A disposição para relações fraternas de co-habitação e participação comum nas crenças, interesses e finalidades que permeiam a organização da cidade justa é indispensável à sustentação estrutural e educacional, para que os governantes consigam comandar a partir da noção de justiça. Esta disposição é firmada e consolidada por uma “nobre mentira, daquelas que se forjam por necessidade (...) de convencer (...), sobretudo os próprios chefes e, (...), o resto da cidade”153.
Este mito da irmandade quer convencer os guardiões, os chefes e, posteriormente, os outros habitantes, de que a melhor estrutura política está fundada na naturalização da funcionalidade para que a cidade se torne cada vez mais justa.
Ele se remete ao da Fenícia154, que relata a origem humana como aquela que brota e provém da terra. A re-leitura que Platão apresenta a instrução como algo dado pela própria natureza humana. Por isso, o plano educacional e a organização política, dispostas na cidade justa, constituem uma cópia perfeita das virtudes.
Os guardiões e governantes, com suas armas e equipamentos, foram moldados e criados no interior da terra155. Este é o primeiro dado do mito para reforçar a disposição dos guardiões e governantes no cuidado da cidade como se fosse a própria mãe ou ama, defendendo-a contra inimigos, e considerando os outros cidadãos como irmãos156.
Há duas conseqüências desta inter-relação com a Terra. A primeira, parte do seguinte argumento: se a Terra faz com que todas as pessoas sejam co-irmãs, elas
153 Ibid., 414b-c. 154 Ibid., 414c. 155 Ibid., 414d. 156 Ibid., 414d-e.
devem ser protegidas e defendidas como se defende a própria família. Portanto, estar na cidade, nesta Terra Comum, não pode ser como estar num ambiente de comércio ou de enriquecimento, mas de cuidado e amor, que demanda devoção e apreço nas relações e nas leis que vão proporcionar tal irmandade.
A segunda decorre da primeira, que a formulação do princípio da fraternidade universal: todas as pessoas nasceram de um mesmo lugar. Elas são iguais por terem vindo do mesmo modelo. Elas apenas se diferenciam nas funções, em favor da comunidade. Isto reforça, de forma quase inquestionável, que os guardiões e governantes tendo as funções de comando e vigilância, devem colocá-las a serviço do coletivo, considerando as outras pessoas como irmãs e co-cidadãs responsáveis pela estruturação e manutenção da cidade.
Este primeiro dado do mito ressalta as vantagens do Princípio da Irmandade, completamente adversa ao que se tem nas cidades vigentes, pois nelas o que importa é o bem estar individual da parte dominante da cidade. Observe-se que no Livro V apresentam-se argumentos que distinguem a relação de poder entre „o povo‟ e „o governante‟ presente na cidade justa e nas outras cidades. É importante recordar que as estruturas hierárquicas presentes nas outras cidades são mantidas na cidade justa de Platão, mas a perspectiva com o qual se exerce o poder de comando apresenta-se oposta.
Nos outros regimes, o „povo‟ chama „seus governantes‟ de déspotas, e no regime democrático de governante157. Mas na cidade estruturada na justiça virtuosa, racional e harmônica, o povo entende seus governantes como salvadores e protetores. Do mesmo modo, estes chamam „o povo‟ de “distribuidores de salário e alimentação” e de escravo158.
Na cidade justa há uma hierarquia funcional, fomentada pelo princípio da igualdade primária e, por isso, o governante deve comandar o povo com sabedoria, e os guardiões defende-lo com coragem.
Como guardiões e governante devem tratar-se a si mesmos? Nas outras cidades é de co-governantes, e na justa é de co-guardiões159. Ou seja, nas outras cidades, os governantes entendem e afirmam que aquilo que é dos amigos será tratado como se lhes pertencesse, mas as coisas dos estranhos, eles as considerariam alheias160. E, por serem
157 Ibid., 463a.
158 Ibid., 463b. 159 Ibid., 463b. 160 Ibid., 463c.
alheias, agem como lhes convém, sem prejuízos para si mesmos, e com ganhos legitimados por leis que eles mesmos determinaram como justas.
Os guardiões que aprenderam a ser justos, quando encontram qualquer concidadão, julgam que encontram alguém de sua própria família. Por isso, não há a separação entre o alheio e o próprio, pois estão sendo treinados para o respeito e cuidado com o coletivo e o alheio, seja diante do pagamento das penas, seja no gozo de prazeres condizentes com a moderação161.
Na segunda parte do mito se acentua as distinções na divisão social do trabalho e do poder entre as classes. Mais ainda, há uma emissão de juízo valorativo nestas distinções. Platão afirma que quando Deus “modelou, àqueles dentre vós que eram aptos para governar, misturou-lhes ouro na sua composição, motivo por que são mais preciosos; aos auxiliares, prata; ferro e bronze aos lavradores e demais artífices”162. Há
uma escala de valores justificada pela própria transcendência, que torna uns inferiores e outros superiores, confirmando a estrutura hierárquica entre as classes.
Os governantes e guardiões estão a serviço dos subalternos por ser desvantagem estar sob o governo de alguém que lhe é inferior. Eles, em sua constituição, são superiores e nasceram para governar. Por isso, não podem se esquivar de tal posição. E, os inferiores e piores, por constituição, devem se resignar a sua posição social e política. Há um acento nas habilidades naturais dos cidadãos. Estas habilidades, presentes no Livro VII, são utilizadas para caracterizar os governantes, no sentido de evidenciar os motivos pelos os quais o Deus misturou ouro na sua composição.
O governante é confirmado na competência de comando da cidade por apresentar agudeza de espírito para o estudo e a facilidade em aprender163. Outra aptidão é o gosto para se ater no processo de instrução, expondo destreza na memorização dos estudos. Ele também deve demonstrar força e aspiração para o trabalho em todas as suas formas, evidenciando amor diante do que está executando164. Ele não dá sinal de lassidão e moleza, seja para o estudo ou para o trabalho mais árduo.
Ele procura não ter uma alma dominada pela mentira voluntária. Por isso, possui uma severa observância no que diz respeito à “temperança, à coragem e à grandeza de alma e a todas as partes da virtude”165.
161 Ibid., 464a. 162 Ibid., 415a. 163 Ibid., 535b. 164 Ibid., 535c-d 165 Ibid., 536a.
De tal modo, estas características para o estudo, o trabalho e as virtudes presentes na alma dos aptos para ser governantes, confirmam a escala de valores entre as classes, e dá sentido ao ouro que o deus depositou, em alguns, para comandar a cidade com destreza e nos ditames da justiça. Estas aptidões se tornam critérios para identificar e selecionar as crianças nascidas na classe dos guardiões166.
Pois, pode haver casualidades em que nasça uma prole nobre numa classe inferior. Por isso, cabe ao governante, estar atento aos comportamentos das crianças dos diferentes grupos167. Pois é dele a função de reparar tais casualidades por ser treinado para observar os seus comportamentos. Por conseguinte, é imprescindível que o governante se atenha ao nascimento e o comportamento das crianças, para verificar se condiz ou não com a natureza própria de cada classe. E, se for necessário, separá-las de acordo com as habilidades que vão apresentando.
A terceira parte do mito consolida a tarefa do governante em separar as crianças que apresentam habilidades naturais para o comando e as que tenham tendências para o trabalho de artífice, mesmo estando em classes inversas. Este poder garante que a cidade continue nos propósitos sob os quais foi pensada. Por isso, é instrutivo dizer aos governantes que deus “recomenda aos chefes, em primeiro lugar e acima de tudo, que aquilo em que devem ser melhores guardiões e exercer mais aturada vigilância é sobre as crianças, sobre a mistura que entra na composição das suas almas”168. Por
conseguinte, o cuidado com o processo educativo das crianças, presente no VII Livro, acentua a importância delas serem educadas pela brincadeira, e não na violência, pois é na brincadeira que se observam as tendências naturais169 expressas, de modo espontâneo.
Este poder do governante, em observar, julgar e separar as crianças, a partir de suas habilidades naturais, tem a finalidade de salvar a cidade e sua constituição. Portanto, seu julgamento não se atém apenas às classes subalternas, mas dentro de sua própria classe. Ele deve ter um tratamento rígido, sem compadecimentos, elevando ou rebaixando as crianças, de qualquer classe, a fim de que as melhores sejam educadas na classe dos superiores170.
166 Ibid., 536a. 167 Ibid., 415a-b. 168 Ibid., 415b. 169 Ibid., 537a. 170 Ibid., 415b-c.
Este julgamento estaria assentado em dois elementos. Um que está presente no próprio mito e, outro que se desenvolve no livro V. O que garante esta permuta das crianças entre as classes, sem o sofrimento da perda dos pais, é o relato, no mito, do “oráculo segundo o qual a cidade seria destruída quando um guardião de ferro ou de bronze a defendesse”171. Em nome do bem comum, que é a segurança e a firmeza da
defesa da cidade, mulheres e homens abrem mão da criação de filhas e filhos, e as/os entrega aos cuidados do Governante. Para tal, e este é o segundo elemento, o Governante organiza comunidades de guardiões, nas quais não se saberia quem é o pai ou mãe das crianças.
Platão explica, no livro V172, que, em linhas gerais, estas comunidades serão constituídas dos melhores homens e das melhores mulheres para geraram crianças superiores, naturalmente aptas para comandar a cidade. Eles teriam habitações e refeições em comum, sem qualquer propriedade privada. Ao estarem juntos e misturados, nos ginásios, e no resto da educação, seriam impelidos a unirem-se, para não saber quem é o pai das crianças que nascerem desta união173. E as mães seriam preparadas para, após alguns meses de vida, deixar as crianças serem criadas por amas e outras mulheres. Isto permitiria a mudança de crianças, de uma classe à outra, sem desviar do objetivo maior que é uma cidade comandada pelas melhores pessoas.
Com esses cuidados e ensinamentos, fundamentados no Mito da Irmandade, há certa garantia de dedicação pela organização da cidade e fixação das disposições naturais de cada cidadão em exercitar sua areté.