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Na França, os processos de industrialização e de urbanização só ocorreriam na segunda metade do século XIX. Os efeitos seriam os mesmos que na Inglaterra: a miséria, o desemprego e a exploração dos trabalhadores. Nem a Revolução de 1789, nem o império e o código civil de Napoleão conseguiram melhorar as condições de vida da população.

Em 1848, Paris vive um novo levante popular. O povo vai às ruas para exigir o fim da corrupção administrativa, liberdade de imprensa e trabalho para todos. Surgem inúmeros jornais favoráveis à causa dos trabalhadores. Muitos destes jornais, como o Semeur e o Organizateur, sustentavam uma nova linha política: o socialismo, inspirado nas idéias de Robert Owen (1771-1858), de Charles Fourier (1772-1837) e de Saint-Simon (1760-1825). Estes jornais parisienses inspiraram a organização dos trabalhadores na busca de seus direitos. 157 A partir das experiências de Owen em suas fábricas na Inglaterra e

nos Estados Unidos e da Revolução francesa de 1848, os operários começaram a organizar seus sindicatos. Este movimento de organização dos trabalhadores instigou operários de outros países da Europa.

É nesse contexto que surge a palavra solidariedade como incentivo à união dos trabalhadores para reivindicar mais empregos e melhores salários. Um dos primeiros autores socialistas a usar o termo solidariedade foi Pierre Proudhon:

Organizar o crédito, para o socialismo, não é emprestar a juros, visto que isto sempre seria reconhecer a soberania do capital; é organizar a solidariedade dos trabalhadores entre eles, é criar sua garantia mútua, segundo este princípio de economia vulgar de que tudo que tem um valor de troca pode ser um objeto de troca, pode, por conseguinte, dar matéria a crédito. 158

Para Proudhon, a organização dos trabalhadores, baseada na solidariedade, ou seja, na semelhança de objetivos e na dependência mútua criada pela divisão do trabalho, seria o princípio do anarquismo. Com esta solidariedade, não seria necessário esperar do Estado qualquer forma de caridade, como a doação de dinheiro ou a criação de abrigos aos indigentes. Unidos, os trabalhadores poderiam criar cooperativas auto-suficientes, que não visassem apenas o lucro a partir da exploração da mão-de-obra.

O pensamento de Proudhon é um arquétipo representativo dessa idéia de justiça social, verbis:

Nem comunidade então: nós temos hábitos demais de independência, de personalidade, de responsabilidade, de crítica, de revolta (...) nem liberdade ilimitada: nós temos demais interesses solidários, demais coisas comuns, demais necessidade uns em relação a outros do recurso ao Estado (...) Só a justiça, cada vez mais explícita, sábia, severa: eis o que pede a situação, o que demandava a voz de toda a humanidade.” (...)

“A condição social não pode ser para o indivíduo uma dimensão de sua dignidade, ela só pode ser um aumento de sua dignidade. É preciso então que a justiça, nome pelo qual nós designamos sobretudo essa parte da moral que caracteriza o sujeito em sociedade, para tornar-se mais eficaz, seja mais que uma idéia, é preciso que ela seja ao mesmo tempo uma realidade (...) Em duas palavras, uma força de justiça, e não simplesmente uma noção de justiça; força que, aumentando para o indivíduo a dignidade, a seguridade e a felicidade, assegure ao mesmo tempo a ordem social contra as incursões do egoísmo: eis aí o que procura a filosofia, e fora do que não há sociedade.”159

Na teoria da justiça social, tenta-se harmonizar o individual e o coletivo, a liberdade com a solidariedade social. Indubitável é que a justiça social é fundamentada na liberdade. A sociedade, por sua vez, é vista como um meio de felicidade a serviço do indivíduo, mas um meio necessário, uma vez que a ação

158 PROUDHON, A propriedade é um roubo e outros escritos anarquistas, p. 64.

159[43] PROUDHON, De la Justice dans la Révolution et dans l’Église, Oeuvres completes, vol. I., Paris:

Librarie des Sciences Politiques e Sociales, 1930, p. 311 apud FARIAS, José Fernando de Castro. A origem do direito da solidariedade. Rio de Janeiro: Renovar, 1998, p. 59.

dos indivíduos é contrabalançada pela ação dos grupos sociais. É por isso que no equilíbrio entre o indivíduo e o grupo é que se encontra a condição de exercício da liberdade e da justiça.

No dizer expressivo de Maurice Hauriou: “Não há duas justiças nem duas

morais, uma para a coletividade, outra para os indivíduos; só há uma justiça e

uma moral”.160

A justiça social, ao regular as relações do indivíduo com a comunidade, não faz mais do que regular as relações do indivíduo com outros indivíduos, considerados na condição de membros da comunidade.

No tocante à justiça social, o sujeito (indivíduo) é considerado como pessoa humana161 que é membro de uma comunidade específica. Em outras palavras, o homem, na qualidade de pessoa humana, que é considerado como titular de direitos e deveres na ótica da justiça social.

Para os fins dessa teoria, pessoa humana é um ser concreto, individual, racional e social. A pessoa humana é um ser real, isto é, efetivamente existente. De outro lado, a pessoa humana é um ser singular. Ela é um todo em si mesmo, não podendo ser reduzido à mera parte de um todo maior. A pessoa humana é, também, um ser racional, capaz de decidir sobre a própria vida e capaz de conhecer a verdade, por si mesmo. Por fim, a pessoa humana é um ser social, dês que só alcança o completo desenvolvimento vivendo em grupo ou sociedade.

Em suma: o sujeito na justiça social, isto é, aquele a quem é devido algo, é, portanto, a pessoa humana. São-lhe devidos todos os bens necessários para a sua realização nas dimensões concreta, individual, racional e social. Enquanto na justiça comutativa abstrai-se a comunidade162 e, na justiça distributiva, considera-

se o indivíduo no locus específico que ocupa no interior da comunidade. Na justiça social, ele (sujeito) é considerado simplesmente como uma pessoa humana membro da comunidade.

160[44] HAURIOU. Maurice. “Le Droit et L’Allemagne”, in Aux Sources du Droit, le Pouvoir, l’Ordre e la

Liberté. Paris: Librairie Bloud & Gay, 1933, pp. 13-14.

161 A pessoa humana é um conceito que, dentro da tradição ocidental, foi articulado pelo agostinismo e pelo

tomismo a partir das discussões sobre as pessoas divinas da Trindade.