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Os meus olhos viram o imponente e tocante espetáculo; e a comoção que provocam as coisas grandes e sinceras, agitou o meu espírito. Um povo gritou de desespero, gritou de cólera, chorou de dor, porque Ettore Ciccotti68 não é mais deputado

de Vicaria: e por três dias e três noites, este furor do povo, repleto de soluços e lágrimas, expressou-se nas formas antigas, simples e pueris da revolta popular: a pedra recolhida nas ruas suburbanas e que corta o ar, assobiando, o rústico pedaço de madeira que nem é um bastão mas que defende e ataca, o vaso de flores lançado da janelinha da casa: e um desejo louco, fúnebre, de morrer, atirando-se diante das armas carregadas e prontas para abrir fogo, as mulheres atirando-se sob os cavalos dos soldados, assim, ávidas de morte! Se mais trágica, se infinitamente mais trágica não foi a aventura do povo de Vicaria, deve-se ao próprio Ettore Ciccotti que aconselhou, em discursos e por escrito, a calma, a paz, em nome do profundo vínculo entre ele e este povo de Vicaria: deve-se à sua partida, à sua ausência, ato de terno altruísmo, com o qual se subtraiu ao terrível entusiasmo e aplacou, assim, também o desenho de revolução e de morte: ainda uma vez, ele salvou o bairro Vicaria do sangue e do massacre. E a ira ensandecida, lentamente, foi aplacada, já que estes poderosos ímpetos das massas não podem e não devem durar: e ficou, espalhada por todos os lados, em centenas de episódios comoventes, a dor de ter perdido Ettore Ciccotti, como deputado de Vicaria. Nas esquinas, um homem gira a manivela de um pequeno órgão e começa a tocar uma música bizarra: outro homem canta: e a canção fala de Ciccotti, o pai do povo, e todos se põem a cantar em coro, enquanto cresce a multidão: alguns cartões com o retrato de Ciccotti circulam entre as pessoas: as mulheres os seguram, beijam e guardam entre os seios. Um vendedor de jornais passa, é um velho: a cabeça está enfaixada: foi ferido, em uma daquelas noites: e caminhando a passo lento, com voz débil, grita o nome do jornal

68 Político italiano (Potenza, 1863 – Roma, 1939). Formado em Direito pela Universidade de Nápoles, fez

parte da Câmara dos Deputados e do Senado. Filiado ao Partido Socialista, opôs-se abertamente ao fascismo.

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e acrescenta, como refrão: ànn'acciso' u padre nostro Ciccotti.69 Em uma esquina de

Porta Capuana, há um grupo de mulheres e uma delas fala: está excitada, tem lágrimas nos olhos, narrando não sei qual benefício que ela teve de Ciccotti; e as outras, pouco a pouco, começam a gemer a seu redor: e como se alguém tivesse morrido, elas exclamam: avimmo perdute nu patre, nu patre!70 Em outro lugar, um homem bem

vestido, um senhor, enfim, mas conhecido no bairro, é rodeado por outras mulheres, que lhe contam suas desgraças, e ele ouve, pensativo, com a cabeça abaixada: e o refrão, mais melancólico, mais triste, recomeça: eles nos tiraram, sinhô, eles nos tiraram! Entrem, não nas lojas da burguesia de Vicaria, mas nos bassi de são João em Carbonara, da rua Santos Apóstolos, das travessas do Nuovo Corso Garibaldi, de Porta Capuana, e em cada uma daquelas espeluncas onde falta ar e luz e onde o povo napolitano vive, por culpa de seus maus governantes, como se não fossem homens e nem cristãos, e os senhores encontrarão o retrato de Ettore Ciccotti, ao lado da imagem da Virgem. Digam seu nome a um destes homens ou mulheres do povo: e verão suas fisionomias inflamadas e exaltadas, pois ele é o pai, não o que lhes deu a vida, mas o pai de suas misérias, de suas abjeções, de suas dores!

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E estas pessoas de Vicaria não são eleitores: são povo. E uma outra coisa. É uma multidão de desventurados que nasceram com o legado de epidemias, da pobreza e do vício e pelos quais ninguém tomou uma atitude, para que estes desventurados fossem, em nome de Deus, em nome da natureza, considerados irmãos, mais infelizes, mais desgraçados, mas irmãos; são desventurados; a quem ninguém pensou em dar pão e trabalho, pois antes que o pão e o trabalho cheguem a eles, milhões de ladrões elegantes precisam subtraí-lo ou extorqui-lo: são desventurados aos quais ninguém dá uma escola, pois os senhores do Comune deliram para investir um milhão em uma sociedade que está para falir e não providenciam que se abram escolas: são desventurados para os quais o trabalho pesa, sobre a vida, raro para se encontrar, difícil de durar, mal remunerado, precário, incerto, irrisório: são desventurados que muitas vezes, vêm do crime ou nele acabam, mas não por culpa deles, por culpa de outra sociedade, cega, surda, indiferente, dura como uma rocha.

69 Mataram nosso pai Ciccotti (dialeto napolitano). 70 Perdemos um pai, um pai! (dialeto napolitano).

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Não são eleitores! Povo: povo verdadeiro, numeroso, obscuro, em multidões temíveis71, cujos rostos mostram os cansaços e as tristezas, com vozes roucas,

enfraquecidas pela fome e pelas doenças, com os germes hereditários que um atavismo, ah, de pobreza, os colocou, com os instintos do mal exaltados pela longa existência de misérias, e de pranto, com a inclinação ao mal sim, ao mal, que colocou este centenário e cruel abandono obstinado da sua infeliz sorte; e a Sociedade infame fecha os olhos para não ver este povo, que foge, para apagar a sua existência e crê que a fuga seja a salvação. Oh o senhor não fugiu, Cristo, Senhor, este povo que, no tempo dos tempos, era oprimido por todo tipo de mal e expulso pelos poderosos e soberbos! O senhor os procurou, em todos os lugares: onde quer que houvesse um miserável, um sofredor, um pecador, um doente, um criminoso, o senhor lhe estendeu a mão, o abraçou, chamou de filho: o senhor permitiu que a mulher do mal, emblema, de todas as pecadoras, de todas as criminosas, se curvasse a seus pés pedindo perdão e o senhor perdoou, nela, todos os pecados das pobres mulheres, fracas, decaídas, frágeis, cuja virtude não é firme.

Ah, o senhor não fugiu, este povo, ou Leon Tolstoi, ou o mais cristão entre os cristãos, o senhor que tratou como irmãos, apenas aqueles que sofrem, o senhor que revelou à sociedade hipócrita e perversa todos os seus enganos e todas as suas infâmias, que desceu entre os desgraçados e desgraçadas, e apenas eles, nos seus livros, atingiram a honra da sua piedade e da sua ternura. Pai do povo, era o Nosso Senhor Jesus: e pai foram todos que desprezaram os ricos e cruéis e que curaram as chagas físicas e morais dos infelizes: e pai será chamado, na nossa vida, quem se ocupar apenas em enxugar as lágrimas de quem chora, de erguer as almas deprimidas, de oferecer uma consciência moral àqueles que a tiveram destruída pelo seu destino. Este nome de pai foi o povo de Vicaria quem deu a Ettore Ciccotti, porque ele não fechou os olhos, para não ver o horror daquelas existências, porque ele não fugiu, oprimido por um sentimento de terror e de impotência: porque ele permaneceu, corajoso, paciente, indulgente, às vezes consolando e fazendo o bem, procurando erguer o espírito ou socorrendo o corpo: porque ele teve piedade, mas não uma piedade pomposa e ultrajante, não uma piedade estéril e infecunda, mas uma piedade humilde e fraterna, mas uma piedade eficaz e operosa, mas uma piedade civil e gentil. Inúmeras vezes, este povo de Vicaria esquecido, abandonado, traído, encontrou em Ettore Ciccotti não o hipócrita que coloca a mão na carteira e dá duas liras, comprando duas liras de tranquilidade de consciência,

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mas um coração paterno, cheio daquela celestial indulgência que é a força dos líderes do povo, mas uma alma viril que, ao mesmo tempo, disse a palavra que alivia e emprestou a obra que redime, que consolou a dor e abriu os espíritos à esperança de uma vida mais consciente e mais civilizada. Não se surpreendam se as mulheres violentas de Porta Capuana e as mulheres de má vida de via Martiri d'Otranto o adoram! Assim Madalena adorou Cristo: assim Maslova, perdida e criminosa, adorou Tolstoi. O vínculo social foi fundado sobre a elevada, nobre e reabilitante caridade fraterna: o milagre social, foi criado apenas por um sublime e ardente sentimento de piedade e de amor

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E que importa a Ettore Ciccotti ser deputado de Vicaria? O homem, nele, é superior a este encargo mantido, frequentemente por gente vil ou estúpida. A beleza de sua alma não possui resquícios de ambição pueril: não é um arrivista: o socialismo não serviu para que ele ascendesse: por inúmeras outras forças intelectuais e morais, que possui, ele teria ascendido. E não foi sempre socialista: e a história de seu caminho para Damasco72, todo mérito seu, é o romance de um espírito íntegro e puro que de repente

se rebela contra a infâmia social, em todos os níveis, infâmia que não o atinge, mas que está a seu redor: é a rebelião obscura e impetuosa de um altruísta.

Seja, seja, sempre o pai do povo de Vicaria Ettore Ciccotti! Que este povo que ele amou e que o ama dele não se esqueça: não o abandone de novo a sua sorte triste e cruel: que leve a luz da palavra, a beleza do exemplo, a eficácia da ação àquelas pessoas desventuradas que são humanas, cristãs, possuem os sinais da inteligência e do sentimento, na pessoa. Para isso, não precisa ser deputado. E, talvez, amanhã, Ettore Ciccotti será de novo, se o jovem patrício que ocupou o seu posto, não se decida, e talvez seja capaz de fazê-lo, tornar-se, de Ettore Ciccotti, estudioso, cooperador, irmão, no bairro Vicaria. O título de pai, é tão belo, é tão digno! Não há quem o pronuncie sem se comover: e na boca do povo, isso significa oração e bênção.

Nápoles, Novembro de 1904

72 No texto de partida, via di Damasco, em referência à conversão de São Paulo, que se converteu ao

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