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O governo do Partido dos Trabalhadores assumiu a administração em 2001, trazendo como uma de suas propostas o que chamou de inversão de prioridades45, buscando, com isso, voltar as suas ações para a área social.

Buscou-se redimensionar as políticas sociais, imprimindo um novo olhar para a área social, assumindo, claramente, uma visão de mundo crítica.

“A assistência social no governo democrático e popular constitui uma das ferramentas de confronto à exclusão social própria ao neoliberalismo” (ibid, p. 65)

Inverter prioridades significava, também, olhar pela população mais excluída, dentro de uma lógica de direitos e não apenas com ações compensatórias.

Um dos elementos mais significativos da assistência social foi justamente fazer a diferenciação entre ações de cunho compensatório das de prevenção, forçando os próprios trabalhadores da área a pensarem sobre os sentidos e os resultados das suas ações.

“Nossa política de assistência permite distinguir as ações compensatórias e corretivas das de caráter preventivo no Plano Municipal de Assistência, estabelecendo metas de

45 Para se ter uma dimensão do que significou, ideologicamente, a tomada do poder municipal pelo Partido dos Trabalhadores em 2001 na cidade, faz-se necessário apontar que até então a prefeitura era administrada pelo antigo PPB, com a lógica própria de um partido considerado de direita.

inversão no período de quatro anos”. (PT – Programa de Governo Democrático e Popular, Campinas, 2001 – 2004, p. 13).

A proposta de não setorização da população atendida e de se buscar programas integrados, também com outros setores da prefeitura, veio suscitar uma luta interna, principalmente no plano ideológico.

“Preocupa-se com a não setorização da população atendida, garantindo programas integrados intra e inter secretarias”. (ibid)

Um outro elemento que veio no sentido de contribuir para a ruptura de um modelo de assistência social mais conservadora foi a extinção do Fundo Social de Solidariedade e do fortalecimento do papel do Conselho Municipal de Assistência Social, com ampliação da participação dos usuários dos serviços, na composição do próprio Conselho.

“Respeita e fortalece a ação do Conselho Municipal de Ação Social (CMAS) e dos demais setoriais, contribuindo para o aprofundamento permanente de seus papéis (...) (ibid).

Para se discutir o trabalho com comunidades em Campinas, é preciso entender que a Assistência Social na cidade possui ações centralizadas (como serviços de abrigos, penas alternativas, dentre outros) e descentralizadas nas cinco regiões administrativas da cidade.

Nestas últimas são desenvolvidos os atendimentos da população por meio de: Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima; Serviço de Núcleos Comunitários de Crianças e Adolescentes; Programa de Formação para o Trabalho e Cidadania (profissionalização básica) e de Economia Solidária; Serviço de Acolhimento e Referenciamento Social (antigo Plantão); Programa Estadual Viva Leite, e demais ações de acompanhamento de casos de famílias com histórico de violência doméstica (dentre outras), tendo como pano de fundo o trabalho com comunidades.

Embora as ações descentralizadas estejam vinculadas a uma mesma Coordenadoria Regional de Assistência Social - as CRAS, elas também estão ligadas a outras coordenadorias

setoriais. Na verdade, tecnicamente e politicamente, os serviços respondem às coordenadorias setoriais e, operacionalmente, às coordenadorias regionais46. As verbas e os outros recursos ainda vêm destinados separadamente, o que gera, também, divergências entre os trabalhadores dos diferentes serviços e programas47.

O Plano Plurianual da Assistência Social para o período 2002 – 2005 aponta a integração das ações da área dentro de 05 eixos, quais sejam:

- Criança e Adolescente, prioridade absoluta; - Novas Relações Comunitárias;

- Enfrentamento à pobreza; - Cidadania e Diferença; e - Gestão Participativa.

É importante observar que todas as ações eram norteadas pelas seguintes diretrizes gerais:

a) Trabalho em rede;

O trabalho em rede, integrando OG’s, ONG’s e entidades de Assistência Social, realizado de forma regionalizada, favorece a inserção da comunidade e objetiva a criação e fortalecimento de relações comunitárias de solidariedade (Grifo do autor) (Plano Plurianual da Assistência Social 2002-2005, p. 40).

b) Participação Popular / participação do usuário;

46 Esta questão não é tranqüila e muitas vezes se presenciou discussões sobre o real papel destas coordenadorias, repensando a dimensão e importância técnica e política das coordenadorias regionais no fomento da não setorização das ações.

47 Como exemplo, pode-se citar o Programa de Garantia de Renda Familiar Mínima, que, na gestão anterior ao PT, era “a menina dos olhos da Secretaria” e era o único descentralizado que dispunha de transporte, duplas formadas por assistentes sociais e psicólogos, entre outros recursos, para operacionalizar o Programa. A equipe de profissionais contava até com certo status e prestígio dentro do quadro geral da Secretaria. Este fato é importante ser destacado neste trabalho justamente porque, com a administração petista, a equipe de profissionais do Programa Renda Mínima veio a se constituir na principal executora do trabalho com comunidades na cidade, o que gerou muitas resistências por parte dos técnicos que deixariam de fazer parte de um Programa estruturado, fechado e com recursos e status para construir algo novo e sem recursos. Atualmente, o problema matém-se, por exemplo, com os recursos de Formação para o Trabalho e Cidadania, já que a maioria dos assistentes sociais responsáveis por este serviço discordam em liberar parte da verba para constituir cursos e oficinas nas comunidades.

“A concepção de Trabalho em Rede usualmente se restringe às organizações, aos profissionais, nem sempre considerando a dimensão comunitária, a participação popular e a participação do próprio usuário.”(ibid)

c) Ações de prevenção / inversão de prioridades;

Tendo em vista o valor central da autonomia das pessoas, e não somente autonomia econômico-financeira, mas psicossocial e política (cidadania plena), o combate à exclusão social e conseqüente busca da inclusão requer a priorização de ações de caráter preventivo. Exemplificando. (ibid, p. 42).

Como pode ser observado, a dimensão comunitária aparece nas 03 diretrizes.

O trabalho com comunidades, denominado informalmente pela equipe da Secretaria de Assistência Social de “Ação Comunitária”, desenvolvido pela Secretaria Municipal de Assistência Social em Campinas tem como cerne o eixo: “Novas Relações Comunitárias”.

Este eixo traduz a seguinte missão para a política de assistência no município:

contribuir no processo de luta contra a brutal competitividade individual e desigualdade fomentadas no (...) sistema capitalista; e enriquecer a vida individual e coletiva do sujeito para que possa provocar mudanças nas relações e trajetórias de vida, na comunidade local e no tempo histórico e social desta sociedade. (PPA 2002 – 2005, p. 96).

Suscita, portanto, um trabalho a partir de valores que contraponham ao individualismo, fortalecendo as pessoas como sujeitos individuais e coletivos.

Esta missão deve ser cumprida por meio do fortalecimento das chamadas redes de relações, entendida pelos gestores da seguinte forma:

Indivíduos sozinhos não têm condições de se fortalecer. A construção das redes é processual e dinâmica, envolvendo tanto família como os amigos, os vizinhos, os companheiros de trabalho, partido, sindicato, como redes formais das organizações de saúde, assistência, educação ou outras, a partir dos sujeitos implicados(Grifo nosso). (Faleiros apud Plano Plurianual - 2002 – 2005, p. 96).

O enfoque é a criação de relações comunitárias de solidariedade, num espaço urbano construído sob a lógica da especulação financeira. A cidade precisa assegurar possibilidades de convivência solidária. Nesse sentido, planejamos a Prestação de Assistência Social de forma regionalizada, em rede e com inserção comunitária da família, nosso principal referencial (Grifo nosso). (Plano Plurianual - 2002 – 2005, p. 96).

Pode-se destacar, portanto, a importância das categorias solidariedade, coletivo, autonomia e participação como valores, assim como rede de relações e território na concepção de comunidade expressa no trabalho em Campinas.

Os objetivos do trabalho, a partir do eixo “Novas Relações Comunitárias” são:

- comprometer as instituições com o enfoque local desenvolvendo formas participativas e cooperativas da gestão da assistência social;

- construir um trabalho em rede e intersetorial, promovendo a articulação dos programas, serviços e projetos da assistência social entre si e com as demais políticas públicas;

- construir um processo político-pedagógico de conquista de cidadania que fortaleça as relações comunitárias e a autonomia das famílias;

- superar a fragmentação da organização programática e valorizar o exercício de vivências coletivas;

- que os serviços, programas e projetos da assistência social em Campinas sejam espaços: que possibilitem a organização da vida solidária das famílias de uma comunidade48; de participação social e articulação dos

diversos atores locais; de discussão da vida cotidiana, de informação, de formação, de capacitação e de valorização da identidade cultural das famílias e da comunidade; de construção de senso de identidade territorial e de projeto social das famílias e da comunidade. (ibid, p. 97)

Nos seus objetivos, pode-se observar o caráter eminentemente educativo-político da proposta.

As ações apontadas para este eixo no Plano Plurianual são as seguintes:

- Construção do trabalho em Rede para o enfrentamento à pobreza com prestação de Assistência Social regional e comunitária;

- Criação de Rede de Assistência Social associada ao trabalho de fortalecimento dos espaços comunitários de convivência;

- Gestão integrada, descentralizada e participativa, envolvendo projetos e ações da administração municipal, entidades beneficentes de assistência

48 Nesta parte do documento, a proposta de Campinas expressa a idéia de Comunidade como um bairro ou localidade formada por famílias e desconsidera outros tipos de formações comunitárias.

social, ONG’s, movimento popular, sindicatos, universidades – para garantir intersetorialidade das ações;

- Aplicação conjunta e simultânea de ações prioritárias em um mesmo território da cidade. Nas áreas selecionadas, buscar dar oportunidade de inclusão social à população, a partir de ações integradas e da participação da comunidade;

- Criação de espaços de Convivência Comunitária de apoio às famílias e de articulação dos diversos programas sociais da Prefeitura Municipal de Campinas e Parceiros. (ibid, p. 98)

Os trabalhos deveriam ser focados em:

- fortalecimento da mobilização comunitária (reivindicações49, etc); e

- constituição de espaços grupais/ coletivos de socialização e construção de “Novas Relações Comunitárias”.

Ou seja, estrategicamente, os profissionais descentralizados deveriam intensificar mais as ações de cunho coletivo (atividades e grupos com as comunidades) a partir de um processo de estabelecimento de vínculo e de construção conjunta das atividades com os usuários. Além disso, deveriam viabilizar a gestão conjunta dos serviços e estabelecer ações intersetoriais.

Interessante observar, também, quem são os agentes responsáveis por este trabalho, elencados no Plano Plurianual.

A construção de redes de relações de atendimento da Assistência Social é trabalho para todos os agentes da área - Secretaria Municipal de Assistência Social e Entidades Beneficientes de Assistência Social – e das outras Secretarias Municipais de Políticas Sociais, Movimentos Populares, Universidades e outros. Não é uma tarefa que possa excluir e escolher parceiros (Grifo nosso). (ibid, p. 97).

Benzer Belgeler