Há ainda diversos estudos que abordam a questão da linguagem, da linguística e dos idiomas quando a língua estrangeira se faz presente na prática do trabalho psicanalítico com estrangeiros (analista ou paciente). O grupo citado anteriormente presidido por Piret, pergunta: “O inconsciente seria intralinguístico, interlinguístico ou translinguístico ? Como escutá-lo no sujeito exilado? Como recebê-lo numa língua estrangeira?”.
Encontramos dentro deste vértice outros estudos relacionados, como as pesquisas acerca das psicoterapias realizadas com intérpretes, quando o analista e o paciente não dispõem de um idioma em comum, como ocorre bastante na clínica de Nathan (1986), anteriormente citado.
No interessante artigo “Em que língua teria Édipo falado à Esfinge”, Kacelnik (2010), inspirada neste tema, discorre sobre o assunto. Segundo a autora, a língua seria muitas vezes a única herança dos exilados: representante da pátria, e muitas vezes, seu único fio condutor até ela – quando não há, em casos extremos, outras possibilidades de contato. Como um legado ou um patrimônio inviolável, diz a autora.
Segers (2009) observa que muitos migrantes se fariam excepcionalmente talentosos para as línguas – solidamente ancorados em sua própria e na linguagem em geral -, e que encontrariam rapidamente maneiras de se orientar numa língua estrangeira. Por outro lado, outras vezes, o idioma de origem – dos pais – seria recusado aos filhos, como tentativa de ‘ajudá-los’ a um novo enraizar-se, em uma nova língua, com a ilusão de apagar os resquícios da outra.
III.4 OS EXILADOS
Ao nos debruçarmos sobre o que se faz e se pesquisa hoje em dia a respeito das Clínicas do Exílio, vimos que as práticas, os corpos teóricos sustentadores e suas respectivas metodologias, divergem, mas a preocupação central parece se assemelhar. Ou seja: coloca no cerne da questão, o sujeito deslocado no mundo externo, se assim chamarmos, e, consequentemente, em seu mundo interno?
Tal qual nos disse Segers (2009), isso se dá quando o exílio externo se mescla ao interno, de forma peculiar e particular. Ou - quando as fronteiras externas se mesclam às internas, conforme dito anteriormente. Ainda de acordo com Segers, esta é uma situação pensada, mas não o suficiente.
Conclui assim a autora – e nós, este capítulo:
O número de refugiados, pedidos de asilo e deslocados através do mundo se situa entre 20 e 50 milhões de pessoas. A imprecisão está à medida do desinteresse geral. (p.42, TDA)36
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36 Le nombre de réfugiés, demandeurs d’asile et déplacés à travers le monde se situe entre 20 et 50
IV O MÉTODO
Em busca dos sujeitos para esta pesquisa, decidimos entrevistar pessoas que tivessem vivido em outro(s) país(es), distinto(s) daquele(s) de sua origem, por pelo menos dois anos.
O país de origem assim como o de destino não foram pré-determinados, partindo do pressuposto de que a experiência do sujeito enquanto estrangeiro não estaria a priori atrelada a nenhuma cultura específica nem de origem, nem de destino, mas ao trânsito entre
elas.
Porém, apesar desta não-determinação do país de origem ou de destino, circunscrevemos o idioma: optamos por restringir que o idioma de origem (ou de grande domínio por parte do sujeito entrevistado) fosse o Português, o Inglês, o Francês, ou o Espanhol – idiomas de domínio da pesquisadora, com os quais poderia efetuar a entrevista ou o questionário sem necessitar de tradutores/intérpretes37.
Assim, as entrevistas e o questionário desta pesquisa foram realizados no idioma de origem do sujeito38 (todos os quatro idiomas mencionados foram utilizados). Tanto as entrevistas quanto o questionário se encontram integralmente anexados a este trabalho. Os trechos utilizados para a discussão no corpo do trabalho foram vertidos para o Português pela pesquisadora.
Foram realizadas três entrevistas-piloto: duas no formato de entrevista pessoal, e uma em forma de questionário escrito, enviado via email. Esta separação entre entrevista e questionário se deu de acordo com o acesso ao sujeito: aqueles que residissem relativamente próximos ao local da pesquisadora seriam entrevistados pessoalmente, aqueles que residissem longe – como em outro país – seriam ‘entrevistados’ via e-mail.
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37 Afora o Português – seu idioma de origem – a pesquisadora é formada nestes três outros idiomas
pela Organização das Nações Unidas (Genebra e Nova Iorque), além de utilizá-los praticamente quotidianamente há aproximadamente vinte anos. Trata-se, portanto, de idiomas que lhe são de grande familiaridade e que lhe permitem o recurso da entrevista diretamente no idioma dos sujeitos entrevistados, dentre as quatro opções citadas. Os trechos teóricos de outros autores utilizados ao longo deste trabalho foram vertidos para o Português e tiveram junto da citação as iniciais TDA: Tradução da Autora.
38 No caso do questionário escrito, este foi realizado em Inglês com o sujeito ‘Mauli’, italiana de
Foram realizadas dez entrevistas ao todo: cinco pessoalmente, cinco via email. Destas dez ao total, cinco permaneceram neste trabalho - das quais somente uma via email (as quatro outras entrevistas foram realizadas pessoalmente).
Estas seleções - cinco dentre dez entrevistas realizadas, assim como, dentre as cinco, somente uma via email – se deram por critério de riqueza de conteúdo: critério este subjetivo e qualitativo39. Ou seja, a entrevista pessoal de modo geral, mostrou-se mais rica em conteúdo e contato intersubjetivo entre o sujeito e a pesquisadora, do que a entrevista escrita.
O local onde estas entrevistas foram realizadas também não foi pré-determinado: dependeria da alguns fatores do sujeito entrevistado (como disponibilidade). Assim, considerando agora as cinco entrevistas utilizadas na fase seguinte desta pesquisa, duas foram realizadas no consultório da pesquisadora; uma num encontro informal na residência de amigos (em comum) do entrevistado e da pesquisadora; uma das entrevistas se deu em dois locais distintos: por ter sido em duas etapas, a primeira foi realizada numa sala da universidade, e a segunda em local público, porém reservado (restaurante); e o email foi enviado ao sujeito residente fora do Brasil.
Também não foi pré-determinado o tempo de entrevista – dependeria a cada vez do tempo em comum disponível da pesquisadora e do sujeito. Mas, duraram todas entre uma e duas horas cada. Nenhuma outra categoria foi pré-determinada: como sexo, idade, escolaridade, ou profissão.
A autora iniciou a busca aos sujeitos perguntando às pessoas de sua convivência – amigos e colegas – se conheciam sujeitos nesta condição: estrangeiros residentes no Brasil há pelo menos dois anos, ou estrangeiros residentes em outro país, por este mesmo tempo. Inúmeras possibilidades surgiram. Dentre estas, a pesquisadora contatou alguns aos quais explicou sua proposta, e, dentre os que se interessaram, combinou a entrevista, ou o envio do e-mail. Priorizou aqueles com os quais tivesse tido nenhum ou muito pouco contato prévio.
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39 Cabe mencionar que esta escolha não foi difícil. Curiosamente, os casos que permaneceram
mostraram-se muito ricos enquanto que, os que não permaneceram, nitidamente não o poderiam – como no caso dos questionários seguintes nos quais por algum razão, muitas das respostas se limitavam a ‘sim’ ou ‘não’, ou da entrevista que, por parte do sujeito, direcionou-a quase exclusivamente a questões de trabalho/emprego. Uma das entrevistas posteriores, apesar de rica, não foi utilizada por questões de sigilo.
Durante a fase piloto, a autora explicou aos sujeitos que se tratava de uma fase-
teste para verificação do método; que suas identidades permaneceriam permanentemente ocultas: durante todo o tempo da pesquisa, e mesmo depois, por meio da utilização de um nome fictício; e que o conteúdo da entrevista seria utilizado tão somente para o intuito desta pesquisa e nenhum outro fim40.
Com os três sujeitos iniciais (fase piloto), a pesquisadora elaborou uma série de perguntas abertas, que buscavam verificar o tema aqui proposto – tanto para os questionários, quanto para as entrevistas. Estas perguntas se configuraram enquanto um questionário de caráter semiaberto (cf. anexo). Além das perguntas – e ainda na fase piloto -, a pesquisadora selecionou quatro palavras para que o entrevistado dissesse – ou escrevesse, no caso do questionário - qualquer coisa que quisesse a respeito: lar, pátria, mãe, e língua materna.
Esta escolha se deu por estas palavras se remeterem a temas – ideias – que lhe pareceram, à pesquisadora, concentrar aspectos da experiência de ‘ser estrangeiro’: lar, pátria, e língua materna; assim como palavras que remetem à origem do sujeito, segundo a compreensão da pesquisadora.
Assim, aparentemente a palavra ‘mãe’ não estaria relacionada ao tema ser
estrangeiro, mas estaria possivelmente relacionada com nossa primeira hipótese – a lembrar, a de que a qualidade da inserção do sujeito na Cultura (esta, ‘a grande Cultura como um todo’), reescreveria de alguma forma ou, calcaria em algum aspecto, a reinserção deste sujeito numa ‘nova cultura’. Estas palavras se mostraram, de fato (na fase piloto), fomentadoras de associações e falas por parte dos entrevistados.
Já na fase seguinte, a pesquisadora optou por eliminar as perguntas elaboradas a
priori, propondo ao sujeito que ‘Falasse de sua experiência enquanto estrangeiro,
livremente’. Ao longo da entrevista, fazia pequenas pontuações ou perguntas complementares, caso a caso. As palavras continuaram a ser utilizadas em alguns casos.
A pesquisadora decidiu prosseguir desta forma após as entrevistas-piloto, por verificar que as perguntas de certa forma eram desnecessárias, uma vez que todas elas se remetiam à experiência do entrevistado “enquanto estrangeiro”, e que este conteúdo poderia ser acessado por ele mesmo, sem a necessidade de ‘lhe perguntar’ ou interromper – o que às vezes parecia remetê-lo a um discurso mais racional.
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40 Condições estas articuladas pelo Termo de Consentimento Livre e Esclarecido, tal qual previsto pelo
Esta nova proposta pareceu bastar para desencadear a fala aberta dos sujeitos seguintes, nas entrevistas.
Contudo, no formato ‘questionário escrito’ as perguntas permaneceram, ainda que em menor número. Porém, nenhum dos questionários da fase posterior foi utilizado no trabalho (somente o primeiro questionário escrito realizado ainda durante a fase-piloto permaneceu - conforme mencionado anteriormente).
As entrevistas ao vivo foram gravadas e posteriormente transcritas, em seu idioma original (cf. anexos). Num próximo momento, a pesquisadora selecionou trechos destes conteúdos, por critérios novamente qualitativos e subjetivos, para a articulação do tema aqui proposto.
Estes conteúdos selecionados foram pensados e descritos em busca de uma possível compreensão e articulação com a teoria psicanalítica, em relação aos movimentos
migratórios destes sujeitos, que não se encontravam no enquadre de um consultório.