Em 1937, foi publicado o Decreto-Lei nº 25. Somente cinqüenta anos depois da publicação, houve a criação do Sistema Nacional de Museus, em 1986. Este órgão, à época de seu surgimento, ligado à SPHAN (Secretaria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), exerceu a função de traçar uma política museológica participativa, efetivada através de discussões com a categoria museológica em todas as unidades da federação.
Estimulado por este Sistema Nacional é que foi criado, pelo governo gaúcho, um órgão regional nos mesmos moldes. O Rio Grande do Sul, desde que se preocupou em instituir o seu sistema de museus até os dias de hoje, tem sido uma referência para a área museológica no País, tanto por ter sido um dos pioneiros na criação do Sistema Estadual de Museus, quanto por ter dado continuidade ininterruptamente às ações e propostas de integração que desenvolve em prol da museologia.
A retomada de uma organização sistêmica na área, representando, de certa forma, uma revitalização deu-se, em nível nacional, com a criação do Sistema Brasileiro de Museus, em 2004. O trabalho implementado no Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, no período 1999/2003 foi importante nesta retomada.
Ainda hoje, temos no Rio Grande do Sul um dos poucos sistemas de museus estaduais que funciona continuamente desde sua criação, embora com períodos permeados por muitos percalços de inoperância do órgão, ausência de coordenador e negligência no atendimento a demandas regionais. A organização deste sistema gaúcho baseou-se no sistema de museus do Paraná e, atualmente, vem servindo de modelo para a implantação de outros órgãos do gênero nos estados da federação. Exemplo disto é o sistema de museus do Maranhão, que está em processo de criação e vem sendo orientado pelo sistema de museus gaúcho. Também pautou a criação do sistema municipal de museus em Pelotas e ainda em Salvador e Ouro Preto.
Historiando a criação do SEM/RS é fundamental destacar que em 1987, foi criada a Coordenadoria Estadual de Museus (CEM/RS), com a finalidade de sistematizar e agilizar operacionalmente as ações oficiais e privadas na área museológica nos âmbitos municipal, estadual e federal, levando em conta as carências de recursos financeiros e humanos que existiam nesta área no Rio Grande do Sul.
Este órgão, na época, integrava o comitê de coordenação do Sistema Nacional de Museus e estava vinculado ao Conselho de Desenvolvimento Cultural do Estado do Rio Grande do Sul, pertencente a Subsecretaria de Cultura do Estado do Rio Grande do Sul. A esta Subsecretaria estavam afetos todos os museus da administração pública estadual.
A Coordenadoria já vinha atuando com o status de um sistema estadual, embora este ainda não estivesse criado. Sendo assim, ela foi a origem do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul. A Coordenadoria propunha-se a estabelecer uma política ampla, dinâmica e participativa a respeito das linhas básicas de preservação, conservação e comunicação do patrimônio cultural do Rio Grande do Sul. Esta pré-organização é muito respeitável na medida em que foi um primeiro movimento da sociedade gaúcha em prol da área museológica. O Estado tinha um número de oito museus — que eram de sua administração direta — e
mais oito que faziam parte de instituições mantidas pelo governo estadual (como por exemplo: Banrisul, Brigada Militar e IPE). Além disto, por sua conformação, esta CEM/RS permitia que os museus federais, municipais e privados também pudessem dela fazer parte, a fim de usufruírem os programas e projetos de fomento, incentivo e promoções ligados à área da Museologia no Rio Grande do Sul.
Entrementes, a efetivação da criação do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul, em 1991, não se deu sem muitas discussões, movimentos e organização da classe.
Vimos que o Rio Grande do Sul, alinhado com a criação do Sistema Nacional de Museus, e com experiências similares em outros estados do País (principalmente o Paraná), estava articulando-se como um dos precursores da concretização de um organismo preocupado com as políticas governamentais para a área museológica. Ainda em 1986, houve a preocupação em criar um comitê de museus junto ao Conselho Estadual de Cultura. A este comitê competia priorizar os projetos dos museus para seu encaminhamento ao Ministério da Cultura. Este comitê, no nosso entendimento, exercia um papel de suma importância, ao realizar efetivamente uma ação política, envolvendo a área da Museologia.
Figura 1: Divisão regional do SEM/RS Fonte: Rio Grande do Sul (2006, p. 5).
Desde 1987, a CEM/RS funcionava de fato, mas não de direito, o que foi definido em 1988. Em 1989, por meio do relatório da representante do Rio Grande do Sul no Sistema Nacional de Museus e da Coordenadora Estadual de Museus é expresso o desejo de institucionalização de uma política cultural relativa à área museológica.
A criação do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul (SEM/RS) se efetivou através do Decreto nº 33.791, de 21 de janeiro de 1991. Este Decreto organiza sob a forma de sistema as atividades de museus do Estado e postula que estas atividades serão desenvolvidas sistematicamente, nos termos do Decreto nº 20.818, de 26 de dezembro de 1970.
O Decreto de 1970 regulamentava todas as atividades do Poder Executivo do Estado e traçava as normas para que se organizassem sob a forma de sistemas. Um trecho deste decreto, abaixo transcrito, faz crer que, sendo o período da ditadura militar brasileira, nada melhor do que manter sob o olhar do Estado (leia-se dos militares) todas as ações que fossem realizadas nos mais diversos âmbitos, incluindo o cultural, e este Sistema Estadual de Museus não escapou a esta verticalidade, embora tenha sido criado muitos anos depois.
Considerando que essa nova modalidade de integrar atribuições afeta às diversas unidades de trabalho do Executivo, elimina paralelismos de ação e pluralidade de interpretações ou de tratamento de um mesmo tema, e une, por via de fluxo permanente de comunicação e dentro de uma mesma política específica, órgãos e agentes da Administração. (RIO GRANDE DO SUL, 1970).
O Sistema Estadual de Museus tem como atribuições: promover a articulação entre os museus existentes no Estado; definir diretrizes gerais de orientação museológica; estabelecer e acompanhar programas de atividades; propor formas de provimento de recursos destinados à área; promover contatos dos museus com entidades capazes de contribuir para a viabilização dos projetos; entre outros.
A estrutura sistêmica prevê que a coordenação se reunirá mensalmente, em caráter ordinário, e extraordinariamente por convocação do Secretário de Estado da Cultura. O decreto nº 33.791 registra o que se considera unidade museológica9 para
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Os museus ou entidades afins, desde que sejam instituições permanentes, sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e de seu desenvolvimento, atendidos por pessoal especializado, com acervos abertos ao público e destinadas a coletar, pesquisar, estudar, conservar, expor e divulgar os testemunhos materiais do homem e de seu meio-ambiente, com objetivos culturais, educacionais, científicos e de lazer (BRASIL, 1991).
o SEM/RS e também detalha a constituição, ou seja, a estrutura do mesmo.
O SEM/RS estabelece elos com uma gama de instituições, quais sejam: museus (públicos e/ou privados), associações de classe (museólogos, conservadores, historiadores), conselhos profissionais e muitos outros agentes da área museológica.
É importante citar que dentro do regimento do Sistema Estadual de Museus, está a promoção bianual do Fórum Estadual de Museus, um evento criado para discutir as ações dos agentes museológicos, dos profissionais e das instituições. O SEM/RS é composto por sete regiões museológicas. O Estado foi dividido geograficamente e os dirigentes de museus e coordenadores regionais reúnem-se periodicamente e discutem junto com o Fórum, tentando dar conta das solicitações, através da remessa de demandas aos órgãos de competência (SEDAC, FAPERGS, MinC, etc.).
Desde o surgimento do SEM/RS, conforme já mencionado, as ações estão estruturadas, organizadas sistematicamente, com funções claras. As reuniões, discussões, atividades de que as regiões museológicas participam são influenciadas pelo governo estadual. Assim, a cada gestão, a ideologia política se faz presente pela especificidade das ações que são mantidas ou modificadas.
A criação do Conselho Federal de Museologia (COFEM), órgão instituído em 1982 para fiscalizar a atuação da profissão de museólogo, e a conseqüente criação dos Conselhos Regionais (no caso do Rio Grande do Sul, o COREM / 3ª Região), bem como a criação da Associação Riograndense de Museologia (ARM)10, no ano de 1985, durante o desordenamento político partidário e econômico dos anos 80, e do Sistema Estadual de Museus do Rio Grande do Sul (SEM/RS) vieram trazer integração e conflito ao sistema museológico. Integração, porque à época em que surgiram, em meados dos anos 80 do século XX, e que se reabriam os olhos para um novo Brasil, estes três órgãos (SEM, COREM e ARM) estavam no caminho da implantação, discussão, fiscalização, regulamentação da área museológica, e bastaria pôr em prática os estatutos e regulamentos para que, provavelmente, hoje, a área estivesse mais organizada. Conflito, porque o que ocorreu foi exatamente o contrário: órgãos que competem entre si, que são mais ou menos atuantes – em geral, menos – conforme o interesse político das direções e que não se integram,
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No âmbito federal, existe, desde 1963, a Associação Brasileira de Museologia (ABM), que congrega os profissionais que atuam na área museológica.
acabando por se tornarem os responsáveis, de certa forma, pela fragilidade na condução das políticas existentes.
Ressaltamos que o COREM, em função de seus estatutos, que impedem o registro de profissionais que não sejam exclusivamente diplomados ou pós- graduados em nível de mestrado na área de Museologia, não vem tendo renovação, exatamente por não termos no Rio Grande do Sul, cursos de formação nestes níveis. No segundo semestre de 2006 foi criado em Pelotas/RS, na Universidade Federal, o primeiro curso de graduação em Museologia. Os profissionais egressos desta Universidade poderão ter seus registros no Conselho, o que deverá alterar o quadro de extinção a que a 3ª Região do COREM estava se aproximando.
Curiosamente, o primeiro curso técnico de Museologia surgiu no Brasil em 1932 (permanecendo ali até 1979), ligado ao Museu Histórico Nacional e ao seu diretor, Gustavo Barroso. Era também o primeiro curso latino-americano na área de museus. Cursos de nível superior em Museologia surgiram na Bahia (ainda em atividade), em São Paulo e dois no Rio de Janeiro (o da UNIRIO ainda em atividade), o que não parece melhorar a situação de dicotomia entre a teoria e a prática museológicas. Como mencionado, em Pelotas/RS foi recentemente instalado o curso de graduação em Museologia. No século XXI, quase setenta anos após a implantação da primeira formação profissional do Brasil, cria-se o primeiro curso na região Sul, onde o número de museus e profissionais que exercem suas funções junto a estas instituições é expressivo e onde existe uma política voltada para a área desde os anos 1980. O primeiro curso brasileiro de mestrado em Museologia surgiu no Rio de Janeiro, na metade de 2006. No Rio Grande do Sul houve uma tentativa de criação de um curso de nível médio, técnico, ligado ao sistema público estadual de ensino e organizado, pleiteado, iniciado, pela professora Vera Barroso, que nunca chegou a ser implantado.
Hoje, com tantas modificações na sociedade como um todo e nos museus em particular, verificamos que devem existir novos parâmetros para a formação profissional e que os profissionais que já atuam nos museus precisam ser reciclados dentro dos novos discursos que a ciência tem apresentado.
2.5 O ESTADO ORGANIZANDO UMA REDE MUSEOLÓGICA NO RIO GRANDE