Todo o percurso até aqui construído e descrito ao longo deste relatório se reconhece como um caminho de desenvolvimento pessoal e profissional. Descrevo- o como um processo contínuo de aprendizagem e valorização, que me apraz dizer que não termina aqui, mas que, de outro modo, (re)começa, com a certeza da aquisição consciente e segura das competências de EESMP.
Relembrando Benner (2001), quando refere que um mesmo enfermeiro experiente numa determinada área de enfermagem, se torna “iniciado”, quando o seu contexto se modifica. Naturalmente que a minha experiência em serviços de saúde mental de adultos, constituiu um aspeto relevante para a minha prática, enquanto estudante da Especialidade em Saúde Mental. Contudo, foi na área da Psiquiatria da Infância e Adolescência, que me era até então desconhecida, que escolhi desenvolver as competências e aprofundar os conhecimentos da práxis, sob uma perspetiva sustentada e profundamente relacionada com a teoria. Novamente Benner (2001), refere-se à complexidade inerente de estudar a prática de cuidados “a prática de enfermagem é bem mais complexa do que aquilo que a maioria das teorias formais de enfermagem preconizam.” (Benner, 2001,p.15).
Nesta construção de um cuidado de enfermagem cada vez mais especializado, concorreram construtos alicerçados na Teoria das Transições de Afaf Meleis, onde procurei compreender o fenómeno em estudo, os comportamentos agressivos, sob a perspetiva de desenvolvimento e maximização das capacidades de auto-regulação das crianças e adolescentes de quem cuidei.
A determinação pessoal e profissional que o percurso académico exigiu, obrigou- me a um trabalho intenso durante a prática clínica, tanto em contexto hospitalar, como em contexto de ambulatório. Durante todo o estágio e, dia após dia, as intervenções eram analisadas, as atividades e estratégias eram repensadas e discutidas. Neste sentido a intencionalidade terapêutica imbuída nas minhas intervenções, permitiram-me momentos de confronto e reflexão importantíssimos,
que me levaram, todos os dias, a crescer e a desenvolver-me enquanto enfermeira e pessoa.
Aferindo tudo o que foi descrito neste projeto, ao proposto pela Ordem dos Enfermeiros (OE), no Regulamento de Competências Específicas do Enfermeiro Especialista em Enfermagem de Saúde Mental, posso concluir que foram largamente desenvolvidas de diferentes formas e intensidades as várias competências, com merecido destaque para a primeira: “Detém um elevado conhecimento e consciência de si enquanto pessoa e enfermeiro, mercê de vivências e processos de autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e profissional.” Esta busca pelo autoconhecimento, permitiu-me identificar os meus próprios medos e fragilidades e compreender melhor a forma como me posiciono na relação que estabeleço com quem cuido. As reflexões constantes e a preocupação em fazer melhor, permitiram-me mobilizar enquanto instrumento terapêutico, certa dos meus limites e também dos limites dos outros. O trabalho árduo realizado levou- me, finalmente, à consolidação de uma identidade profissional.
Torna-se importante realçar as restantes competências que foram desenvolvidas, através da realização de avaliações constantes das necessidades reais da população, com posterior implementação de estratégias e intervenções de enfermagem e novas re-avaliações. Particularmente o enfermeiro especialista, deve olhar cuidadosamente para o que se passa, o seu sentido crítico deve permitir-lhe selecionar os meios que considera mais adequados a cada situação particular com que se depara e, da reflexão acerca do que interpreta, nascerá a tomada de decisão, que comtemplará, sempre, o respeito pela situação única de cada cliente de quem cuida.
Assim, sobre o tema aqui estudado, propus-me compreender aprofundadamente os fenómenos de agressividade em crianças e adolescentes, procurando que os mesmos pudessem desenvolver as suas capacidades de auto-regulação, que se revelaram, tal como a bibliografia assim explicitava, excelentes indicadores de saúde mental nestas populações.
Decorrente do trabalho que foi desenvolvido ao longo dos seis meses de estágio muitos aspetos foram surgindo como tema de discussão e reflexão entre mim e os demais que me acompanharam neste percurso.
Penso ser útil apresentar os constrangimentos/limitações decorrentes deste processo de aprendizagem.
Um dos aspetos mais revelantes prendeu-se com escassez de estudos realizados nesta área de interesse, com enfoque especial para a correlação da agressividade com as capacidades de auto-regulação na criança e adolescente. Muitos esforços têm sido realizados na área da prevenção e gestão de comportamentos agressivos e sabemos, agora, que as intervenções se focam cada vez mais na auto-determinação e estratégias que favorecem o auto-controlo do cliente. Contudo, a nível nacional não existe nenhum estudo realizado em serviços de psiquiatria da infância e adolescência que permita compreender a correlação entre a agressividade e as capacidades auto-regulatórias. Apenas se encontrou um estudo nacional, mas realizado a nível escolar, que reconhece a existência de uma forte correlação entre a desregulação emocional e a presença de comportamentos disruptivos nestas populações. A nível internacional, encontrou-se um estudo bastante revelante, que vem confirmar a relação estreita entre os dois fenómenos.
Durante a consecução do projeto esta realidade tornou-se um constrangimento, mas creio que, no futuro, pode ser encarado como um incentivo a novos estudos. Penso ter dado um passo importante para a melhor e maior compreensão dos fenómenos de agressividade nesta população estudada.
Outro aspeto que penso ser importante apresentar como potencial constrangimento prende-se com a avaliação efetiva realizada nas sessões por mim dinamizadas no contexto do internamento, em articulação com os ganhos efetivos em saúde, dificéis de mensurar objetivamente. Sobre estes aspetos, há que salientar: em primeiro lugar, o programa foi definido com 8 sessões realizadas num grupo aberto, o que fez com nem todos os adolescentes tivessem participado em todas as sessões programadas. Portanto, foi difícil compreender a evolução e os ganhos gerais, permitindo-me apenas avaliar os ganhos em cada sessão. Em segundo lugar, a aplicação do IARA 2 foi realizada exclusivamente no início do internamento de cada adolescente, não havendo, portanto, um termo de comparação quanto ao score obtido após a participação dos adolescentes nas sessões dinamizadas. Sobre esse aspeto, surgiram-me algumas questões: teria sido mais relevante realizar o estudo num grupo fechado? Quão benéfico teria sido aplicar novamente o IARA 2 no final do internamento de cada adolescente?
Aquando da realização do projeto, pareceu-me que pudesse ser útil cruzar os scores obtidos no IARA 2 com os scores obtidos na escala de predição do risco de agressividade – Brøset Violence Checklist, utilizado pelos enfermeiros do serviço. Contudo, o tratamento dos dados resultantes desta última escala, não estava disponível a nível informático, o que inviabilizou o cruzamento destes dados.
Por constrangimentos profissionais, foi-me impossível poder participar no Congresso Nacional de Psicodrama e Sociodrama realizado em Novembro de 2014, que teria, com certeza, sido uma mais-valia para a minha intervenção durante o estágio na comunidade.
Por último, posso referir que os objetivos deste relatório foram atingidos. Propus- me dar a conhecer o percurso e o trabalho por mim efetuado ao longo desta jornada académica, procurei refletir acerca dos ganhos pessoais e profissionais obtidos, mobilizando para tal as competências do EESMP. O cuidado especializado realizado foi sustentado nas premissas de Benner (2001, p.194), que refere “cuidado genuíno, (...) um compromisso e um envolvimento inerente à prática de enfermagem”.
Centrando este trabalho na compreensão dos fenómenos de agressividade com o desenvolvimento das capacidades de auto-regulação das crianças e adolescentes, é agora a meu ver necessário, desenvolver estudos nesta área que possam favorecer a implementação de intervenções de enfermagem cada vez mais sensíveis e determinantes, para o desenvolvimento de uma intervenção precoce. Por fim, luz apagada....
Num caminho efetuado com e para estes adolescentes, onde, mais do que olhar, fiquei atenta, observei, escutei e dei voz e movimento aos sentimentos e emoções. Aos meus, aos dos outros, a todos nós, que neste percurso pautado pelo crescimento e reconhecimento enquanto um EU integrante e integrado.
Com as mãos entrelaçadas, onde as capacidades relacionais me permitiram ver para além do óbvio, onde pude comunicar para além da palavra, onde nada foi censurado e todo o gesto, repleto de intenção terapêutica, permitiu o reconhecimento de mim e do outro...