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No que se refere especificamente ao Budismo, as concordâncias entre as doutrinas de Sakya Muni e a metafísica da Vontade são ainda mais profundas, principalmente no que diz respeito à moral. As concepções éticas presentes no pensamento de Schopenhauer já estão, em gérmen, reconhecidas e expressas por Sakya Muni, embora em Buda seus preceitos éticos não se encontram formulados através de uma exposição sistemática ou científica, como é o caso de Schopenhauer, sendo muitos de seus principais pontos pouco inteligíveis. Não obstante, poder-se-ia esclarecer e compreender melhor o significado profundo dos ensinamentos de Siddartha Gautama, através do conhecimento das idéias centrais presentes na ética de Schopenhauer (como, por exemplo, a questão da capacidade da Vontade em negar-se a si própria, que somente é adequadamente compreendida em Schopenhauer, embora seja necessário um conhecimento prévio da doutrina budista, que prega a necessidade do aniquilamento dos desejos). As relações entre o pensamento oriental (seja o Brahmanismo, seja o Budismo) e a metafísica da Vontade são tão viscerais que a referência à autoridade das fontes indianas antigas, no estudo do próprio pensamento schopenhaueriano, não só não diminui o seu valor e força, enquanto magistral construção de pensamento, como também apresenta-o como medida ou escalão de aperfeiçoamento de toda aquela antiqüíssima construção conceitual que, na Índia Antiga, fora apenas intuído obscuramente. A leitura do pensamento de Schopenhauer facilitaria, sobremaneira, a compreensão do próprio pensamento indiano, aclarando muitos de seus pontos incompreensíveis para nós, ocidentais. Pode-se dizer que a filosofia indiana proporcionou, ao pensamento de Schopenhauer, não uma fonte de inspiração ou de revelação (como muitos poderiam erroneamente pensar), mas sim um espelho e um meio de auto-representação e auto-afirmação; tanto que muitos dos conceitos principais presentes no pensamento indiano não só são familiares a qualquer leitor sério do pensamento de Schopenhauer, como também a aplicação de muitas das principais noções filosóficas presentes na metafísica da Vontade contribuem para esclarecer, sobremaneira, alguns aspectos obscuros do pensamento indiano. Ao melhor se compreender este, melhor se compreenderá a concepção de mundo e de idéias do próprio Schopenhauer e vive-versa, pois ambas estas formas de

pensamento apresentam uma interação visceral perfeita, embora em Schopenhauer estes conceitos estejam expressos de uma forma mais clara e mais rigorosamente sistematizada, estando mais “palatáveis” ao gosto ocidental.

Seja como for, é inquestionável e fora de qualquer dúvida que a causa do apreço entusiasta e incontido de Schopenhauer pelas formas de pensamento orientais, em especial pelo Budismo e pelo Hinduísmo, são as verdades e coincidências ou concordâncias com a sua própria filosofia. Busquemos analisar estas concordâncias mais de perto.

Tanto em Buda, quanto em Schopenhauer, o conceito de Vontade torna-se central e fundamental na construção de seus respectivos sistemas de moral. Em ambos, a vontade torna-se a essência não só de nosso mundo físico, como também de nós próprios, de nosso próprio ser; ela é vista como sendo o princípio imanente do mundo objetivo-representacional. Ambos estes sistemas morais constituem-se em construções de natureza imanente e não-transcendente. É o que Schopenhauer afirma em relação à sua própria filosofia quando nos diz:

“Ela [a doutrina da Vontade] ensina o que é o fenômeno e o que é a coisa em si. Esta, porém, é uma coisa em si apenas relativa, isto é, na sua relação com o fenômeno (...), mas o que é a coisa em si fora daquela relação, eu nunca o disse, porque não o sei: na mesma, porém, está a vontade de viver.” (S. W., V, Kap. 14, 161)

Em ambos estes sistemas (Budismo e metafísica da Vontade), o fenômeno da negação da essência em si do mundo, núcleo central de ambos os sistemas éticos, não consiste, devido ao seu próprio imanentismo, na aniquilação de uma substância, como muitos podem pensar, mas num simples ato subjetivo, num fenômeno de auto-transformação e de retirada definitiva do mundo da experiência (Samsara hindu), num simples ato de “não-querer”, onde o que até agora foi com veemência e ardor constantemente desejado, já não mais é. Nas palavras de Schopenhauer:

“E como nós somente conhecemos esta essência, esta vontade, apenas como coisa em si em nós e através de nossos atos do querer, somos incapacitados de dizer ou conceber, depois de abandonar este ato, o que é que há para além disso: daí a negação para nós que somos o fenômeno do querer, ser uma transição para o Nada.” (M, p. 320)

Ao analisarmos os meandros do pensamento de Schopenhauer e sua relação com a ética budista, a questão da conscientização da identificação universal da essência em si do mundo nas inúmeras individualidades empírico- fenomênicas e a posterior auto-anulação da vontade de viver surge como ponto central na busca do homem para alcançar sua própria felicidade e bem-aventurança eternas que, tanto em Schopenhauer quanto no Budismo antigo, é alcançada ao nível da conduta ética para se atingir a libertação e superar, assim, as dores do mundo torna-se fundamental para todo aquele que busca a felicidade e a salvação.

A conscientização da natureza única e universal da Vontade é o que possibilitaria a ascensão ao nível da conduta ética, descerrando perante os olhos do homem o “véu de Maya” da individualidade empírico-fenomênica, que faz com que a ilusão da existência de vontades independentes e individuais, egoisticamente empenhadas em afirmar seus próprios ímpetos, se mostre perante a consciência do homem. Este descerrar do véu de Maya, atingido na ascensão ética, mostra esse fenômeno como sendo uma mera ilusão do princípio de individuação. Como conseqüência deste processo, ocorre o desaparecimento da noção de individualidade. Quando esta noção desaparece, a conduta egoística perde o sentido e o homem, imbuído do mais genuíno espírito de solidariedade e caridade, torna-se bom, pois ele passa a entender que o mal e a miséria que afligem um outro ser (seja ele homem ou animal) não é um quinhão exclusivo daquele ser em especial; aquela mesma dor, miséria e sofrimento que assolam aquele ser também lhe pertencem, pois a essência que constitui o cerne daquele outro ser é a mesma que palpita dentro de seu peito. Este sentimento de conscientização da identificação universal do eu com todos os demais seres e coisas do Universo, presente tanto no Budismo quanto no Brahmanismo, bem como em Schopenhauer e que é o cerne de toda a conduta genuinamente ética, é descrito de forma literária pelo grande escritor português Eça de Queiroz (1845 a 1900) numa passagem de sua obra A cidade e as

serras, quando um de seus personagens nos diz:

“Mas que nos importa que aquele astro além se chamasse Sírio e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse Jacinto, outro Zé? Eles são imensos, nós tão pequeninos, somos a obra da mesma vontade. E todos, Uranos ou Lorenas de Noronha e Sande, constituímos modos diversos de um ser único e as nossas individualidades esparsas somam na mesma compacta unidade. Moléculas do mesmo todo, governadas pela mesma lei,

rolando para o mesmo fim... Do astro ao homem, do homem à flor do trevo, da flor do trevo ao mar sonoro - tudo é o mesmo corpo, onde circula, como um sangue, o mesmo Deus. E nenhum frêmito de vida, por menor que seja, passa numa fibra desse sublime corpo, que não repercuta em todas, até as mais humildes, até as que parecem inertes e invitais. Quando um Sol que não avisto, nunca avistarei, morre de inanição nas profundidades, esse esguio galho de limoeiro, embaixo na horta, sente um arrepio de morte; e quando eu bato uma patada no soalho de Tormes, além o monstruoso Saturno estremece e esse estremecimento percorre o Universo inteiro!” (CS, p. 112)

É unicamente através desta consciência da identificação e união universais de todos os seres numa essência em si única, que a grossa muralha da individualidade empírico-fenomênica, que tornava o homem egoísta e mau, desaparece e esta conscientização de sua natureza “irmã” em relação a tudo o que vive, inspira-lhe um enorme sentimento de simpatia e solidariedade para com todos os seres e coisas: é um sentimento muito próximo àquele expresso numa célebre passagem dos Upanishads, frequentemente citada por Schopenhauer em seus escritos:

“Hae omnes creaturae intotum ego sum, et praeter me aliud ens non est.” (*)

Também sabemos que outra grande importância da etapa ética no sistema moral tanto de Schopenhauer, quanto no do Budismo é o fenômeno do Nirvana e que se constitui no objetivo final buscado pela doutrina ética de Schopenhauer e que, neste aspecto, mostra-se fundamental e essencialmente oriental. O Nirvana é, para esses sistemas filosóficos (Budismo, Hinduísmo e Metafísica da Vontade), o símbolo da felicidade, da bem-aventurança e da redenção às quais todos os homens devem invariavelmente buscar para se verem livres, para sempre, dos tormentos e misérias da vontade de viver. É esta consciência da identificação do homem com todos os seres que possibilita o tão surpreendente e belo fenômeno da universalização do sofrimento e da dor, pois o homem vê que toda a dor que atinge cada ser em especial é também a sua dor, pois ele se vê em cada ser que sofre e este sentimento de solidarização possibilita que a sua vontade objetivada em fenômeno se conscientize de que a sua individualização não pode,

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em hipótese alguma, protegê-la da dor, que é impossível escapar do sofrimento do mundo e que a felicidade é uma quimera inalcansável, uma ilusão que os homens criaram para iludirem a si próprios e que a única forma de se subtrair à dor e ao sofrimento, tristes apanágios de tudo o que vive, é a extinção de si próprio, única saída do espetáculo tragicômico das misérias deste mundo. Isso somente poderá ser alcançado através de um longo processo, que inicia-se com a renúncia quietista ao mundo e aos prazeres e solicitações, passando pela mortificação dos instintos e terminando na auto-supressão da Vontade e na apoteótica fuga para o Nada; mas tudo isso somente se torna possível com a anterior ascensão à etapa ética ou moral. Não obstante, um dos grandes empecilhos para se atingir a libertação das dores do mundo, para se alcançar a salvação e redenção através da renúncia definitiva, total e completa de todo o querer-viver, é a individualidade empírico-fenomênica ou, utilizando-nos do termo usado por Schopenhauer em sua filosofia, o princípio de

Benzer Belgeler