2. KURAMSAL ÇERÇEVE VE İLGİLİ ARAŞTIRMALAR …
2.2. İLGİLİ ARAŞTIRMALAR
Emprestando o conceito de Nietzsche, Maffesoli acredita que, contrastando com o espírito Apolíneo do mundo - representante de uma ciência progressista, pensamento iluminista, que visa a emancipação e o desenvolvimento do homem “senhor de si” -, a pós- modernidade é marcada pela constante presença do barulhento Dionísio, deus grego dos bacanais, do teatro, do espírito lúdico como atitude frente ao mundo. Este seria, além dos aspectos apresentados, uma representação do aspecto hedonista da existência, uma forma diferenciada de narcisismo. Não haveria mais uma preocupação com o “dever-ser” social,
265 MAFFESOLI 2008a, 66-67. 266 MAFFESOLI 2006d, 9.
mas sim o simples “ser” em uma dimensão mais pessoal que é também dividida pelo meio em que se encontra. Por isso, um narcisismo coletivo.
Com certeza, esse processo significa o fim ou, mais exatamente, a saturação, dos valores dominantes e gerais que são aceitos e partilhados contratualmente pela maioria. De fato, a identificação agrega cada pessoa a um pequeno grupo ou a uma série de grupos. O que implica uma multiplicidade de valores opostos uns aos outros. É isso que fez com que se falasse, sem razão, em narcisismo. Sem razão, se se concebe o narcisismo como o estreitamento sobre o mundo individual, como é costume analisá-lo. Em compensação, é de todo legítimo vislumbrar um narcisismo
coletivo, se o compreendemos como o fato de produzir e de viver uma mitologia
específica. Esse narcisismo coletivo, sem deixar de ser individual, põe a tônica na estética, pois o que ele promove, é esse estilo particular, esse modo de vida, essa ideologia, esse uniforme vestimentário, esse valor sexual, em suma, o que é da ordem da paixão partilhada.267
Esse hedonismo coletivo que Maffesoli aponta se daria em uma “nova” forma de socialidade. Dizemos “nova”, entre aspas, porque ela seria na verdade uma retomada de uma forma arcaica, que é o tribalismo. Contudo, adaptada ao ambiente atual, tornar-se-ia um tribalismo urbano, que nada mais é do que uma rejeição epistemológica do conceito de massa (confusa, disfuncional) e do indivíduo (único, indivisível). Através da noção de tribos, Maffesoli busca desenvolver uma forma de análise social que se foca em pequenos núcleos socais que dividem rituais e legislações que, apesar de serem contrários entre si, são aceitos em seus próprios núcleos, mesmo que acabem indo contra a moralidade social imposta. Ao atacar o conceito do indivíduo, e por conseqüência do individualismo, contrapondo a isso a questão de tribalismo e espírito dionisíaco, ele comenta:
Não tenho a intenção de abordar frontalmente o problema do individualismo. Vou falar dele, regularmente, a contrario, sendo o essencial apontar, descrever e analisar as configurações sociais que parecem ultrapassá-lo, a saber, a massa indefinida, o povo sem identidade ou o tribalismo como nebulosa de pequenas entidades locais. Trata-se, é claro, de metáforas que pretendem acentuar, sobretudo, o aspecto confusional da socialidade. Sempre a figura emblemática de Dionísio. A titulo de ficção, proponho fazer “como se” a categoria, que nos serviu durante mais de dois séculos para analisar a sociedade, estivesse completamente saturada. Costuma-se dizer que, muitas vezes, a realidade supera a ficção. Tentemos, pois, estar à altura daquela. Talvez seja necessário mostrar, como o fizeram certos romancistas, que o indivíduo não tem mais a substancialidade que, de modo geral, lhe haviam creditado os filósofos, a partir do Iluminismo.268
267 MAFFESOLI 2005c, 38. 268 MAFFESOLI 2006d, 36.
Apesar de neste trecho ele recuar a um ataque frontal à noção do indivíduo, reconhecemos, em outro trecho de sua obra, um ataque direto a este conceito, apontando que este seria, em sua análise, um fenômeno social que não se vê mais acontecendo.
De que é feita a vida [na pós-modernidade], a vida de todos nós, senão, justamente, do oposto do individualismo? Como compreender todas essas aglomerações em massa, todas essas “amontoações”que pontuam a vida social? Aglomerações musicais das quais as Techno Parade, a mais recente, oferece uma sonora ilustração. Comunhões religiosas, como as Jornadas Mundiais da Juventude, em Paris. Êxtases esportivos, como bem mostrou, pouco tempo atrás, a Copa do Mundo. Em termos mais cotidianos, celebrações culturais, dentre elas as múltiplas “jornadas” e festivais (solenidades oficiais, festas nos parques, musicais, etc.) e as festas do consumo, nos hipermercados e nos múltiplos saldos e liquidações que são os templos contemporâneos.
Poderíamos multiplicar à vontade os exemplos. Basta lembrar que, em cada um desses casos, o indivíduo racional e senhor de si fica singularmente ausente. Em cada uma dessas situações, o importante é “perder-se no outro”. Perder-se numa dessas tribos – musical, religiosa, esportiva, consumidora, cultural ou humanitária269.
Dentro da dinâmica social tribal, formam-se espaços sagrados no meio urbano, “altares” que servem de comunhão e celebração entre as tribos. É nestes altares em que ocorre a perda da noção do indivíduo – ao ocorrer a ligação simbólica, fortalecendo-se o cimento cultural, há uma formação de interações imagéticas que escapariam tanto dos conceitos de massa quanto de indivíduo. Espaços de celebração de mistério, de entrega mística ao Outro270, fazendo o membro da tribo pertencer a algo maior do que ele em sua própria ( e única) vida. Há religação (re-ligare) com o meio.
Assim, poderíamos dizer que a megalópole é constituída por uma série de “altares”, no sentido religioso do termo, nos quais são celebrados diversos cultos de forte componente ético-estético. São os cultos do corpo, do sexo, da imagem, da amizade, da comida, do esporte, etc. Nesse aspecto, a lista é infinita. O denominador comum é o lugar onde se realiza esse culto. Com isso, o lugar faz o elo. Uma formulação de Rilke resume bem essa colocação: o “espaço de celebração” (Raum des Rühmung). Celebração que confere ao religioso sua dimensão original de ligação e que pode ser uma celebração técnica (museu de la Villette, La Vidéothèque), cultural (Beaubourg), lúdico-erótica (o Palace), de consumo (les Halles), esportiva (parc des Princes, Roland-Garros), musical (Bercy), religiosa (Notre-Dame), intelectual (o grande anfiteatro da Sorbonne), política (Versailles), comemorativa (o Arco da Defesa), etc. Aí estão diversos altares onde a banalidade cotidiana vai revigorar-se, seja diretamente, seja por intermédio da televisão. Trata-se de espaços específicos de alta carga erótica, e não é à toa, aliás, que alguns deles, levando essa lógica às últimas conseqüências, são tidos como locais de “paquera”, nos quais se exerce, contemporaneamente, a prostituição sagrada, essa hierodulia de antiga memória que reforçava o sentimento que uma sociedade tinha de si. Espaços de celebração feitos por e para iniciados, aos quais se vai em busca de iniciação e onde se observam os iniciados: no sentido etimológico do termo, portanto, espaços onde se celebram
269 MAFFESOLI 2004b, 78-79. 270 MAFFESOLI 2008a, 146.
mistérios. As pessoas se reúnem, reconhecem umas às outras e, com isso, conhecem
a si mesmas. [...]
Todos esses territórios, que é preciso compreender no sentido etológico – esses “altares”, esses lugares e espaços de socialidade – são compostos por afetos e emoções comuns, consolidados pelo cimento cultural ou espiritual, em suma, existem por e para os tribos que neles escolheram seu domicílio.271
Como formas de tribalização, não deixam de faltar nessas novas dinâmicas sociais diversas provas e desafios que compõem um típico cenário tribalista. Para se iniciar em determinada tribo, o indivíduo precisa passar por etapas. Só então ele será aceito. As provas ocorrem por diversas mediações simbólicas: tatuagens, modos de se vestir, lugares (reais ou virtuais), gírias, assuntos etc. Todos esses elementos constituem parte do cimento social tribal, ao mesmo tempo em que são colocados em prova a todo o momento, fazendo o probacionista elevar-se potencialmente em sua tribo. Contudo, como as tribos urbanas não funcionam de forma regulamentada, toda essa provação se dá de maneira muito mais orgânica e velada. Os membros e colegas de tribo vão, naturalmente, aceitando ou afastando o participante. Até sua consolidação no meio, há um trajeto a seguir. Ainda assim, tal vínculo pode ser desfeito a qualquer momento – seja por parte dos mesmos da tribo quanto do próprio indivíduo. Os novos laços sociais, neste caso, são transitórios, e podem morrer na mesma velocidade que nasceram.
Inspirando-se da expressão desencantamento do mundo de Weber, Maffesoli desenvolve o conceito de que o homem pós-moderno passa atualmente por um processo de
reencantamento do mundo, visível especialmente nessas interações simbólicas de
conotação místicas e religiosas sociais em volta dos altares urbanos dentro das dinâmicas tribais.. Se Weber exprimia com aquela frase uma noção de que o homem moderno passou a se utilizar da razão como ferramenta generalizante de toda a sua existência, deixando de lado a dimensão espiritual, Maffesoli busca provar através de seu trabalho que atualmente a sociedade pode estar passando por processos de formação de novos valores que não são racionalmente compreensíveis na lógica moderna, religando-se de maneira sensível ao mundo. Assim, ao dizer que existe hoje um reencantamento do mundo, Maffesoli também busca assinalar, mais uma vez, o que ele acredita ser o fim da modernidade.
Então, quando falo de um reencantamento do mundo, falo de uma modernidade que termina. Não concordo de falar de modernidade segunda ou de um estágio posterior
da modernidade. Algo qualitativamente diferente está se produzindo. E este qualitativamente diferente nos remete a esta Terra – amor mundi. Nesse sentido, devemos recorrer às intuições de Nietzsche, que tão bem mostrou isso. Curiosamente, o amor pelo mundo vem acompanhado por uma forma de reencantamento – pouco importam as expressões. Eu diria que isso reintroduz justamente o politeísmo.272
Perda do indivíduo, atitude dionisíaca, tribos urbanas, politeísmo de valores, reencantamento do mundo. Todos esses conceitos estão interligados dentro da perspectiva teórica maffesoliana, e é importante compreendermos qual a conexão que possuem. A dinâmica, resumidamente, seria então a seguinte: após o período de desencantamento moderno, denunciado por Weber, o homem, através de uma atitude de efervescência dionisíaca, desenvolvendo assim uma atitude estética perante ao mundo, reencanta-se. Contudo, esse processo só é possível de ocorrer através da experimentação de um politeísmo de valores – diferentes formas de se conviver e ler o mundo, sem que nenhuma necessariamente se ponha diante de outra. Não há melhor ou pior, não há busca por único caminho a seguir. A regra de conduta na pós-modernidade seria justamente a de se tentar vários caminhos, criando assim laços simbólicos efêmeros, dinâmicos, transitórios, resultando dessa forma na perda da idéia de um indivíduo único, surgindo a idéia de um homem tribal, ou seja, aquele pertencente a determinado grupo (que é, também, dinâmico, e pode tanto surgir quanto desaparecer com a mesma velocidade). Esse processo, esse jogo social estético, seria o fator principal de reencantamento. Porém, deve-se ter em mente que, ao experimentar esse politeísmo de valores, o homem passa a experimentar também um tipo de paganismo, já que deixa de haver a forte influência de um pensamento do tipo monoteísta (“só há um jeito certo de se viver”). Em outras palavras, tem-se “o paganismo como princípio vital”273 como forma mais explícita de cenário reencantador.