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İLKÖĞRETİM 8. SINIF TÜRKÇE DERS VE ÇALIŞMA KİTABINDA MEKTUBUN İŞLEVSELLİĞİ

KİTABINDA MEKTUBUN İŞLEVSELLİĞİ

3.2.8. İLKÖĞRETİM 8. SINIF TÜRKÇE DERS VE ÇALIŞMA KİTABINDA MEKTUBUN İŞLEVSELLİĞİ

Primeiro, o próprio objeto de estudo da psicologia – o homem e seu psiquismo – foi considerado por muito tempo como algo natural, já dado a priori, de caráter individualista e desvinculado dos determinantes sociais. Daí o paralelo crítico feito por Bock (1999) com a história do lendário alemão Barão de Münchhausen, o qual afirmou erguer-se do pântano através de seu próprio cabelo, trazendo consigo seu cavalo; como se o homem e suas ações dependessem única e exclusivamente de sua própria consciência e vontade.

Considerar o homem como esse ser autônomo e autofundante foi a ambição da modernidade ao esboçar o projeto do sujeito moderno ainda no final do século XV em sua suposta soberania e unidade, como assegura Figueiredo (1995,1996). Projeto o qual teve início com a ruptura do modelo teocêntrico predominante na Idade Média – inapto à manutenção e legitimação das existências individuais e coletivas – e teve como objetivo a constituição de uma subjetividade autônoma e livre dos dogmas teológicos. Assim, a emergência das experiências subjetivas ocorreu graças “tanto às vivências de diversidade e rupturas, como às tentativas de ordenação e costura” (FIGUEIREDO, 1996, p. 59).

O projeto implicou tanto na compreensão do homem como senhor de direito de todas as coisas como, ao mesmo tempo, na tensão entre liberdade e submissão, o que gerou

um impasse nas relações sociais e uma necessidade de ordenação do caos. Com a modernidade, desmorona a ilusão do homem como centro do mundo e é instalada definitivamente a crise no projeto do sujeito soberano, surgindo um método para dar conta desse sujeito e para neutralizar tudo aquilo que abalasse o ideal de plenitude. Esse método ambicionava ainda livrar os homens da condição de fonte de suas próprias ilusões e privilegiar a objetividade, com a cisão radical entre mente e corpo, em detrimento das questões singulares e relativas aos desejos humanos.

O projeto do sujeito moderno, portanto, teve seu apogeu na segunda metade do século XIX, quando, paradoxalmente, entrou em falência e acabou propiciando a emergência de um espaço sui generis para as psicologias, segundo Figueiredo (1996). Era preciso dar conta do destroço, ou melhor, do destronamento desses sujeitos, e as psicologias assumiram esta tarefa, tomando-os como objeto de saber e intervenção contemporâneos, como assinala a seguir, de forma taxativa, o mesmo autor:

é fácil perceber que o lugar do excluído ou do expurgável [grifos do autor] pelo método, que se constituía como o negativo do sujeito pleno e que retornava na forma de sintomas e mal-estar, veio a ser precisamente o território de eleição de todas as psicologias. Em outras palavras, a psicologia nascerá de um processo histórico- social que, simultaneamente, instituía cisões na experiência subjetiva e fracassava na manutenção destas mesmas cisões (FIGUEIREDO, 1995, p. 19, grifos meus em negrito).

Conseqüentemente, dá-se uma abertura para as psicologias – o termo é usado no plural mesmo, como entende o autor, referendado por Freire (2002). Melhor falar em várias disciplinas psicológicas, dada a multiplicidade de propostas teóricas e metodológicas, em que cada grupo ou sistema psicológico adere a um modelo de pensamento para compreensão de seu objeto. Penna (1997) corrobora com os dois teóricos quanto à extensa dispersão do pensamento psicológico – ressaltando ainda a impossibilidade de uma unificação – no entanto, distancia-se deles quando afirma que, mesmo às custas dessa dispersão irremediável, a psicologia deve ser considerada como um conhecimento no singular.

Concordo, então, com Figueiredo (1995), para quem a psicologia nasce sob o signo da fragmentação e da dispersão, configurando-se como espaço de diversidade, pois é:

preciso reconhecer que nem temos uma delimitação unívoca do campo, uma compreensão partilhada do que é fundamentalmente nosso objeto, nem muito menos, há entre nós consenso sobre como gerar e validar conhecimentos (FIGUEIREDO, 1995, p. 22).

Suponho que essa questão tenha reflexos diretos na prática dos psicólogos nos vários campos possíveis de atuação, como na clínica, na escola, nas organizações, na área jurídica, na comunidade ou na instituição pública de saúde – onde foco o meu interesse nesta investigação. E reconheço, ainda, não ser a fragmentação, com sua conseqüente variedade de abordagens e objetos, uma exclusividade da psicologia, pois provavelmente a citação acima seria válida para outros domínios, como, por exemplo, o da nutrição, segundo o estudo de Bosi (1996) ou o da enfermagem, como explora Waldow (2004).

O segundo fator é específico do campo da saúde, onde há a predominância de um saber – o médico – sobre a doença, e por conseqüência frente à saúde, com seu modelo de intervenção restrito à enfermidade física, à manipulação técnica de objetos e à conseqüente segmentação do doente em órgãos e funções, deixando em segundo plano a pessoa, suas idéias e as múltiplas forças socioculturais relacionadas ao seu processo de adoecimento. A ênfase da assistência é na tecnologia, o que reduz o encontro entre os sujeitos nas instituições de saúde (seja paciente, família ou profissional) a uma obsessão pelo objeto de intervenção – o órgão doente ou a patologia –, levando Ayres (2004) a caracterizar essa assistência como uma “objetivação dessubjetivadora”.

Em um artigo publicado na revista científica Journal of Health Psychology, Murphy e Bennett (2004), embora reconheçam também a influência significativa da técnica na terapêutica, alertam que essa mesma influência tem repercutido em negligência das relações humanas nos desenhos e evoluções nas iniciativas da área da saúde pública, comprometendo um melhor desenvolvimento das ações desse campo.

São realmente inegáveis, reconheço, a importância do controle da doença, da ampliação do poder diagnóstico, da capacidade de intervenção terapêutica cada vez mais precoce, do aumento da eficácia no tratamento, da maior qualidade de vida dos pacientes e do êxito da assistência técnica alcançados pela biomedicina (AYRES, 2004). No entanto, compartilho com a crítica feita por esse mesmo autor à sofisticação tecnocientífica, cujo sucesso é conseqüência do como fazer, pois “não faz parte de suas aptidões definir os ‘quê fazer’. Por isso é tão mais fácil definir o que é prevenir agravos [foco do saber biomédico] do que o que seja promover saúde” (AYRES, 2001, p. 69). Outra característica marcante desse modelo de atenção é o predomínio de uma voz apenas – a do profissional médico – sobre os demais profissionais atuantes no setor.

Reconhecer a dominância do paradigma flexneriano nos currículos das escolas de formação médica e do modelo de atenção biomédico é insuficiente para compreender a medicina como ocupação hegemônica. Imagino encontrar respostas mais satisfatórias no

campo da Sociologia das Profissões, um referencial teórico metodológico das ciências sociais, sem intenção de aprofundar essa discussão, mas sim usá-la como recurso que permita uma melhor compreensão da trajetória social e política das profissões na área da saúde e, especificamente, da profissionalização da psicologia e sua inserção na área.

Entre as diversas construções teóricas da Sociologia das Profissões, exploradas mais intensamente em Bosi (1996), Eliot Freidson é um dos autores de significativa importância nesse campo sociológico, por sua problematização do processo de profissionalização na área da saúde – em especial, da profissão médica e das ditas profissões “paramédicas”. Processo esse com dificuldades sui generis para a área e cujo acontecimento não se deve ao acaso, mas ao conjunto de relações ali construídas, as quais precisam ser analisadas de forma crítica.

O interesse pelo estudo das profissões é um fenômeno recente, conforme afirma Freidson (1996, p. 144), que conceitua profissão como um tipo específico de conhecimentos especializados, ou seja, como uma “especialização criteriosa teoricamente fundamentada”. Para o citado autor, esse conceito caracteriza-se ainda pela autonomia e independência na avaliação do desempenho de suas atividades; pelo controle do mercado de trabalho, pois somente aqueles com “credencial” podem exercer as tarefas de uma determinada ocupação; pelo controle da criação de seu próprio discurso e prática, através de treinamentos institucionalizados; bem como, e principalmente, pela legitimação de sua competência técnica, que permite gozar de prestígio relativamente alto junto ao público. Tais fatores, intrínsecos a uma ocupação, não podem, no entanto, ser estabelecidos, ou mesmo mantidos, desvinculados do apoio estatal, pois a relação entre Estado e profissionalismo é de importância crítica no estudo sociológico das profissões (FREIDSON, 1996).

Para uma atividade ser reconhecida como profissão, Pereira e Pereira Neto (2003), apoiados em Freidson, especificam algumas necessidades, tais como: possuir um conhecimento delimitado, complexo e institucionalizado; organizar-se em associações profissionais, visando uma auto-regulação; e empreender todos os esforços para obter o reconhecimento estatal e da sociedade como um trabalho fundamental e, assim, alcançar a regulamentação legal de seu exercício profissional. Já na compreensão de Bosi (1996), não basta criar escolas para disseminação do conhecimento, nem associações profissionais ou códigos de ética para o controle e regulação profissional, sem uma atenção maior às estratégias de controle técnico do próprio trabalho, pois as profissões de maior status – como a medicina e a odontologia – alcançaram um grau de profissionalização porque, de forma

muito organizada, empenharam-se também em desenvolver estratégias de persuasão da sociedade e de barganha junto ao Estado.

Caminhos essenciais à profissionalização, o saber formal e o grau de organização aparecem então como alicerces não só para a obtenção de privilégios de uma dada categoria, mas também, e principalmente, para a definição de sua própria área de competências e a de suas concorrentes. É o caso da ocupação hegemônica, que se constituiu progressivamente como uma prática profissional através de estratégias fundamentadas no controle sobre o seu saber – médico – e sobre suas especialidades de diagnóstico e prescrição, delegando assim tarefas secundárias a profissões subalternas e perpetuando a si mesma na direção deste processo de produção de conhecimentos na área da saúde.

Portanto, a questão central do controle do saber pela Medicina explica em grande parte, para Bosi (1996), sua posição privilegiada na hierarquia das profissões, conforme pode ser comprovada na crítica seguinte, quando a autora destaca os determinantes dessa hegemonia:

fundamenta-se na própria dimensão do objeto, cuja importância é universal; remete ao nível de organização e à participação na vida política do país [...] Além do mais, o que parece bastante singular é a relação sistemática que ela (a medicina) mantém com a ciência e com a tecnologia do setor, garantindo o monopólio de saberes específicos. Isso reproduz uma divisão de trabalho na área da Saúde, sob comando dos médicos (BOSI, 1996, p. 99).

Essa divisão na área da saúde gera um sistema estratificado de ocupações em torno do médico, que tem a posse do objeto específico da área: o saber científico sobre doença e saúde. Essa sistematização gera as chamadas profissões paramédicas, compreendidas por Bosi (1996) como equivalentes ao conceito sociológico de semiprofissão quando relacionada às ocupações de assistência à saúde, e caracterizadas por não possuírem os elementos básicos para a conquista da autonomia técnica de suas atuações – como o corpo de conhecimentos específicos, prestígio social, responsabilidade e reconhecimento.

Será então que o profissional da Psicologia, ao inserir-se no campo da saúde – onde é significativa a força da cultura médica –, sujeita-se à autoridade biomédica e acaba, de início, ocupando papel secundário de ajudante ou de facilitador do tratamento? Será que essa prática do psicólogo da saúde reproduz a atenção médica assistencialista, como critica Stam (2000), professor canadense membro da Divisão 38 (Health Psychology) da Associação Americana de Psicologia? Pode o psicólogo, mesmo com um corpo próprio de saber, assumir a caracterização de profissional paramédico? Questiono-me, então, sobre a estruturação desse

corpo teórico da disciplina Psicologia. Imagino ser importante retomar agora o processo de profissionalização da psicologia para buscar uma melhor compreensão das questões suscitadas.

Antes da regulamentação oficial, existiram no Brasil práticas psicológicas em instituições médicas e educacionais. Pessotti (1988), um dos pioneiros no estudo da profissionalização da Psicologia, caracteriza quatros períodos: pré-institucional (até 1833); institucional, de 1833 a 1934; universitário (1934-1962); e profissional, de 1962 em diante. No primeiro, época do Brasil colonial, não havia pretensão de construir uma disciplina ou fundar um saber psicológico, mas tão somente controlar as emoções, as causas da loucura e as diferenças entre os sexos, e exercer controle sobre os considerados selvagens, sempre em consonância com os anseios da elite brasileira, que intencionava a organização da sociedade e do Estado.

Com a criação das primeiras faculdades de medicina no país, começa a existir um interesse do profissional médico em temas psicológicos, os quais saíram do foco moral e religioso e assumiram o status científico, através de estudos psicológicos sobre higiene mental e sobre a relação da psicologia com a neurologia e a neuropsiquiatria. Era o período institucional, no qual a psicologia seguiu duas vertentes: a educacional, voltada para as questões de ensino e aprendizagem, e a da prática psiquiátrica. O marco da ala psiquiátrica foi a criação do laboratório de psicologia experimental na Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro, no subúrbio do Rio de Janeiro, onde o psicólogo atuava, subordinado à psiquiatria, no controle e exame de doentes mentais e de crianças. O terceiro momento é chamado universitário, conforme Pessotti (1988), quando foi criada a Universidade de São Paulo e a psicologia passou a ser ensinada, inicialmente em caráter opcional, nos cursos de filosofia, ciências e letras. A quarta fase começou com a industrialização do governo de Getúlio Vargas, quando houve a necessidade de ajustar o trabalhador às exigências por melhorias técnicas e nas aptidões para a produção fabril, com seguimento até os dias atuais.

Já Pereira e Pereira Neto (2003), em uma re-leitura da periodização clássica anterior, e baseados no enfoque da Sociologia das Profissões, propõem apenas três períodos: o primeiro, denominado pré-profissional, teve início com a criação das faculdades médicas no Rio de Janeiro e na Bahia, em 1833, onde não existia sistematização alguma do conhecimento psicológico, nem a profissão de psicólogo – apenas havia interesses individuais nas temáticas psicológicas. O final do século XIX (1890) caracterizou o segundo momento, profissionalização, que compreendeu a institucionalização da prática dos psicólogos, os quais adquiriram um conhecimento próprio, fundamentado em teorias abstratas e pouco acessíveis;

uma formação específica, a qual tornou a disciplina obrigatória no currículo de outras profissões, nos anos 30, e deu início ao processo de valorização da psicologia e de conquista do status de formação de nível superior na década de 50; uma apropriação gradativa de um nicho do mercado de trabalho, embora inicialmente dividido com a medicina e a educação; e a regulamentação oficial da profissão em 1962, bem como a criação de conselhos representativos e de um código de condutas.

Recorro a Spink (2003), para compreender a expressão regulamentação profissional, cujo significado é ser

acima de tudo, uma estratégia para a garantia dos espaços de atuação em um contexto de divisão técnica do trabalho cada vez mais complexa em função do desenvolvimento tecnológico e do surgimento de um número maior de especializações (SPINK, 2003, p. 59).

Portanto, não é possível falar em regulamentação profissional sem abordar o papel do Estado, o qual, inserido na disputa entre concorrentes, toma para si a responsabilidade de julgamento, antes uma especificidade compartilhada pelos próprios pares da profissão. Essa influência estatal vai ao encontro da discussão no campo da Sociologia das Profissões, que considera significativa a relação entre o Estado e o grau de organização, autonomia e profissionalização.

No caso do processo de regulamentação das profissões de saúde no Brasil é mais evidente ainda o controle estatal, bem como as estratégias dos grupos mais organizados e tradicionais – como a medicina, a odontologia, a farmácia, a medicina veterinária e a enfermagem – que conseguiram, ainda na década de 30, a regulamentação oficial legitimadora do monopólio de suas práticas e técnicas (SPINK, 2003). A psicologia, devo ressaltar, só obteve reconhecimento oficial nos anos 60, trinta anos depois dos grupos tradicionais, com a Lei nº 4119/62 que regulamentou a profissão de psicólogo.

O ano de 1975 foi marco para o final do processo de profissionalização da psicologia brasileira, segundo os autores Pereira e Pereira Neto (2003), quando começou a terceira fase, chamada profissional, na qual foram alcançados todos os requisitos necessários de uma profissão: organização, sistematização e reconhecimento da população e do Estado – notadamente em três grandes áreas: educação, trabalho e clínica. Marcados, porém, por dilemas próprios, os psicólogos buscaram incessantemente assegurar seu poder, prestígio e reconhecimento, expandindo suas ações a novos campos de atuação.

Ouso, contudo, discordar dos autores acima citados ao decretarem encerrada a profissionalização da Psicologia, pois uma maior análise crítica pode expor, suponho, a ainda frágil organização da categoria nas questões estratégicas de controle de seu saber e de suas próprias atividades – itens centrais ao processo de profissionalização, segundo o referencial da Sociologia das Profissões. Talvez melhor falar em um processo inacabado, o qual mereceria uma discussão maior. Este estudo, entretanto, não ambiciona problematizar estas questões em toda sua complexidade, mas tão somente no contexto peculiar da área da saúde.

Área essa de vários saberes, mas apenas um hegemônico, e onde há uma nítida divisão social e técnica do trabalho: aos profissionais médicos, de composição mais masculina e origem social mais abastada, cabe a hegemonia da área e, conseqüentemente, a delegação de determinadas tarefas a outras profissões, como a enfermagem (WALDOW, 2004), a nutrição e a própria psicologia, preponderantemente femininas, socialmente menos privilegiadas e de menor remuneração – como exposto no estudo de Bosi (1996) sobre a profissionalização dos nutricionistas, e por Holanda (1999), pioneira no estudo sobre a atuação dos psicólogos na saúde pública do Ceará. Devo ressaltar que seria importante investigar a questão de gênero, mas nos limites deste estudo não foi possível tal investigação.

De fato, a inserção dos psicólogos no campo da saúde não se dá de modo fácil. Eles, tímida e inicialmente, inserem-se em torno da figura hegemônica do médico e encontram dificuldades para alcançar autonomia sobre suas próprias competências e, conseqüentemente, para deixar clara aos demais profissionais atuantes no setor saúde, sua especificidade – fatos os quais podem aproximá-los mais da caracterização de profissional paramédico. Esta entrada no campo da saúde não pode, no entanto, ser pensada como uma decorrência natural ou devida ao acaso, pois além de ser um reflexo dos movimentos gradativos de mudanças nas políticas públicas do setor e na reorganização do sistema a partir dos anos 70, já citados anteriormente, há um dado interessante: a gradativa mudança no próprio modelo de atenção médica, que tem favorecido a proliferação de outras profissões e especialidades de saúde – como a psicologia – e transformado a força de trabalho nesse campo (STAM, 2000).

Afora tais importantes aspectos, preciso ainda enfatizar que o psicólogo encontrou espaço maior de inserção também por causa do aumento no acesso aos serviços de saúde por uma parte da população, antes desassistida das ações em saúde, e da mudança no perfil de doenças, no qual as patologias crônico-degenerativas – como câncer, diabetes, obesidade, entre outras – comprometem hoje um número cada vez maior de pessoas e superaram as infecto-contagiosas, agora mais sob controle. Essa mudança no perfil de morbi-mortalidade

também exige a adesão de outras profissões e a revisão das práticas em saúde, que ultrapassem o foco restrito no tratamento e busquem dar conta das ações de prevenção das doenças e de promoção da saúde, de uma forma mais coletiva.

A literatura (LO BIANCO et al, 2001; CHIATTONE, 2002; SPINK, 2003) aponta ainda que a expansão do raio de atuação dos psicólogos não foi motivada apenas por interesses pessoais, mas devido principalmente à saturação do mercado de trabalho da área clínica tradicional, aglomeradora de um número significativo de psicólogos que assumiram a postura de profissionais liberais supostamente autônomos, cujo enfoque, desenvolvido com base no conceito de doença, é mais individualista, elitista e abstrato. Contudo, ao migrarem para outras áreas – como a saúde – eles próprios acabaram fazendo uso de saberes emprestados da prática clínica, sem uma necessária revisão desta transposição de técnicas de uma realidade para outra. A organização da nova área da saúde ficou comprometida, o que colaborou para perpetuar nas instituições de saúde a percepção dominante da profissão como uma prática que é sinônimo de psicoterapia e reforçar uma aproximação com as chamadas