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1. İLKÖĞRETİM İKİNCİ KADEMEDE BİLGİSAYAR DESTEKLİ FEN BİLGİSİ

1.3. İlköğretim Programlarında Bilgisayar Destekli Öğretim

Complexa estratégia, lenta e sinuosa, do ir e vir na canção, para construir as imagens: a saudade, a dor, o pranto, a noite escura, adensamento de emoções e, finalmente, a rarefação, a transfiguração da morte, o alívio, o luar. Estratégias envolvendo tempo, espaço, movimento, afetos, luzes, cores. A imagem final, imagem móvel, se consegue por meio de uma intrincada rede de relações.

Podemos agora adentrar a dimensão poiética da obra e concluir nossa apreciação estésica, assumindo uma postura de tradutor. Na canção A saudade, Lorenzo Fernandez aciona a dor criando imagens de estaticidade, tensão e sombra. Os elementos cíclicos e repetitivos traduzem imagens ligadas ao próprio movimento corporal existente na atitude de chorar, imagens que nos remetem a uma difícil tentativa de libertação de uma situação dolorosa. Acima de tudo, o compositor valoriza o pranto como elemento capaz de transfigurar a morte. A expressiva, pungente melodia do canto coloca-se como metáfora do pranto, carregando a estaticidade tensa da harmonia, mas movimentando-se no plano vertical, transitando entre as ideias da morte e da libertação. As imagens de luz e a resolução harmônica em tom menor efetuam a transformação da “noite escura” numa “noite de luar”.

Lorenzo Fernandez, nesta canção, traduz o sentimento saudade de forma intensa e expressiva, potencializando seu caráter ambíguo de ser ao mesmo tempo dor e consolo. A ambiguidade do poema é reiterada na canção pela ambiguidade harmônica, pela

tensão dialética entre estaticidade e movimento, e pelo jogo de dinâmica e cores, que conferem grande intensidade de expressão às frases melódicas e grande dramaticidade às palavras do poema. O longo gesto de tensão e resolução que se percebe durante a canção nos remete à ideia poética da transformação. A finalização da canção traduz a calma e o consolo advindos do sofrimento que, se não supre a ausência, se não aplaca a dor, pelo menos a transforma, ameniza, conferindo-lhe claridade e beleza.

Em A saudade, uma de suas primeiras canções para canto e piano, o que Lorenzo Fernandez fez com as imagens do céu? O que fez com a noite escura, com a noite de luar? Deu-lhes vida, deu-lhes presença, submeteu-as a relações, deu-lhes mobilidade e ponto de vista.

A imagem do céu possui desde sempre valor simbólico intenso. Primeira tela que se ofereceu aos olhos dos homens, o céu estrelado foi um dos primeiros modelos de escrita em tradições arcaicas.38 Ler o céu é como decifrar um texto. Escrever pode ser a tarefa de transformar os enigmas do céu em poesia. Diante dessas imagens, cabe a quem vê ou imagina fazer analogias com suas próprias paisagens interiores. A imaginação se liberta e o processo de significação liga essas paisagens com sentimentos experimentados, num processo de semiose em cadeias.

A associação de imagens é um dos elementos mais característicos da poesia. Na canção, também entendida como forma poética, as associações das imagens noturnas com os estados interiores do “eu poético” nos remetem às associações dinâmicas de vários eventos temporais realizados pela memória. Estas associações, por sua vez, permitem uma grande variedade de possibilidades de sentido. Na canção A saudade, a narrativa poética se apropria dos momentos subjetivos do ser humano com suas imagens de dor, de morte, de transfiguração, de luz e sombra, de pranto e de consolo.

Esta canção magistral, breve, bela, estranha e misteriosa é um pequeno recorte, uma pequenina peça de mosaico no cancioneiro de Lorenzo Fernandez e no panorama literário musical brasileiro. Ela nos mostra uma face de brasilidade, escura, ambígua, rasgada de lampejos vívidos.

Com o exemplo da canção A saudade, vimos que a canção, por meio de seus elementos literários e musicais, pode construir imagens de características sensoriais diversas que se traduzem em tempo e espaço, movimento, sentimentos, luzes e cores. Ao

38 Constatação de Anne-Marie Christin (2004, p. 291), a partir de citação de François Jullien, In: À l’origine

abordarmos outras canções no Capítulo 3, veremos, a partir das estruturas musicais e do curso das palavras no poema, como as imagens criadas dialogam com o Brasil daquela época e nos ajudam a perceber a brasilidade dessas canções. Verificaremos como as imagens nos revelam o ambiente e os personagens na construção plástica e espacial do mar nas canções Berceuse da Onda e Canção do Mar, ou como o jogo ambíguo de movimento e cor nos desvenda a percepção do espaço brasileiro em Tapera, como se traduzem em imagens musicais a suavidade de uma Toada p’ra você e a dor dilacerada estampada em

Essa Negra Fulô, ou como uma canção tão curta como Vesperal transforma o tempo medido, o tempo simbólico, num tempo icônico, no tempo da memória.

As canções de Lorenzo Fernandez são canções que abrem as portas aos sentidos. Pouco a pouco se delineiam, nessas canções, personagens, paisagens, sentimentos, climas, humores, luzes, em um Brasil que se descobria, algo misterioso, incerto, dilacerado em sua heterogeneidade, reunido e integrado na mente idealista dos nacionalistas. As canções de Lorenzo Fernandez têm algo a dizer sobre o Brasil do compositor e nós as percebemos com nossos conjuntos de variáveis, a cada novo dado uma reestruturação da ideia inicial, uma nova configuração. Se uma palavra nos remete a muitas imagens, o que dizer da profusão de imagens contida numa canção, na qual sons e palavras parecem conspirar para uma multiplicidade de sentidos numa composição marcada pela heterogeneidade de seus elementos.

Concluímos que as imagens criadas pela canção se constituem como veio operador para se pensar a significação das canções. No nosso entender, a questão da significação estende-se à potência que uma canção tem de criar imagens, que, por sua vez, são por nós consideradas como traduções de situações, ambientes e afetos, e é assim que as canções de Lorenzo Fernandez podem traduzir situações, ambientes e afetos brasileiros. A canção tem o poder de evocar imagens sensoriais que, por sua vez, serão percebidas de acordo com universos simbólicos individuais. Essas imagens, além de seu aspecto icônico inicial, imediato e finito, são construções mediadas pela elaboração poético-musical, implicando em atos de percepção por parte do intérprete e do ouvinte, num processo de tradução sígnica de polo estésico. Aspectos musicais podem ser pensados muito além de sua imagem especular. A música como linguagem e como texto tem tanto uma paisagem material e concreta como outra paisagem que não se deixa perceber sensorialmente de maneira tão imediata. Podemos apreender uma significação da canção, para além do léxico e da sintaxe musical e verbal. A música evoca e invoca, cria, traduz situações, objetos,

emoções e afetos por meio de imagens. A construção de sentido na canção passa pela compreensão da interlocução que se estabelece entre os textos literário e musical sob o ponto de vista de sua potencialidade de criar, produzir, construir imagens.

Capítulo 3

Benzer Belgeler