2.2. ÜLKE VE ÜLKE TOPLULUĞU UYGULAMALARI
2.2.2. DİĞER ÖRNEKLER
2.2.2.4. Güney Afrika
94 PROJETO RESGATE. AHU_ACL_N_MARANHÃO, D. 957.Infelizmente, não conseguimos encontrar o
referido mapa em nossas pesquisas pelas instituições sobreditas. Cremos que a transcrição de parte deste manuscrito revele o valor da cartografia na conquista dos sertões nordestinos.c
A existência de gentios bravios e guerreiros, os Tapuias, a sudeste da capitania do Piauí, fez desta parte do interior piauiense uma área pouco habitada. A indicação de Terras não Descobertas nos leva a esta hipótese. Alusão que pode ser confirmada na carta do engenheiro militar, João Antonio Galucio, enviado para aquela capitania após a sua criação, em 1758.
O desenho legado por Galucio [figura 23] identifica a nação dos Pimenteiras como habitantes da região sudeste do Piauí colonial. Esta nação de índios hostilizou os moradores portugueses e seus escravos, por intermédio de seqüestros, roubos e assassinatos, afugentado- os de suas fazendas de gado.
Figura 22 – Mappa Geographico da Capitania do Piauhy e parte das do gram Pará e Maranhão. Cartografia original do Arquivo Histórico do Exército Brasileiro – AHEx – RJ.
Relatando os métodos usados para a produção da carta (da Capitania de São José do Piauí – figura 23) ao secretário de estado da Marinha e Ultramar, Francisco Xavier de Mendonça Furtado, o engenheiro Galucio escreveu:
(...) Parti daquella Capitania para o Piauhy já na idea de entreprender (sic) desde logo a construção do Mapa Geográfico deste Capitania, por cujo respeyto foy arrumado o Rio Itapicuru, e todo o caminho de terra que me conduzio athé esta Villa, observando miudamente os rumos das estradas, medindo suas distancias, e tomando frequentemente as alturas para latitude, e fazendo todas as observações de longitude que me foy possível (...)
No fim do anno passado (1759) foy para o Norte da Capitania; e logo no principio deste ao Sul athé Parnaguá, nao obstante o tempo das chuvas e a infestação do Gentio. Despoes da Páscoa foy para a parte Nascente, de donde atravessando as cabeceiras de muitos rios por caminhos nao practicados, e subindo o Rio Canindé, e descendo o Rio Piauhy acabei de adquirir todos os elementos precizos para a construção do Mapa Geográfico de toda a Capitania, o qual logo entrei a por em medida, e arrumar, e a reduzir três vezes, nao obstante huã grave doença adquirida na derradeira viagem, e finalmente delinei (sic) em limpo dois exemplares, que entregeuei ao Ilmo. Sr. Gov. Desta Capitania, para serem remetidas como entendo, nesta frota para V. Exa.
Nao ha duvida, que eu fuy sempre neste exerciço de minha obrigação, e principalmente quando me via cercado das mayores difficuldades, e mettido nos mais evidentes perigos, que fuy sempre allentado pella esperança, e fé certa de ver premiada a boa vontade, com que me empregava no serviço de Sua Magestade (...)95 [grifo nosso].
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Figura 24 – Oyeras do Piauhi. De autor desconhecido. Imagem encontrada no CD – ROM Vilas e imagens do Brasil colonial.
Galucio, assim como outros engenheiros militares96 estabelecidos no sertão nordestino, fizeram parte de um amplo projeto político, cuja figura chave é o conde de Oeiras. Coube ao seu comando medidas eficientes para centralizar as funções administrativas da colônia na mão de seus funcionários97. Além do mais, os planos de organização urbana, através das normas estabelecidas em cartas régias para a fundação das novas vilas e cidade do interior do Nordeste, trouxeram uma nova amostragem daquele território. Ainda prevaleciam as cartas geográficas delimitando as fronteiras entre as capitanias. Todavia, com o olhar do engenheiro militar, os núcleos sertanejos são vistos, dessa fez, de frente.98 Assim é
apresentada a planta da cidade de Oeiras (PI) [figura 24], elevada a esta condição pelo rei Dom José I, por carta régia de 1761.
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96 No Registro dos Autos da erecção da real villa de Monte-mór o Novo da America, atual Baturité (CE), é
citado a presença de Custódio Francisco de Azevedo, engenheiro de profissão e morador na Serra dos Coquos
d’esta capitania, que para a dita demarcação mandou convocar, e como tivesse vindo para a mesma demarcação, lhe ordenou trouxesse o instrumento chamado prancheta ou circulo dimensório. Ver “REGISTRO
dos autos de erecção da real villa de Monte-Mór o Novo da América, na capitania do Ceará Grande. In Revista
do Instituto do Ceará. Tomo V. Fortaleza, 1891.
Há transcrição destes mesmos autos em SANTOS, Paulo F. Formação de cidades no Brasil colonial. Rio de Janeiro, Editora da UFRJ, 2001. p. 54 – 57.
97 DELSON, Roberta Marx. Novas vilas para o Brasil-Colônia: planejamento espacial e social no século XVIII.
Brasília, Alva-Ciord, 1997. p. 49.
O olhar do desenhista que esboçou a paisagem da cidade de Oeiras do Piauí mirou de frente, para as fachadas das principais edificações, para o casario humilde, tendo relevo as construções de cunho religioso.99 A igreja matriz do município, dedicada à Nossa Senhora da Vitória, está locada quase que no epicentro da povoação. À direita do observador, notamos a atual igreja de Nossa Senhora do Rosário, que nos idos da construção de seus alicerces, por volta de 1732100, fora projetada para abrigar o hospício da Companhia de Jesus daquela capitania. Após a expulsão dos jesuítas do Brasil, o hospício passou a ser administrado pela Irmandade do Rosário dos Homens Pretos101. Já à nossa esquerda, situamos a igreja de Nossa
Senhora da Conceição. Junto desse templo, há o seu adro e o açougue da cidade.
Destacam-se na imagem da figura 24 as construções religiosas, porque segundo Murillo Marx...
(...) As principais referências dos núcleos lusitanos na América são os templos e os claustros, constituindo os elementos dominantes retratados ao longo dos séculos. É que por razões econômico-socioculturais, por determinações institucionais e, de maneira menos declarada, também considerações militares, essas construções empatam no geral a maior soma de investimentos. E merecem, por isso, os pontos privilegiados (...)102
Determinações institucionais referidas por Marx incluem a atuação da Igreja Católica na formação da paisagem urbana de nossos aglomerados. As Constituições Primeyras do Arcebispado da Bahia103 são um conjunto de leis eclesiásticas que interferiu na sociabilidade !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
99 MARX, Murillo. “Olhando por cima e de frente”..., Opus cit., p. 174. 100 PROJETO RESGATE. AHU_ACL_CU_016, Cx.2, D. 75.
101 CARVALHO Jr., Dagoberto Ferreira de. Passeio a Oeiras. 6 ed. Teresina, Fundação Cultural do Piauí, 2010.
p. 115 – 116.
102 MARX, Murillo. “Olhando por cima e de frente”..., Opus cit., p. 174.
103 O quarto livro destas constituições, sob o titulo 17 (687) indica-nos: “Conforme o direito Canônico, as igrejas
se devem fundar, e edificar em lugares decentes, e acommodados, pelo que mandamos, que havendo-se de edificar de novo alguma igreja parochial em nosso Arcebispado, se edifique em sitio alto, e lugar decente, livre da humanidade, e desviado, quanto for possível, de lugares immundos, e sórdidos, e de casas particulares, e de outras paredes, em distancia que possão andar as Procissões ao redor dellas, e que se faça em tal proporção, que não somente seja capaz dos freguezes todos, mas ainda de mais gente de fora, quando concorrer as festas, e se edifique em lugar povoado, onde estiver o maior numero de freguezes. E quando se houver de fazer, será com licença nossa: e feita vestoria, iremos primeiro, ou outra pessoa de nosso mando, levantar Cruz no lugar, aonde houver de estar a Capella maior, e demarcará o âmbito da Igreja, e adro della. Ver CONSTITUIÇÕES Primeyras
do Acerbispado da Bahia feitas, e ordenadas pelo ilustríssimo, e reverendíssimo sernhor D. Sebastião Monteiro
Figura 25 – Mapa Geographico da Capitania do Seará. Disponivel em
http://www.bn.br. Acesso em 03.02.2010.
dos cidadãos brasileiros, tendo reflexos no desenho dos núcleos coloniais, inclusive àqueles instalados muito além do litoral.
Agindo sobre o território, a Igreja por intermédio das missões religiosas e, a posteriori, através das freguesias, equacionou a urbanização do sertão nordestino. As cartografias pesquisadas mostram a influência das paróquias no povoamento do território. Esse fenômeno é representado no Mapa Geographico da Capitania do Seará [figura 25], delineado em 1800 pelo visitador Marianno Gregório do Amaral, cujo original está na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, setor das cartografias.
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Diocesano, que o dito senhor celebrou em 12 de junho do anno de 1707. Introdução e revisão do cônego prebendano Idelfonso Xavier Ferreira. São Paulo, Typ. 2 de dezembro, 1853. 510p.
Figura 26 – Pormenor do Mapa Geographico da Capitania do Seará. Criada pelo visitador, Marianno Gregório do Amaral, em 1800. Fotografia do autor sobre original encontrado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, setor Cartografia. Data da foto: 26.10.2010.
Em virtude da dimensão do desenho da figura 25, para certificar as assertivas sobreditas, é necessário aumentar o zoom em algum ponto do mapa [figura 26]. Analisando a ampliação da área eleita, verificamos a demarcação, em linha pontilhada, dos respectivos termos das paróquias. Percebemos a hierarquia estabelecida pela rede urbana da capitania do Ceará: indicações de vilas (Icó e Crato), freguesias (São Matheus, Riacho do Sangue e Missão Velha), capelas curadas ou visitadas (por exemplo no termo da vila Real do Crato encontramos a capela de Santa Ana; já no da vila de Icó são apontadas as capelas do Bom Fim e Lavras da Mangabeira). Atenção deve ser dada à localização desses aglomerados. Em sua grande maioria situados à margem de um curso d’água, seja rio ou riacho. Fator decisivo para a sobrevivência dos moradores sertanejos, diante dos longos períodos de seca que assolam a região.104
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104 A seca, como um fator climatológico preponderante no sertão nordestino, deve ser analisada com maior
cuidado, pois, este fenômeno deve ser atribuído como um índice de urbanização desta extensa área. Devido à seca vilas e povoados foram abandonados, provocando um déficit populacional. Entretanto, outros núcleos urbanos, devido à maior incidência de chuvas em sua região, passam a concentrar um maior número de habitantes migrados para o seu termo.
Figura 27 – Mapa da região compreendida entre o rio Amazonas e São Paulo,
1722. Cartografia com escala indeterminada. Disponível em http://www.bn.br.
Acesso em 14.07.2010.
Tocos desenhos, quem sabe um rascunho de um cartógrafo [figura 27], de bandeirantes ou sertanistas do terço deram as primeiras impressões dos sertões nordestinos. Observar a evolução da técnica de produção das velhas cartografias equivale em notar como ocorreu o paulatino povoamento e urbanização do sertão. Sertão descrito e relatado por viajantes estrangeiros. Spix e Martius, Gardner e Henry Koster foram alguns que nos legaram, em seus diários de bordo, vasta informação sobre o meio ambiente, geologia e sociedade sertaneja. Este será o tema dissertado no próximo tópico.