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BÖLÜM 3: KUR’ÂN’DA FİTNENİN ETKİ ALANLARI

3.1. Tevhid Kavramı

3.1.3. Fitnenin Tevhidi Engellemesi

3.1.3.1. İmanda Tevhide Etkisi

Em documento de agosto de 1968 a Secretaria Regional da Bahia já previa um acirramento da repressão sobre os movimentos populares, contudo,

160 POC -

“A ditadura deixou cair a máscara”, dezembro, 1968. CEDEM, Fundo POLOP, documento 0718-0719.

161 Idem. 162 Idem.

confiante ainda na força dos movimentos de massa que por ora predominavam mantinham certa força, determinava aos militantes a “intensificar as manifestações de rua, comícios relâmpagos e panfletagens nos bairros”. O objetivo imediato era o desgaste político da ditadura, retirando-lhe “a base popular de que necessita”.163

No entanto, essa confiança rapidamente esvaneceu. Em 1969 a Direção Nacional alertou a militância para o visível e progressivo aperfeiçoamento da repressão observando também que a esquerda, de forma geral, estava despreparada para enfrentar esse novo e terrível obstáculo. Por essa razão, exortava a todos os membros do POC a jamais descuidarem das normas de segurança, evitando assim por em risco não apenas a si mesmos como a também a própria organização. Nesta situação, foi solicitado às células que elegessem um dos seus militantes como responsável pela segurança. Sua função era a de orientar os companheiros nas normas de segurança por ocasião das reuniões e cobrar deles o zelo por essas mesmas normas.164

E, com receio de infiltrações e militantes vacilantes, a Direção Nacional passou a ter uma preocupação muito grande em relação à segurança do partido quando do recrutamento de novos militantes pelas Secretarias Estaduais e pelas células, temor que se ampliou, obviamente, após o AI-5.

O recrutamento amadorista que ainda perdura em nosso meio é um dos mais graves problemas que temos que superar, pois, tem se constituído num entrave para o desenvolvimento e fortalecimento do partido na seção.165

163 POC

– BA - “Nossas tarefas do momento”, 08 de agosto de 1968. CEDEM, Fundo POLOP, documento 02835.

164 POC

– BA – “Circular de organização e coordenação”, no. 4, abril de 1968. CEDEM, Fundo

POLOP, documento 02386.

165 POC

– “Circular Interna sobre a Repressão”, março de 1969. CEDEM, Fundo POLOP, documento 0726.

No entanto, as orientações da DN em relação ao recrutamento não revelou todas as dificuldades vividas pela militância. A vigilância ativa da repressão, efetivamente, aumentava o receio por parte dos estudantes e operários de terem uma atuação política mais visível. As palavras de S. Szermeta ilustram claramente essa situação

a luta era muito clandestina, então as conversas nesse período são muito picotadas, muito, muito, muito. E o recrutamento era muito selecionado, muito criterioso. Então as pessoas tinham também que, de certa forma, dar uma demonstração que estavam mesmo querendo né. Ou participava de uma greve, ou participavam de uma panfletagem. Então tinha que se expor. E todas essas exposições eram muito vigiadas pela repressão. Então, logo, qualquer coisa que você fazia, você já logo saia meio marcado pela repressão, essas coisas todas.166

Diante desse quadro de ofensiva da repressão, a SN propunha o reforço da “retaguarda partidária”, no sentido de buscar a ampliação de áreas de atuação para círculos cada vez maiores da sociedade, além da criação de áreas de recuo de militantes, com aparelhos montados na retaguarda para esse fim.

Para tentar “driblar” as agências de segurança e resguardar-se das consequências de quedas, o POC se utilizava do expediente de intercambiar militantes entre diferentes estados. Quer dizer, aqueles militantes “queimados”, isto é, os identificados pela polícia, eram remanejados de estado. Temos notícias da transferência de militantes da Bahia para São Paulo; da Guanabara para São Paulo e vice-versa; de Minas Gerais para São Paulo, e principalmente de São Paulo para o Rio Grande do Sul e vice-versa.167

Ao mesmo tempo, os militantes eram constantemente exortados a não guardar consigo documentos da organização. A orientação era destruí-los após o uso, ou se fosse o caso, devolvê-lo para o coordenador de célula tão logo

166 Conf. http://memoriasoperarias.blogspot.com.br/2014/02/entrevista-stanislaw-szermeta-

julho-de.html, acesso em 30/01/2015.

fosse utilizado. O militante também não poderia manter agendas de endereços e telefones devendo memorizá-los e apenas o estritamente necessário para o seu trabalho na célula. Toda viagem, fosse por razões pessoais ou políticas deveria ser comunicada ao coordenador.168

Em reposta à violência da repressão, em março de 1969 a Direção Nacional conclamou os militantes a se engajarem nas denúncias das torturas e assassinatos dos presos políticos, pois, dessa forma estariam contribuindo para “desmascarar o regime e seus métodos”. 169 E, para enaltecer a

importância deste tipo de ação, relembrou a campanha semelhante ocorrida em 1965, durante o governo do general Castello Branco. Nesta ocasião,denúncias sobre a prática de torturas aos presos políticos nos quartéis das Forças Armadas e delegacias de polícia, veiculadas pela imprensa, motivaram o presidente Castello Branco a organizar uma comissão de apuração dos fatos. Chefiada pelo então general Ernesto Geisel, apurou-se a “inverdade das denúncias”. O jornalista Márcio Moreira Alves promoveu uma investigação paralela e independente, que comprovou as sevícias, relatadas no livro Tortura e Torturados, de 1966.

A direção do partido apelava ainda, nesta mesma data, para a militância criar “comitês de solidariedade aos presos”. Esses comitês visavam mobilizar círculos cada vez mais amplos da população em torno das tarefas de “arrecadação de fundos para a defesa dos presos e auxílio às suas famílias, denúncia de arbitrariedades e das violências cometidas (...).”170

168 POC – BA – “Circular de organização e coordenação”, no. 4, op. cit. abril de 1968. CEDEM,

Fundo POLOP, documento 02386.

169POC

– “Circular Interna sobre a Repressão”, op. cit.

170 POC -

“A conjuntura política e as nossas tarefas diante da fase de ofensiva da repressão”, CEDEM, Fundo POLOP, documento 01304.

Com base nos termos desse documento, percebe-se que a direção não tinha real clareza da força da tempestade que estava por desabar sobre a esquerda e a sociedade brasileira de forma geral. Basta lembrarmos a criação da Operação Bandeirantes, a famigerada OBAN, e, logo em seguida, dos não menos temíveis DOI-CODIs, além de toda a legislação autoritária que foi sendo construída a reboque do AI-5. É compreensível que, poucos meses depois da emissão dessas opiniões, a direção seria acusada, nas lutas interna ao POC, de “amadorismo”.171

4. Atração pela militância e o POC

Se Herbert Marcuse localizou na atmosfera psicossocial planetária do final dos anos sessenta aquilo que ele chamou de “grande recusa”, como vimos anteriormente, Paul Berman iria enxergar nessa mesma atmosfera um “espírito otimista”. Esse “otimismo” estaria se expressando através de “quatro grandes revoluções”: a de costumes e padrões de comportamento; a espiritual, com a busca por novas sensações pela via de drogas alucinógenas e práticas esotéricas; a comunista, com as revoluções no sudeste asiático e em Cuba; e, finalmente, com as críticas ao comunismo soviético. E, no Brasil, essa ambientação internacional coincidiu com a existência de uma ditadura militar, reacionária e arrogante aos olhos dos segmentos mais progressistas da sociedade.

Com efeito, a atmosfera global de contestação estudantil e das lutas anti- colonialistas e revolucionárias foram fatores fundamentais na atração de segmentos da juventude brasileira para a militância política. Leane Ferreira, por exemplo, aos 19 anos, admirou-se quando, ao frequentar um curso técnico de

171 POC

Secretariado que era oferecido nas instalações da Faculdade de Economia da UFRGS, viu os debates e manifestações contrárias à Guerra do Vietnã. Nas suas palavras, “eu achei aquilo de uma solidariedade fantástica. Abria o horizonte, assim, do pensamento político o fato de se preocuparem com o que acontecia no Vietnã. E tudo para mim era muito justo.”172

O convívio com estudantes universitários, mais velhos, e com engajamentos políticos mais definidos, seduziu a jovem Leane. Segundo ela,

eram pessoas muito diferentes daquelas com as quais eu estava acostumada. Eram mais velhas, e com uma liberdade muito grande de horários e tudo. Ficavam fora o dia inteiro. As pessoas politizadas tinham um cotidiano diferente dos jovens „normais‟, porque eram pessoas muito mais arrojadas. Então, acho que essa coisa contagiava a gente; eu queria experimentar a liberdade de alguma maneira. E no meio disso havia um espontaneísmo muito grande.173

Espontaneísmo, liberdade, desprendimento, sexualidade ... essas tendências comportamentais internacionais ganharam maior popularidade nos setores estudantis e das camadas médias brasileiras a partir do início dos anos setenta. Contudo, como podemos depreender do depoimento acima, eles já começaram a se fazer sentir no final dos anos sessenta, coincidindo com o auge da luta armada no Brasil.

Até então, desde 1964, as “tentativas de mudança comportamental estavam articuladas com a luta política antiditatorial” nos informaram Luiz Weis e Maria Hermínia T. de Almeida.174 Zuenir Ventura fala em “soberbo desdém

ideológico” o olhar de reprovação da esquerda comunista para as “travessuras da geração Leila Diniz.” 175 Há relatos de militantes expulsos da sua

172 Depoimento ao autor, 03/03/2015. 173 Ídem.

174

“Carro zero e pau-de-arara”, op. cit., p. 373.

organização quando declaravam seu homossexualismo.176 Reiterando essas observações, Otacílio Cecchini, em depoimento ao autor,

eu ficava numa posição conservadora quando começou a geração que veio depois, 1937-1974, que aí veio o desbunde, a Libelu, aquela história e tal quando junta droga. Eu sentia uma grande festa desnecessária. E eu passei por um cara conservador nesse sentido.177

No POC, apesar de “não haver temas proibidos”, nas palavras de Otacílio Cecchini, predominava o “ethos” do militante bolchevique. Por isso, são emblemáticas as queixas dos coordenadores de células estudantis do POC como a abaixo:

é desalentador e decepcionante verificarmos que companheiros ligados ao ME comparecem em grupos às festas de largo, comprometendo a segurança do P., desprezando as normas elementares de disciplina partidária – que expressamente proíbem a vida social dentro do P. – perfeitamente identificados com elementos da „esquerda festiva‟, em comportamento nitidamente incompatível com a militância revolucionária (....).178

Mas, inegavelmente, a “esquerda festiva” era sedutora: festas, drogas, namoros, debates políticos acalorados regados pelos filósofos existencialistas. Mas, a esquerda militante também tinha seus atrativos. O compromisso ético com a construção de um novo mundo, a aventura de uma militância clandestina, o desapego pelas questões materiais, o enfrentamento de um regime autoritário. Muitos se perguntavam: “não dá prá ser tudo isso, agora?”179