5.1 Tartışma
5.1.2 İkinci Alt Probleme Yönelik Tartışma
Ainda que algumas vezes em paralelo à linguística, no declínio estruturalista e de grande parte da nova crítica estabeleceram-se abordagens que tinham um ponto em comum: “concentrar a atenção nas condições da comunicação literária e na inscrição sócio- histórica das obras” (MAINGUENEAU, 2006b, p.35). Em princípio, credita-se ao russo filósofo da linguagem Mikhail Bakhtin ser um dos responsáveis por criar, com seu arcabouço
teórico, certo estremecimento teórico nessa conjuntura histórica, sobretudo na França do final dos anos 1960. A propósito disso, o historiador francês François Dosse argumenta o papel decisivo para os estudos semiológicos da literatura, a partir fundamentalmente da introdução do pensamento de Bakhtin na França, no seio do grupo Tel Quel, do qual Roland Barthes foi um dos principais líderes.
(...) uma exposição decisiva para a grande mutação do paradigma estruturalista dessa segunda metade dos anos 60. Julia Kristeva introduz no curso de Barthes uma visão nova, a do pós-formalismo russo, a partir da obra de Mikhail Bakhtin, desconhecido até então na França (...). A escolha de Bakhtin por Julia Kristeva nesse ano de 1966 não é fortuita; corresponde ao seu desejo de abrir uma brecha na abordagem estruturalista a fim de introduzir nela uma dinâmica histórica, sair do fechamento do texto, ampliar a inteligibilidade dos textos literários. A intervenção de (sic) corresponde a um momento particularmente oportuno em que o estruturalismo, então no apogeu, vai sofrer um certo número de tentativas de ultrapassagem, de extravasamento, de pluralização a partir de 1967. Ora, a exposição de Julia Kristeva (...) terá a maior repercussão quando de sua publicação (...), em 1969, ou seja, num momento em que as teses desconstrutivas de Derrida, a gramática gerativa de Chomsky e a teoria da enunciação de Benveniste começavam a abalar seriamente a ambição inicial do estruturalismo do primeiro período. Essa exposição de Kristeva seduziu especialmente um ouvinte muito atento, que não era outro senão o próprio Roland Barthes. (DOSSE, 2007a, p.77)
Desse encontro conjuntural, em que as discussões sobre literatura dividiam-se entre o formalismo da escola russa e o sociologismo do marxismo clássico ou da história literária, o pensador russo incidia suas reflexões a fim de escapar à oposição que ele alcunhava de “formalismo restrito” e “o ideologismo” de “falsos” sociólogos que insistiam em ligar as estruturas do texto literário diretamente às estruturas da vida real.
Parece-nos pertinente falar também algo que se encontra no percurso discorrido por Maingueneau sobre a noção de intertextualidade das obras literárias, amplamente ligada à ideia do dialogismo da linguagem descrito com argúcia por Bakhtin. Atestando-se a prioridade de um interdiscurso sobre um discurso, passava-se, então, a olhar a obra literária não como um presente de criação, mas como algo da ordem de um trabalho no histórico, no já dito e escrito em antes e em algum lugar, sendo preenchido por uma memória sócio-histórica. A obra literária como ponto de cruzamento de vozes de diversas obras, de múltiplos gêneros etc. Embora aqui de maneira resumida, o que pode, por sua vez, tirar dessa teoria a fortuna que merece, algumas considerações podem ser ditas da questão polifônica que se vislumbra em, por exemplo, Problemas da poética de Dostoiévski (tradução brasileira), de Mikhail Bakhtin, obra extremamente importante no estudo da condução, da contradição e da interpretação das vozes sócio-histórica e ideologicamente encenadas nos textos literários
por suas personagens. Assim como são importantes os estudos de Oswald Ducrot em Esboço
de uma teoria polifônica da enunciação, contido em O dizer e o dito, no qual o autor,
baseado na teoria bakhtiniana, faz um estudo dos enunciadores, distinguindo-os em Locutor L para o sujeito que responsabiliza na enunciação pelo dizer, e o Locutor lambda, que representaria o sujeito-autor empírico, bem como o trabalho da linguista francesa Jacqueline Authier-Revuz sobre as heterogeneidades enunciativas marcadas e não marcadas, porém sempre trazendo em diversas marcas – glosas, citações, discurso indireto livre, ironias – a palavra, os sentidos, as artimanhas de um Outro num discurso de um Eu. No caminho de Maingueneau (2006b), da geografia francófona, a preocupação em sair do texto em si, de sua imanência, é empreendida num primeiro momento – fala-se aqui dos anos 1970 – pela sociocrítica que se inclina num dado caminho teórico, a fim de reconstruir os pilares de “sociabilidade” de um texto literário. E a sociocrítica propunha-se a fazer isso, apreendendo os elementos formais que compõem os textos, tanto à medida que eles deixavam diluir no texto aquilo que é da ordem dos já ditos e escritos (discursos) e dos recebidos de outros (modo de escrito, gêneros e discursos, segmentação do suporte etc.) quanto à medida que eles se deixavam expor nos textos, isto é, saltarem ao conteúdo mais visível. Algo que estava em um espaço de dentro, mas reclamava, a todo momento, um espaço de fora. Outro ponto de ressalva de Maingueneau é que a sociocrítica permaneceu em grande parte de seu tempo mais na forma de projeto do que de um programa efetivamente, com suas práticas específicas: publicações, pesquisadores, teses, congressos genuínos acerca da epistemologia, entre outros aspectos, e, além disso, a sociocrítica confluía com a AD, que, no mesmo período, caminhava com sua constituição epistemológica e institucional. Todavia, puderam-se observar mais divergências do que convergências entre essas duas teorias, “no mínimo porque a análise do discurso vem das ciências da linguagem e se desenvolveu independentemente do estudo de textos literários” (MAINGUENEAU, 2006b, p.37). Mobilizar a AD em um estudo qualquer implica uma concepção discursiva distinta da sociocrítica, elegendo como primeiro plano para sua abordagem elementos enunciativo-comunicacionais. A sociocrítica – pela afirmação de Maingueneau – pretendia em suas análises reter do texto uma leitura entre outras possíveis leituras. Em vez dessa leitura entre outras, a AD, de sua parte, empenha-se em abrigar um quadro interpretativo em que sejam mobilizadas todas as vozes interdiscursivas a ecoar num dado objeto de análise – ela não faz isso somente no texto literário; ao contrário, ainda, atualmente, é um dos objetos de estudo que ela menos faz –, tirando da sombra, por meio de análises, os sentidos que sustentam e autorizam aquilo em que ela se debruça analiticamente.
Já em aspectos mais específicos do texto literário, as contribuições vêm em boa medida da teoria da recepção, em que, segundo Maingueneau, se direciona a obra em si para a expectativa que ela desenvolverá a partir de sua leitura e seu achego ante a um certo público- -alvo, os quais serão seus interlocutores mais específicos ou outros possíveis interlocutores. Por essa abordagem do texto literário, o sentido que lhe recheia não está em si mesmo, imanentemente, mas ele vai sendo construído de acordo com as posições entre autor e interlocutores, receptores da obra. Além disso, outras abordagens que surgiram depois de avanços de pesquisas cognitivas sobre o campo da leitura permitiram que se observasse o próprio gesto de leitura não mais como uma simples decifração de signos, e sim como trabalho de cooperação entre o que certo autor escreve e o leitor que acompanha seu trabalho.
Há, ainda, o trabalho de historiadores no campo da leitura que, conforme Maingueneau, “não tratam especificamente da literatura, mas das práticas de leituras atestadas.” (MAINGUENEAU, 2006b, p.36), o que, complementando a citação, implica diretamente a literatura.
De maneira geral, numa organização epistemológica, diríamos que essas problemáticas que trabalham o texto literário como um dispositivo de comunicação complementando-o na sua recepção, no campo da leitura de autores por seus interlocutores, tentam não conceber as obras literárias como ilhas de autossignificação, para a qual o entorno marítimo de significações fora de si pouco atinge. “Elas [as teorias] se recusam a conceber a obra como um universo fechado, expressão de uma consciência criadora solitária: o leitor está presente já na constituição da obra, que, por sua vez, só chega a esse estatuto através da multiplicidade de quadros cognitivos e práticas que lhe conferem sentido” (Ibid., p. 36 destaque nosso entre colchetes). Assim, creditamos como grande mérito essa forma de mobilizar os textos e, entre eles, o texto da literatura.