• Sonuç bulunamadı

TARTIŞMA VE ÖNERİLER

4.2.2 İleri Araştırmalara Yönelik Öneriler:

Adrienne Rich alcançou, nos últimos anos, o status de uma das mais conhecidas poetas e intelectuais em seu país. Sua obra não mais se restringe somente aos Estados Unidos, pois seus poemas e ensaios críticos têm sido traduzidos para várias outras línguas. A postura crítica da escritora em relação à política adotada pelo governo estadunidense tem lhe propiciado visibilidade como poeta, mas também como intelectual. A poeta tem usado essa expressividade na mídia para manifestar sua indignação com os rumos da política de seu país e engendra um discurso de ativismo político que assume um posicionamento crítico diante das conseqüências desastrosas dessa política.

Sua participação no movimento feminista, conforme abordada no capítulo anterior, somada ao engajamento político fizeram com que Rich, juntamente com outras críticas, forçasse, de certa maneira, a entrada e permanência das mulheres na esfera política. A percepção de que o poder está fundado, principalmente, no discurso, faz com que a poeta não só busque fortalecer o discurso das mulheres, mas também requerer seu próprio reconhecimento como uma intelectual. Por essa razão, uma das principais reivindicações de Rich tem sido tornar legítimo seu lugar no campo de luta cultural. Sua relação com o poder se baseia na crítica ao poder instituído e no fortalecimento do poder instituinte, capaz de ir além da mera participação nas instituições. Diante da relevância de sua arte como um instrumento de questionamento e pressão no âmbito da esfera política, busco evidenciar, nesse capítulo, a posição da poeta como intelectual que participa crítica e ativamente das questões políticas de seu país e de sua interação com outros países.

À luz da reflexão de alguns críticos, discuto o papel dos intelectuais no mundo contemporâneo, principalmente no contexto estadunidense, buscando compreender como Rich tem ressignificado os espaços de resistência política por meio da escrita. Procuro focar a obra de Rich, como escritora e poeta, para verificar de que forma ela legitima seu discurso em um espaço ainda tradicionalmente masculino e de que modo rompe com o discurso patriarcal – base de sua educação formal – e busca revelar outras experiências em seu fazer literário e em seu discurso político. Investigo como sua escrita reflete a intenção de diminuir o distanciamento entre a intelectual e seus leitores e de que maneira a poeta articula sua posição política, que parte de uma formação intelectual tradicional, para uma prática que se ajusta à lógica moderna, destacando as possíveis contradições e tensões que daí resultam.

Os intelectuais no passado

Em Os intelectuais e as massas, John Carey faz um estudo da inteligência literária européia no período de 1880 a 1939. Segundo o autor, nessa época, a maioria dos intelectuais se mostra contrária à vulgarização da arte e estabelece um distanciamento entre eles, colocados em um patamar superior e, as massas, descritas como um grande contingente de pessoas consideradas culturalmente inferiores (CAREY, 1993, p. 16).

Carey afirma que com a expansão do capitalismo os intelectuais se vêem frustrados diante das grandes transformações sociais, principalmente daquelas relativas à cultura. A superpopulação nos grandes centros urbanos e a popularização da arte fazem com que se mostrem indignados com as mudanças ocorridas no mundo moderno. Esse sentimento irá

acarretar em muitos deles o desejo de se distinguirem em relação aos homens "comuns", ou seja, de se colocarem em uma posição superior no campo do conhecimento. A grande maioria dos intelectuais, nessa época, se declara contrária à vulgarização da arte, alguns até de forma mais radical, estabelecendo assim um maior distanciamento das massas. A partir da constituição da idéia de vanguarda, porém, os intelectuais se unificam como grupo na defesa da diferença cultural. John Carey, ao refletir sobre essa questão, afirma:

A expansão maciça dos subúrbios e os antagonismos, as divisões e o sentimento de perda irrecuperável que gerou foram importantes fatores formadores da cultura inglesa do século XX. Exacerbaram a sensação de isolamento entre o intelectual e aquilo que ele considerava como hordas provincianas, também chamadas de classe média ou burguesia, cuja estupidez e pequenez mental é retratada (isto é; inventada) com deleite pelo intelectual. (1993, p. 54).

Nesse sentido, podemos notar que grande parte dos intelectuais europeus e alguns norte-americanos desse período abordado por Carey irão defender e reforçar o distanciamento entre eles e a sociedade em geral através da afirmação da existência de uma cultura superior. A visão que prepondera será a de que a massa não tem condições de ser instruída e que uma elite pensante se torna fundamental na condução da sociedade. Segundo Carey, “a imagem mais comum da massa em Nietzsche é uma manada de animais. Mas também a representa como um enxame de moscas venenosas, ou como gotas de chuva e ervas daninhas, arruinando altivas estruturas” (1993, p. 30). A imagem retratada pelo filósofo não só desumaniza a multidão, mas também a coloca como maléfica e capaz de contaminar a vanguarda intelectual. Essa distância entre os interlocutores da cultura e o restante da população se justificaria principalmente pela visão errônea, na percepção de Carey, da incapacidade de a massa compreender e valorizar a arte.

A intolerância apresentada pelos intelectuais em relação à questão de classe se estende também à questão do gênero. Segundo Carey, Nietzsche é enfático ao afirmar que “a crença de que as mulheres são iguais ou merecem educação é um sinal de superficialidade [...]" e que elas "[...] deveriam ser tratadas como propriedades, escravas ou animais domésticos" (1993, p. 74). Rebaixadas pelo filósofo e oprimidas na sociedade patriarcal, as mulheres não teriam, por um longo tempo, igual direito à educação. Elas foram relegadas a um segundo plano, pois mesmo se pertencessem a uma classe superior, ainda assim não seriam aceitas na esfera política. Embora as mulheres, no começo do século XX, se esforçassem pela democratização da educação feminina, o que observamos é que ainda predominava a supremacia masculina. Como afirma Carey, “o aristocrata intelectual do início do século XX é uma fantasia quase exclusivamente masculina. Paralelamente, as mulheres, as crianças e a vida familiar são vistas como preocupações secundárias” (1993, p. 74). Historicamente as idéias circulantes na esfera pública estavam diretamente relacionadas aos homens. As mulheres, mesmo tendo acesso à educação, tinham dificuldades em se afirmar não somente na esfera pública, mas também no campo intelectual. Logo, elas precisariam encontrar formas de luta que não só lhes garantisse seus direitos à educação, como também lhes permitissem ocupar espaço e poder no campo de luta política.

Os intelectuais estão ligados à cultura assim como os políticos ao poder. A princípio, poderíamos pensar que eles estão a serviço do poder político no que se refere a formular idéias e ações que irão promover esse poder. Assim, cumpririam o papel de dar suporte teórico para quem verdadeiramente ocupa o lugar no governo e tem a responsabilidade direta com a ação política – o político. Norberto Bobbio, discutindo a

relação entre o intelectual e o político, traça a diferença que norteia o trabalho dos intelectuais e dos políticos. Para ele, “[...] a tarefa do intelectual é a de agitar idéias, levantar problemas, elaborar programas ou apenas teorias gerais; a tarefa do político é a de tomar decisões” (1997, p. 82). Assim sendo, o trabalho dos intelectuais se resume a idealizar e teorizar o que os políticos realizarão ou colocarão em prática.

A relação íntima entre essas duas esferas tem levado alguns críticos a responsabilizar os intelectuais por rumos históricos desastrosos. Um caso extremo que podemos citar é a aproximação feita por alguns autores entre a Filosofia de Nietzsche e o Nazismo. As reflexões elaboradas por Nietzsche na defesa de uma sociedade saudável e menos numerosa podem ter sido modelo para as atrocidades conduzidas por Hitler. De maneira análoga, Carey fala do romancista norueguês Knut Hamsun que “[...] acabou encontrando seu grande terrorista em Hitler, sendo o único grande intelectual europeu que lhe permaneceu fiel até o fim” (CAREY, 1993, p. 13). Embora haja afinidades entre as reflexões de Nietzsche e Hamsun e o Nazismo, o processo que desencadeou esse último foi muito mais amplo, não podendo, é claro, ser o filósofo e o escritor responsabilizados pelo seu desenvolvimento histórico.

Os intelectuais no presente

No mundo contemporâneo em que há cada vez mais incerteza e descrença nos valores universais, o papel dos intelectuais se torna um dos principais temas de discussão. Um seminário promovido pelo Ministério da Cultura, no segundo semestre de 2005, no Brasil, reuniu um grupo de intelectuais no debate sobre os rumos da cultura e a função deles nesse processo. Os conferencistas retomaram desde os intelectuais clássicos até os

intelectuais contemporâneos. Na verdade, como mostra Bobbio, os intelectuais sempre estiveram próximos ao poder e essa relação entre eles e o poder tem sido discutida desde os tempos mais remotos; sejam como filósofos ou sábios na Antigüidade, sejam na figura dos profissionais ligados ao campo da produção cultural na modernidade, os intelectuais sempre mantiveram alguma relação com o poder econômico, político ou ideológico em diferentes sociedades e épocas.

A globalização e o avanço tecnológico da modernidade, por sua vez, colocaram novos desafios para os intelectuais que se vêem cada vez mais dependentes dos meios de comunicação. Para Vera Lúcia Follain de Figueiredo: “A mídia é, hoje, o grande espaço de divulgação e legitimação dos discursos [...]” (2004, p. 146). Reconhecendo que o discurso é seu principal instrumento de trabalho, os intelectuais procuram manter, atualmente, uma relação de proximidade com a mídia. Tal relação, na maioria das vezes, se revela frágil, pois os intelectuais, para corresponder às expectativas dos meios de comunicação, acabam se submetendo à lógica midiática e traindo seus ideais ou, ainda, não se sujeitam à mídia, mas correm o risco de serem esquecidos ou ignorados. A preocupação com a mídia, que é controlada por grupos econômicos, tem feito com que eles priorizem aspectos mercadológicos em prejuízo às adesões a valores humanistas que muitas vezes entram em conflito com interesses econômicos e sociais. Para Eduardo Prado Coelho:

A transferência de valor que autorizava os universitários a falarem para fora dos limites da sua competência opera hoje, sobretudo, na passagem do domínio mediático (onde a competência é mais de comunicação do que de um saber substancial) para o domínio da intervenção intelectual – embora os profissionais dos mass media considerem importante uma caução do tipo cultural, e daí a forma como se legitimam através da publicação de livros (de reflexão, de crônicas, ou de reportagens ou muitas vezes até de ficção). (2004, p. 22).

Essa passagem, de uma certa forma, remete ao fato de que os intelectuais de hoje já não conseguem falar de tudo como supostamente faziam no passado devido à tempestade de informações e à efemeridade dos fatos. Seus grandes desafios têm sido conseguir acompanhar a quantidade e a velocidade dos acontecimentos no mundo contemporâneo para serem capazes de atender ao imediatismo imposto pelos meios de comunicação. A complexidade que envolve os intelectuais, na atualidade, está associada ao desconforto causado tanto pelas crises nos valores universais, quanto pela proliferação cultural ocorrida a partir do século XX. Por isso, é importante repensar esse papel tendo como base uma nova realidade.

O intelectual palestino Edward Said, residente nos Estados Unidos desde sua adolescência, considera essas razões e procura abordar em seu livro Representações do

intelectual as questões que têm reconfigurado a condição dos intelectuais na sociedade

moderna. É compreensível que as constantes transformações sociais influenciem e atinjam também suas vidas, mas o que Said problematiza é a forma como os intelectuais têm incorporado os novos valores. Segundo o autor, atualmente é o profissionalismo que os ameaça:

Por profissionalismo eu entendo pensar no trabalho do intelectual como alguma coisa que você faz para ganhar a vida, entre nove da manhã e cinco da tarde, com um olho no relógio e outro no que é considerado um comportamento apropriado, profissional – não entornar o caldo, não sair dos paradigmas ou limites aceitos, tornando-se, assim, comercializável e, acima de tudo, apresentável e, portanto, não controverso, apolítico e ‘objetivo’. (SAID, 2005, p. 78).

Essa objetividade e adequação a um determinado comportamento do intelectual moderno impedem que seu trabalho se desvincule de forças controladoras. Os “filósofos ou boêmios” do passado, que em certa medida tinham mais liberdade e autonomia para

produzir seus saberes, foram substituídos pelos “profissionais” do presente que se vêem cada vez mais atrelados às pressões mercadológicas. Com a efervescência das informações reproduzidas pelos meios de comunicação de massa e a emergência em dar respostas aos acontecimentos, os intelectuais revelam a incapacidade de abarcar a totalidade. Por isso, assim como ocorre com a maioria das profissões, eles também estão sujeitos à especialização frente ao mercado cada vez mais amplo e diversificado. Por outro lado, a especialização é uma forma de engessar o pensamento à medida que restringe a área de conhecimento. De acordo com o autor: “A especialização também mata os prazeres do arrebatamento e da descoberta, ambos irredutivelmente presentes na índole do intelectual” (SAID, 2005, p. 81). Especificamente no campo literário, a especialização tem significado, com grande freqüência, priorizar a arte que se orienta por metodologias e teorias impessoais, desconsiderando por vez a história, a música ou a política (SAID, 2005, p. 81). Esses argumentos do autor nos levam a concluir que a impessoalidade, no campo intelectual, tem limitado as possibilidades do uso do conhecimento na busca por transformações sociais e aumentado a distância entre os intelectuais e as pessoas que eles supostamente querem representar.

De maneira análoga, Max Weber já apontava, no começo do século XX, a especialização como a principal prerrogativa do “trabalhador científico”. Em uma palestra proferida na Universidade de Munique em 1918, o sociólogo, ao discutir a Ciência como vocação, afirma, “[...] a Ciência entrou numa fase de especialização antes desconhecida [...]” (1963, p. 160). Para o autor, o que garante a realização do trabalho científico são a dedicação e o esforço da especialização, mas o envolvimento afetivo com o trabalho não pode ser deixado de lado. Weber demonstra que a concepção da Ciência é comumente associada ao “intelecto frio” em contraposição ao “coração e a alma” (WEBER, 1963, p.

161). O sociólogo parece apontar a desvantagem do trabalho unicamente mecânico e objetivo do conhecimento, por isso traça um paralelo entre o trabalho científico e o trabalho artístico. Esse paralelo demonstra que ambos dependem do esforço e dedicação, mas o trabalho artístico se prima principalmente pelo envolvimento emocional com seu objeto de arte. Segundo Weber, “[...] a dedicação íntima à tarefa, e apenas ela, deve elevar o cientista ao auge e à dignidade do assunto a que ele pretende servir. E isso não difere quanto ao artista” (1963, p. 163). Sendo assim, o envolvimento e a familiaridade que mobilizam o artista na composição de sua arte deveriam mobilizar também o cientista no exercício de sua tarefa.

A “inspiração” em relação à pesquisa do trabalho científico, geralmente ignorada no meio intelectual, é tão relevante quanto o esforço árduo do cientista. Para Weber: “Cientificamente, a idéia de um diletante pode ter a mesma influência, ou ainda maior, para a Ciência que a idéia de um especialista. Muitas de nossas visões são devidas, precisamente, a diletantes” (1963, p. 161). Por isso, o autor estabelece um contraponto entre o perito e o diletante no que se refere ao resultado de uma idéia. No entanto, deixa claro que tanto o trabalho árduo do perito quanto o “entusiasmo” do diletante são fundamentais para a obtenção de resultados no trabalho científico. Weber desmistifica a separação entre a vida pessoal e o trabalho do cientista. Nesse sentido, reforça a importância do diálogo do cientista com o mundo exterior. Ressalta, ainda, que somente a dedicação ao trabalho na elaboração de uma idéia não garante o resultado da atividade do especialista, mas a liberdade e o desprendimento do exercício dessa tarefa é que promovem a idéia que, em geral, ocorre nos momentos mais inusitados.

A valorização do diletantismo observada em Weber encontra eco na discussão do profissionalismo em Edward Said. Ao pensar nos intelectuais como profissionais, Said afirma: “A ameaça específica ao intelectual hoje, seja no Ocidente, seja no mundo não ocidental, não é a academia, nem os subúrbios, nem o comercialismo estarrecedor do jornalismo e das editoras, mas antes uma atitude que vou chamar de profissionalismo” (2005, p. 78). Se Weber já criticava o aspecto puramente racional da Ciência, Said descaracteriza o aspecto propriamente econômico da posição dos intelectuais na sociedade. A profissionalização modela o comportamento dos intelectuais. A preocupação em preservar suas imagens diante da opinião pública acaba minando uma possível conduta de assumirem o papel de articuladores na representação de uma filosofia, visão ou atitude que desafie o poder.

Nesse sentido, os intelectuais de hoje têm se tornado previsíveis, pois estão sempre prontos a dar respostas que, na maioria das vezes, são aquelas já esperadas. As palavras “diletantismo” e “amadorismo” possuem conotações positivas no contexto descrito por Weber e Said, respectivamente. O diletantismo, da forma como é empregada pelo sociólogo, considera como diretriz do “trabalho científico” a paixão no lugar da obrigação; da mesma forma, o amadorismo, no trabalho intelectual sugerido por Said, desconsidera seu caráter primordialmente econômico, pois o amadorismo, compreendido nesses termos, se refere ao exercício da atividade por gosto, sem considerar somente o retorno financeiro. Diz o autor, “[...] chamarei essa atitude de amadorismo, literalmente uma atividade que é alimentada pela dedicação e pela afeição, e não pelo lucro e por uma especialização egoísta e estreita” (SAID, 2005, p. 86). Ao sugerir que os intelectuais assumam uma posição de amadorismo, Said instiga os indivíduos ao exercício da autonomia em relação ao conhecimento e pensamento. Do “trabalhador científico” eram esperadas supostas certezas,

já os intelectuais contemporâneos deveriam se mostrar mais reflexivos e indagadores sobre o mundo a sua volta:

[...] o espírito do intelectual como um amador pode transformar a rotina meramente profissional da maioria das pessoas em algo muito mais intenso e radical; em vez de se fazer o que supostamente tem que ser feito, pode-se se perguntar por que se faz isso, quem se beneficia disso, e como é possível tornar a relacionar essa atitude com um projeto pessoal e pensamentos originais. (SAID, 2005, p. 86-87).

Esse desprendimento enfatizado tanto por Weber como por Said não torna inválida a responsabilidade e compromisso com o trabalho tanto dos cientistas quanto dos intelectuais. Na verdade, ambos demonstram que a fidelidade aos princípios éticos de responsabilidade está além do meramente profissional e, por esta razão, instigam os indivíduos a refletir sobre o papel deles no mundo contemporâneo.

Adrienne Rich parece incorporar em seu trabalho intelectual essas características debatidas pelos dois teóricos. A poeta tem demonstrado, através de seus poemas, ensaios críticos e entrevistas, seu compromisso primordial com o discurso que tensiona e desestabiliza o poder instituído. Sua arte não se limita a “metodologia e teorias impessoais”, como observa Said; ao contrário, a poeta procura priorizar sempre as questões sociais e políticas relacionadas ao seu tempo e espaço em seu discurso, mas também transita pela história e a música, entre outras manifestações culturais da modernidade. Dessa forma, podemos concluir que seu posicionamento como intelectual está mais próximo ao diletantismo que à especialização, pois Rich se mantém em constante diálogo com o mundo exterior.

Também em relação ao amadorismo proposto por Said, Rich parece se ajustar, pois a poeta tem assumido, desde o início da carreira, sua postura publicamente, desafiando a estrutura de poder na sociedade estadunidense. O fato de recusar o prêmio oferecido pelo

presidente Bill Clinton em 1997, como já mencionado no capítulo anterior, revela seu compromisso como intelectual que não sucumbe à persuasão do poder institucionalizado. Sua atitude ao publicar a carta endereçada à Casa Branca explicitando as razões que a levaram a tomar tal decisão revela, por um lado, sua despreocupação em preservar a imagem de uma poeta de prestígio mediante a opinião pública e, por outro lado, reforça a intenção de manter uma outra imagem, ou seja, como aquela que tem a coragem de dizer não ao poder instituído. Na verdade, Rich se recusa a receber o destaque na imprensa como uma artista reconhecida pelo então presidente dos Estados Unidos, mas se apropria desse reconhecimento para articular um outro discurso que coloca às avessas as intenções desse presidente. Esse episódio nos leva a vê-la como uma amadora nos termos colocados por Said.

A poeta vem demonstrando, também, sua coerência discursiva não somente quando

Benzer Belgeler