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A separação política formal entre Brasil e Portugal, em 1822, e a Constituição brasileira de 1824 desencadearam mudanças há muito discutidas no âmbito da legislação penal ocidental. Na esteira da aprovação da Carta Constitucional, que previa a realização (urgente) de um Código Civil e Criminal para a nova unidade política que se formava (“fundado nas sólidas bases da justiça e equidade”192), houve

191 Monica Duarte Dantas. “Constituição, poderes e cidadania na formação do Estado-

nacional brasileiro.” In: Fórum Rumos da Cidadania. São Paulo: Instituto Prometheus de Estudos Ambientais, Culturais e Políticos, 2010. Idem. “Revoltas, Motins, Revoluções: das Ordenações ao Código Criminal”. In: Idem (org.) Revoltas, motins, revoluções: homens livres

pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda Editorial, 2011. Idem. “O

Código de Processo Criminal e a Reforma de 1841: dois modelos de organização do Estado (e suas instâncias de negociação).” Conferência apresentada junto ao IV Congresso do Instituto

Brasileiro de História do Direito – Autonomia do direito: configurações do jurídico entre a política e a sociedade. São Paulo, Faculdade de Direito/USP, 2009.

192 Artigo 179, parágrafo 18. Em:

consenso entre os parlamentares para que se legislasse prioritariamente sobre matérias criminais.

Aos 12 de maio de 1826, numa das primeiras sessões regulares da legislatura, discutiu-se já o tema da codificação penal. Enquanto o deputado Silva Maia propôs, na ocasião, que se convidasse com urgência a comissão de legislação da Câmara a indicar as medidas a serem tomadas para a organização dos códigos civil e criminal do Brasil, Pires Ferreira enviou à mesa uma moção nos seguintes termos: “Proponho que se decrete um premio a quem dentro do espaço de dois annos apresentar o melhor projecto de codigo.”193

De acordo com Andréa Slemian, este fato por si só indica a importância e grandiosidade que a tarefa da codificação assumia naquele contexto, tocando fundo no desafio de construção de um campo de direito nacional para o Império do Brasil - por mais que subsistissem conflitos entre os contemporâneos sobre as bases de sua unidade política (herdeira da implosão da unidade imperial portuguesa)194

.

Na sessão de 1º de agosto de 1826 o deputado José da Cruz Ferreira (eleito pelo Rio de Janeiro) leu um parecer da comissão de legislação e justiça civil e criminal da Câmara (emitido aos 16 de julho do mesmo ano) em que, partindo-se das propostas de Silva Maia e Pires Ferreira, prescrevia-se uma ordem à elaboração dos códigos de que necessitava o país recém-independente. Para além de uma interessante análise da inadequação das leis então em vigor no país, o parecer estabelecia a forma com que se deveriam organizar os códigos civil, criminal, comercial e militar brasileiros, bem como o modo com que se deveriam desenvolver os trabalhos relativos a esta elaboração. Dizia o parecer - ao qual retornaremos com maior cuidado à frente:

Para se obterem estes codigos, parece à commissão ser conveniente que a camara convide os sabios e jurisconsultos a emprehender este arduo trabalho por todos aquelles meios que podem excitar o genio [...]. Os que quizerem concorrer ao premio deverão apresentar os codigos de que se tiverem encarregado à assembléa dentro de dous annos.195

193 Anais do Parlamento Brasileiro – Câmara dos Deputados (doravante APB-CD). Sessão de

12 de maio de 1826. Disponível em: http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp.

194 Andréa Slemian, “À nação independente, um novo ordenamento jurídico: a criação dos

Códigos Criminal e do Processo Penal na primeira década do Império do Brasil.” In: Gladys Sabina Ribeiro (org.), Brasileiros e cidadãos. Modernidade política. São Paulo: Alameda, 2008, pp.175-206; pp. 175-179.

195 APB-CD, sessão de 1 de agosto de 1826. Em: http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp; p.

A esta altura o deputado José Clemente Pereira já havia apresentado à Câmara, em sessão de 3 de Junho de 1826, as possíveis bases de um código criminal para o Império do Brasil. Nas sessões de 4 de maio e 16 de maio de 1827 seriam apresentados, por sua vez, dois projetos completos de Código Criminal para o país, respectivamente elaborados pelos deputados Bernardo Pereira de Vasconcelos e (novamente) José Clemente Pereira.

As “Bases” ao Código Criminal de José Clemente Pereira

Na sessão de 3 de junho de 1826, falando a seus colegas de plenário, José Clemente Pereira (deputado de origem lusitana eleito pelo Rio de Janeiro)196 confirmava a preocupação comum aos primeiros legisladores do Império com a organização de um diploma criminal para o país recém-independente. Não era, entretanto, um projeto completo o que o deputado vinha apresentar à Câmara naquela ocasião, mas antes o arrolamento de alguns princípios e regulamentações gerais que, em sua opinião, deveriam tomar parte no futuro documento.

Em seu discurso, Clemente Pereira reconhecia a inaplicabilidade das Ordenações Filipinas (especialmente de seu Livro V, no caso) ao Império do Brasil e afirmava advirem da falta de uma codificação penal nacional os males cotidianamente experimentados na administração da justiça no país.

Sendo, pois, conhecida a utilidade e necessidade que temos deste codigo, que não poderá ser obra de um momento, por depender de profunda meditação e estudo, emprehendi ordenar um projecto sobre os principios modernamente admittidos e comecei a formar alguns dos titulos que necessariamente deverão entrar no codigo criminal. Porém, depois de ter adiantado algum trabalho sobre as bases que havia estabelecido, lembrei-me que talvez estas mesmas bases houvessem que soffrer grandes alterações, e que neste caso estava derribado todo o edificio que houvesse levantado sobre ellas, e todo o meu trabalho perdido.197

196 José Clemente Pereira nasceu em Portugal no ano de 1787 e morreu no Rio de Janeiro em

1854, aos 66 anos. Ainda em Portugal, cursou Direito e Cânones na Universidade de Coimbra. Veio ao Brasil em 1815 onde inicialmente exerceu o cargo de juiz de fora na vila da Praia Grande, hoje cidade de Niterói. Foi eleito deputado pelo Rio de Janeiro para a legislatura de 1826 e novamente para 1830 e 1838. D. Pedro II nomeou-o ministro da Guerra em 23 de março de 1841, senador em 31 de dezembro de 1842, conselheiro de estado em 14 de setembro de 1850 e primeiro presidente do Tribunal do Comércio em 4 de setembro do mesmo ano. Organizações e programas ministeriais. Regime parlamentar no Império, 2ª ed., Rio de Janeiro, 1962, 279-289 (obra redigida em 1889, por determinação da Câmara dos deputados, pelo barão de Javari): S. A. Sisson. Galeria dos Brasileiros Ilustres. Brasília: Senado federal, 1999, vol.1, pp. 41-46. Também disponível em: http://www.brasiliana.usp.br/bbd/handle/1918/01139110#page/1/mode/1up.

197 APB-CD; sessão de 3 de junho de 1826. Em: http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp;

Clemente Pereira optava, portanto, por publicizar as premissas que havia organizado para o futuro código criminal brasileiro – submetendo-as às possíveis reformas e melhoramentos julgados necessários por seus colegas –, para somente então retomar seu trabalho compositivo.

Por este modo não só poderão ellas suscitar algumas idéas a qualquer outro, que se tenha dado a este trabalho, mas servir-me-hão depois para proseguir no meu plano com mais segurança, esperando que na proxima futura sessão me seja possivel apresentar o projecto do codigo criminal fundado nas bases que forem approvadas.

Transcritas nos Anais da Câmara dos deputados em sequência à fala de Clemente Pereira (sessão de 6 de junho de 1826), tais bases compunham-se de um Livro Primeiro, denominado Dos Crimes e das Penas, e de seus dois primeiros Títulos, respectivamente (I) “Dos crimes em Geral e seus autores”, dividido em dois capítulos, e (II) “Das Penas”, composto por 8 capítulos198.

O primeiro artigo do documento definia, ao longo de quatro parágrafos, a compreensão de “crime” adotada por Clemente Pereira. De acordo com este artigo, era crime (§1º) toda infração voluntária das leis penais; (§2º) a omissão voluntária de um fato mandado praticar por lei; (§3º) a desobediência aos mandados das autoridades constituídas; e, por fim, (§4º) a tentativa de perpetrar um crime que se não completasse em razão de forças estranhas à vontade do delinqüente.

Delimitado o entendimento de crime, o artigo 2º das bases estabelecia que: “A violação das leis economicas ou de policia, são contravenções e não crimes, que a lei pune com as penas meramente correccionaes.”. Já nos artigos terceiro e quarto tinha- se que “a simples tentativa para violar estas leis, em nenhum caso póde ser julgada contravenção” e que nenhum fato ou omissão poderia ser julgado crime ou contravenção sem prévia declaração de lei anterior.

O Capítulo II (“Dos autores e dos crimes”) do mesmo Titulo I definia, por sua vez, os critérios de autoria e cumplicidade acatados pelas bases, estabelecendo ainda limites etários fixos à responsabilização penal.

Já o Titulo II do mesmo documento contava com oito capítulos dedicados à tipificação das penas admitidas e à regulamentação da sua aplicação. Tendo-se separado os delitos do diploma em “crimes” e “contravenções” (artigos 1º e 2º), o

198 O índice das “Bases” apresentadas por Clemente Pereira encontra-se transcrito no Anexo I

autor apresentava também a categorização das punições previstas em cada caso199. Referindo-se à aplicação de “penas meramente correccionaes” aos casos de crimes de contravenção, Clemente Pereira não definiu, contudo, ao longo do projeto, quais seriam precisamente as punições aplicadas a tais ocorrências.

O Capítulo I do título em questão, pretensamente referente às “Penas em geral”, dizia respeito, portanto, sem explicitá-lo, unicamente às chamadas penas criminais, divididas, segundo o modelo penal francês, em “aflitivas e infamatórias” ou unicamente “aflitivas” (art. 12). A primeira destas categorias compunha-se das penas de morte, desnaturalização, trabalhos perpétuos e prisão perpétua, e a segunda do degredo perpétuo ou temporário, trabalhos temporários, prisão temporária, suspensão dos direitos políticos e multa200.

Para Clemente Pereira, portanto, à parte as penas correcionais, o código criminal brasileiro deveria admitir sete tipos de punição: morte, trabalhos públicos, prisão, desnaturalização, degredo, suspensão dos direitos políticos e multa; reconhecendo-se ainda três graus à sua imputação - máximo, médio e mínimo -, a serem definidos a partir da presença ou ausência de circunstâncias agravantes ou “agravantíssimas” em cada caso.

No primeiro capítulo do Titulo II ficava estabelecido ainda que, em caso de reincidência, as punições seriam duplicadas, e que o crime cometido durante o

199 A divisão adotada por parte dos códigos penais oitocentistas entre as categorias de crime,

delito e contravenções de polícia, com as conseqüentes divisões punitivas daí advindas, foi

bastante controversa durante o século XIX. Para parte dos juristas envolvidos na questão, tal categorização dos crimes – pautada por suas diferenças de gravidade – cumpria papel fundamental na organização dos códigos penais. Já para os juristas opostos à classificação, tal divisão não era admissível por fundar-se em critérios unicamente referentes à materialidade das punições, negando quaisquer princípios classificatórios intrínsecos à natureza dos fatos criminais ou à sua maior ou menor gravidade. É nesse sentido, por exemplo, que no livro

Tratado de Direito Penal Rossi afirma: “É dizer ao público: não vos embaraceis de examinar

a natureza intrínseca das ações humanas, olhai para o poder: se fizer cortar a cabeça de um homem, daí conclui que este homem é um grande malvado.” (p. 61) Para Thomaz Alves Jr., por sua vez: “Se a maior gravidade de uns [crimes] e menor de outros servisse para essa distinção, ela devia ser a priori conhecida, e não feita segundo a gravidade da pena, que vem a ser em última análise o único meio de se conhecer essa divisão.” (p. 63) APUD: Thomaz Alves Jr. Annotações teoricas e practicas ao Código Criminal. Rio de Janeiro: Francisco Luiz Pinto & Cª; Tomo I; 1864; pp. 59-64.

200

O Código Penal francês de 1810 que, veremos à frente, exerceu grande influência sobre a produção penal de José Clemente Pereira, não apenas dividiu suas infrações nas categorias de “contravention” “crime” e “délit”, como também suas penas em “matière criminelle” e “matière correctionnelle”, separando ainda as primeiras em “peines afflictives et infamantes” e “peines infamantes”. « Code des délits et de peines ». In : Corps de Droit Français, civil

cumprimento de sentença seria considerado circunstância “agravantíssima” para a imposição do máximo da pena prevista. Vale ressaltar também que se o artigo 15 das bases de Clemente Pereira recusava o acúmulo de punições corporais em uma única sentença (estabelecendo que o réu acusado por mais de um crime a que estivessem impostas penas corporais sofresse apenas a maior dentre elas), seu artigo 17 excluía desta regulamentação os réus escravos – passíveis de serem condenados às penas de trabalhos públicos e açoites, por exemplo, em uma só sentença.

Por fim, dentre os capítulos I e VIII do Titulo II definia-se os detalhes referentes ao entendimento e aplicação precisa das sete punições admitidas pelas bases.

Como se vê, os dois títulos apresentados por Clemente Pereira à Câmara estabeleciam de fato os princípios gerais sobre os quais o deputado pretendia desenvolver o restante de seu projeto de código criminal; destacando-se a atitude de Clemente Pereira de expô-los ao restante da deputação, sujeitando-os às suas críticas e possíveis reformas.

Um parecer emitido aos 10 de julho de 1826 (e lido em sessão de 1º de agosto do mesmo ano) pela comissão de legislação e justiça civil e criminal da Câmara - composta pelos deputados José da Cruz Ferreira (eleito pelo Rio de Janeiro), Antonio Augusto da Silva (BA) e Antonio da Silva Telles (BA) - vinha, neste sentido, responder aos anseios de Clemente Pereira. Admitia-se, por meio dele: a conformidade das “Bases” do deputado aos princípios de justiça e equidade prescritos pela Constituição de 1824, e a anuência da comissão ao uso das mesmas para a elaboração de um código completo. O parecer estabelecia ainda que, independentemente dos méritos do documento, os interessados em apresentar outros projetos à Assembleia não estariam obrigados a fundar-se nos mesmos princípios ali esquematizados, ficando livres para, em conformidade com a Constituição, o direito universal e as luzes do século, elaborarem códigos fundados em sistemas diversos ou em um distinto ordenamento das matérias201.

O Projeto de Código Criminal de Bernardo Pereira de Vasconcelos

Aos 04 de maio de 1827 foi a vez do deputado Bernardo Pereira de Vasconcelos (eleito por Minas Gerais)202 entregar à Câmara um exemplar do projeto de código

201

APB-CD: http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp, p.16.

202 Bernardo Pereira de Vasconcelos nasceu em Ouro Preto, Minas Gerais, em 1795; em 1813

criminal por ele elaborado nos meses anteriores. Nos anais da referida sessão consta uma vaga referência à entrega do projeto, transcrita nos seguintes termos: “O Sr. Vasconcellos mandou à mesa um projecto de codigo criminal, que ficou para se lhe dar destino.”203 Na sessão do dia seguinte, 5 de maio de 1827, a leitura do projeto passou já à ordem do dia, tendo sido dispensada na sequência – a partir de proposta do deputado Francisco de Paula Souza e Melo (SP), presidente da sessão – por ter sido considerada de conteúdo muito volumoso:

Perguntou o Sr. presidente, que destino se devia dar ao projecto do Sr. Vasconcellos; e o Sr. Cavalcante lembrou que seria bom crear uma commissão especial, visto ser objecto de muita importancia; e depois de fallarem no mesmo sentido os Srs. Clemente Pereira, Souza França e Vasconcellos; venceu-se que ficasse adiado o destino deste projecto, até que apresentado o seu parecer pela commissão especial para a refórma do regimento, se fizessem as que fossem approvadas.

O texto dos anais é dúbio quanto ao destino dado ao projeto de Vasconcelos: teria este documento passado às mãos de uma comissão especial da Câmara quase imediatamente após sua entrega, ou a decisão pelo adiamento do seu destino o teria deixado de lado por um determinado espaço de tempo? Ainda que não possamos responder precisamente esta questão, sabemos que, talvez por não ter sido lido nas sessões de 4 e 5 de maio de 1827, o projeto de Vasconcelos (diferentemente das bases de Clemente Pereira) não se encontra transcrito nos Anais deste ano, constando apenas ao final do 3º tomo dos Anais da Câmara do ano de 1829.

Ao final da transcrição do projeto tem-se a seguinte observação:

Este projecto não se encontra, em sua integra, nem nos Diarios da Camara, nem nas actas impressas, nem nas actas manuscriptas, e nem nos jornaes do tempo. Inserimol-o porque foi sobre suas disposições que se formulou o codigo criminal, monumento legislativo de nossos maiores. À solicitude do illustrado representante da nação o Sr. Conselheiro Tristão de Alencar Araripe devemos o avulso impresso que servio de base a esta publicação204.

em 1820. Foi deputado geral, por Minas Gerais, entre 1826 e 1837, senador de 1838 até 1850 (ano de sua morte), conselheiro de Estado também de 1842 até sua morte, Ministro da Fazenda entre 1831 e 1832, Ministro da Justiça e do Império de 1837 a 1839 e Ministro do Império em 1840. José Murilo de Carvalho (org.). Bernardo Pereira de Vasconcelos. São Paulo: Ed. 34, 1999; pp. 9-34.

203

APB-CD, sessão de 4 de maio de 1827; em: http://imagem.camara.gov.br/diarios.asp, p.16.

204 APB-CD; pp. 95-109; buscar pela sessão de 03 de setembro de 1829. Embora não

possamos confirmar se o exemplar do projeto de Vasconcelos cedido por Tristão de Alencar Araripe havia sido, ou não, fruto da impressão e distribuição deste documento aos membros do Parlamento (impressão e distribuição esta determinada pela Comissão especial do código

criminal, em parecer lido aos 14 de agosto de 1827), sabemos, contudo, que este projeto havia

O “Projecto do Codigo Criminal” elaborado pelo deputado mineiro compunha-se de uma única parte (Parte Primeira) denominada Dos crimes e das penas, em cujo interior encontravam-se distribuídos os cinco seguintes títulos: (I) “Dos crimes e penas em geral”, (II) “Dos crimes policiaes”, (III) “Dos crimes particulares”, (IV) “Dos delictos públicos” e (V) “Disposição Geral”; totalizando 334 artigos205.

Seu Titulo I, “Dos crimes e penas em geral”, compunha-se de seis capítulos – (I) “Dos criminosos”, (II) “Dos delictos justificáveis”, (III) “Das circumstancias aggravantes e attenuantes dos delictos”, (IV) “Da satisfacção”, (V) “Das penas ou castigos (palavras synonimas!)” e, por fim, (VI) “Da prescripção e do perdão das penas” - totalizando 109 artigos. Tratava-se do título do projeto de Vasconcelos com o maior número de artigos.

Como se nota pela própria denominação dada a estes capítulos, seus artigos definiam os entendimentos de crime e criminoso presentes no projeto, as circunstâncias agravantes e atenuantes dos delitos e o modo com que os réus deveriam satisfazer os danos causados por seus crimes. O Titulo I regulava ainda, ao longo de seus capítulos V e VI, as penas acatadas pelo código e os detalhes referentes à sua aplicação. Neste sentido, vê-se que o projeto de Vasconcelos se iniciava com o estabelecimento de uma teoria geral do delito e da pena, ou seja, com uma definição dos axiomas do direito penal aí regulado.

O projeto admitia onze punições: morte, galés, prisão com trabalho, simples prisão, banimento, desterro, infâmia, multa, perda dos objetos do crime, caução e vigilância da justiça; todas elas listadas pelo artigo 56.

Diferentemente das bases apresentadas por Clemente Pereira, para além do estabelecimento de princípios gerais para a imputação de crimes e penas, o projeto de Vasconcelos contava com outros quatro títulos dedicados à regulamentação de disposições referentes a delitos policiais, particulares e públicos (apresentados nesta ordem).

O Titulo II do projeto, denominado “Dos crimes policiais”, compunha-se de 17 artigos e regulava, em um só bloco, crimes como os de uso de armas proibidas,

Tarquínio de Sousa. História dos fundadores do Império do Brasil, v.5: Bernardo Pereira de

Vasconcelos. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1960; p.61.

205 “Projecto do código Criminal apresentada em sessão de 4 de maio de 1827 pelo deputado

Bernardo pereira de Vasconcellos”, APB-CD, 1829, tomo 3º, Rio de Janeiro, Typographia de H. J. Pinto, 1877; pp. 95-109. O índice do “Projecto do Código Criminal” elaborado por Bernardo Pereira de Vasconcelos encontra-se transcrito no Anexo II desta dissertação.

ajuntamentos ilícitos, sociedades secretas, ofensas à religião e uso indevido da imprensa. O Titulo III (“Dos crimes particulares”), subdividido em sete capítulos específicos e composto por 99 artigos, tratava, por sua vez, de crimes contra as pessoas, a honra, a propriedade, o estado doméstico e civil, e ainda dos crimes morais.

Composto por quatro capítulos e totalizando 107 artigos, o Titulo IV, referente aos delitos públicos, regulava os crimes contra a ordem interior do Império (inclusos aí os crimes dos funcionários públicos da nação e o delitos de resistência, forçamento de cadeia, sedição e falsidade) e o tesouro público, e os casos de ameaça à segurança interna e externa do país (compreendidos aí, dentre outros, os delitos de traição, atentado à Constituição, rebelião, provocação de nação estrangeira a guerrear com o Brasil, violação de tratados e pirataria).

O Titulo V, por fim, dedicado às “Disposições Gerais” do projeto, contava com dois artigos dedicados a esclarecer que o código apresentado não compreendia os

Benzer Belgeler