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DÜNYADA D İJİTAL VE FİZİKSEL MÜZİK SATIŞLARI VE TOPLAM MÜZİK

Partindo agora do pressuposto de que somos então, nós mesmos, estrangeiros, podemos tentar remontar no tempo – próprio a cada sujeito – de como nos ‘tornamos estrangeiros’. Vejamos.

Chegamos como estrangeiros ao mundo. Ao sairmos do útero materno, podemos pensar que realizamos, metaforicamente, nossa primeira grande migração: para dentro de um mundo que desconhecemos. ‘A majestade o bebê’, é, também, um pequeno alienígena

desconhecido que se insere no entorno de seus próximos, com desejos e demandas próprios, imponente, e ainda mal conhecidos. Sendo assim, em realidade, o primeiro estrangeiro em sua própria história.

Daí em diante será uma sucessão de desalojamentos, de encontros e desencontros com ‘o outro’, com a cultura e com porções de si mesmo, causadores de intenso estranhamento, ao próprio sujeito. Inserido primeiramente num ambiente estranho/estrangeiro (ao deixar o útero materno), onde, em seguida, se deparará com o grande estranho/estrangeiro de sua vida: o adulto.

E não se tratando aí, conforme vimos com Figueiredo, de ‘um adulto em especial’, mas do mundo adulto: com sua fala, sexualidade, e própria estrangeiridade – ou seja, seu inconsciente, estranho a ele próprio, adulto. Poderíamos dizer que reiteramos nosso lugar de estrangeiros quando ingressamos no mundo da fala. Vale dizer, antes mesmo de falarmos: o mundo da fala, ou seja, da cultura, do simbólico, do circuito da linguagem. Quando cada um, ao sair de seu mundo natural e exclusivamente orgânico-sensorial, ingressa no universo do adulto. Uma vez expulsos do primeiro lugar – aquele simbiótico com a mãe -, para dentro da cultura, saímos do universo único e indiferenciado, para o mundo dos signos linguísticos múltiplos e compartilhados. Com toda sua complexidade.

Lembra-nos Koltai (2000) que Freud em Projeto de uma Psicologia Científica (1895) nos fala em “ajuda estrangeira”, referindo-se ao adulto que se ocupa da sobrevivência do infans. Esse “desconhecido próximo que é concomitantemente um objeto hostil e o único de quem se pode esperar uma ajuda”, essa ajuda estrangeira (p. 82). Podendo haver ainda, um outro que surge em seu lugar – no lugar do adulto que se esperava -, causando ao bebê, também, estranheza. Freud (1926/1980) se refere a casos em que “a criança está sozinha, no escuro, e encontra uma pessoa estrangeira no lugar daquela que lhe é familiar (a mãe)”, sendo que o estranho-estrangeiro é então, o não-mãe. (ibid, p. 91, grifo nosso).

É interessante como, não raramente, e já bem mais adiante no tempo, em algum momento entre infância e adolescência, muitas crianças têm o nítido sentimento de acreditarem-se ‘adotadas’. Este sentimento razoavelmente comum faz-se fruto, possivelmente, deste extremo estranhamento que é pertencer a uma família que já estava aí, antes de sua chegada. Uma família que, em princípio, não se escolhe. Uma família que te ‘acolhe’ (em maior ou menor grau). Trata-se de um sentimento identificado por Freud, que o denomina ‘a fantasia da adoção’.

Diz-nos o autor:

Sua sensação de que sua afeição não está sendo retribuída encontra abrigo na ideia, mais tarde lembrada conscientemente, a partir da infância inicial, de que é uma criança adotada, ou de que o pai ou a mãe não passam de um padrasto ou de uma madrasta. (Freud, vol. IX, p. 243).

Posteriormente, o jovem adolescente identifica-se com amigos (identificações secundárias) e outras figuras de sua entourage, sem, no entanto, deixar ainda de sentir-se estranho, conforme alguns relatos clínicos - e talvez aí o momento auge do estranhamento, durante a adolescência, com seu mundo pulsional vindo à tona e seu corpo em plena mutação: deixando para trás o corpo infantil, e habitando agora um corpo que até então, não era o seu -, a ponto de, em alguns destes relatos, desejar-se ‘abduzido por alienígenas’, o que lhe proporcionaria habitar outro mundo, em sua fantasia, talvez mais “familiar”, que este. Chegando, então, ao final da adolescência – e ao longo de um processo que é único e particular para cada um – a outra grande fronteira, a de tornar-se, ele agora, o adulto.

Tantos desalojamentos! Impelindo-nos a buscar, cavar e construir um lugar próprio supostamente menos estrangeiro no mundo, junto do outro: ou seja, da cultura, dos pares, parceiros, familiares e, inevitavelmente, mas de diferentes modos e graus para cada um, em si próprio.

Complementando estes momentos processuais de desalojamentos ao longo da vida, há ainda, para a psicanálise, a compreensão da estruturação mental, causa de estranhamento ao sujeito: “A posição do neurótico, do psicótico, do perverso, na medida em que cada um deles – de nós – em sua posição encontra-se exilado” (Koltai, 2000, p.27). Uma vez que excluídos da posição original, indiferenciada.21

Mas, se nos perguntássemos, Com quantos exílios afinal, se forja um

estrangeiro? A resposta seria, com um único: aquele primeiro que nos insere na Cultura. Assim, seremos sempre estranhos, sempre estrangeiros – em alguma medida, uma vez que as ‘(re) construções do familiar’ não serão jamais plenas, na história de cada um. Desta forma, o estrangeiro caricato, aquele de mochila e um sotaque, mal se diferenciaria a princípio, de qualquer outro sujeito humano.

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21 Não à toa, utiliza-se o termo borderline – ou fronteiriço – para denominar certa estrutura de

funcionamento psíquico, entre ‘territórios’, no caso, neurótico, e psicótico. Não nos deteremos, porém, nas questões estruturais intrapsíquicas (ou diagnósticas) para abordar o tema neste momento.

Diz-nos Kacelnik (2008):

Na questão com o estrangeiro isso fica mais evidente, porém não reparamos com que intensidade lidamos com a diferença diariamente em nossas próprias clínicas. Há a ilusão de que, ao analisarmos alguém como nós, da nossa cultura, o trabalho será mais fácil e o acesso mais direto às representações inconscientes. O inconsciente é, e sempre será inconsciente, em qualquer língua ou em qualquer cultura. (p. 103).

Em outras palavras, na clínica, sabe-se que, a migração do lugar de origem, não é o que faz primeiramente, o sujeito ser estrangeiro. Poderíamos pensar nesta migração – posterior na vida – enquanto um processo secundário, de estrangeirismo. Sendo o primeiro, conforme dito anteriormente, comum a todos que habitam a cultura (ou por ela são

habitados).

Koltai (2000) nos mostra que a questão estrangeiro-estranho permeia a obra de Freud, em quase toda sua extensão. Lembrando-nos que seu primeiro objeto do olhar, desde lá no início, já era ‘o estranho’, no sujeito psíquico. Ou seja, o que havia nas histéricas que não era passível de ser visto nos exames médicos neurológicos, e, no entanto, provava sua existência pelo sintoma. É o que intrigou Freud e o levou, ao longo de toda sua produção, a falar disto: do “estranho”, na mente humana. Disse-nos Freud, “(...) o reprimido é território estrangeiro para o ego – território estrangeiro interno – assim como a realidade (que me perdoem a expressão inusitada) é território estrangeiro externo.” (1932, p. 63). O estranho está em nós. Não ‘veio de fora’, tampouco são posses alheias demoníacas, como se pensou em um dia medieval. O estranho é a nossa própria vida mental. Postulou Freud (1917):

Nada vindo de fora penetrou em você22; uma parte da atividade da sua

própria mente foi tirada do seu conhecimento e do comando da sua vontade. Isso, também, é porque você está tão enfraquecido em sua defesa; você está utilizando uma parte da sua força para combater a outra parte e é impossível concentrar a totalidade da sua força como você o faria contra um inimigo externo. (pp. 176-177).

Vejamos a seguir um interessante desdobramento da questão.

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