Para uma melhor análise e compreensão do leitor a respeito do destino do assunto atual faz-se necessário o relato do acontecimento sobre a morte de Jean Calas:
Jean Calas comerciante de tecidos jantava com sua família. Junto com ele, sua esposa, seu filho, sua empregada e um amigo chamado Gaubert Lavaisse. Este jovem viera de Toulouse e pertencia também a uma família de protestantes. Após a refeição, o filho mais velho, Marc Antoine, deixa-os na sala de jantar e provavelmente sai pela rua para dar uma volta como está habituado. Mais tarde, por volta das 09h e 30 minutos da noite, o jovem Lavaisse se despede da família Calas para ir embora, e o irmão mais novo de Marc Antoine, Pierre Calas, acompanha-o descendo a escada de vela na mão. Chegaram à parte térrea do apartamento, dentro da loja da família Calas, e foram surpreendidos pela mais triste cena: avistaram, na
loja, Marc Antoine morto jogado ao chão. Sua morte possuía aspecto de estrangulamento; no pescoço trazia marcas de corda. Diante da triste cena, sem conter a emoção, a família toda se desespera aos prantos. Como não podiam deixar de serem ouvidos, os vizinhos aparecem todos, para observar o motivo de tamanha angústia. Quando as pessoas percebem o ocorrido, imediatamente surge, em meio à multidão, um julgamento precipitado: crime calvinista, ou pior, se tratava de um parricídio.
Em meio ao desespero da família Calas, Pierre Calas e seu amigo Lavaisse foram desesperados em busca de socorro médico e da Justiça. Com a chegada do investigador de policia, David Beaudrigue, este parece contentar-se com a versão que ouvia provinda da populaça, a de que Jean Calas e sua família haviam assassinado seu filho Marc Antoine. Naquele momento de tumulto e desespero, a multidão religiosa e fanática parece que já havia pronunciado a sentença de morte de todos da família Calas, sem piedade. Todas as pessoas que estiveram na casa durante a noite da morte de Marc Antoine foram levadas como suspeitas à prisão: Jean Calas, sua esposa, sua empregada católica, Jeanne Vaguière e Pierre Calas, o filho mais novo do casal.64
Eis o relato sobre o qual se deterá nossa análise e estudo. Percebe-se, logo de início, que tal história refere-se a um crime de disputa religiosa, e muito mais que isso, de perseguição e intolerância contra opiniões religiosas diferentes. Por se tratar de um caso ligado à religião, é preciso analisar diretamente como Voltaire concebe a religião: “Mes frères, La religion est La voix secrete de Dieu qui parle à tous les hommes ”65.Verificaremos
isso também na frase a seguir: “O abuso da religião mais sagrada produziu um grande crime, é portanto do interesse do gênero humano examinar se a religião deve ser caridosa ou bárbara”.66
A frase de Voltaire em questão impõe a todos aqueles que leem tal relato a necessidade de uma verificação a respeito da natureza e do objetivo da religião, ou seja, qual deve ser seu papel na sociedade. Seria o de salvar ou condenar as pessoas por suas convicções religiosas? A religião, por sua natureza, está sempre inclinada a ser um instrumento de guia
64 Id., ibid., p. 3.
65VOLTAIRE. Sermon des Cinquante, XXIV, 438. 66 Id., ibid., p. 13.
espiritual do homem religioso, tendo como finalidade a salvação de sua alma.67 Na medida em que ela deixa de cumprir seu dever de cuidar da salvação das almas, distancia-se de seu princípio e não tem mais autoridade no que faz. Na concepção de Voltaire, a religião é vista como um instrumento que pode auxiliar o cidadão a cumprir seu dever social, não que com isso ela seja necessária, mas se existir que seja útil ao Estado. A religião não pode se colocar como a juíza dos destinos históricos dos homens, pois cada um deve se guiar pela razão. Se existe uma autoridade suprema além da razão, então essa é o déspota esclarecido,68 pois, para
Voltaire, este seria a autoridade máxima do Estado e não a religião. No caso do cristianismo, os cristãos devem seguir os passos de seu mestre Jesus Cristo, que bem pregou a caridade, a tolerância e o amor entre todos os homens; devem seguir os valores que o Evangelho apresenta, pois disso depende a salvação das almas. Verifica-se que os cristãos tendem para uma vida na qual as pessoas estejam sempre a favor da paz e nunca da guerra ou das perseguições, pois o princípio é a reconciliação e não divisão. Em concordância com esta ideia cristã, Voltaire afirma: “Não é preciso uma grande arte, uma eloquência muito rebuscada, para provar que os cristãos devem tolerar-se uns aos outros”.69 É, portanto, diante do Caso Calas (Affaire Calas) que se deve confrontar o papel exercido pela religião, pois, como se percebe, a morte de Jean Calas fez com que o povo de Toulouse, assim como alguns dos magistrados, pensassem no crime que também haviam contribuído para que acontecesse.70
67 LOCKE. John, op. cit., 1965, p. 4.
68 O déspota esclarecido é a imagem do monarca que governa o povo com base na justiça concedendo sempre
aos súditos a segurança, a tranquilidade e a paz. Voltaire mesmo desejando em seu tempo combater implacavelmente a monarquia, seja civil ou religiosa, defende por um outro lado um governo esclarecido. Em História de Carlos XII, ele faz referência ao czar Pedro, o Grande, de governo justo e dedicado para com o povo; um déspota que mesmo analfabeto não foi tirânico com seus subordinados, mas que lhes possibilitou a educação e os bons costumes. Voltaire afirma neste relato: “Civilizava seu povo, e era selvagem”. Pode-se perceber igualmente ao exemplo acima citado que Voltaire tem preferivelmente como modelo de déspota esclarecido o rei da Prússia, Frederico, e Catarina II, com quem cultivou grande amizade. VOLTAIRE. Seleções. Volume XXXII. Tradução de J. Brito Broca. Rio de Janeiro/São Paulo/Porto Alegre: M. W. Jackson, 1950. A respeito deste mesmo tema, despotismo esclarecido, para refleti-lo no contexto do século XVIII, ver NASCIMENTO, Maria das Graças de Souza. Voltaire: A Razão Militante. Coleção Logos. 4ª ed. São Paulo: Moderna, 1996, p. 41.
69 VOLTAIRE, op. cit., 2000, p. 121.
70 Na época de Voltaire o fanatismo, a superstição e a intolerância religiosa eram situações e práticas comuns na