Por ocasião do Programa Avança Brasil, foram elencados e abordados os projetos direcionados para Rondônia, em material divulgado pelo Governo Federal – um relatório informativo – intitulado “Ações Federais: 1995 – 2002” (BRASIL, s/d), feito para todas as unidades federativas brasileiras.
Conforme visto no capítulo anterior, os Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento foram a principal atuação do Governo Federal, sendo, em Rondônia, a influência dos eixos Norte e Centro-Oeste (Madeira-Amazonas e Oeste), especificamente com a implantação das rodovias e da hidrovia do Madeira. Segundo esse material, “cada eixo representa um espaço geoeconômico que se define por uma série de fatores específicos, como vocações econômicas, necessidades de infra-estrutura, características ambientais, desafios sociais, oportunidades de crescimento” (BRASIL, s/d, p. 2).
Na segunda metade da década de 1990, Rondônia começava a despontar como potencial exportador de grãos e de carne bovina, além de escoar a produção dos demais estados brasileiros. Segundo o Relatório: “Rondônia é um estado com forte vocação agropecuária, aliando solos férteis e competência empresarial a uma logística competitiva, que articula as regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste aos estados do Norte e do Nordeste por meio da malha hidroviária do Eixo Madeira-Amazonas” (BRASIL, s/d, p. 3). A agroindústria começou a crescer, e, assim, a visão empreendedora de corporações empresariais associada à do Estado se uniu na perspectiva de transformar o estado rondoniense num polo de exportação, funcionando como um “foco de atração” para o desenvolvimento econômico do Brasil. Isso pode ser visto quando
Uma das metas do Estudo [do Governo] é a redução dos desequilíbrios regionais e sociais, através do planejamento indicativo, pelo qual o Governo pesquisa, aponta direções e prepara o caminho, estimulando a iniciativa privada a fazer acontecer. O próprio Governo realiza, diretamente ou em parcerias, os principais investimentos estruturantes, multiplicadores de novas oportunidades de investimentos e negócios para o setor privado (BRASIL, s/d, p. 2).
Outro ponto focado no relatório se torna um motivo de altivez para o próprio Governo, segundo ele mesmo, quando da referência à “(...) modernidade [que] também chegou ao estado pela privatização do sistema Telebrás em 1998” (BRASIL, s/d, p. 4). Notemos nitidamente a reestruturação territorial através das ações governamentais massivamente aliadas à iniciativa privada, de modo a criar uma estrutura que permita a reprodução e o
escoamento de produtos destinados ao comércio e à indústria em larga escala. No mesmo documento, fazendo referência à mesma questão, consta que “(...) com a privatização da Telebrás em 1998, o acesso à telefonia, fator básico de modernização, expandiu-se fortemente no país. Em Rondônia, o número de acessos à telefonia fixa aumentou 65,3 mil em 1994 a 272 mil em fevereiro de 2002, conforme dados da Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações) (...)” (BRASIL, s/d, p. 19).
Fazemos referência à hidrovia do Madeira, que já existe em amplo funcionamento, e ao gasoduto de Urucu. Este último sequer teve os estudos de impactos ambientais finalizados49. Do mesmo modo, como já citado no capítulo anterior, o projeto de exploração do gás natural via terrestre, no trecho entre Porto Velho-RO e Urucu-AM, por não ter sido concluído durante os governos anteriores teve seu projeto transferido para o PAC, cuja primeira edição já finalizou e ainda não há perspectivas de sua construção.
Sobre essa questão, Gerd Kohlhepp se refere ao conjunto de projetos ligados ao programa Avança Brasil, sobre o qual estamos discutindo, e fala acerca da não inserção de novas estradas na Amazônia Legal. Referindo-se à BR-163 que liga Cuiabá-MT a Santarém- PA e sobre o gasoduto de Urucu, ele afirma que
É um sinal positivo que não haja planos para a construção de novas estradas atravessando a floresta amazônica, mas os projetos de gasodutos do campo de gás natural do Rio Urucu até Porto Velho (500 km) e de Coari a Manaus (420 km) (sic) para suprir as usinas termoelétricas projetadas em Porto Velho (330 MW) e Manaus (450 MW) terão um enorme impacto ecológico (2001, p. 25).
Com o PAC, temos um cenário inverso ao descrito anteriormente, quando o Gasoduto não está no projeto de construção para Rondônia (embora no Amazonas já esteja concluído entre Coari e Manaus), mas a pavimentação das rodovias BR-163 (Cuiabá-MT a Santarém- PA) e BR-319 (Porto Velho-RO a Manaus-AM) são algumas das prioridades governamentais. Podemos afirmar que a construção do gasoduto é necessária e importante para o estado. Porém, entendemos que qualquer intervenção de grande porte realizada pela construção civil atualmente em Rondônia é nociva e danosa devido à falta de planejamento local e de estrutura existente, tanto social como física, em que nas condições atuais não é possível receber esses empreendimentos e os migrantes decorrentes, tampouco atender à demanda imposta. Os impactos ao ambiente são numerosos, e os prazos e cronogramas para
49 Cf. ANEXO A – Publicações em jornais eletrônicos – Publicações 1, 2 e 3, e ANEXO B – Documentos do PAC – Documento 3.
execução não são realizados de modo producente. Contudo, havendo a solução de tais problemas referidos, é questionável e igualmente passível de reflexão a inserção de propostas de energias alternativas desde que seja incluso o atendimento às necessidades da população local, o que não caracteriza o caso das hidrelétricas do rio Madeira.
Em breves esboços, elaboramos a organização de dois croquis apresentados no relatório governamental, em que estão espacializados os principais projetos de transporte e energia no estado, e trechos das descrições de cada obra onde se insere o nítido tom desenvolvimentista estatal (figuras 10 e 11).
118 Figura 10: Implantação da logística de transportes em Rondônia durante o período entre 1995 e 2002.
Fonte: Retirado e adaptado de Brasil (s/d, p. 20). Organizado por Luciana Riça Mourão Borges.
119 Figura 11: Implantação da malha energética de Rondônia durante o período entre 1995 e 2002.
Fonte: Retirado e adaptado de Brasil (s/d, p. 20). Organizado por Luciana Riça Mourão Borges.
As figuras ora inseridas representam uma configuração territorial proposta pelo Governo enfatizando as categorias de transporte e energia. Para Rondônia, significa o momento do avanço da produção de grãos em larga escala e da agroindústria. A logística representa o aumento do fluxo de transportes e da comunicação, visando esse novo ciclo de ascensão econômica na qual o estado se insere.
Dos projetos apresentados, a BR-429, as pontes e o gasoduto de Urucu não foram concluídos, e, com exceção do gasoduto, os demais foram inseridos no PAC-1 e permanecem no PAC-2, ou seja, há mais de dez anos que existe apenas o projeto de obras. Isso significa que não há um planejamento nas escalas temporais de curto, médio e longo prazo, e que os recursos concedidos (financeiros e humanos), não são adequadamente implantados. No caso da BR-429, essa passa por áreas de proteção ambiental e por terras indígenas, sendo um grande fator de pressão sobre essas reservas, a partir de novas vias de acesso, novas áreas de conversão de floresta e atividades agropecuárias e madeireiras. A ponte sobre o rio Madeira também foi reinserida no PAC, e apenas está sendo construída em 2011/2012.
Quanto às demais obras, de fato, os benefícios para seus setores específicos foram visíveis, como a ampliação do terminal aéreo de Porto Velho, com inauguração no ano de 2002, que contribuiu para o aumento do fluxo de pessoas na capital. Com as obras do PAC, já em 2009 o fluxo no principal aeroporto do estado aumentou 32% sendo necessárias novas obras de ampliação da pista de pouso e de suas demais instalações, estas realizadas a partir de 2011 (BRASIL, 2002; INFRAERO, 2010, s/d).
Quanto a isso, KOHLHEPP (2001, p. 24-25) nos mostra que houve a melhora da navegação pelo rio Madeira onde se podem operar comboios de balsas capazes de carregar, à época de seu estudo, seis mil toneladas até Itacoatiara, no Amazonas. Da mesma forma, os grãos descem o rio até chegarem aos cargueiros que transportarão em torno de 80 mil toneladas para o mercado europeu, e hoje já transporta para a China também, entre outros países importadores. O tempo de viagem foi amplamente reduzido com essa rota em relação ao porto de Santos, e toda essa dinâmica transforma Porto Velho em um grande terminal multimodal, por onde passa a maior frota de caminhões transportadores de grãos dos maiores produtores brasileiros, tais como a Cargill e a Amaggi (SILVA, 2005; 2010).
Referindo-se à estratégia de implantação de eixos, Mello (2006, p. 275) explica que Essa política territorial federal abandona as estratégias anteriores de concentração de ações, meios, instrumentos e recursos em pólos (sic) – paradigma orientador dos planos e programas governamentais de toda a década de 70 e início dos anos 80 – passando a adotar o território como palco e ator do processo. Desta maneira, a nova estratégia concentra
investimentos e atividades em grandes corredores (os Eixos), e o território passa a ser visto como rede, equipado em função dos fluxos de bens e serviços; e as estratégias visam a transformar regiões e algumas parcelas locais mais dinâmicas em espaços competitivos, integrando-as aos mercados nacional e internacional. Essa nova estratégia dirige a ação e induz os investimentos econômicos nas redes escolhidas. Essas novas formas de apropriação e de organização da fronteira econômica constituem-se numa nova regionalização nacional. E, depende para sua concretização, do poder de indução dos investimentos nacionais sobre as dinâmicas regionais. A autora continua, mostrando que, ao ter suas funções reduzidas, o Estado passou até mesmo suas atribuições de planejador e executor às consultorias de empresas privadas, a partir das licitações. De acordo com a autora, “O Estado hodierno, modificado em sua estrutura pela política de privatização implementada desde 1991, apresenta-se mais como um ente indutor, regulador e coordenador do processo” (MELLO, 2006, p. 279-280).
Algumas dessas obras foram inseridas no PAC-2 por não terem sido sequer iniciadas. No entanto, obras iniciadas no PAC-1 e não finalizadas dentro do prazo permanecem nesse programa até sua conclusão. A segunda edição do PAC se refere ao primeiro mandato de Dilma Roussef, a partir de 2011. Entre as obras aí inseridas, está inclusa a hidrovia do Madeira com modernizações em sua rota50.