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O poder é um fenômeno cujo conceito tem sido amplamente discutido nos estudos organizacionais, bem como em diversas outras disciplinas das Ciências Sociais. Para Hardy e Clegg (2001), com o crescimento das organizações passa a haver cada vez mais estruturas, tarefas e habilidades fragmentadas e especializadas, posições funcionalmente diferenciadas e conhecimento codificado, armazenado, avaliado e dividido, exigindo a criação de estratégias para o direcionamento comum da organização e para ofuscar problemas e conflitos decorrentes da divisão do trabalho. As organizações antigas, com estruturas de status de tarefas contínuas que obedeciam a um conjunto de regras técnicas universais exigidas de todos os indivíduos, são substituídas por algumas tarefas com caráter de elaboração, supervisão e comando e por outras com caráter de execução em diversos níveis e instâncias. Esse aumento da complexidade das organizações, bem como de sua importância para as sociedades, fez com que crescesse, em conseqüência, a quantidade de estudos sobre o poder e suas relações no âmbito da teoria das organizações.

Na tentativa de reconstruir uma reconceituação as relações de poder que pudesse promover a ação coletiva, Hardy e Clegg (2001) exploraram as diversas vozes ouvidas na literatura sobre poder, e como resultado, reintegraram duas abordagens predominantes a que classificaram como a corrente funcionalista e a crítica8.

8 Ressalta-se, aqui, o perigo da adoção de classificações e taxonomias no âmbito da ciência, visto que a obra

de um autor, por ser vasta e por seu caráter de construção ao longo de toda uma carreira científica, apresenta muitas variações, clivagens, possíveis contradições e reformulações. Além disso, a classificação ainda envolve a interpretação que um outro autor, ou autores, fazem da obra analisada, o que, dependendo do ponto de vista e dos critérios que são adotados, também irá influenciar no resultado da categorização. Nesta tese, optou-se por usar algumas classificações com o objetivo de justificar um encadeamento teórico seguido,

O estudo sobre as relações de poder em Weber enfocava um poder legítimo, normal, inevitável e derivado do desenho formal da organização, ou seja, referia-se à estrutura hierárquica dos cargos e suas relações recíprocas. Para Weber (1970), a política consiste no comando do agrupamento político denominado “Estado”, ou a influência que se exerce nesse sentido. No recorte feito pelo autor, a política necessariamente envolve o conjunto de esforços feitos visando a participar do poder ou a influenciar a divisão do poder, seja entre estados ou no interior de um único estado e, para tanto, envolve o uso legítimo de violência física. O Estado, portanto, se diferencia de todo outro agrupamento político por se fundamentar na força, seu instrumento específico, ainda que não único. Trata-se de

(...) uma relação de dominação do homem pelo homem (...) [na qual] (...) qualquer homem que se entrega à política aspira ao poder – seja porque o considere como instrumento a serviço da consecução de outros fins, ideais ou egoístas, seja porque deseje o poder ‘pelo poder’, para gozar do sentimento de prestígio que só o poder confere. (WEBER, 1970, p.61)

Nesse ponto, outra questão mostra-se importante: a da legitimação, ou seja, para Weber (1970), o Estado somente pode existir sob a condição de que os homens dominados aceitem se submeter à autoridade continuamente reivindicada pelos dominadores.

De fato, a questão da dominação e a construção de tipos ideais é um ponto central na sociologia weberiana, destaca Cohn (1979). A esse respeito, Garcia et al. (1984) afirmam que Weber dedicou uma parte substancial de sua obra para explicar o funcionamento das relações de poder e a natureza da autoridade9.

porém, tomou-se o cuidado de citar todos os responsáveis pelas classificações utilizadas, bem como de atentar para o fato de que tais classificações, de modo algum, são fixas, perfeitas e livres de contradições.

9 Por esse motivo, seu trabalho seja, em parte, classificado como funcionalista. No entanto, de acordo com

Domingues (2004), no tocante à realidade, Weber lança mão do sentido e do fático para alargá-la, ou seja, busca o sentido da ação social. Por esse motivo, analistas da obra de Weber, como Freund (1975), Cohn

Para Weber (1944, p.43), a dominação consiste na probabilidade de se encontrar obediência a uma ordem de determinado conteúdo entre pessoas dadas, ou seja, está relacionada ao fato de alguém mandar eficazmente em outra pessoa. Já a definição de poder em Weber (1944), não muito diferenciada da de dominação, significa a probabilidade de se impor a própria vontade, dentro de uma relação social, mesmo contra toda a resistência e qualquer que seja o fundamento dessa probabilidade. O autor reconhece que o conceito de poder é sociologicamente amorfo, pois todas as qualidades imagináveis de um homem e toda a sorte de constelações possíveis podem colocar alguém em uma posição de impor sua vontade em uma determinada situação. Assim, ele acredita que o conceito de dominação é mais preciso ao significar somente a probabilidade de uma ordem ser obedecida, ou seja, a dominação não contém toda espécie de probabilidade de se exercer o poder, estando mais relacionada à autoridade. Weber, então, parece adotar a dominação como a expressão mais importante do poder em suas análises.

Cabe reconhecer que os tipos ideais de dominação apontados por Weber (1944), a dominação tradicional, a dominação carismática e a dominação baseada na autoridade que se impõe pela legalidade, apesar de limitarem o seu conceito de poder, têm sido largamente adotados nos estudos em Administração. Mesmo quando se trata de outros temas não relacionados diretamente com as relações de poder, como no caso da liderança, por exemplo, muito tem sido estudado acerca das qualidades e competências dos líderes,

(1979), Colliot-Thélène (1995), e o próprio Domingues (2004), o apontam como um dos fundadores da Sociologia Compreensiva e o aproximam da Hermenêutica por ter equiparado a interpretação à compreensão do sentido. Nesse caso, o modelo de análise weberiano - o tipo ideal - recobre desde as diversas formas de burocracia e de dominação, as modalidades de legitimação, e os diferentes tipos de organização econômica das sociedades modernas. Em sua teoria compreensiva, Weber parte do tipo ideal como uma categoria teórica que já atua na descrição dos fenômenos, descrições essas densas e repletas de unidades significativas, para partir então à explicação e à interpretação que já está implícita desde a própria descrição (DOMINGUES, 2004).

relacionando-as aos tipos ideais weberianos, como líder carismático, líder tradicional ou líder racional-legal (BATELMAN e SNELL, 1999). Mais especificamente nos estudos organizacionais sobre as relações de poder, também se pode encontrar enfoques que seguem total ou parcialmente a abordagem dos tipos ideais proposta por Weber, ou mesmo que acrescentam elementos a ela (ver, por exemplo, ALVES, 2004).

A tradição derivada da obra weberiana, segundo Hardy e Clegg (2001), inspirou a abordagem crítica. Já a outra tradição, que fundamentou a abordagem funcionalista, abordava a capacidade de controlar a incerteza como fonte de poder, e a dependência de recursos, cujo controle (dentro de um contexto apropriado) garantiria o poder. Em estudos posteriores sobre o poder, aumentou-se o dissenso entre essas vozes iniciais ao invés de criarem um diálogo entre elas.

Pela corrente funcionalista, descrita por Hardy e Clegg (2001), procura-se tratar o poder como um elemento que está distribuído na organização e é concedido aos grupos dentro de formatos não oficiais. Segundo essa perspectiva, os interesses da Administração são condizentes com os interesses da organização e o bom funcionamento da empresa depende de que os empregados sejam conduzidos de forma a não manifestarem interesses diversos dos dela. Esses interesses são reconhecidos como o aspecto político inerente à organização, de caráter informal e ilegítimo. Entre os autores que compõem essa corrente, destacam-se Pfeffer (1981), o qual acredita não ser necessária a atividade política quando não há oposição ou desacordo dentro da organização; e Mintzberg (1983), que defende a ilegitimidade e o caráter disfuncional do uso do poder, interessando-se em conhecer quem detém o poder, de que forma ele é obtido, e quais configurações ele apresenta. Nessa visão funcionalista do poder, não se pode explicar por que existem interesses divergentes

manifestos nas organizações. Na verdade, nem mesmo chega-se a reconhecê-los como legítimos.

Na corrente funcionalista, escondem-se os processos pelos quais as elites organizacionais mantêm sua dominação e pressupõe-se que os gerentes utilizarão o poder responsavelmente, a fim de atingir os objetivos da organização. Os potenciais abusos de poder pelos grupos dominantes são subestimados, ao passo que aqueles que desafiam as prerrogativas gerenciais são rotulados como “políticos”, cujas ações são ilegítimas e disfuncionais. Assim, pelos pressupostos funcionalistas, conclui-se que “apenas ‘as pessoas más’ fazem uso do poder; as ‘pessoas boas’ usam alguma outra coisa, embora a literatura não seja clara sobre exatamente que coisa seria essa” (HARDY E CLEGG, 2001, p. 271).

De acordo com a corrente crítica dos estudos sobre poder, já se reconhece a existência de conflitos de interesses nas organizações os quais servem a alguns grupos, mas não a todos. Nesse caso, acredita-se também na possibilidade de manifestação da resistência de alguns dominados à dominação, o que é afiançado por Melo (1995) ao afirmar que o comportamento humano, mesmo que seja em grau mínimo, possui algum sentido de liberdade. Assim, os membros das correntes críticas modernistas começaram a investigar os meios de dominação de modo mais detalhado, refletindo também sobre a resistência de grupos subordinados.

Entre os autores que compõem a corrente crítica modernista, Hardy e Clegg (2001) destacam Lukes, o qual traçou os avanços no estudo do poder realizados na ciência política. Lukes (1980), baseando-se na visão unidimensional do poder, proposta por autores chamados de Pluralistas, e da visão bidimensional do poder, construída sob a forma de uma crítica à visão unidimensional, elabora a terceira visão do poder, a qual, segundo ele,

permite efetuar uma análise mais profunda e mais satisfatória do poder do que as outras duas (unidimensional e bidimensional).

Na visão unidimensional, o poder é visto como totalmente corporificado e plenamente refletido em decisões concretas ou em atitudes que incidem diretamente na sua elaboração, ou seja, enfoca o comportamento da tomada de decisões apenas em questões sobre as quais há um conflito de interesses no qual diferentes grupos prevalecem nesse processo. Nesse caso, acredita-se que barreiras ou mecanismos são estabelecidos para impedir a participação plena dos subordinados no processo de decisão (LUKES, 1980). Já na tipologia bidimensional, verificam-se atitudes como coerção, influência, autoridade, força e manipulação e considera-se o poder como um conjunto de valores, crenças, rituais e processos institucionais predominantes que operam em benefício de certas pessoas e grupos às custas de outros10. Na terceira dimensão do poder, Lukes (1980) focaliza sua atenção nos mecanismos sociais e de classe que perpetuam o status quo e são usados pelas classes dominantes para apoiar e justificar sua dominação material.

Nota-se que nas três dimensões do poder de Lukes (1980), discutem-se aspectos como a disputa por interesses e a formação de grupos de interesses, o caráter simbólico do poder e suas formas de exercício (coerção, influência, autoridade formal, manipulação, etc), bem como a legitimação do poder. Entretanto, seu trabalho é criticado por autores como Clegg (1993) por falhar em conceber o poder sob a forma de suas relações, encarando-o apenas como um bem, uma capacidade que é possuída e não exercida. Essa nova visão do

10O poder não pode ser confinado ao conflito observável, aos resultados das decisões ou mesmo aos temas

suprimidos. A questão da aquiescência política também deve ser considerada, uma vez que o uso do poder desse tipo ajudou a manter a dominância de grupos de elite e reduzir o emprego do poder pelos subordinados (LUKES, 1980).

Benzer Belgeler