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A capoeira foi proibida por lei em 1890 (tanto para homens como para mulheres, pois era uma proibição vinculada às questões de classe e raça, representadas pela capoeira), prevendo punição para quem a praticasse (BRASIL, 1890). Conforme Paiva (2007), tal proibição vigorou até as primeiras décadas do século XX, e, somente em 1953, Getúlio Vargas a nomeou como esporte nacional. Ainda segundo Paiva (2007), antes da década de 1970, a capoeira era predominantemente praticada por homens. Um mestre de capoeira relatou à autora que ele rejeitava as mulheres que quisessem praticar capoeira e a sua justificativa era a de que os mestres mais velhos assim faziam, restando a elas apenas auxiliar o coro da roda.

A forma como é transmitidas os conhecimentos da capoeira não permite o questionamento do seu conteúdo, impedindo o seu aperfeiçoamento e mantendo o mestre no topo da hierarquia do grupo. Isso acontece porque o mestre se apresenta como o dono da verdade e, assim, mantém o status quo, o que bloqueia qualquer nova influência que possa fazer alguma alteração. Nesse sentido, como alterar a desigualdade de direito da mulher na luta se não é permitido o questionamento? O mestre, não sendo questionado, fará com que novas formas de se pensar a capoeira fiquem restritas àquele que a pensou.

No entanto, isso não ocorre apenas na capoeira. Drigo et al. (2005) relata que em muitas aulas de judô as crianças desde cedo são educadas por meio de uma ideologia semelhante ao do feudalismo japonês: valorização da submissão e da dominação, sem possibilidades de questionamentos ou de dúvidas. O espaço é alienante, pois há a transmissão do mundo perfeito (e mítico) oriental sobre a real situação do ocidente.

Segundo Barbosa (2005), na década de 1970, os professores de capoeira estrangeiros vinham para o Brasil e traziam com eles os seus alunos e alunas para a realização de estudos e treinamentos. A vinda das alunas estrangeiras quebrava o estigma da mulher frágil por serem mais habilidosas e por terem um físico

correspondente à prática de capoeira de forma intensa. Entretanto, os mais conservadores as viam como menos graciosas, ou menos femininas, que as brasileiras. Dessa forma, os setores conservadores estipulavam como deveria ser o corpo feminino na capoeira, e, consequentemente, isso influenciava nas possibilidades de movimento, pois certos golpes acrobáticos exigem potência muscular e o corpo idealizado pelos conservadores não permitia tal resultado.

De acordo com Barbosa (2005), as mulheres cantavam e tocavam na roda de capoeira, sendo poucas as que participavam do jogo. Isso foi mudando durante as décadas de 1970 e 1980. A explicação do autor para a maior participação das mulheres é a de que, nos anos de 1970, a capoeira começou a ser “branqueada” e mais difundida na classe média com a capoeira regional. Já nos anos de 1980 e 1990, buscou-se a reafricanização, dando mais força a capoeira de angola, que é menos agressiva, violenta e acrobática. Com esses atrativos, as mulheres passaram a frequentar mais as rodas de capoeira. Tal mudança também foi observada em entrevistas com universitárias praticantes de capoeira, as quais relataram que a capoeira não tem o seu foco na luta – retirando a atenção de algo julgado como masculino – mas na dança e na cultura (FERRETTI; KNIJNIK, 2007).

Mas não foi apenas a capoeira de angola que trouxe as mulheres para essa modalidade, já que elas também praticam a capoeira regional. Com a elitização da capoeira, a percepção de que a modalidade era uma “briga de malandro” foi cedendo espaço para a visão de que a modalidade representa a cultura brasileira, entendida como uma filosofia cidadã, com menor tendência para agressão e maior para as acrobacias.

Sobre o judô feminino no Brasil, Mourão e Souza (2007) relatam que, no final da década de 1970,1 a Confederação Brasileira de Judô (CBJ) e o professor Joaquim Mamede de Carvalho e Silva (conhecido como Mamede) começaram a reivindicar junto à CND a revogação do decreto que proibia as mulheres de praticar judô e outras modalidades, pois o Brasil estava perdendo pontos nos campeonatos internacionais sem a participação de ambos os sexos. Em 1974, Mamede não conseguiu convencer o presidente da Federação Guanabariana de Judô para incluir as mulheres no torneio e, com isso, forçar a derrubada do decreto. Assim, juntamente com o mestre de judô Takeshi Ueda, iniciaram torneios femininos

1 Conforme Mourão e Souza (2007), antes da década de 1960, a judoca Kimie Kihara já tinha apresentado o Ju-no-kata (judô para as mulheres) no Brasil.

extraoficiais. Em 1977, Mamede foi para a Kodokan aprender as técnicas de Ju-no-

kata, e, ao retornar para o Brasil, transmitiu a técnica para as filhas.

Mourão e Souza (2007) relatam que, em outubro de 1979, as judocas Kasue Ueda (filha de Takeshi), Ana Maria de Carvalho e Silva, Cristina Maria de Carvalho e Silva e Patrícia Maria de Carvalho e Silva (filhas de Mamede), foram para o Campeonato Sul Americano de Judô, no Uruguai, inscritas com nomes de homens para obter do governo o pagamento dos gastos relacionados com a competição.

Joaquim Mamede relatou para Mourão e Souza (2007) que ao retornar da competição foi informado que deveria se apresentar imediatamente ao CND. Ele, então, se apresentou juntamente com as lutadoras de quimono e com as medalhas – algo que pode ter auxiliado na derrubada do decreto que proibia as mulheres de praticarem lutas.

Por meio das narrativas sobre a derrubada da lei que proibia as mulheres de participar de competições de modalidades de luta, pode-se verificar:

[...] que as mulheres que representaram o Brasil nesta competição não tinham nenhuma estratégia de emancipação em comum, elas apenas atendiam às reivindicações e desejos de seus pais, que tinham o judô como uma de suas paixões e desejavam que este esporte se projetasse no cenário nacional e internacional através de seus resultados (MOURÃO; SOUZA, 2007, p. 8).

Entretanto, mesmo sem uma consciência política, elas conseguiram realizar, com seu trabalho esportivo e corporal, um grande passo para a transformação das relações de gênero no esporte e nas demais arenas da vida social.