3.2. TÜRK REKABET HUKUKU MEVZUATINDA ÖNCELİKLENDİRME
3.2.1. İnceleme, Önaraştırma ve Soruşturma Süreçlerinin Başlatılması
Deixara o Sertão e, embora tivesse sofrido, sempre desejei regressar. Tenho um certo prazer em descrever e viajar em novas regiões e esta parte do território que atravessara era desconhecida para qualquer inglês. Pelas sensações pessoalmente sentidas, imagino quanto agradará ao viajante nessas zonas inexploradas o encontro de novidades ao primeiro olhar. Ha ainda neste continente da América do Sul grandes partes a serem percorridas e sempre desejei ardentemente ser o primeiro homem civilizado que fizesse jornada de Pernambuco a Lima.[grifo nosso].105
(...) q’ a distancia passava de centro e trinta legoas, sendo certões indômitos com difficultosos caminhos, habitados, a maior parte, por gentios(...)106. Assim descreveram as autoridades do Conselho Ultramarino ao rei Dom João V, segundo análise feita a partir das informações contidas na correição de 1733 do ouvidor da capitania da Paraíba, Jorge Salter de Mendonça. O rei Dom José I, em carta régia para o governador da capitania de São José do Piauí, João Pereira Caldas, se surpreendeu com a realidade dos habitantes do Piauí, porque viviam...
(...) em grandes distancias huns dos outros sem a communicação como inimigos da sociedade civil e do commercio humano padecendo assim os descômodos e os lugares muito remotos e longínquos de sorte que quando lhes chegam os despachos vem tão tarde que não servindo para o remedeo das queixas lhes trazem sempre a ruína. (...) seguindo se daquella dispersão e separação de famílias enternadas em lugares ermos e dezertos faltaram lhes os estímulos e meyos para se fazerem concluídos na corte (...).107
As narrativas que avaliaram o sertão nordestino, ao longo do antigo regime colonial, descreveram-no numa aura norteada pelo esquecimento, isolamento e desgraça. Nesta última categoria estão inclusas a faina entre as variadas etnias que compuseram o território, violência !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
105 KOSTER, Henry. Viagem ao Nordeste do Brasil. Tradução e notas de Luis Câmara Cascudo. Rio de Janeiro,
Editora Nacional, 1942. p. 202-203.
106 PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_014, Cx.9, D. 727. 107 PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_018, Cx.8, D. 450.
pela posse da terra e a miséria consequente da falta de rendimentos econômicos e, como veremos, pela seca que põe em consternação o sertanejo.
Entre os séculos XVII e XVIII, segundo os manuscritos por nós transcritos e analisados, o olhar do colonizador será muitas vezes pessimista para a paisagem urbana de núcleos sertanejos. Salvo alguns aspectos de cunho econômico e natural: a criação de gado, considerada o elemento motor do desenvolvimento urbano do interior do nordeste, e as espécies vegetais, como o juazeiro e o imbuzeiro, resistentes às intempéries climáticas, ganharam boas críticas dos relatores.
A partir do início do século XIX, quando a caatinga é percorrida por estrangeiros ávidos de conhecimento cientifico, no que tange à sua natureza e sociedade exóticas, aumentam as descrições sobre o hinterland do Nordeste. Através de penosas viagens pelo árido território, o viajante se confrontou com a falta de estradas, insegurança e, principalmente, com o rigor do ambiente. Impressionou-os a força do sertanejo e sua facilidade de adaptação ao meio:
(...) Resignado e tenaz, com a placabilidade superior dos fortes, encara de fito a fatalidade incoercível; e reage. O heroísmo tem nos sertões, para todo o sempre perdidas, tragédias espantosas. Não há de revivê-las ou episodiá- las. Surgem uma luta que ninguém descreve – a insurreição da terra contra o homem. (...)108
O imaginário setecentista persiste com o seu prelúdio e o alvorecer dos Oitocentos? Qual a marca do sertão nordestino que o distingue das outras regiões brasileiras? Em um lugar onde a fronteira109 sócio-cultural quase inexiste, o visitante nos diz muito para efeito de
minimizar preconceitos arraigados, infelizmente, com o passar dos séculos.
Focalizaremos as narrativas dos viajantes dos Oitocentos. Porém, apoiamos a análise de Ângela Domingues:
O conhecimento científico Brasil é anterior ao período da abertura dos portos brasileiros ao comércio e navegação das nações européias. Embora seja inegável a importância e a novidade trazidas pela obra de John Mawe,
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108 CUNHA, Euclides da. Os sertões..., Opus cit., p. 168.
109 Bons comentários sobre a metáfora da fronteira nos sertões do Brasil colonial podem ser encontrados no
artigo de RUSSEL-WOOD, A.J.R. “Fronteiras no Brasil colonial”. In Oceanos. nº 40, Outubro/Dezembro. Lisboa, Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos de Portugueses, 1999. p. 10 – 20.
Thomas Lindley, Henry Koster, Maximiliano de Wied-Neuwied ou Barão de Eschwege, há que considerar que o Brasil tornou-se mais conhecido dos europeus dos Setecentos graças aos roteiros, diários de viagens, mapas e vistas de marinheiros, traficantes, corsários e piratas que percorreram o litoral brasileiro durante o século XVIII.110
Entre os principais estrangeiros que escreveram sobre as paisagens natural e cultural do sertão nordestino estão Henry Koster111, natural de Lisboa e filho de pai inglês. Aportou em Recife no ano de 1809, donde viajou para os atuais estados do Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba e Ceará. O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied112 viajou pelo Brasil entre 1817 e 1819. Dele há interessantes anotações e ilustrações sobre o interior baiano. Os alemães Spix e von Martius113 que, além de dados estritamente relacionados ao meio ambiente do lugar investigado, escreveram sobre a economia e sociedade sertanejas. Também cruzou os áridos sertões outro germânico, Robert Ave- Lallemant114, as referências deste estrangeiro são válidas para as narrativas acerca do rio São Francisco. Por fim, temos o médico e naturalista inglês George Gardner115, indo pelos interiores do Ceará, Piauí, Alagoas e Sergipe entre os anos de 1838 – 1841. Suas notas sobre as atuais cidades de Oeiras (PI), Parnaguá (PI), Jaicós (PI), Crato (CE), Icó (CE), Jardim (CE), Russas (CE), entre outras, nos dão um quadro da urbanização no tempo de suas visitas.
Os discursos caracterizam o cotidiano e a cultura da população; a economia (ou as economias) dominante na época;116 a paisagem urbana com seus múltiplos aspectos: casario, templos religiosos, edificações oficiais e morfologia urbana; a fauna, flora e o relevo característicos da caatinga nordestina; as relações de poder exercidas pelos fazendeiros de
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110 DOMINGUES, Ângela. “O Brasil no relato dos viajantes ingleses do século XVIII: produção de discursos
sobre o Novo Mundo.” In Revista Brasileira de História. V. 28. Nº 55. São Paulo, 2008. p. 133.
111 KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Tradução e notas de Câmara Cascudo. Rio de Janeiro,
Editora Nacional, 1942.
112 WIED-NEUWIED, Maximiliano. Viagem ao Brasil. São Paulo, Edusp 1989. 536 p.
113 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil: 1817 – 1820. 3 v. São Paulo, Edusp, 1981.
114 AVE-LALLEMANT, Robert. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco e Sergipe. São Paulo, Edusp,
1980. 347 p.
115 GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil. São Paulo, Edusp, 1975.
116 Para fins de adaptação ao tema geratriz desta dissertação, enfatizaremos as especificidades da pecuária
sertaneja no desenvolvimento territorial e urbano do sertão nordestino; assunto muito debatido pelos viajantes estrangeiros. Marginalmente e, pela carência de informações obtidas, indicaremos outras economias. É o caso da cultura algodoeira que sobrepôs a pecuária já no fim dos Setecentos e a extração da cana – de – açúcar, para a produção da rapadura e aguardente, em engenhos especializados no vale do Cariri cearense.
gado, os quais, a posteriori, tornar-se-ão os coronéis do sertão, cuja literatura é rica em citá- los.117
Múltiplas especificidades compõem a paisagem sertaneja, o que ensejariam muitas páginas desta dissertação, cujo foco remete à outra particularidade. Por isso, atemo-nos em (des)escrever sucintamente as características acima detalhadas, apoiados no pensamento dos viajantes, com intuito de apresentar um panorama geral desse olhar estrangeiro.
Sentido, experimentando, tomando notas e descrevendo a caatinga do Nordeste brasileiro [figura 28], os viajantes em companhia de suas tropas, formadas geralmente por escravos carregadores e guias que orientavam o deslocamento, admiraram o mix existente na paisagem daquele território. Chocam-se com terras semi-desérticas, sobressaindo o verde das cactáceas como o mandacarú [figura 29] e a palma, alimentos certos para o pobre sertanejo em tempos de estiagem.118 Ora se alegram por adentrar em áreas arborizadas, de clima ameno,
resquícios de uma mata perdida e não agredida pelos homens de outrora. O vale do Cariri cearense, localizado ao sul do atual estado do Ceará e ao sopé da chapada do Araripe [figura 30], é um bom exemplo no que compete à existência deste meio dual. Chegando por volta do ano de 1838 a este vale, o botânico inglês, Geoge Gardner, sentiu que era...
Impossível descrever o deleite que senti ao entrar neste distrito (Crato – CE), comparativamente rico e risonho, depois de marchar mais de trezentas milhas através de uma região que naquela estação era pouco melhor que um deserto. A tarde era das mais belas que me lembra ter visto, com o sol a sumir-se em grande esplendor por trás da Serra do Araripe, longa cadeia de montanhas a cerca de uma légua para o oeste da vila; e o frescor da região parece tirar aos seus raios o ardor que pouco antes do poente é tão opressivo ao viajante nas terras baixas.119
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117 Euclides da Cunha (Os sertões); Guimarães Rosa (Grandes sertões veredas); José de Alencar (O sertanejo);
Raquel de Queiroz (O Quinze).
118 CASTRO, Josué. Geografia da fome. 6 ed. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006. p. 155 – 246.
Sobre estes alimentos elaborados com a vegetação local, Spiz e Martius, argumentam que durante as estiagens, o sertanejo se vê desesperado pela circunstancial falta de alimentos. Dizem: (...) os moradores, pela absoluta falta
de mantimentos, conseqüência da esterilidade do tempo seco, eram obrigados a preparar, com a medula do caule da palmeia aricuri, uma espécie de broa, que não é mais rica em substancia nutritiva do que o pão dos normandos, feito com a casca de pinheiros. (...) Pode-se facilmente imaginar como devem ser indigestas e pobre em matéria alimentícia essas miseráveis broas, de gosto amargo. Ver SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 376.
Figura 28 – Caatinga do sertão nordestino em tempos de estiagem. Imagem disponível em http://www.ibge.gov.br. Acesso em 11.03.2009.
Figura 29 – Mandacarú. Foto do autor, 2010.
Figura 30 – Caatinga nordestina em tempos de chuva. Ao fundo a “muralha” da chapada do Araripe que impressionou o inglês George Gardner. Imagem autor, 2011.
Spix e Martius partiram da vila da Cachoeira, instalada no Recôncavo Baiano, com destino à cidade de Oerias do Piauí. Depararam-se com a metamorfose da paisagem natural sertaneja após o cair das chuvas:
(...) pois na seca perdem as folhas, e só se revestem de novo à entrada da estação das chuvas. (...) O brotar das folhas é, por isso, maravilhoso, pois, logo que chove, ele, no mais curto espaço de tempo, se faz como por encanto. Dessa singularidade da vegetação das catingas pudemos freqüentemente convencer-nos, porquanto no meio do sertão árido, onde todas as plantas estavam sem folhas, avistávamos trechos de mata e campina, que ostentavam o mais lindo verde primaveril.120
Maquiando cerca de seis meses no ano e quando há fartura de chuvas, o verde da caatinga esmiúça-se, dando lugar ao monótono tom de cinza, capaz de afugentar o viajante. Robert Ave-Lallemant, após sua decisão de visitar a cachoeira de Paulo Afonso, localizada no médio rio São Francisco, foi realista ao citar:
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(...) Quem com sonhos europeus da vegetação nas margens dum rio tropical sul-americano sobe o rio São Francisco, e da vila de Pão de Açúcar penetra um pouco na caatinga, nao poderá confiar nos seus olhos, quando em lugar de esplendor sonhado, contempla uma terra, cuja inospitalidade (sic.) e desolação realmente amedrontam. 121
As causas para tal mudança na paisagem sertaneja, segundo o sobredito autor alemão, deve-se à seca. Para ele, sendo o sertão nordestino um lugar de perigos inesperados, todos eles se tornam pequenos,
(...) comparados a outro mais comum, para homens e animais. Acontece freqüentemente que por muitos meses, por toda a metade dum ano, não chove. A caatinga seca, desaparece o verde, cresta-se o ultimo pé de camará; o gado esfomeado e sedento, erra emagrecido dum lado para outro nas campinas, onde a relva esturricou, e onde toda a fonte de vida parece estancada.122
Os efeitos da seca são rigorosos para o cotidiano sertanejo. Levando-os de sua vida pobre, vivida por muitos e vivenciada hoje por milhares, para uma vida de miséria. A água para consumo torna-se rara. Tesouro reservado e acumulados em cacimbas.123
Sentindo a estiagem, Spix e Martius viram episódios dignos de nota. Penetrando o sertão baiano em direção ao rio São Francisco, os alemães toparam com alguns moradores, ansiosamente ocupado em colher água das cavidades formadas, na base das folhas de ananás silvestres. Essa água, embora contaminada por insetos e ovas de rãs, era uma delícia para estes desgraçados sertanejos.124 Muitas das vezes, a reação do homem do sertão não é amistosa nem, tampouco, hospitaleira para os sedentos germânicos. Ao chegar no pequeno arraial de Coité, encontraram uma fonte de água onde estavam reunidas mais de trinta pessoas para abastecerem suas cuias com o líquido. Ato controlado pelo juiz local e por homens que traziam fuzis para, em caso de necessidade, fazerem valer os direitos dos seus (...) a água aqui é só para nós, e não para inglês vagabundo.125
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121 AVE-LALLEMANT, Robert. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco e Sergipe..., Opus cit., p. 310. 122 AVE-LALLEMANT, Robert. Viagens pelas províncias da Bahia, Pernambuco e Sergipe..., Opus cit., p. 314. 123 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 367.
124 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 367. 125 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 368.
As consequências da seca não se limitam à falta e procura de água. Ocorre um sensível despovoamento de certas áreas e aumento, como se espera, de outros lugares menos atingidos. Uma migração regular, espécie de diáspora, cujos resultados são povoações desabitadas, com aspectos fantasmagóricos,126 e aumento do preço dos alimentos para consumo. Henry Koster, em sua viagem de Pernambuco ao Ceará, analisou:
Na minha viagem de Goiana ao Ceará, tinha visto Pernambuco, e províncias vizinhas ao norte, em situação péssima por uma estação sem chuvas, mas a extrema penúria é produzida por dois anos, sucessivos, de estio. Durante o segundo ano os moradores morriam ao longo das estradas. Famílias inteiras se extinguiram. Vários distritos se despovoaram. A região esteve neste estado terrível em 1791, 1792, 1793, pois esses anos passaram sem que as chuvas fossem suficientes. Em 1810 podia-se procurar viveres, embora por preços exorbitantes (...)127
Xiquexique, mucunã Raiz de imbu e cole Feijão brabo, catolé Macambira, imbiratã Do pau-pedra e caimã A perreira e o murão Maniçoba e gordião Comendo isso todo o dia Incha a causa da hidropisia
Foge, povo do sertão!128[grifo nosso].
Santo Antônio das Queimadas, atual Queimadas (BA), núcleo do sertão baiano, contava com seiscentos habitantes no termo de sua paróquia. Durante três anos de secura, sofria os resultados da aridez, levando os habitantes a uma forçada emigração129. O milho, que nós até então havíamos encontrado nas fazendas, não se obtinha aqui senão a preços exorbitantes, de modo que, havendo com felicidade escapado da seca, tínhamos agora que temer a fome, assinalaram Spix e Martius.130
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126 No sertão dos Inhamuns, atual estado do Ceará, o aglomerado de Cococi está despovoado pelas secas
persistentes. Hoje, abriga o vazio como elemento característico de sua paisagem urbana.
127 KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil..., Opus cit., p. 179.
128 NOGUEIRA, Bernardino apud CASTRO, Josué. Geografia da fome..., Opus cit., p. 203. 129 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 371.
Figura 31 – Secca de 1877-1878 (Ceará). Foto de J. A. Corrêa. Disponível em http://www.bn.br. Acesso em 12.03.2010.
No Ceará as condições climáticas foram semelhantes. Para o médico George Gardner:
Toda a província é sujeita por vezes a prolongadas secas, a última ocorrida no ano de 1825, durante a qual absolutamente não choveu. Grande foi o sofrimento resultante desta calamidade, de que o povo fala com supremo horror. Extinguiram-se gado e cavalos e a perda de vidas humanas na província avalia-se em trinta mil habitantes. Gente sem conta pereceu quando procurava chegar à costa; animais selvagens e domésticos sucumbiram por falta de água e alimento.131
Em virtude desse agravante climático, Robert Ave-Lallemant percebeu que o seu projeto de visitar o sertão seria algo impossível, pois uma seca de sete meses destruíra realmente tudo o que era mortal no sertão. Quase todo o gado morrera por falta de pasto e água para beber132. Visualmente, podemos exemplificar o flagelo da estiagem com a triste imagem da figura 31 (tomada entre 1877 – 1878 pelo fotografo, J.A. Corrêa) retirada do site da Fundação da Biblioteca Nacional.
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131 GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil..., Opus cit., p. 82.
A inexistência da seca traria para a população interiorana uma vida distinta. Como comprovou a pesquisa de Josué de Castro sobre o assunto. Segundo este médico pernambucano, fora das quadras das dolorosas secas, vive esta gente em perfeito equilíbrio alimentar, num estado de nutrição bastante satisfatório (...) se o sertão do Nordeste não tivesse exposto à fatalidade climática das secas, talvez não figurasse entre as áreas de fome do continente americano.133
Entretanto, os viajantes não fixaram os seus olhos somente nas desventuras e infelicidades do sertanejo. Antes, o seu cotidiano e a sociedade, foram sensivelmente descritos, auxiliando-nos em nossas constatações sobre a urbanização do sertão nordestino, ocorrida entre os séculos XVII e XIX.
A sociedade pastoril, instalada nas fazendas de criar, era formada, basicamente, pela figura do fazendeiro de gado e seus familiares, quando estes não estavam ausentes134.
Situação percebida por Gardner em sua viagem do Crato (CE) à capital da província do Piauí, Oeiras. Após pousar na fazenda Curumatá, o médico inglês notou que o dono da fazenda não reside nela, mas deixa-a a cargo de um vaqueiro135. Von Martius e von Spix disseram que há muitos pequenos criadores de gado no sertão nordestino, ricos são poucos grandes fazendeiros, em cujas propriedades se estabeleceram agregados, e dominam a indústria de todo o distrito.136 O fazendeiro era homem de negócio e, desse modo, conjugou o lucro obtido com a pecuária, exercida no interior, com a plantação da cana-de-açúcar litorânea. Esse mercado o tornava morador dos núcleos litorâneos, porém, nas épocas de chuva, residia em sua estância sertaneja. Henry Koster testemunhou que alguns donos vivem em suas terras mas
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133 CASTRO, Josué. CASTRO, Josué. Geografia da fome..., Opus cit., p. 158.
Como veremos a dieta alimentar do sertanejo é regrada por boas doses de proteínas, derivadas da carne bovina, caprina e leite. Junta-se a isso à quantidade de carboidrato adquirido no feijão, milho e mandioca colhidos por eles em suas roças. Como afirma Josué de Castro: É a alimentação bem servida de proteínas que dá ao sertanejo
essa resistência um tanto impressionante para os habitantes de outras zonas do país. Na carne do bode, no leite e no queijo do sertão estão em boa parte as justificativas biológicas que respaldam a hoje famosa frase de Euclides da Cunha, que ‘o sertanejo é, antes de tudo, um forte’. Realmente, só um povo forte pode “exibir esta tenacidade, esta resistência surpreendente às fadigas e às vicissitudes mais exacerbadoras, esta disposição incansável ao trabalho, esta constituição férrea que o torna sobranceiro às intempéries, aos reveses, às endemias, e o leva freqüentemente a cometimentos titânicos.” Ver CASTRO, Josué. CASTRO, Josué. Geografia da fome..., Opus cit., p. 190.
134 No que se refere a esta temática e na opinião de Luiz Roberto Mott, sérios estudiosos (Euclides da Cunha,
Caio Prado Jr., Mauricio Vinhas, José Roberto Macedo, entre outros) afirmaram que, as fazendas de gado do Nordeste colonial brasileiro, apresentavam um auto grau de absenteísmo por parte dos seus donos, donde cujos viviam, preferencialmente, no litoral. Todavia, Mott em seu estudo sobre a capitania do Piauí colonial percebeu que o absenteísmo foi decaindo com o passar dos anos, chegando a ser mínimo em 1818. Estes resultados e sua respectiva tabela podem ser vistos em MOTT, Luiz Roberto B. Piauí colonial: população, economia e
sociedade. Teresina, Projeto Petrônio Portella, 1985. p. 95 – 101.
135 GARDNER, George. Viagem ao interior do Brasil..., Opus cit., p. 115. 136 SPIX, J.B Von; MARTIUS, C.P.F. Viagem pelo Brasil..., Opus cit., p. 400.
a maioria das fazendas que visitei, é propriedade de homens de ampla prosperidade e que residem nas cidades litorâneas onde são igualmente plantadores de cana de açúcar.137
Alguns grandes criadores de gado chegaram ao ponto de não obedecer as ordens reais, tampouco dos oficiais regulamentados pela Coroa. Koster argumentou essa atitude citando a família Feitoza, residente do interior cearense. Quando o clã esteve chefiado por