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1. BÖLÜM

2.7 İlgili Çalışmalar

Na perspetiva da polícia, uma manifestação representa per si o normal funciona- mento de uma sociedade democrática, apesar de poder conduzir a alterações da ordem pública, uma vez que o recurso à violência poderá ser uma tática válida utilizada pelos manifestantes. Adicionalmente, os grupospoderão encontrar na manifestação a sua opor- tunidade para utilizar diferentes táticas, surpreendendo as forças policiais desprevenidas (Waddington, 1994). No entender dos manifestantes, as “forças policiais representam o Estado” (Favre, 1990, cit in Oliveira, 2000, p. 197), repercutindo-se esse facto numa atitude de maior agressividade dos manifestantes face aos agentes de autoridade quando a rei- vindicação se dirige em primeira linha contra o governo (Favre, 1990, cit in Oliveira, 2000).

________________________________________________________________________________ 29 De acordo com os dados obtidos, a generalidade das manifestações em Portugal, muito raramente resvalam para situações de violência (Oliveira, 2000). Não obstante este facto, adverte Felgueiras (2009; vd., também, Gorringe, Stott, & Rosie, 2012) que, para evitar a escalada de violência durante uma manifestação, as forças policiais devem estar conscientes acerca das condições que favorecem a ocorrência de situações violentas, exi- gindo-se-lhes uma compreensão da dinâmica das multidões.

Em paralelo às condicionantes mencionadas, o policiamento de multidões é igual- mente alvo “de um escrutínio intenso de múltiplas audiências a múltiplos níveis. Estas au- diências têm a capacidade de provocar consequências de acordo com o seu julgamento acerca da performance policial” (Cronin & Reicher, 2006, p. 175). De acordo com Oliveira (2000), a mediatização do fenómeno manifestante constitui uma realidade pretendida pelos manifestantes e procurada pelos meios de comunicação social. Na atualidade, a presença de jornalistas em serviços de ordem e ações de manutenção da ordem assume-se como uma realidade com a qual as forças de segurança têm que conviver, “na medida em que os media participam na construção das imagens das instituições na sociedade” (Pais, Fel- gueiras, Rodrigues, Santos & Varela, no prelo). Os conteúdos transmitidos acerca do tra- balho policial constituem-se num discurso que se vai refletir na formação da perceção das pessoas (Pais et al., no prelo), e assim sendo, as forças que policiam este género de even- tos são condicionadas pela perceção das diversas audiências relativamente à sua atuação, uma vez que “as estratégias de ordem pública utilizadas pela polícia são refletidas na per- ceção dos cidadãos relativamente ao respeito que o Estado demonstra face aos seus di- reitos e liberdades” (della Porta, Petersons, & Reiter, 2006, p. 3, vd., também, della Porta & Reiter, 1998). Também o poder político exerce pressão sobre a polícia, condicionando a sua atuação, salientando della Porta e Reiter (1998, p. 9; vd., também, Leitão, 2007) que “os modelos de policiamento de manifestações [aliás, como os restantes modelos de poli- ciamento] são influenciados pelo sistema político”.

O ambiente em que os elementos policiais desenrolam a sua atividade é diversifi- cado e a sua atuação é sujeita a diversos condicionalismos, exigindo diferentes modos de atuação face a realidades díspares. Leitão (2007) refere que a discricionariedade é prova- velmente a principal característica da ação policial, constituindo a possibilidade que os li- mites normativos atribuem a cada elemento policial ou força policial de escolher livremente entre um possível modo de ação ou omissão (Leitão, 2007). Klockars (1985) salienta que a discricionariedade policial é uma componente essencial e necessária do trabalho policial. Este conceito surge indexado à assunção de que a polícia é caracterizada por ser um or- ganismo de regulação social e não um organismo encarregue unicamente por velar pelo bom cumprimento das normas jurídicas. O trabalho policial, tal como a polícia o exerce, é

________________________________________________________________________________ 30 especialmente dedicado a regular relações entre pessoas. Em termos sociológicos a dis- cricionariedade será vista como o “espaço de liberdade [de] que goza a acção concreta da polícia e que ultrapassa largamente as margens dentro das quais a lei permite a interven- ção de considerações de oportunidade da polícia” (Dias & Andrade, 1984, p. 446).

Durão (2008) refere que, no final da década de 1960, se assistiu a um intenso de- bate acerca da função das polícias à luz do quadro social vigente. As opiniões centravam- se em dois polos divergentes, argumentando uma fação que a polícia se constituía numa força cuja missão se consubstanciava na aplicação da lei, enquanto a outra enquadrava a atividade policial num serviço de apoio à comunidade, orientado para a gestão de compli- cados problemas sociais. De facto, não se pode afirmar perentoriamente que as instituições policiais da atualidade se enquadram exclusivamente num destes polos, coexistindo estas duas realidades. Nesta medida, considera-se que as ocorrências com que os elementos policiais se confrontam na sua vida são tão diversas e complexas que a sua resolução não pode ser reduzida a simples princípios (Bayley & Bittner, 1984) e, nesse sentido, a discri- cionariedade surge associada ao contexto em que o elemento policial se movimenta.

Wilson (1968) adianta que, formalmente, é suposto os polícias não possuírem qual- quer tipo de discricionariedade. No entanto, na opinião deste autor, a discricionariedade é inevitável, tendo em conta que a verificação de todas as infrações é de todo impossível e ainda devido ao facto de a aplicação da lei requerer uma interpretação prévia da sua apli- cação por parte do elemento policial. Esta interpretação tem, com frequência, em conside- ração a opinião da população face à suposta atuação policial, o que provoca um condicio- namento na decisão do elemento, afeta significativamente a sua visão global e, por conse- guinte, influencia a sua discricionariedade (Lum, 2011). A interpretação do elemento poli- cial não é, contudo, influenciada somente pela opinião comunitária, dado que, de acordo com Klockars (1985), a discricionariedade está associada a um conjunto de decisões e de políticas adotadas pelos administradores policiais, que condicionam o comportamento dos elementos policiais, e à alocação de recursos para determinada atividade (esta temática será abordada adiante, analisando os estudos de Cronin & Reicher, 2000, 2006).

Verifica-se que um decisor policial, inserido no policiamento de uma manifestação, desenvolve a sua atividade de tomada de decisão de forma condicionada. As condicionan- tes da tomada de decisão poderão ser externas ao decisor, associadas a fatores de ordem espácio-temporais (como o tempo disponível para a decisão e o local no qual se desenrola a manifestação), pressões políticas e da opinião pública. Por sua vez, também a discricio- nariedade influencia a tomada de decisão, na medida em que permite ao decisor liberdade na seleção dos seus cursos de ação. Nesse contexto, é importante conhecer e compreen- der o processo discricionário dos decisores, ou seja, conhecer os critérios utilizados pelos elementos para que optem por afastar uma atuação com recurso aos normativos legais ou

________________________________________________________________________________ 31 determinações, e procedam de acordo com os seus valores e interpretações, recorrendo às suas experiências ou expectativas.

Benzer Belgeler