Na comparação entre as normas éticas do CONAR e a proposta do projeto de lei PL 5.921/01, que pretende regulamentar a publicidade de produtos dirigidos à criança e ao adolescente, vê-se que enquanto a maioria dos princípios gerais do substitutivo do projeto de lei (que de acordo com o artigo 3 devem ser seguidos por qualquer publicidade de produtos e serviços dirigidos à crianças e adolescentes) encontram eco em alguma regra do CBARP, aquelas questões mais específicas - que assim o são justamente pela necessidade de se abordar pontos críticos - não são tratadas pela auto-regulamentação.
A convergência nos pontos mais gerais encontra explicação no fato de o substitutivo, assim como as novas regras de auto-regulamentação, considerarem em seu texto o tratamento que já é dado pelo CDC e o ECA à questão (LARA, 2006; NEWMAN DEBS, entrevista à autora em 14/11/2006).
Assim, apesar do texto do CBARP ser menos específico que aquele do projeto de lei, é possível interpretar que os seguintes princípios do referido projeto poderiam ser cobertos pela interpretação de regras ou conjunto de regras do CBARP (aplicando-se, como estipulado no código, a interpretação mais restritiva):
! A publicidade dirigida à criança e ao adolescente deve prestar atenção e cuidado especial às características pscológicas da criança e do adolescente ! Deve respeitar a ingenuidade, a credulidade, a inexperiência, a deficiência
de julgamento e o sentimento de lealdade dos menores
! Não permitir que a influência do anúncio leve a criança ou o adolescente a contranger seus responsáveis ou a conduzí-los a uma posição socialmente condenável
! Não favorecer ou estimular qualquer espécie de ofensa ou discriminação racial, social, politíca, religiosa ou de nacionalidade
! Não induzir o sentimento de inferioridade no menor, por este não consumir o produto ou serviço oferecido
! Não induzir, favorecer, enaltecer ou estimular atividades criminosas, ilegais ou que ofendam aos usos e costumes da sociedade
! Não explorar a crença, o medo e a superstição ! Não induzir a qualquer espécie de violência
! Não induzir a qualquer forma de degradação do meio-ambiente
! Não exibir, indicar ou sugerir qualquer atitude que conduza a criança ou o adolescente a uma situação de risco ou uso inadequado do produto ou serviço
! Proíbe que a publicidade sugira que a aquisição do produto ou serviço tornará a criança ou o adolescente superior a seus semelhantes
Pontos abordados pelo projeto de lei PL 5.921/01, mas não pelo CBARP
Apesar de vários pontos da proposta parlamentar serem tratados no CBARP, outros também importantes e mais específicos não são considerados ou o são apenas parcialmente. Vejamos:
Enquanto no CBARP, excetuando a proibição do uso de apelos imperativos, não há restrição a que a publicidade seja dirigida à criança; o projeto de lei busca criar regras que se não proíbem, limitam a prática de forma contundente. Esta intenção fica clara quando estipula:
A. Fica proibido qualquer tipo de publicidade, especialmente a veiculada por rádio, televisão e internet, de produtos ou serviços dirigidos à criança, no horário compreendido entre 7 (sete) e 21 (vinte e uma) horas.
B. É vedado direcionar a publicidade diretamente para a criança ou para o adolescente por correio, correio-eletrônico, telefone, celular, entre outros.
Estas duas regras têm como atribuição dificultar que a publicidade seja dirigida diretamente à criança e ao adolescente. Também é interessante notar que elas
abrangem várias formas de comunicação enquanto o CBARP é mais restrito à televisão e ao rádio.
O projeto de lei também tenta evitar que a publicidade seja atraente para a criança ao se utilizar das relações de afinidade e confiança construídas entre aquela criança e seus amigos da televisão:
C. É vedada a veiculação de publicidade, especialmente na forma de “merchandising”, durante programa de entretenimento dirigido à criança ou ao adolescente.
D. É vedada a utilização de personagens e apresentadores de programas infantis, inclusive desenhos animados, bonecos e similares.
Da mesma forma, procura-se tratar a questão da indentificação publicitária ao inibir o uso de técnicas que dificultam à criança a percepção da publicidade como tal. Enquanto no projeto de lei estas técnicas se apliquem à quaisquer produtos e meios de comunicação, no CBARP o uso do merchandising só é proibido quando se utiliza dos apresentadores e personagens de programas infantis nos programas televisivos que fazem parte e apenas relacionado à publicidade de alimentos, refrigerantes, sucos e bebidas assemelhadas. Excetuando-se este caso, no CBARP não há qualquer outra probição do uso destas figuras na publicidade.
Uma outra forma de seduzir as crianças é a utilização de efeitos especiais e técnicas que criem toda uma fantasia quanto ao produto. Esta questão, que não é tratada no CBARP, é assim endereçada no projeto de lei :
E. É vedado o uso de quaisquer técnicas na elaboração da publicidade que possam induzir ao entendimento de que o produto ou serviço pode oferecer mais do que na realidade oferece.
No projeto PL 5.921/01 a apresentação verdadeira do produto e do valor real a ser desembolsado na sua aquisição também são tratados. Assim, na publicidade dirigida à criança e ao adolescente:
F. É vedado oferecer produto ou serviço sem indicação dos acessórios que devam ser adquiridos ou contratados em separado.
G. É vedado o uso de expressões “somente”, “apenas”, entre outras desta natureza, junto ao preço ofertado do produto ou serviço.
O CBARP, em sua seção 5, trata da apresentação verdadeira do produto; nesta seção é estipulado que o valor ou preço total a ser pago por um produto deve ser claro, evitando-se comparações irrealistas ou exageradas com outros produtos ou outros preços; porém não trata claramente a questão dos acessórios, ou a utilização de expressões que possam erroneamente minimizar o preço apresentado.
H. A publicidade deve primar por uma apresentação verdadeira do produto ou serviço oferecido, esclarecendo sobre suas características e funcionamento, considerando especialmente o público–alvo a que se destina.
O CBARP, ao se preocupar com a apresentação verdadeira do produto, define que sua descrição deva ser passível de comprovação, porém não estipula a obrigatoriedade do esclarecimento sobre características e funcionamento e nem especifica tratamento especial ao publico infantil.