comprada quando da mudança de Andaraí (Cap. 117), é pequena e expressa a condição relativamente modesta do casal. O contraste entre sua dimensão pequena e o grande número de membros da elite presentes em seu velório reflete sua ascensão social e o potencial de ascender mais. A incapacidade de conter as pessoas, resultando em contingente que lhe ocupava as imediações, reflete a estima pública. Não se revela a exata condição financeira do casal, mas sabemos que há consenso de que o passivo é pequeno: ―José Dias ouviu também falar dos negócios do finado, divergindo alguns na avaliação dos bens, mas havendo acordo em que o passivo devia ser pequeno‖ (Cap. 122). Posteriormente descobrimos que mulher e filha recebem herança, já que os jornais ―falavam dos bens deixados‖ (Cap. 128). Helen Caldwell, talvez com algum exagero, considera que Escobar enriquece (CALDWELL, 2002, p. 26). Os jornais atestam o reconhecimento público do jovem, ao dar notícia ―do desastre e da morte de Escobar, os estudos e os negócios deste, as qualidades pessoais, a simpatia do comércio‖ (Cap. 128). O enterro contou com grande comoção, muitas lágrimas, da viúva, de todas as mulheres (com exceção de Capitu), de Bento e de muitos homens também (Cap. 122-3).

Quando, no conjunto do enredo, questionamos o que lhe permitiu essa trajetória nitidamente ascendente, dada a condição da qual partiu e uma vez que à morte só tinha 32 anos, é claro que não podemos esquecer o empréstimo de Glória. Mas, cumprida a condição, sua trajetória é sobretudo fruto de seu caráter e de sua postura ativa. Percebemos, pela

maneira como se aproxima dos Santiago, que Escobar tem discernimento das relações sociais e capacidade de portar-se adequadamente. Tinha cabeça aritmética, e sua habilidade para calcular mentalmente é espantosa. Esse modo de ser o leva a defender a superioridade dos algarismos sobre as letras, já que entre estas há as dispensáveis e inúteis e entre aqueles não, o que soava a Bento, criado que fora na ortografia de seus pais, como ―blasfêmia‖ (Cap. 94). Muito jovem, já encara a realidade sob a perspectiva de um capitalista, e a maneira como muito rapidamente avalia o capital da família de Bento demonstra isso. Quando sugere a ideia que livraria o amigo do seminário, o raciocínio de troca norteia sua postura. Além disso, avalia a operação também sob perspectiva econômica:

Escobar observou que, pelo lado econômico, a questão era fácil; minha mãe gastaria o mesmo que comigo, e um órfão não precisaria grandes comodidades. Citou a soma dos aluguéis das casas, 1.070$000, além dos escravos... (Cap. 96)

Sua visão é tão presa ao comércio que, embora em um chiste, encara o hábito do menino Ezequiel de presentear as vizinhas com doces, como espécie de adiantamento em uma troca:

Escobar (...) opinava que a causa principal desta outra inclinação talvez fosse convidar implicitamente as vizinhas a igual apostolado, quando os pais lhe trouxessem doces; e ria-se da própria graça, e anunciava-me que o faria seu sócio. (Cap. 90)

Escobar tem também um conjunto de características subsidiárias que lhe ajudam bastante a ascender como comerciante. É reflexivo: ―íamos dar com ele, muita vez, olhos enfiados em si, cogitando‖ (Cap. 56); lembremos que Cosme qualifica seus olhos como ―refletidos‖ e Justina, como ―policiais, a que não escapava nada‖ (Cap. 93), próprios de alguém observador. Ao conversar com Bento, espeta-lhe os olhos e o ouve com interesse (Cap. 71), em postura oposta à do amigo, que tendia a fechar-se em si e concordar com a opinião do interlocutor se a matéria não o agravasse, aborrecesse ou impusesse (Cap. 83). Quando conversava com Bento, como Capitu, pedia frequentemente ―explicações e repetições miúdas‖ e tinha memória excelente, guardando as explicações e repetições ―todas, até as palavras‖. Tinha grande capacidade de autocontrole, muito jovem dominava seus movimentos rápidos no seminário e na casa dos Santiago. Sua capacidade de cessar o hábito de mover o ombro direito foi para Bento o primeiro exemplo de que ―um homem pode corrigir-se muito bem dos defeitos miúdos‖ (Cap. 71). É polido e ainda no seminário sabia ser menos falante do que os rapazes da mesma idade. É alto, interessante de rosto e forte. Capitu pergunta a Bento, da primeira vez

que o vê ―Que amigo é esse tamanho?‖ (Cap. 71). De sua força temos notícia tátil de Bento, em meio a um acesso homossexual (Cap. 118). Tem ainda espírito galhofeiro (Cap. 71).

Helen Caldwell afirma que Escobar facilmente causaria inveja, devido a suas qualidades: ―Ele é inteligente, um verdadeiro gênio em matemática e lógica; é musculoso; tem modos elegantes‖ (CALDWELL, 2002, p. 26) e, como Michel Cássio, de Otelo, seria ―cortês e atraente‖ (CALDWELL, 2002, p. 22). Sobre a relação entre ele e Sancha, Bento afirma que ―Escobar e a mulher viviam felizes‖, o que não impediu que ouvisse falar ―de uma aventura (...) negócio de teatro, não sei que atriz ou bailarina‖, fato incerto (Cap. 104). José Dias afirma que Escobar é ―muito distinto, e trabalhador, e marido de truz‖ (Cap. 98).

Deixando de lado as características que o fazem um homem atraente, vemos que as outras todas estão em acordo com sua paixão, o comércio, e que caracteres e ações se conformam com harmonia em torno de sua ascensão como capitalista. Escobar nunca chegara a ter a fortuna de Bento, mas os bens de que dispunha e a posição em que se encontrava eram, em grande parte, fruto de suas habilidades aritméticas, de sua capacidade de reflexão, de sua capacidade de voltar-se para o outro, de seus estudos, de sua memória, de seu discernimento social, de sua ambição e ousadia atreladas à disposição para o trabalho, ou seja, eram fruto de sua postura ativa. O tipo de elite que Escobar passara a integrar é muito diferente do tipo da de Glória. Não é coincidência que sua atividade comercial tenha ocorrido no terceiro quartel do século XIX, aquele que, segundo Celso Furtado, compreende o fim da fase de gestação da economia cafeeira. A trajetória de Escobar o aproxima daquilo que Furtado chama de ―vanguarda‖ da economia cafeeira. Retomemos sua comparação entre as classes dirigentes formadas pela economia do açúcar e do café.

A primeira tendia a manter-se restrita à esfera da produção, uma vez que, na época de sua formação, o comércio de açúcar era monopólio de grupos portugueses e holandeses e depois passaria aos ingleses. Em decorrência, faltou a esses homens a perspectiva de conjunto da economia açucareira, já que as decisões importantes estavam associadas ao comércio. Isolados, esses dirigentes não puderam desenvolver uma consciência clara de seus próprios interesses e, nas palavras de Furtado:

Com o tempo, foram perdendo sua verdadeira função econômica, e as tarefas diretivas passaram a constituir simples rotina executada por feitores e outros empregados. Compreende-se, portanto, que os antigos empresários hajam involuído numa classe de rentistas ociosos, fechados num pequeno ambiente

rural, cuja expressão final será o patriarca bonachão que tanto espaço ocupa

nos ensaios dos sociólogos nordestinos do século XX. (FURTADO, 1972, p. 115, grifo nosso).

A classe dirigente cafeeira, por sua vez, teve sua vanguarda formada por homens com experiência comercial. Os interesses da produção e do comércio estavam entrelaçados. A produção se desenvolveu em uma frente ampla: aquisição de terras, recrutamento de mão-de- obra, organização e direção da produção, transporte interno, comercialização nos portos, contatos oficiais, interferência na política financeira e econômica. Furtado propõe que

não é o fato de que hajam controlado o governo o que singulariza os homens do café. E sim que hajam utilizado esse controle para alcançar objetivos perfeitamente definidos de uma política. É por essa consciência clara de seus próprios interesses que eles se diferenciam de outros grupos dominantes anteriores e contemporâneos. (FURTADO, 1972, p. 116)

A visão de Caio Prado Jr. vai ao encontro da de Furtado, e especifica um pouco qual fração da burguesia cafeeira será o principal agente da modernização. Seus agentes são a parte ―progressista‖ da burguesia, ávida de reformas e cujos interesses ―estreitamente se vinculavam à transformação econômica do país‖. Entre esses agentes estão ―principalmente o comércio, a ‗finança‘ (...) os detentores do capital móvel‖, que são os ―promotores diretos‖ da modernização, que vivem o período consecutivo a 1850, ―um destes em que as fortunas se fazem num abrir e fechar de olhos‖ (PRADO, 1969, p. 83). A essa fração se opunham principalmente os ―proprietários rurais cuja economia assentava no trabalho servil naturalmente abalado pela supressão do tráfico‖. E conclui dizendo que a linha política do Império se dá no sentido contínuo de desenvolvimento do elemento progressista, ou seja, na desagregação deste grupo em benefício do primeiro (PRADO, 1969, p. 85-6).

Na obra de Machado temos outro exemplo dessa fração progressista da burguesia, na área das finanças: Santos, capitalista e diretor de banco, personagem de Esaú e Jacó. De origem modesta, foi para o Rio de Janeiro ―por ocasião da febre das ações (1855)‖ e, segundo o narrador, revelou ―grandes qualidades para ganhar dinheiro depressa. Ganhou muito, e fê-lo perder a outros‖ (Cap. 4). Segundo Dirce Cortes Riedel, no período entre 1850 e 1855, houve grande facilidade de crédito e as ações de bancos e companhias alcançaram grande preço, quando ―houve uma febre de enriquecimento fácil e rápido. A compra e venda de ações fez muitos ricos e empobreceu outros‖ (RIEDEL, 2006, p. 23). Exemplo de riqueza que se faz num abrir e fechar de olhos, Santos se casou com Natividade; conta-nos o narrador que ―a Fortuna os abençoou com a riqueza. Anos depois tinham eles uma casa nobre, carruagem, cavalos e relações novas e distintas‖ (Cap. 4). Santos, ao sonhar com o futuro do filho, ainda em gestação, enfiava nele ―uma beca de advogado‖, dava-lhe ―um lugar no parlamento, outro

no ministério‖, sem esquecer o principal: ―também lhe ensinava a enriquecer depressa‖, sem negligenciar a necessidade de providenciar-lhe algum capital inicial: ―ajudá-lo-ia começando por uma caderneta na Caixa Econômica, desde o dia em que nascesse até os vinte e um anos‖ (Cap. 6). Natividade é quatro anos mais velha que Capitu e seu casamento com Santos ocorreu em 1859, seis anos antes do enlace dos protagonistas de Dom Casmurro. São da mesma geração, vivem na mesma cidade, fazem parte da elite, poderiam frequentar-se, caso não figurassem em frações opostas dessa elite. Natividade ia a ―bailes e festas‖, andava ―na alta-roda do tempo‖, ―carteava-se com grandes damas, era familiar de muitas, tuteava algumas‖ tinha não só a casa em Botafogo,

mas também outra em Petrópolis; nem só carro, mas também camarote no Teatro Lírico, não contando os bailes do Cassino Fluminense, os das amigas e os seus; todo o repertório, em suma, da vida elegante. Era nomeada nas gazetas, pertencia àquela dúzia de nomes planetários que figuram no meio da plebe das estrelas. O marido era capitalista e diretor de um banco. (Cap. 6). Eis o casal que participava ativamente, na condição de ―nome planetário‖ do dinamismo social sintetizado por Machado em parágrafo anteriormente referido e que foi posteriormente excluído de Dom Casmurro. Bailes, teatros, vida festiva, o Cassino Fluminense, as óperas do Teatro Lírico, o dinheiro que abundava: elementos literalmente citados naquele trecho figuram também na descrição da relevância social de Natividade e Santos. Enquanto isso, Glória mantém seu capital engessado em casas e escravos de aluguel, e Bento e Capitu, embora frequentem bailes e teatro, têm uma vida social mais restrita:

A nossa vida era mais ou menos plácida. Quando não estávamos com a família ou com amigos, ou se não íamos a algum espetáculo ou serão