Para o maior representante do Século das Luzes, o fim da intolerância religiosa e do fanatismo devia ser resultado de um pressuposto anterior, no qual cada pessoa devesse reconhecer que sua natureza humana era sempre constituída por erros e debilidades. Na concepção voltairiana o ser humano é sempre igual em natureza, em nossa constituição material, ou seja, aquilo que somos, como pensamos e, sobretudo, como agimos prova nossa debilidade.
Nossa fragilidade humana, que quase sempre é origem de tantos erros de nossa conduta, deve, ao mesmo tempo, despertar em nós um coração indulgente por todos nossos semelhantes que são iguais a nós em natureza, e que, portanto, erram como nós.
A tolerância não pode existir se a ortodoxia do pensamento religioso sobrepor-se à ideia de que as opiniões de meu próximo são inferiores à minha. Esse pensamento induz não a uma efetiva liberdade religiosa, ele não inspira a paz, mas é origem de querelas violentas e dos piores massacres e extermínios por grupos fanáticos. Nesse aspecto, quando Voltaire
Voltaire em se tornar conhecido. Pode-se perceber que até mesmo sua estada na Bastilha, apesar de estar encarcerado, favoreceu o aumento de sua glória, pois até mesmo usou este tempo para realizar seus principais escritos.
propõe a multiplicidade das seitas religiosas,46 mostrando que isso também é saída para o estabelecimento de uma tolerância social, expressa igualmente outra ideia implícita, a do enfraquecimento das religiões naquilo que diz respeito ao possível espírito de dominação de uma única religião.
A ideia de uma religião como a dominante era simplesmente insuportável na visão de Voltaire que, por vezes, mostra sua hostilidade pelo poder centralizado, principalmente em se tratando do poder religioso.47
Voltaire, como já foi afirmado, nunca foi um dogmático no sentido de querer criar um sistema filosófico fechado, rígido e sistemático. Sua filosofia se constitui a partir de bons escritos, de boas peças teatrais e panfletos que tiveram por força maior levar as pessoas a pensarem sobre o momento presente de sua existência.48 Praticamente todas suas obras e escritos, principalmente as Cartas Filosóficas [Lettres Philosophiques, de 1734] e o Tratado Sobre a Tolerância, levaram seu público a refletir sobre o mais terrível problema que assolava as pessoas de seu tempo, isto é, as perseguições religiosas e, consequentemente, as chacinas que eram realizadas em nome do pensamento religioso da época.
Por outro lado da questão proposta, Voltaire, mesmo não tendo criado um sistema filosófico fechado no sentido rígido da palavra, não deixa de expressar uma certa ortodoxia em seu pensamento, pois ele quer levar as pessoas a pensar a seu modo. Sua estratégia é propor que a razão substitua com sua luz o abismo impenetrável das consciências dominadas pela violência religiosa, pois não suportava a ideia de ver entre os cristãos tanta disputa em nome da fé.
46 VOLTAIRE, op. cit., 1956, p. 320.
47 Voltaire não esconde seu ódio implacável pelos representantes da Igreja, o clero, pois segundo o que se
percebia era que a maioria destes insistia em manter o povo nas superstições religiosas, não possibilitavam uma visão crítica da religião, mas uma visão unilateral e consequentemente ortodoxa; para um fanático isso era fundamentalmente um meio de odiar ainda mais pessoas de outra religião.
48 Voltaire teria afirmado que devemos sempre partir do ponto em que estamos e daquele que chegaram as
nações. Isso mostra que sua filosofia parte sempre de problemas cotidianos, de temas espontâneos que surgem esporadicamente.
Diante de tudo isso, se existe um dogma ou uma lei rígida defendida por Voltaire, ela é a da indulgência, no sentido de que possa produzir a tolerância. No Dicionário Filosófico [Dictionnaire Philosophique, de 1764], no verbete “Tolerância”, Voltaire afirma: “Estamos todos empedernidos de debilidades e erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é a primeira lei da natureza”.49 Ao afirmar a indulgência como lei, Voltaire não se coloca conforme o espírito cristão, ele não comunga deste compromisso,50 que sem dúvida os cristãos teriam a obrigação de praticar, pois a indulgência é lei evangélica.
Voltaire, ao lembrar a indulgência como norma51 a ser vivida por todos os homens em geral, faz isso tendo como intenção enfraquecer os ânimos dos fanáticos religiosos. Ele se vale de um discurso aparentemente religioso para conseguir tocar e sensibilizar as pessoas que estavam dominadas pelo furor do fanatismo.
Ainda no verbete “Tolerância”, Voltaire, para mostrar que os cristãos devem em primeiro lugar inspirar a indulgência por seus irmãos errantes, afirma: “Por que motivo, pois, nos esganamos quase sem interrupção desde o primeiro Concílio de Niceia?”.52 Esta frase, na qual Voltaire questiona o ódio interminável entre os cristãos, identifica igualmente a origem exata da problemática geradora da intolerância religiosa. É exatamente do meio cristão que se desenvolvia a prática e a força do pensamento fanático, pois estes se achavam cegos em sua ortodoxia de fé.
Só para reforçar essa ideia, percebe-se que, no mesmo verbete, Voltaire caracteriza os cristãos como perturbadores da ordem pública em pleno Império Romano, nos primeiros
49 VOLTAIRE, op. cit., 1956, p. 289.
50 Entre os compromissos dos cristãos se destaca o da indulgência. Este compromisso é a disponibilidade em
perdoar. Jesus não apenas incentiva o perdão como o destaca como uma experiência ilimitada entre os cristãos, ou seja, eles devem estar dispostos a se perdoarem sempre. “‘Senhor, quantas vezes devo perdoar ao irmão que pecar contra mim? Até sete vezes?’ Jesus respondeu-lhe: ‘Não te digo até sete, mas até setenta e sete vezes’”. Mt 18, 21-22. Bíblia de Jerusalém. São Paulo: Paulinas, 1985.
51 No Tratado Sobre a Tolerância, Voltaire faz referência à indulgência como uma prática que não pode ser
simplesmente anunciada, mas vivida com atos concretos. “Nossas histórias, nossos discursos, nossos sermões, nossas publicações de moral, nossos catecismos, respiram todos, ensinam todos atualmente esse dever sagrado de indulgência. Por qual fatalidade, por qual inconsequência desmentiríamos na prática uma teoria que anunciamos todos os dias?”. VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. XV.
séculos da Igreja primitiva.53 O discurso do perdão, em Voltaire, direciona-se a lembrar constantemente que os cristãos devem ser os primeiros a viver essa lei, pois ela é uma norma evangélica ensinada por Jesus.
No Capítulo XXII do Tratado Sobre a Tolerância, Voltaire fala da obrigação que os cristãos têm para com a tolerância. A ideia é a de que eles devem tolerar-se e também perdoarem-se, pois este é um critério fundamental da vida cristã. John Locke, antes de Voltaire, na Carta Sobre a Tolerância, já havia falado brilhantemente sobre a tolerância mútua entre os cristãos, afirmando que este deveria ser o critério da verdadeira igreja de Cristo.
Na visão de Voltaire, muitas religiões e seitas seriam uma das saídas e soluções para o problema das querelas cristãs, pois a proposta da multiplicidade das seitas religiosas não era obviamente para exaltar o valor desta ou daquela religião. Voltaire não é cristão e sua intenção é advogar em favor da tolerância. Seu Tratado Sobre a Tolerância, dividido entre partes curtas e objetivas, porém de grande habilidade na arte de questionar, se estrutura a partir de um discurso cujo tema central é a religião.
O apelo que Voltaire faz nesse tratado, sobretudo nos dois primeiros capítulos, intenciona questionar o povo religioso e intolerante a respeito de suas ideias cegas de religião.54 Não era diretamente a religião que Voltaire desejava demolir, mesmo embora a vendo como rival em seu projeto iluminista. Ele também não se colocava contra a fé das pessoas nesta ou naquela religião; o que com urgência pretendia era substituir o pensamento
53 Os capítulos IX e XIII do Tratado Sobre a Tolerância de Voltaire falam longamente desta extrema tolerância
que povos antigos como os judeus e os romanos tinham pelos cristãos; os cristãos foram os mais intolerantes, pois desejavam que sua religião fosse a dominante.
54 Voltaire se limita no capítulo I do Tratado Sobre a Tolerância a tratar da questão da morte de Marc Antoine
Calas. Resumidamente conta o drama desta morte aparentemente conspirada por inimigos desta família e a coloca como tema inicial de sua obra. Deseja mostrar que os direitos da intolerância religiosa são absurdos e bárbaros. No capítulo II tenta, a partir de uma reflexão que leva seus leitores a pensar, mostrar que a condenação de Jean Calas, o pai de Marc Antoine, foi injusta, pois mais uma vez o fanatismo religioso praticava mais um de seus crimes. Desta vez, porém a Justiça de Toulouse, os magistrados, era quem protegia os assassinos por serem da mesma religião.
religioso de sua época por algo mais humanístico,55 e isso devia ser um projeto liderado pela razão.
Os conflitos religiosos impediam que o bem físico da sociedade acontecesse. O poder tirano da mentalidade religiosa conhecia apenas o direito da intolerância. No capítulo XVIII do Tratado Sobre a Tolerância é lembrado por Voltaire que cumpre aos homens que comecem por não serem fanáticos para merecerem a tolerância. “Para que um governo não tenha o direito de punir os erros dos homens, é necessário que estes erros não sejam crimes; eles só são crimes quando perturbam a sociedade a partir do momento em que inspiram o fanatismo.”56 É justamente o direito e a prática da tolerância que possibilitará à sociedade a tranquilidade pública. Voltaire identificará essa paz social como sendo um tempo de razão,57 ou seja, é o uso esclarecido dessa razão que levará os homens a respeitarem-se e tolerarem-se uns aos outros.
É preciso olhar esse tempo de razão, mencionado por Voltaire, como sinônimo de progresso humanístico e social. É da riqueza humana, da propriedade privada e do aumento dos bens materiais que ele se refere. Trata-se de uma educação que molde o espírito dos homens para que possam ser mais livres em suas ideias que Voltaire clama. O verbete “Tolerância”, de Voltaire, faz referência a esse tempo de progresso econômico no qual pessoas das mais diversas raças e línguas trabalham com a única finalidade de enriquecerem- se, a si mesmas, e ao Estado.
55 Com a pretensão de substituir o pensamento religioso da época, Voltaire automaticamente queria implantar seu
projeto que era o da razão sobre a ignorância religiosa. Devemos perceber que, ao mesmo tempo em que Voltaire propõe a diversidade religiosa, ele também intenciona como isso enfraquecer o discurso religioso e a própria fé pelo uso único e esclarecido da razão.
56 VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 105.
57 Voltaire afirma, no Tratado Sobre a Tolerância, o seguinte a respeito deste tempo de razão: “É, portanto, esse
tempo de fastio, de saciedade, ou melhor de razão, que podemos perceber como uma época e uma garantia da tranquilidade pública. A controvérsia é uma doença epidêmica a ponto de extinguir-se, e essa peste, da qual nos curamos, não requer mais do que um regime suave. Enfim, o interesse do Estado é que filhos expatriados retornem com modéstia à casa de seu pai: a humanidade o exige, a razão o aconselha e a política não se pode assustar com isso”. VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. V, p. 32.
Na Bolsa de Amsterdã ou de Londres verifica-se que há um relacionamento tolerante entre as pessoas das mais diversas confissões religiosas: cristãos, islâmicos, judeus, guebros, baneanos, entre outros. Seus interesses eram comuns: não desejavam pegar nas armas para angariar prosélitos, mas traficavam unicamente ações, pois o interesse desses grupos era o comércio e o dinheiro. Esse enriquecimento pessoal contribuiria também para o desenvolvimento da nação. No que tange à vida social e consequentemente ao Estado, verifica-se que esse era o interesse de Voltaire, isto é, o progresso de tudo permeava os setores da vida humana. Nota-se que o contrário de tudo o que Voltaire afirma para o progresso social está justamente nas práticas fanáticas dos religiosos.
O fanatismo, por sua vez, impedia tudo o que se relacionava com o progresso humanístico. Ainda há de se perceber, no entanto, que a intolerância religiosa no pensamento de Voltaire se destaca como um problema vindo unicamente do meio cristão. As mais drásticas perseguições e mortes lembradas por Voltaire em seu Tratado Sobre a Tolerância referem-se ao meio cristão. É no universo cristão e não fora dele que Voltaire dedica seu tempo a falar da intolerância religiosa. As poucas vezes que ele se lembra da intolerância de outros povos religiosos, como os judeus, por exemplo, é para comparar que a intolerância destes não era tamanha como a dos cristãos, pois estes sempre desejavam que sua religião fosse a dominante.
Voltaire descreve no Tratado que nem mesmo o imperador romano era contra a religião de seus povos dominados, mesmo tendo o direito de sê-lo. Aceitava todos os cultos e expressões religiosas, porém desejava que todos igualmente respeitassem o culto do Império. A preocupação do imperador parecia estar voltada para a conquista de novas terras e povos e também de riquezas materiais, desprezando por completo o proselitismo e a intolerância. Os únicos casos em que vemos os cristãos serem censurados, conforme o relato de Voltaire é quando estes conspiram em ser um partido religioso dentro do Estado visando a dominação e
a imposição de seus dogmas. Sobre isso, Voltaire lembra, no Tratado, que Santo Tomás de Aquino afirmou que os cristãos só não destronaram o imperador porque não puderam.
Na reflexão de Voltaire, testemunhos58 contra a intolerância dos cristãos é que não faltam. No Tratado Sobre a Tolerância, Voltaire afirma que de fato os cristãos é que foram intolerantes com seus irmãos:
Digo-o com horror, mas com verdade: Nós cristãos, é que fomos perseguidores, carrascos, assassinos! E de quem? De nossos irmãos. Nós é que destruímos cidades, com o crucifixo na mão, e não cessamos de derramar sangue e de acender fogueiras, desde os tempos de Constantino até os furores dos canibais que habitavam as cavernas, furores que, graças a Deus, não mais subsistem hoje.59
A religião não é o interesse de Voltaire, como já foi afirmado nos capítulos anteriores, porém sua proposta de implantar a tolerância, para que possa ser aceita, é necessário que seja sensibilizado o espírito dos homens moldados pelo pensamento religioso. Se isso não for realizado como um penhor da paz entre os cristãos, então de nada adiantará os mais belos discursos sobre uma filosofia da tolerância,60 pois, como mostra Voltaire, na maioria das vezes os cristãos estão mais desejosos em dominar seu semelhante do que aceitar a diferença de perspectiva religiosa que existe entre ambos.
Voltaire insiste em mostrar que os cristãos parecem não estar inspirados pelo espírito de Cristo e pelos ensinamentos da Escritura: “A Escritura nos ensina, portanto, que Deus não somente tolerava todos os outros povos, como tinha por eles um cuidado paterno. E nós ousamos ser intolerantes?”.61 Ainda no Tratado, capítulo XXII, Voltaire afirma uma mesma
58 Ver o capítulo XV do Tratado Sobre a Tolerância. 59 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. X, p. 58.
60 Sobre esta filosofia da tolerância poderíamos pensar hoje: ela abrandaria os ânimos de todos fanáticos? Seria
ela um projeto que mesmo tendo a intenção de ser universal abrangeria a consciência de todos os religiosos dominados pelo fanatismo intolerante? Sobre isso René Pomeau reflete na Introdução do Tratado Sobre a Tolerância: “Que pensar hoje dessa filosofia da tolerância? Dirão que Voltaire dava provas de demasiado otimismo. Diz Voltaire que os costumes se abrandaram, nestes cinquenta anos. Abrandaram-se, certamente, no seio de uma elite europeia, mas bastante estrita: muitos acontecimentos posteriores mostrarão que o movimento era menos extenso e menos profundo do que se julgava. Não se pode ler sem um aperto no coração a página em que ele anuncia que a Irlanda povoada e enriquecida não verá mais ‘católicos e protestantes matarem-se uns aos outros’ (cap. IV)”. VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. XXXII.
ideia antes já explorada por John Locke, na Carta Sobre a Tolerância, ao dizer que todos os cristãos devem tolerarem-se uns aos outros, pois são criaturas do mesmo Pai. O discurso de Voltaire aqui é novamente apelativo, pois ele não se colocava em harmonia com esta fé cristã. Sua fala, neste sentido, sempre apelando para o emocional de seus leitores, desejava mais uma vez mostrar que os direitos da intolerância serão para todo sempre um absurdo. No capítulo XIV do Tratado, Voltaire diz: “O espírito de intolerância deve estar apoiado em razões muito más, já que por toda parte busca os menores pretextos”.62
Diante de tudo isso, do abuso que a intolerância religiosa produz no espírito das pessoas necessitou concluir que ela se apóia nas piores razões desumanas para justificar-se. Voltaire, no capítulo XIV do Tratado, ao refletir se Jesus Cristo ensinou a intolerância, afirma que o espírito perseguidor abusa de tudo e se camufla diante de pretextos religiosos para perseguir as pessoas. Após uma profunda reflexão sobre os direitos insanos da intolerância, no referido capítulo, ele afirma: “Pergunto, agora, se é a tolerância ou a intolerância que é de direito divino? Se quereis vos assemelhar a Jesus Cristo, sede mártires e não carrascos”.63
62 VOLTAIRE, op. cit., 2000, cap. XIV, p. 86. 63 Id., ibid.
Pretende-se neste capítulo, a partir do relato da morte de Jean Calas, mostrar que este atentado fora fruto do fanatismo e da intolerância religiosa. Não cabe nesta reflexão julgar ou identificar qual partido religioso foi o autor do crime, católico ou protestante, embora isso já pareça evidente no relato, mas deseja-se analisar essa morte como consequência de uma intolerância produzida pelo pensamento religioso da época de Voltaire. Este estudo terá como referencial o primeiro capítulo do Tratado Sobre a Tolerância de Voltaire, uma vez que ele trata aí mais detalhadamente deste assunto. As ideias aqui apresentadas sobre fanatismo, tolerância e intolerância se limitam a serem conceitualizadas somente no contexto e universo voltariano e não fora dele, considerando que muito se falou e ainda se fala o mesmo desse assunto quase três séculos depois de Voltaire.