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Participaram das entrevistas cinco lutadoras residentes no Brasil que ganharam, no mínimo, um campeonato mundial em uma modalidade de luta. As atletas entrevistadas foram campeãs mundiais de boxe, caratê, jiu-jitsu e tae-kwon- do, modalidades institucionalizadas e organizadas hierarquicamente do nível estadual ao mundial.

Escolheram-se as campeãs mundiais porque elas passaram por todos os estágios de uma lutadora, desde a brincadeira na infância, passando pelo ingresso na modalidade e pela participação de campeonatos de pouca importância, até chegarem à vitória da principal competição da sua modalidade de luta.

O roteiro de entrevista foi previamente testado com duas lutadoras de jiu-jitsu, pois, Bosi (2003) aconselha fazer a pré-entrevista (estudo exploratório) para aperfeiçoamento do roteiro, adequação da linguagem e abertura de caminhos para outras entrevistas.

Becker (1994) reforça a importância da pré-entrevista ao afirmar que com ela o pesquisador pode, sobretudo a partir das reações e respostas dos entrevistados, perceber com clareza se a sua pergunta está clara ou deve ser modificada. O autor ainda ressalta que a pré-entrevista é fundamental para testar se a pergunta não está induzindo o entrevistado às respostas esperadas pelo entrevistador.

Antes da entrevista com cada lutadora, realizou-se uma pesquisa sobre sua vida e suas participações em campeonatos no site das próprias lutadoras (as que dispunham), assim como em sites com notícias esportivas e nos sites das

federações e confederações da modalidade. As informações sobre duas lutadoras não estavam disponíveis, e, por isso, foi feita inicialmente uma pesquisa bibliográfica sobre as regras e a organização da modalidade.

Esses procedimentos, assim como todo o levantamento aqui realizado, são referendados na literatura. Para Bosi (2003, p. 59), “antes do encontro com o depoente, convém recolher o máximo de informações sobre o assunto em pauta para formular questões que o estimulem a responder”. Por essa razão, foi realizada a busca de informações sobre as entrevistadas e suas modalidades.

As entrevistas foram gravadas por uma câmera digital Samsung, modelo S860, e por um MP3 player da marca Sony. No início das entrevistas forneceu-se o consentimento esclarecido, explicando para as entrevistadas que ficariam anônimas (para isso foram utilizadas siglas correspondentes à sua modalidade ao invés do nome). Todos os procedimentos foram feitos de acordo com os princípios éticos que regem pesquisas de caráter sociológico com seres humanos. O trabalho foi aprovado no Comitê de Ética da Escola de Educação Física e Esporte da Universidade de São Paulo, registrado com o número 0054.0.342.000-10.

O objetivo geral desta pesquisa foi o de analisar a formação esportiva das atletas entrevistadas, bem como a carreira no esporte de mulheres que praticam modalidades de luta em altos níveis competitivos. Dessa forma, o roteiro guiado procurou claramente focar esse objetivo.

Por tratar-se de entrevista com lutadoras, que usam a maestria dos movimentos corporais para desempenharem as suas funções, o roteiro foi elaborado com os seguintes objetivos: identificar a atividade física praticada desde a infância e seus possíveis agentes influenciadores; identificar a percepção que as atletas têm sobre a modalidade e sobre elas próprias; identificar suas percepções de gênero e de corpo; coletar informações sobre o relacionamento das atletas com os homens nos treinos, assim como sobre o tratamento dado pelas organizações da modalidade e patrocinadores, para identificar as hierarquias existentes no meio das lutas.

As lutadoras mostraram-se interessadas em colaborar com a pesquisa, mesmo sem qualquer tipo de gratificação financeira ou outras formas de premiação. A primeira a participar foi a boxeadora (BOX). O contato com ela foi estabelecido por intermédio do seu empresário. A entrevista ocorreu na lanchonete da academia em que ela trabalha e durou 1 hora e 48 minutos, sofrendo algumas interrupções.

A primeira lutadora de jiu-jitsu (JJ1) a ser entrevistada teve o contato inicial por e-mail; o endereço foi localizado em uma entrevista dela disponível em um site que armazena vídeos. A entrevista para a pesquisa ocorreu no tatame, ao final do seu treino, e durou 42 minutos. A segunda lutadora de jiu-jitsu (JJ2) foi apresentada pela primeira; a entrevista também ocorreu no tatame, após o treino, com a duração de uma hora.

O contato inicial com a carateca (KRT) foi feito pelo e-mail de sua patrocinadora. A entrevista ocorreu antes do treino, no clube em que treina, não havendo interrupções, e durando 54 minutos. O contato com a lutadora de tae-kwon- do (TKD) foi feito por meio do e-mail disponível no seu site. O encontro foi agendado por intermédio de sua assessora, e aconteceu após o treino, em sua academia, com a duração de 50 minutos.

A motivação em participar da entrevista e fornecer dados da melhor forma possível ocorre, segundo Cannell e Kahn (1974), inicialmente pela curiosidade do entrevistado pelo assunto sobre o qual a pesquisa irá tratar; e, muitas vezes, também pelo apego às normas de cortesia. Entretanto, para os autores, isso não motiva a pessoa suficientemente para a entrevista, mas abre a oportunidade para explicar a finalidade do estudo, e, assim, motivá-la a participar. Outro fator motivador, segundo os autores, é quando o entrevistado vê o entrevistador como veículo direto ou indireto para a realização de modificações nas estruturas da qual participa.

Sobre os relatos fornecidos nas entrevistas, Denzin e Lincoln (2006) afirmam que, raramente, os informantes fornecem explicações sobre suas ações e intenções, pois o melhor que eles podem oferecer são relatos. Por essa razão, as perguntas elaboradas para a entrevista foram focadas nos relatos sobre a vida e a atividade das atletas.

O melhor local da entrevista, para Bosi (2003), é o escolhido pelo depoente, cabendo ao entrevistador analisar os motivos da escolha. Para esta pesquisa, permitiu-se que o depoente escolhesse o local da entrevista, com a sugestão de que, preferencialmente, não houvesse interferência de outras pessoas. Todas as lutadoras escolheram o local de treino, o que pode apontar para a grande relação delas com esse local.