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İdarenin Toplam Kaynak İhtiyacı

Belgede HACETTEPE ÜNİVERSİTESİ (sayfa 82-94)

I. GENEL BİLGİLER

2.4. İdarenin Toplam Kaynak İhtiyacı

Figura 1- Tirinha do Armandinho

Fonte: Alexandre Beck. Tiras do Armandinho. 2013/ www.facebook.com/tirasarmandinho.

Essa tirinha foi publicada na Internet, numa rede social28 que tem amplo acesso diário de milhões de brasileiros. A sua veiculação neste ambiente virtual se deu em 2013, precisamente no início do mês de outubro, e, na nossa avaliação, o enredo alude ao que ocorria naquele contexto histórico: a veiculação midiática da violência estatal e policial contra os professores grevistas das redes estadual e municipal do Rio de Janeiro.

No Brasil, é mister que o professorado lute, cada vez mais, nos espaços institucionais e nas ruas, em prol de melhorias na educação escolar. São muitas e urgentes as demandas da categoria que atua na Educação Básica29. As reivindicações dos últimos anos, Brasil afora, se organizam numa extensa pauta, qual seja: a necessidade urgente de reajustes salariais, para que os docentes tenham condições dignas de vida e de trabalho; pela redução da jornada de

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Trata- se do Facebook, hoje, a maior rede social da Internet, ou, nas palavras da agência de mídias

SocialBakers, ―a plataforma social global líder‖, que computa 1.390 milhões de usuários cadastrados.

Na segunda década do séc.XXI, além de se configurarem como espaços virtuais de entretenimento, propaganda publicitária e interação, as redes sociais cumprem um papel político forte. Elas, mediante o rápido acesso da comunicação, auxiliam movimentos sociais de vários matizes e países na disseminação de suas ideologias, bem como na organização e veiculação de várias manifestações e ações coletivas. ―Historicamente, os movimentos sociais dependem da existência de mecanismos de comunicação específicos: boatos, sermões, panfletos e manifestos passados de pessoa a pessoa, a partir do púlpito, da imprensa ou por qualquer meio de comunicação disponível. Em nossa época, as redes digitais, multimodais, de comunicação horizontal, são os veículos mais rápidos e mais autônomos, interativos, reprogramáveis e amplificadores de toda a história. [...] É por isso que os movimentos sociais em rede da era digital representam uma nova espécie em seu gênero.‖ (CASTELLS, 2013, p.25).

29 Situação que se espraia também para o outro nível da Educação brasileira, o Ensino Superior. Neste capítulo, entretanto, faremos menção apenas à Educação Básica, já que a EJA é uma das modalidades desse nível de ensino.

trabalho; por escolas bem estruturadas, com materiais didáticos adequados e suficientes para o processo de ensino-aprendizagem; por tempo de planejamento contabilizado na carga horária de trabalho; por eleições democráticas e diretas para os gestores escolares; por plena autonomia pedagógica e administrativa das unidades escolares; pela realização de concursos públicos para professor efetivo e demais funcionários da escola; pela redução do número de alunos por turma; para que haja ampla oferta gratuita de formação inicial e continuada para os docentes; dentre outras tantas questões.

A greve30 desses profissionais do Rio de Janeiro, encetada no início de agosto de 2013, sem dúvida, estava inserida num panorama político favorável, em virtude das inúmeras e grandes manifestações que eclodiram em todo o Brasil em meados do ano supracitado, no histórico movimento popular que, ganhando força no mundo virtual, especialmente nas redes sociais, levou milhões de estudantes e trabalhadores brasileiros às ruas. Essas manifestações populares ficaram conhecidas como Jornadas de Junho31.

Nessas Jornadas, viu-se a expressão de uma pluralidade de reivindicações de âmbito nacional que, partindo do aumento das passagens dos transportes públicos em São Paulo, estenderam-se para centenas de cidades do País, num complexo de ações reivindicatórias que gravitavam ao redor do transporte, da saúde, da Educação, da moradia, da corrupção, dentre outros, com foco nos abusivos gastos públicos com a Copa do Mundo no Brasil, ocorrida no ano subsequente. Foi, portanto, um ano politicamente fecundo, que esparziu luzes para que milhões de brasileiros enxergassem o quanto há de se lutar coletivamente para que tenhamos uma vida digna e plena de sentido e o quão a política se encontra no nosso dia a dia, interferindo diretamente nas nossas ações, individuais e coletivas.

30 Consoante a jornalista Conceição Lemes (2013), essa greve dos professores foi duplamente histórica para a categoria, pois havia mais de duas décadas que o professorado da rede municipal não aderia a uma greve e, ainda, por ter sido uma greve unificada, com professores do Município e do estado juntos, somando forças. VER: http://www.viomundo.com.br/denuncias/greve-de- professores-do-rj-paes-debocha-secretario-de-cabral-ameaca-e-jornal-mente.html

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―A onda de protestos deflagrada em junho deste ano [2013] ficou marcada na história política, social, cultural no Brasil por sua diversidade de bandeira de luta e das pautas reivindicatórias. O que antes era previsto o aumento das tarifas de ônibus nas principais capitais brasileiras, ganhou novas dimensões aglomerando num movimento organizativo e colaborativo com várias perspectivas de revolta. Especialistas da área comentam se tratar da ―Primavera Brasileira‖, numa alusão à ―Primavera Árabe‖, protestos ocorridos no Oriente Médio (Tunísia), em 2010, que teve modos similares no que se refere às medições on line e uso intensivo das redes sociais a favor do movimento.‖ (RODRIGUES, 2013, p.32).

O ano de 2013 também merece mais alguns destaques. Foi um período de lutas locais. Nos meses de abril e junho, eclodiram manifestações e greves dos professores da rede pública municipal do Crato-CE32. Nessas duas greves33, os professores reivindicavam condições de trabalho dignas, o cumprimento da Lei do Piso, reajustes salariais com base nos níveis de qualificação dos profissionais (graduados, especialistas, mestres etc.), gratificação por progressão, e a implantação de um terço da carga horária destinada a estudos e planejamento do ensino, dentre outras mudanças. E foi, também, no decorrer de todo este ano que realizamos as entrevistas com os educadores da EJA, participantes desta pesquisa34.

À vista de tais pontos, é necessário analisarmos o mundo do trabalho na contemporaneidade, no qual os professores, na qualidade de trabalhadores35 da Educação, se inserem. Vivemos, atualmente, sob o início do 4º mandato36 de um governo petista à frente do Executivo Federal. Neste decurso, conquistas foram obtidas, fruto de lutas históricas e pressões da classe trabalhadora e dos

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Locus de nossa investigação. 33

Fonte: ―Crato (CE): Greve dos professores continua‖ (Blog do Dom Leme; 13/04/2013):

http://distritodomleme.blogspot.com.br/2013/04/crato-ce-greve-dos-professores-continua.html;

―Professores do Crato entram em greve‖ (O POVO; 14.06.2013):

http://www.opovo.com.br/app/politica/2013/06/14/noticiaspoliticas,3074819/professores-do-crato- entram-em-greve.shtml.

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No próximo capítulo, discutiremos sobre as nossas escolhas teórico-metodológicas, bem como sobre o nosso percurso investigativo.

35 Ricardo Antunes advoga uma noção contemporânea e ampliada de classe trabalhadora. Nesta noção, a ―classe-que-vive-do-trabalho‖ seria representada pela totalidade dos trabalhadores assalariados. Pensando na configuração da classe trabalhadora nos dias atuais, Antunes (2003) afirma que ela é composta, centralmente, pelos trabalhadores produtivos, ou seja, pelos produtores diretos de mais-valia e de valorização do capital; bem como pelos trabalhadores improdutivos, ―aqueles cujas formas de trabalho são utilizadas como serviços, seja para uso público, como os serviços públicos tradicionais, seja para uso capitalista‖ (ANTUNES, 2003, p.197, grifo do autor), incorporando, dentre outros, o proletariado precarizado, os trabalhadores terceirizados e os trabalhadores desempregados. Na esteira dessa concepção, compreendemos que os professores, de rede pública ou privada, fazem parte da classe trabalhadora.

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Dois mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), de 2003 a 2010; e de Dilma Rousseff, também do PT, de 2011 aos dias atuais. Fazendo breve análise das eleições presidenciais de 2014, acreditamos que a posição de muitos, da qual fizemos parte, pelo ―apoio estratégico‖ em prol do não retorno do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) ao Palácio do Planalto foi acertada. Tal regresso barraria ainda mais o diálogo com os setores populares e progressistas e configuraria atraso ultraconservador aos avanços já conquistados nessa última década. Aqui, não incorreremos ao erro crasso de inculpar o PT por todas as mazelas históricas do nosso País, entretanto, a nossa leitura atual é a seguinte: há muito, o PT, contraditoriamente aos seus ideais, não implementa uma política que atenda aos interesses da classe trabalhadora, estando hoje muito mais ―ao centro e à direita‖ do que ―à esquerda‖ na luta por efetivas transformações sociais. Atendendo a um projeto neoliberal, com alianças contraditórias e em nome da ―governabilidade‖, os interesses do grande empresariado e da burguesia brasileira são sobrepostos aos anseios e às demandas dos trabalhadores.

movimentos sociais organizados, não obstante, no que tange ao mundo do trabalho, advogamos, na esteira do sociólogo Ricardo Antunes (2014), que, embora tais governos do PT sejam menos funestos do que o de seu antecessor37, ―o balanço, no seu conjunto, é negativo.‖ Vejamos:

Naturalmente, sabemos que durante esse período foram criados inúmeros empregos, e, sob este ponto de vista, comparado ao governo Fernando Henrique Cardoso, não há dúvida de que os governos Lula e Dilma foram superiores ao anterior. Digo que no conjunto é negativo, porque o Brasil não sofreu mudanças estruturais no que concerne ao trabalho. Por exemplo, aumentaram os empregos formais, o que também é positivo, mas há uma enorme rotatividade da força de trabalho no país, aumentou intensamente o trabalho no setor de serviços, dando nascimento a um novo proletariado precarizado. Trata-se de um emprego em que a precarização é a constante. [...] Porém, o que se espera de um governo com assento de esquerda é que ele enfrente a questão da superexploração do trabalho. O vilipêndio, as mortes no trabalho, os sofrimentos, as terceirizações, as precarizações, as rotatividades ampliadas, o emprego supérfluo, isso não foi contentado. (ANTUNES, 2014, s/p).

Doravante, é preciso seguir na luta de classes, com o apoio dos partidos políticos de esquerda, dos movimentos sociais, dos sindicatos, dos trabalhadores e estudantes, e é necessário, outrossim, ocupar os espaços possíveis: as instituições (dentre elas, a escolar), as mídias sociais e, sobretudo, as ruas e as praças públicas. Hoje, no contexto brasileiro, urge lutar contra o retrocesso político e ideológico que está fortemente alinhado aos blocos mais direitistas e conservadores do País. É preciso lutar para que os direitos dos trabalhadores, ainda tão precariamente efetivados, não sejam reduzidos e retirados, ao contrário: urge ampliá-los e efetivá- los na prática. É mister combater os ideários que fortalecem o machismo, o racismo, a homofobia, ou qualquer tipo de preconceito reacionário; que criminalizam os movimentos sociais; e que, absurdamente, fomentam o retorno de ditaduras no País. É urgente bater-se pela supremacia da democracia, diuturnamente, para que avancemos na formação de uma sociedade socialista, verdadeiramente democrática, humana e igualitária. E a escola não pode ficar ao largo disso.

No atual contexto de globalização hegemônica, de expansão da opressão neoliberal, deparamos, ainda, inúmeros desafios, como: a destruição acirrada do meio ambiente, o aumento da violência de feições diversas, a não universalização da educação escolar, o desemprego estrutural e a fome de um bilhão de pessoas no mundo, mesmo com todas as possibilidades tecnológicas de produção alimentícia.

37 Trata-se do Governo de Fernando Henrique Cardoso, presidente do Brasil pelo PSDB durante dois mandatos: de 1995 a 1998; e de 1999 a 2002.

Tais contradições e problemas confirmam o fato de estarmos vivendo ―na versão mais destrutiva do capitalismo.‖ (SANTOS, 2008, p. 19). Consoante István Mészáros, vivemos na fase histórica do imperialismo hegemônico global e, sob este quadro, não há ―terceira via38.‖ Segundo ele,

somente uma alternativa radical ao modo estabelecido de controle de reprodução do metabolismo social pode oferecer uma saída da crise estrutural do capital [...] se não houver futuro para um movimento radical de massa, como querem eles, também nao haverá futuro para a própria humanidade (MÉSZÁROS, 2003, p.108).

Ao analisar este panorama ao clarão dos pressupostos freireanos, Maria Luísa de Aguiar Amorim nos adverte para a noção de que

A derrocada do socialismo real não destrói o sonho do socialismo democrático, tampouco atesta a ―competência capitalista‖ nutrida pela miséria. O neoliberalismo não tem poder para acabar com a ideologia e determinar a inexistência das classes sociais. No limiar do novo século, a pedagogia do oprimido se reafirma na pedagogia da esperança; fica por ser resolvido o papel da subjetividade na história. (AMORIM, 2006, p.175, grifo nosso).

Destarte, ante tantas contradições e incertezas nessa (re) elaboração histórico-social, qual seria o papel da subjetividade? Consoante as premissas de Paulo Freire (1982), o ser humano é condicionado, entretanto, reconhece este condicionamento que advém das estruturas econômicas, políticas e ideológicas. Estando condicionado, o ser humano reflete sobre o seu condicionamento e pode transcendê-lo, daí por que não podemos afirmar, segundo Freire (1982), que haja determinismo na espécie humana. Assim, ―condicionados mas, ao mesmo tempo, conscientes do condicionamento, é que nos tornamos aptos a lutar pela liberdade como processo e não como ponto de chegada.‖ (FREIRE, 2006, p.94). Ou seja, ―podemos lutar para ser livres, precisamente porque sabemos que não somos livres! É por isso que podemos pensar na transformação.‖ (FREIRE, SHOR, 1986, p.25).

Em Educação e mudança, Freire já expressava que ―a primeira condição para que um ser possa assumir um ato comprometido está em ser capaz de agir e refletir.‖ (FREIRE, 1979). Para ele, somente o ser humano é capaz de se

38―Os que falam a respeito de uma ‗terceira via‘ como solução ao nosso dilema, e que afirmam não haver espaço para a revitalização de um movimento radical de massa, ou querem nos enganar cinicamente ao dar o nome de ‗terceira via‘ à aceitação submissa da ordem dominante, ou não entendem a gravidade da situação, acreditando num sonhado resultado positivo que vem sendo prometido por quase um século, mas que não dá sinais dese realizar[...]‖(MÉSZÁROS, 2003,p.108). No século vigente, ainda segundo Mészáros (2003), a humanidade terá de fazer uma escolha entre o socialismo e a barbárie.

comprometer, pois é um ser da práxis, da ação e da reflexão. Assim, ―se nos interessa analisar o compromisso do profissional com a sociedade, teremos que reconhecer que ele, antes de ser profissional, é homem. Deve ser comprometido por si mesmo.‖ (1979, p.19). O compromisso, nessa perspectiva, é, então próprio da existência humana, não obstante, o compromisso autêntico e verdadeiro está a favor da humanização dos homens e das mulheres. Vejamos:

O compromisso, próprio da existência humana, só existe no engajamento com a realidade, de cujas ―águas‖ os homens verdadeiramente comprometidos ficam ―molhados‖, ensopados. Somente assim o compromisso é verdadeiro. Ao experienciá-lo, num ato que necessariamente é corajoso, decidido e consciente, os homens já não se dizem neutros.[...]O verdadeiro compromisso é a solidariedade, e não a solidariedade com os que negam o compromisso solidário, mas com aqueles que, na situação concreta, se encontram convertidos em ―coisas.‖ Comprometer-se com a desumanização é assumi-la e, inexoravelmente, desumanizar-se também. (FREIRE, 1979, p.19).

Condicionado, mas tendo possibilidade de reconhecer o próprio condicionamento, o ser humano pode estar comprometido com a humanização ou com a desumanização. Esse reconhecimento está intimamente vinculado aos pressupostos da politicidade da educação. Em Política e Educação, Freire (2014, p.16-17) adverte-nos de que,

Se os seres humanos fossem puramente determinados e não seres “programados para aprender”, não haveria por que, na prática educativa, apelarmos para a capacidade crítica do educando. Não havia por que falar em Educação para a decisão, para a libertação. Mas, por outro lado, não havia também por que pensar nos educadores e nas educadoras como sujeitos. Não seriam sujeitos, nem educadores, nem educandos, como não posso considerar Jim e Andra, meu casal de cães pastores-alemães, sujeitos da prática em que adestram seus filhotes, nem a seus filhotes objetos daquela prática. Lhes faltam a decisão, a faculdade de, em face de modelos, romper com um, optar por outro.

A consciência, mesmo refletindo a sociedade na qual estamos inseridos, não se torna um mero reflexo desta39. Numa visão dialética, Freire refuta a ideia de que a nossa presença no mundo esteja pautada na neutralidade e advoga a

politicidade inerente ao nosso existir, à própria ação humana neste mundo. E

explicita-nos que

[...] o nosso mover-nos nele [no mundo] e na história vem envolvendo necessariamente sonhos por cuja realização nos batemos. Daí então, que a nossa presença no mundo, implicando escolha e decisão, não seja

39 ―Nem a consciência é a fazedora arbitrária do mundo, da objetividade, nem dele puro reflexo.‖ (FREIRE, 2014, p.16).

uma presença neutra. A capacidade de observar, de comparar, de avaliar para, decidindo, escolher, com o que, intervindo na vida da cidade, exercemos nossa cidadania, se erige então como uma competência fundamental. Se a minha não é uma presença neutra na história, devo assumir tão criticamente quanto possível sua politicidade. Se, na verdade, não estou no mundo para simplesmente a ele me adaptar, mas para transformá-lo; se não é possível mudá-lo sem um certo sonho ou projeto de mundo, devo usar toda possibilidade que tenha para não apenas falar de minha utopia, mas para participar de práticas com ela coerentes. (FREIRE, 2000, p. 32-33, grifo nosso).

Antonio Gramsci40, um dos clássicos pensadores que influenciou as reflexões de Freire, ao tratar da formação dos intelectuais, nos diz que todo homem, independentemente de sua atividade profissional,

desenvolve uma atividade intelectual qualquer, ou seja, é um ―filósofo‖, um artista, um homem de gosto, participa de uma concepção do mundo, possui uma linha consciente de conduta moral, contribui assim para manter ou para modificar uma concepção do mundo, isto é, para promover novas maneiras de pensar. (GRAMSCI, 1968, p.7-8/ grifo nosso). Desde os escritos pré-carcerários, Gramsci já desenvolvia, segundo Anita Schlesener, ―uma compreensão do conhecer como reconhecer-se como ser histórico.‖ Nas ideias gramscianas, ―o indivíduo é historicamente determinado, ao mesmo tempo em que é também determinante da história, a qual contribui a construir à medida que age e modifica o meio e se modifica também na sua individualidade.‖ (SCHLESENER, 2011, p.94).

Assim, reiteramos e corroboramos os pressupostos gramscianos e freireanos de que o ser humano no mundo, como indivíduo dialeticamente condicionado e determinante, não é neutro. Sua existência é histórica, política e comprometida. Ele é, portanto, um ser que pensa e age, um ser da práxis. Para exemplificar, basta lembrarmos que em todos os espaços que ocupamos - escolas, universidades, locais de trabalho, igrejas, sindicatos, movimentos sociais, entre outros - somos chamados a refletir, a optar e sinalizar a nossa visão de ser humano. Somos convidados, no decorrer de toda a nossa existência, a intervir a favor ou contra algo, a fortalecer ou rechaçar um determinado projeto de sociedade. Vivemos um ininterrupto conjunto de atos educativos, transformando o mundo e nos tranformando ao mesmo tempo. Estamos, como sempre nos lembra Freire (1979),

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Consoante Thiago Chagas Oliveira (2011, p.103), as categorias gramscianas são ―particularmente importantes para a Pedagogia porque em seu pensamento a Política assume validade pedagógica, isto é, à medida que a formação de uma hegemonia de novo tipo pressupõe a elevação intelectual, política e cultural das massas trabalhadoras, a questão educativa emerge como problema fulcral em sua estratégia revolucionária.‖

no mundo e com o mundo41. Em seu último livro publicado em vida, o clássico Pedagogia da Autonomia, ele assevera que

A raiz mais profunda da politicidade da educação se acha na educabilidade mesma do ser humano, que se funda na sua natureza inacabada e da qual se tornou consciente. Inacabado e consciente de seu inacabamento, histórico, necessariamente o ser humano se faria um ser ético, um ser de opção, de decisão [...]. (FREIRE, 1996, p.124-125, grifo nosso).

Em razão da necessária e contínua educabilidade do ser e da não neutralidade do homem diante do mundo, segue a questão: como a educação escolar formal, inserida nas razões capitalistas, pode atuar de uma maneira contra- hegemônica? Teria ela força para dar alguma contribuição ou apenas, na esteira de Louis Althusser42, serviria, unilateralmente, para fortalecê-la?

Paulo Freire (2014, p.16) advoga a ideia de que ―a importância do papel interferente da subjetividade na História coloca, de modo especial, a importância do papel da educação.‖ Assim, mesmo sem nutrir nenhum tipo de idealismo de que a educação escolar seria a alavanca, ou seja, a mola propulsora das transformações sociais, esse autor nos adverte de que ―compreender o nível em que se acha a luta de classes em uma dada sociedade é indispensável à demarcação dos espaços, dos conteúdos da educação, do historicamente possível, portanto, dos limites da prática político-educativa.‖ (FREIRE, 2014, p.55, grifo nosso). Assim, explicita- nos que

Se a educação não é a chave das transformações sociais, não é também

Belgede HACETTEPE ÜNİVERSİTESİ (sayfa 82-94)

Benzer Belgeler