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Das quatro características que compõem os grupos temáticos, as experiências de leitura relatadas por Sérgio Augusto são o recurso mais utilizado, tendo sido identificado em quase todas as colunas que compõem o corpus. Essas experiências se apresentam como um recurso que possibilita ao crítico dialogar com o seu leitor, já que ele expõe como entrou em contato com a obra que é objeto de crítica ou com outras obras do autor criticado, de que forma recebeu essa obra, que impressões elas lhe

causaram. Ele não só relata suas experiências com as obras literárias, como também quaisquer outras experiências que julga pertinentes à análise das obras que sirvam de contexto intelectual para seus posicionamentos. Assim, é estabelecida uma conversa entre leitores: Sérgio Augusto como o leitor experiente, que relata aos demais suas memórias de leitura.

Em "O Vício de Zeno" (25 set. 2010), Sérgio Augusto comenta a obra de Ítalo Svevo, A Consciência de Zeno, que tem como enredo o desafio de um personagem em parar de fumar. Para inserir o leitor em seu ponto de vista, o crítico relata suas impressões acerca da série de TV Mad Men e divide com o leitor sua própria experiência de livrar-se do tabagismo.

Viciei-me em Mad Men. A única coisa que me incomoda na magnífica telessérie retrô da HBO, aqui fora do ar no momento, é o fumacê. Seus personagens, empregados de uma agência de publicidade da Madison Avenue, fumam mais do que Jean-Paul Belmondo nos filmes de Godard. "Fumar é quase obrigatório no escritório", comenta Peggy Olson, novata na agência, com um amigo. Fumava-se muito (e em qualquer lugar) naquele tempo, anos 1960, é verdade, mas não tanto como na agência Sterling Cooper. O hiperbólico tabagismo de Mad Men não é apenas uma afetação expressionista; o desconforto que provoca nos telespectadores tem, a meu ver, um propósito crítico: evitar que sintamos inveja ou nostalgia de uma época em que qualquer ambiente e até pessoas muito chiques e bonitas costumavam feder a cigarro. (...)Quando vejo alguém fumar, faço que nem o escritor Jonathan Franzen e me ponho a imaginar os estragos a que os pirenos e os fenóis submetem as tenras células epiteliais de seus brônquios - e dos meus, se não prender a respiração. Não sou leigo no assunto; faz quase 40 anos que parei de fumar, como se deve parar: de estalo e de uma vez por todas. Foi o melhor presente que dei ao meu corpo e à minha psique. (AUGUSTO, 25 set. 2010, ver ANEXO B)

Além de ser um relato de sua experiência com a temática da obra de Svevo, o trecho também expõe o amplo espectro de referências de Sérgio Augusto, no caso, uma série de TV e os filmes de Jean-Luc Godard. Essa característica das referências do crítico serão mais profundamente exploradas quando forem abordadas suas referências à cultura pop e de massa. Porém, como já se afirmou, os aspectos da crítica de Sérgio Augusto não são estanques, mas se manifestam em conjunto, o que também mostra a

facilidade com que o crítico dialoga com os diferentes tipos de manifestações artísticas para comentar uma dessas modalidades, que é a literatura.

Em "O Edward Hopper da Literatura" (18 dez. 2010), o crítico relata como descobriu o autor John Cheever por meio de sugestões de amigos - no caso, Ivan Lessa e Paulo Francis, também jornalistas, o que expõe um pouco do campo de influências de Sérgio Augusto, que é o jornalismo. O crítico explica que foi resistente ao autor, mas rendeu-se ao ler sua obra e reconheceu seu valor literário.

Demorei a pôr os olhos no pote de ouro de John Cheever. Não por falta de pressão de dois ou três admiradores amigos, sobretudo de Ivan Lessa e Paulo Francis. Vivia então a trocar dicas sobre novos autores americanos com Rubem Fonseca (já leu Burt Blechman? Que tal James Kirkwood?), e por mais que também ele enchesse a bola de Cheever, fui empurrando com a barriga. Passava batido por suas histórias na revista The New Yorker; preconceito gratuito, envergonhado confesso. Imaginava-o um precursor de Sloan Wilson e Grace Metalious, leitura mais fina porém redundante. Há, de fato, muitos "homens de terno cinzento" e cafard suburbano em suas narrativas, mas é outro o diapasão. Em algum ponto de 1973, intrigado com a canonização de Cheever pela crítica e por seus pares (Saul Bellow e John Updike não foram os únicos a considerá-lo "il miglior fabbro" da turma - "ele escreve como com a pena da asa de um anjo", reverenciou o segundo), baixei a guarda e experimentei The World of Apples. A conversão foi imediata, com direito a êxtase e overdose. (AUGUSTO, 18 dez. 2010, ver ANEXO B)

Não apenas sobre suas memórias de leitura, Sérgio Augusto também compartilha com seu leitor suas experiências de vida e como jornalista. Em "E foram todos para Paris" (18 jun. 2011), o crítico relata seu trabalho de percorrer pontos da capital francesa por onde passaram grandes nomes da literatura e das artes. Nesta critica, ele não só compartilha experiências como revela sua predileção pelo tema.

Paris É Uma Festa, as póstumas reminiscências parisienses de Hemingway, foi apenas a cereja de um bolo que não para de crescer, sem contudo saciar nossa voraz curiosidade. Perdi a conta de quantos livros já comprei sobre a "moveable feast" e a romaria que a antecedeu, no século 19 (Benjamin Franklin, Thomas Jefferson, Fenimore Cooper, Henry James, etc.), e em breve teria de abrir espaço na estante para mais um - The Greater Journey: Americans in Paris, de David McCullough, recém-editado pela Simon & Schuster -, se já não o tivesse adquirido em versão digital. Aquelas duas Paris só existem hoje na memória, em especial na memória viva das ruas, nos prédios, hotéis, livrarias, quiosques, bares, cafés, bistrôs e jardins onde os ilustres "expatriés" deixaram suas marcas. Há 22 anos, cismei de

percorrer e fotografar o maior número possível de lugares habitados, frequentados e celebrizados pela Geração Perdida; levantei endereços, montei mapas e roteiros, e fui à luta, com a minha Canon e um caderno de notas. Nunca uma reportagem me deu tanto prazer. Rendeu um caderno de Turismo inteiro da Folha de S. Paulo; daria um livro. Com um pouco de boa vontade e certo preparo físico, é possível perfazer o tour em três dias, dividindo-o em seis etapas, começando, sagesse oblige, pela Rive Gauche. A maior concentração de pontos históricos fica entre o Boulevard Saint-Michel e Montparnasse. (AUGUSTO, 18 jun. 2011, ver ANEXO B)

Ao relatar suas memórias de leitura e utilizá-las de forma a estabelecer um diálogo com o leitor, Sérgio Augusto chega, em alguns casos, a fazer recomendações de como a obra deve ser lida, ou quais pontos devem ter atenção do leitor. Em "Com muito fumo na cuca" (20 nov. 2010), Sérgio Augusto aponta duas formas de se ler Vício Inerente, de Thomas Pynchon, e ainda cita referências desejáveis ao leitor para que este compreenda a obra por completo.

Vício Inerente, sétimo romance de Thomas Pynchon, ontem lançado pela Companhia das Letras, pode ser lido de duas maneiras. A primeira é como uma ficção noir tradicional, por assim dizer, cheia de curvas e desvios, modelo Raymond Chandler, mas cuidando de anotar quem é quem na trama, para não se perder, não se sentir como Philip e Vivian à beira do abismo. O caminho é longo (21 capítulos, 459 páginas; console-se: O Arco-Íris da Gravidade, o calhamaço de Pynchon anteriormente traduzido, tinha 785 páginas), mas vale o percurso se você apreciar o gênero e, sobretudo, se interessar pela contracultura californiana de 40 anos atrás. E, mais ainda, se tiver lido O Leilão do Lote 49 e Vineland. Sim, Vício Inerente arremata uma trilogia. (...)A segunda maneira de se ler o romance é a ideal: curtindo todas as referências e alusões cometidas pelo autor e seus personagens. Tanto melhor se o leitor tiver vivido, visto, lido e ouvido a década de 1960. Intensamente, como Pynchon. (AUGUSTO, 20 nov. 2010, ver ANEXO B)

Dessa mesma forma, o crítico também faz recomendações ao leitor de Liberdade, de Jonathan Franzen, em "Felizes para sempre" (21 mai. 2011)

Reserve um bom tempo para ler Liberdade (Freedom), que na próxima semana chega às livrarias. Como o romance anterior de Jonathan Franzen, As Correções, também traduzido pela Companhia das Letras, é um calhamaço de dimensões tolstoianas (608 páginas, cerca de duas dezenas de personagens), mas que flui como um folhetim. (AUGUSTO, 21 mai. 2011, ver ANEXO B)

Ao fazer essas recomendações ao leitor e apontar formas de como ler as obras comentadas em suas colunas, Sérgio Augusto aproxima-se do estilo dos críticos impressionistas analisados anteriormente. E, conforme coloca Bauman (2010), sua postura é a de crítico legislador, que enquadra as obras literárias em juízos de valor e que ensina aos leitores que não possuem a sua erudição a ler e interpretar as obras literárias.