A leitura dos debates travados na Câmara dos deputados em torno do código criminal chama a atenção pela quantidade de vezes em que a questão codificacionista foi abordada no interior de embates procedimentais. Trata-se de debates em que, no geral, foram deixadas de lado discussões de conteúdo e priorizados argumentos relativos aos trâmites necessários à composição e aprovação final do diploma penal. Tem-se ainda, no interior destas contendas, discussões cuja temática específica não foi o código penal, mas que, especialmente por perpassarem questões relativas à justiça criminal, diziam-lhe respeito e tratavam de sua necessária implementação no Brasil e da forma que aí ele deveria assumir.
Apesar de percorrerem os cinco anos de tramitação do código no Parlamento brasileiro, as discussões que nos propomos a analisar neste subcapítulo não parecem responder aos mesmos objetivos por todo o período. Inicialmente previsíveis, num contexto de relativo desconhecimento dos meandros do trâmite parlamentar e do modo com que se materializaria, no cenário nacional, o ideário codificacionista ocidental, os debates procedimentais parecem ter assumido uma nova e diferente faceta nos meses imediatamente anteriores à aprovação do diploma penal. Desta feita, buscaremos salientar estes dois momentos dos debates, chamando a atenção às suas semelhanças e diferenças e aos possíveis significados da alteração por eles sofrida entre 1826 e 1830.
Atentemos assim, uma vez mais, às discussões iniciais em torno à positivação das leis no país recém-independente. Na sessão de 12 de maio de 1826, após o envio de moção sugerindo um prêmio ao autor do melhor projeto de código entregue à Câmara no espaço de dois anos, o deputado Pires Ferreira foi questionado por José da Cruz Ferreira (representante eleito pelo Rio de Janeiro) acerca da especificidade do código
mencionado250. Pires Ferreira respondeu ao colega referir-se a um “código geral”, sendo replicado com a declaração da impossibilidade de semelhante código no país, haja vista a inexistência de cabeça capacitada à sua elaboração.
Para além de bastante interessante em si mesmo, este breve diálogo permite que identifiquemos o relativo desconhecimento, partilhado pelos deputados, dos passos a serem seguidos na empreitada codificacionista nacional. Estava em questão, portanto, se tal empreitada visava à organização de um código ou de códigos para o país. Ademais, não estava claro como estes deveriam ser organizados – ou seja, de que partes ou livros deveriam ser compostos – e, menos ainda, quem seriam os responsáveis por sua redação. Tampouco se sabia, de antemão, como deveria ser empreendida a discussão dos projetos e como eles se articulariam a outras matérias legislativas necessárias ao país.
O relativo desconhecimento e inexperiência dos deputados que compunham a primeira legislatura imperial, para além do ineditismo da tarefa em que se empenhavam, parecem responder ao por quê do debate codificacionista ter se iniciado com discussões sobre os procedimentos necessários à elaboração dos códigos, à organização de seus debates ou à melhor maneira de se reconhecer os méritos dos atores empenhados na tarefa251.
Atentemos, neste sentido, ao parecer emitido em julho de 1826, pela comissão de legislação e justiça civil e criminal da Câmara (relativo às primeiras propostas apresentadas para a elaboração de códigos ao país recém-independente), e à sua discussão, em plenário, aos 17 de agosto do mesmo ano.
Desde seu início o parecer reconhecia “que o objecto de maior importancia, e que mais contribue para a felicidade dos povos, é um codigo completo de sua legislação, que contenha todos os direitos e obrigações nos diversos estados e relações
250 Para Cruz Ferreira, os códigos a se elaborar no Brasil deveriam “ser pelo menos 5 ou 6. Ha
o codigo civil, criminal, maritimo, mercantil, rural, etc., etc.”. APB-CD; sessão de 12 de maio de 1826, p. 60.
251Para alguns autores, o cuidado assumido pelos deputados no início dos trabalhos
legislativos de 1826 deve ser relacionado também ao receio de que, como na Assembleia Constituinte de 1823, a defesa inveterada de seus posicionamentos resultasse na dissolução da Câmara, ou em medida similar, da parte de d. Pedro I. Ao nosso ver, contudo, a coragem demonstrada pela Câmara no enfrentamento ao imperador e na defesa do projeto que consideravam o mais apropriado para o Brasil pode ser reconhecida desde os primeiros momentos de sua atuação, tornando, em grande medida, a reticência com que se iniciaram seus trabalhos fruto das dificuldades e do ineditismo inerentes à sua tarefa. Roderick J. Barman. Op. cit.; p. 143-144.
sociaes”252. Na visão dos membros da comissão, o Brasil, mais do que outras nações, necessitava de códigos, visto não possuir nenhum, não podendo convir ao povo brasileiro a “bárbara” legislação penal portuguesa (Livro V das Ordenações Filipinas) e a infinidade de leis extravagantes recentemente publicadas sem consulta às necessidades e vontades da nação recém-independente.
Introduzido, portanto, o tema da codificação e confirmada sua necessidade no país, o parecer avançava rumo à análise das dificuldades envolvidas em semelhante tarefa253, fixando a organização que deveriam assumir os códigos nacionais e sugerindo que a Câmara convidasse a este trabalho homens sábios e jurisconsultos e os estimulasse com a proposição de prêmios pecuniários e distinções honoríficas. Por fim, o texto estabelecia um encaminhamento possível à elaboração destes códigos no interior do Parlamento254 e afirmava que todo o conteúdo exposto pelo parecer seria transformado em projeto, pela própria comissão, assim que a Câmara o ordenasse.
Na sessão de 17 de agosto de 1826 o parecer entrou em discussão na Câmara baixa e os posicionamentos logo se polarizaram entre um grupo de deputados favoráveis à discussão pormenorizada das propostas ali presentes e um grupo defensor do reenvio do texto do parecer à comissão de legislação para sua transformação em um projeto de lei que, somente então, fosse detalhadamente discutido. Decidiu-se afinal que o parecer retornasse à comissão e que um projeto completo para a organização dos códigos e a premiação de seus autores fosse futuramente apresentado aos deputados. A decisão fundava-se na necessidade de aceleração do processo codificacionista nacional e no argumento de que não havia sentido examinar e debater minuciosamente um parecer que, transformado na seqüência em projeto, seria
252 APB-CD; sessão de 1º de agosto de 1826; p. 16.
253 O parecer fazia uso, para tanto, de exemplos internacionais, afirmando: “De quanta
difficuldade, porém, seja fazer-se um codigo tanto civil como criminal completo em todas as suas partes [...] é sabido dos que têm lido os celebres jurisconsultos modernos, principalmente o illustre Jeremias Bentham na introdução ao seu projecto geral de um corpo completo de legislação, e o Dr. Vicente José Ferreira Cardoso, no seu opusculo offerecido à assembléa constituinte de Portugal em 1822, em que mostrão as imperfeições dos codigos que existem e causas dellas.” Idem; p.16.
254 Os projetos enviados em até dois anos deveriam ser remetidos a uma comissão da Câmara
baixa que os avaliasse e ranqueasse, passando sua avaliação, na seqüência, por uma segunda comissão, encarregada de indicar os projetos merecedores de prêmios. O mesmo trâmite deveria ser seguido na Câmara alta e, no caso de concordância mútua, os projetos escolhidos seriam impressos juntamente aos pareceres e avaliações emitidas por deputados e senadores. Esta documentação impressa seria reenviada aos autores dos projetos, aos advogados de justiça do Império e aos “sábios da nação” para que, no prazo de seis meses fossem enviadas às Câmaras as observações que lhes parecessem necessárias às discussões finais.
novamente discutido por no mínimo três vezes em plenário - conforme previsão do regimento interno.
Durante o debate, posicionaram-se pela discussão imediata do parecer os deputados José Ricardo da Costa Aguiar (eleito por São Paulo), José Clemente Pereira, Antonio da Silva Telles e José da Cruz Ferreira - os dois últimos, membros da comissão que o redigira. Na opinião dos quatro representantes, a comissão havia agido corretamente ao apresentar ao plenário primeiramente as bases do projeto que se propunha a desenvolver no futuro, e não o projeto pronto255. Os deputados Luiz Cavalcanti, Paula Souza, e Lino Coutinho (BA), por sua vez, foram contrários à discussão do parecer, criticando a comissão por não ter desenvolvido um projeto completo sobre propostas previamente aprovadas pela deputação nacional e insistindo na necessidade de economia de tempo e esforços desnecessários à Câmara.
O projeto enfim elaborado pela comissão de legislação e justiça civil e criminal da Câmara entrou em discussão apenas na sessão de 14 de maio de 1829256, sendo, então, rejeitado pelos deputados.
Paralelamente à elaboração e discussão deste projeto, temáticas afins à positivação das leis penais no Império do Brasil continuaram a aparecer na forma de embates procedimentais de diferentes facetas. Dois interessantes exemplos apontam para os distintos posicionamentos assumidos pela deputação nacional no tocante à possibilidade de discussão e aprovação, ou não, de matérias penais afins ao código criminal previamente à sua promulgação.
No dia 5 de maio de 1827, na mesma sessão em que foi discutido o destino de seu projeto de código criminal, Bernardo Pereira de Vasconcelos enviou à mesa a seguinte indicação: “Que não se discutão as leis regulamentares, que tiverem relação com o codigo criminal, sem que a camara resolva, se devem, ou não, ser admittidos à discussão os dois projectos do codigo criminal.”. Ao fazer referência às leis regulamentares relacionadas ao código, Vasconcelos aludia especificamente à lei de responsabilidade dos Ministros e Conselheiros de Estado. Na opinião do deputado
255 Afirmava, nesse sentido, o deputado José Clemente Pereira: “a commissão não só não foi
ommissa, mas até não devia obrar de outro modo. Ella não devia apresentar um projecto, emquanto a camara não approvasse a medida, que foi lembrada pelos illustres autores das indicações. [...] A commissão não fez mais do que dar o seu parecer sobre ella, dizendo que a julga muito proveitosa e que no caso de ser aceito este seu juízo, organizará o projecto de lei, que a deve autorisar. Logo procedeu em regra.” APB-CD; sessão de 17 de agosto de 1826, p. 178.
mineiro, esta lei deveria compor o código criminal nacional e não se constituir enquanto lei “sui generis”, como decidido previamente pela Câmara.
Os deputados interessados na questão perceberam rapidamente o sentido da indicação de Vasconcelos e posicionaram-se predominantemente contra sua proposta. Coincidentemente ou não, o único defensor do deputado mineiro foi José Clemente Pereira, também ele autor de um projeto de código criminal (entregue à Câmara poucos dias depois desta discussão), persistente na ideia de que tudo quanto fosse penal deveria ser discutido unicamente depois de aprovado o diploma.
Os principais opositores da indicação257, para além de relembrarem seus colegas que a Câmara já decidira fazer da lei de responsabilidade dos Ministros de Estado uma lei “sui generis” – que não entraria, portanto, no código criminal –, acusaram a proposição de Vasconcelos de tolher a liberdade de iniciativa do restante dos deputados. A seu ver, esta era a faceta mais perversa da indicação, pois, em seu nome, impedir-se-ia a proposição, discussão e possível aprovação de leis urgentes, em nome de outras ainda não sancionadas e sem previsão para tanto (caso do próprio projeto do deputado mineiro)258.
Ao longo do debate, Vasconcelos defendeu-se como pode dos ataques direcionados à sua indicação. Paralelamente a um rechaço às leis “sui generis” e a procedimentos penais diferenciados259, o deputado rejeitou a proliferação de leis
257
Manifestaram-se contrários à indicação de Vasconcelos os deputados Lino Coutinho (BA), Luiz Cavalcanti (PE), Manuel José de Sousa França (RJ), Almeida e Albuquerque (PE), Vergueiro (MG), Cruz Ferreira (RJ) e Miguel Calmon du Pin e Almeida (BA).
258 Em 1826, quando das primeiras discussões parlamentares em torno à elaboração de uma
lei de responsabilidade dos funcionários públicos do Império, Bernardo Pereira de Vasconcelos desempenhou papel fundamental na Câmara dos deputados, chamando a atenção de seus pares à função de semelhante lei na defesa e efetivação da Constituição nacional. Neste sentido, o deputado mineiro é citado por diversos historiadores como o principal incentivador desta medida. Acontece que, andadas as discussões e apresentados os projetos sobre a lei de responsabilidade, Vasconcelos assumiu a defesa de uma lei que englobasse, para além dos Ministros e Conselheiros de Estado, todos os funcionários públicos da nação. A Câmara, contudo, decidiu que a lei (aprovada em outubro de 1827) se restringisse aos Ministros e Conselheiros, o que pode explicar a oposição de Vasconcelos, em maio de 1827, à aprovação da lei de responsabilidade previamente ao Código Criminal. Sua defesa intransigente de que tal lei fosse incluída no código pode estar relacionada à tentativa de expandir a abrangência da questão, causa a que, veremos à frente, o deputado dedicara parte importante de seu projeto de código penal. Para uma análise do percurso traçado pela lei de responsabilidade na Câmara dos deputados ver: Andréa Slemian. Sob o Império das Leis:
Constituição e unidade nacional na formação do Brasil (1822-1834). São Paulo: Aderaldo &
Rothschild: Fapesp; 2009; pp. 179-185.
259 Neste sentido, o deputado afirmou: “Se o ministro de estado commetteu um delicto, se
separadas de um sistema comum. Vasconcelos pediu, enfim, que a Comissão especial do código criminal examinasse seu projeto e que, aprovando-o, submetesse as leis penais “ao codigo e systema geral de nossa constituição; o que não se poderá conseguir, emquanto durar a discussão do codigo e se discutirem outras leis.”.
No bojo desta discussão, fez-se constante menção às dificuldades e ao largo tempo necessário à aprovação parlamentar de um código criminal. Parte dos deputados revelou, inclusive, descrer na possibilidade de positivação da legislação nacional num curto espaço de tempo.
O deputado Miguel Calmon du Pin e Almeida (BA) resumiu emblematicamente esta descrença ao ser esclarecido por Vasconcelos sobre o conteúdo de seu projeto de código criminal. Por não ter sido lido em plenário, grande parte dos deputados desconhecia as matérias reguladas pelo projeto do deputado mineiro, tendo acesso unicamente a parte delas em discussão travada aos 5 de maio, quando Vasconcelos aludiu à divisão de seu projeto em três partes principais e assim as descreveu: uma primeira parte, relativa aos crimes e suas penas; uma segunda parte concernente às matérias judiciais; e uma terceira parte em que se regulava a ordem do processo260.
Ao final das discussões do dia 5, Calmon du Pin interpelou novamente Vasconcelos, desta vez acerca de prescrições específicas de seu projeto e, ao descobrir a extensão das disposições nele presentes, afirmou:
Tal codigo não seria discutido em toda essa sessão, nem mesmo na seguinte legislatura. A discussão de um codigo exige largo tempo. O que se acha em projecto sobre a mesa não é apresentado ao corpo legislativo pelo príncipe Cambaçares, debaixo dos auspicios de Napoleão, para que seja approvado, guardada apenas a decencia do debate. Se um projecto de regimento interno anda ha tres sessões nesta camara sem ser approvado ainda, e se qualquer lei em projecto exige ordinariamente largas discussões, para ser admittido sómente à ordem dos trabalhos, qual não será a nossa despeza de tempo e paciencia para discutir e approvar um codigo inteiro?261
Frente a este juízo comum dos deputados brasileiros e à paralela necessidade de se passar rapidamente um pacote mínimo de leis para o país, chegou-se inclusive a sugerir que as leis penais cuja anuência se desse anteriormente à aprovação do diploma criminal fossem posteriormente comparadas, uma a uma, às disposições
está cumplice, está escripto o delicto, e a pena correspondente no codigo criminal, que é sempre geral para todos.” APB-CD; sessão de 5 de maio de 1827; p. 24.
260 Apesar de Vasconcelos revelar, nesta ocasião, a organização completa de seu projeto de
código criminal, a segunda e a terceira partes descritas pelo deputado não constam da versão deste projeto presente no 3º tomo dos Anais da Câmara de 1829.
presentes nos projetos de código apresentados, e que se decidisse, então, por sua eliminação ou incorporação ao texto finalmente aprovado262. Tais propostas de encaminhamento revelam, em nossa opinião, a disposição dos legisladores brasileiros (ao menos neste momento) em trabalhar (ainda que em dobro, caso necessário) pela adoção de leis que lhes pareciam indispensáveis ao país.
Em 1828, mais especificamente na sessão do dia 8 de maio, uma nova discussão procedimental envolvendo o código criminal tomou corpo na Câmara baixa. Protagonizada por praticamente o mesmo grupo de deputados, a temática, desta vez, centrou-se no estabelecimento do sistema de jurados nas matérias criminais. Enquanto parte dos deputados defendeu a rápida formação de uma comissão da Câmara que avaliasse e encaminhasse a instauração deste sistema, um grupo opositor enfatizou as desvantagens que o júri criminal poderia trazer a um país que, como o Brasil, regia-se (em matéria penal) pelo Livro V das Ordenações Filipinas263.
Posicionaram-se pela agilização do estabelecimento do júri criminal os deputados Ferreira de Melo (MG; autor da proposta então em discussão) e José Cesário de Miranda Ribeiro (MG). Em sua opinião, o sistema de jurados era um direito fundamental dos cidadãos brasileiros, não podendo ficar adiado perante um desejo de perfeição das leis penais ainda distante da realidade nacional264. Bernardo Pereira de Vasconcelos e Lino Coutinho (opositores entre si no debate de maio de 1827) defenderam, por sua vez, a anterioridade do código criminal em relação à instituição do júri. Enquanto, para Vasconcelos, a Câmara não deveria se ocupar de semelhante matéria, haja vista a inclusão da mesma em seu projeto de código criminal (na parte referente ao processo penal); Lino Coutinho enfatizou os riscos que se corria ao
262 Falaram nesse sentido os deputados Luiz Cavalcanti e Vergueiro.
263 Um debate parecido com este já havia sido realizado, como vimos, no contexto da
Assembleia Constituinte brasileira de 1823, mais especificamente, entre os dias 21 e 25 de outubro. Ver, Capítulo 1 desta dissertação, pp. 69-71.
264 O deputado Miranda Ribeiro pronunciou-se, quanto a esta questão, da seguinte maneira:
“Meus senhores, ácerca do juizo por jurados a minha opinião é esta: estabeleçamol-o e depois cuidemos de aplanar as difficuldades que occorerem, não nos emmarenhemos com as difficuldades consideradas antes, estabeleçamol-o primeiro que tudo; e quando, senhores, havemos de julgar facil o estabelecimento do jury entre nós? Daqui a dous mil annos, se então fosse pela primeira vez adoptado encontrariamos as difficuldades que naturalmente se offerecem a qualquer instituição nova; não esperamos, meus senhores, pelos codigos, para só então gozarmos deste grande bem, sem offensa da constituição podemos muito antes possuil- o [...].” APB-CD; sessão de 8 de maio de 1828, p. 25.
delegar à população brasileira julgamentos fundados sobre as “bárbaras” prescrições do Livro V265.
No bojo deste debate, e com vistas a acelerar a aprovação do código penal, Vasconcelos propôs (e viu aceita pelo plenário) a formação de uma comissão parlamentar mista que revisse os projetos apresentados à Câmara por ele e Clemente Pereira, avançando nos melhoramentos necessários à sua aprovação (propostos já, pela comissão especial do código criminal, no parecer emitido em 14 de agosto de 1827). Ao final da discussão, somente esta proposta de Vasconcelos foi aprovada pelo plenário, ficando tudo o mais rejeitado.
Vê-se, portanto, que diferentemente do debate de maio de 1827, desta vez o deputado mineiro conseguiu fazer prevalecer a sua opinião na Câmara dos deputados, passando a proposta de que não se regulassem matérias de direito penal adjetivo antes de aprovado o código criminal e de que, com vistas a acelerar este processo, fosse formada uma comissão parlamentar mista de trabalho266.
A análise deste conjunto de discussões – travadas entre 1826 e 1828 – possibilita que atestemos o empenho da primeira legislatura do Império na tarefa de positivação das leis penais e sua consciência e disposição em trabalhar a longo prazo neste projeto (ainda que o argumento da urgência na aprovação desta legislação tenha se mantido sempre presente). Para além das dúvidas e questionamentos constantemente suscitados com relação aos trâmites deste processo, nota-se o quanto esta legislatura se preocupou em conduzir a positivação das leis penais da maneira que lhe parecia a melhor (ainda que, em alguns casos, mais trabalhosa).
Apesar, portanto, de se reconhecer constantemente as dificuldades envolvidas na elaboração de um código criminal, diversos deputados insistiram na efetivação deste trabalho a qualquer custo, sugerindo, por exemplo, que se postergasse a aprovação de leis penais importantes à nova nação até que aprovado o código criminal, ou ainda,
265 Foi nesse sentido que o deputado afirmou: “[...] julgo, que emquanto não tivermos um
codigo, digno de um paiz constitucional, os jurados em materias crimes não produzirão alguns bens: trabalhemos portanto para que quanto antes saia à luz esse codigo suspirado afim de que os delinquentes sejão punidos rasoavelmente, e não à maneira dos barbaros, entre os quaes tudo é horror e sangue.” APB-CD; sessão de 8 de meio de 1828, p. 25.
266
De acordo com Vantuil Pereira, o recurso à formação de comissões mistas da Câmara e do