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Um bom exemplo da conseqüência dessas reduções é a análise que faz David L. Schindler da visão de Giussani sobre o senso religioso e sua importância para uma leitura realista da cultura religiosa americana atual. Schindler coloca, como uma de suas premissas introdutórias, a hipótese de que os Estados Unidos experimentam uma situação peculiar: as pessoas vivem um ateísmo prático enquanto ao mesmo tempo professam algum tipo de fé ou superstição.58

Para corroborar sua tese, Schindler começa citando o filósofo escocês Alasdair MacIntyre, para quem a grande dificuldade do homem atual consiste em combinar o ateísmo prático da grande maioria das pessoas com a profissão de fé em algum tipo de teísmo ou superstição por essa mesma maioria. O credo do homem inglês seria: não existe Deus, porém é bom que se reze para Ele, de vez em quando. Segundo Schindler, o livro O

senso religioso, de Giussani, ajuda a perceber que este é também o credo americano.59 Após citar algumas pesquisas realizadas nos Estados Unidos, segundo as quais mais de 95 por cento dos americanos professam alguma crença religiosa, Shchindler observa que elas confirmam aquilo que MacIntyre diz, embora ele o faça de forma paradoxal.

Essa maneira paradoxal de colocar o problema é similar, segundo Schindler, àquela utilizada por Will Herberg em seu Protestant, Catholic, Jew, de meados dos anos 50. Herberg afirma, nesse livro, que a religião e o secularismo americanos são os dois lados de uma mesma moeda. Juntos convivem a generosidade moral e a sinceridade intencional, próprias da religião americana e estruturas inconscientes advindas do pós-Iluminismo.

Confirme Schindler, em uma contextualização mais abrangente da cultura contemporânea, teria sido o mesmo o que escreveu Nietzsche, ao afirmar que Deus estava

58 Cf. David L. SCHINDLER, The religious sense and american culture. In: Elisa BUZZI, A generative

thought, p. 84-91.

morto, ainda que percebesse uma profissão de fé bastante difundida e igrejas relativamente cheias de fiéis.60

Citando outro autor, o teólogo Michael Buckley, Schindler observa que a atual “morte de Deus” não significa apenas, como em Nietzsche, que somente a prática da religião está insatisfatória, enquanto a idéia mesma de Deus continua intacta. Estaríamos vivendo agora um período em que a própria idéia de Deus não é mais levada em consideração. Ou seja, o deísmo praticado pelos americanos é, de forma peculiar, teoricamente ateu, ainda que inconscientemente.61

Schindler se utiliza ainda, em suporte de sua tese, de um trabalho de James Tunstead Burtchaell sobre a história das escolas de nível superior ligadas a confissões cristãs. Nesse trabalho é descrita a gradual transferência de identidade das instituições ligadas a alguma igreja cristã para padrões seculares de conhecimento. A partir de um vácuo deixado pela degradação de um certo pietismo instável, um indiferentismo racionalista tomou conta da situação, propondo uma vida mais “pacífica” através da recusa em discutir qualquer coisa além daquilo que pode ser resolvido consensualmente por meio da evidência empírica, e se armando de um certo tipo de “deísmo”.

O cerne da argumentação de Burtchaell, segundo Schindler, é que uma compreensão do cristianismo que separa o conhecimento divino do humano leva a uma disjunção dualista entre as esferas da piedade e do conhecimento, que abre caminho para uma segura secularização redutora do conhecimento. O pietismo se reverte, inevitavelmente, em racionalismo.

Para Schindler, o ponto principal é percebermos que é exatamente esse dualismo entre conhecimento humano e divino o fator que esclarece adequadamente a coincidência entre teísmo e ateísmo na América. Usando os termos de Giussani, Schindler afirma que a redução subjetivista-sentimentalista-pietista do cristianismo facilita a passagem para um naturalismo e racionalismo que, por sua vez, termina por se constituir no conteúdo mesmo de um ateísmo “construído” ou artificial.

60 Cf. David L. SCHINDLER, The religious sense and american culture. In: Elisa BUZZI, A generative

thought, p. 84-85.

David Schindler define a religião americana como sendo, então, essencialmente positivista. Ela possui uma piedade que carrega uma marginalização de Deus da ordem da inteligência. Desenvolveu-se uma espécie de religião em que a relação com Deus não passa pela mente (fideísmo, pietismo) e, em contrapartida, uma mente que não deixa espaço para um relacionamento real com Deus (ateísmo, normalmente implícito).62

Toda essa descrição do que Schindler considera como a situação religiosa atual nos Estados Unidos é feita para que, no final, seja realçada a importância do relato do senso religioso em Giussani. Ele chega a sugerir que qualquer discussão sobre o assunto na América terá de passar por um envolvimento com esse relato.

É retomada, então, a insistência com que Giussani afirma a natureza “totalizante” do senso religioso, seu traço mais profundo. O senso religioso é totalizante porque

... a relação das criaturas com Deus, que é constitutiva do ser das criaturas, afeta todas as coisas em todos os tempos e a partir da profundidade daquilo que são. Deus, em outras palavras, não é relevante apenas nos discretos momentos quando, digamos, ele empenha nossa vontade ou nossos sentimentos (pietismo e voluntarismo); ao contrário, ele sempre afeta o significado de tudo, de cima a baixo, retirando qualquer concessão da ordem inteligente no cosmos ou na cultura ao espírito pelagiano e nominalista do racionalismo.63

Com o termo pelagiano, Schindler quer enfatizar aquela pretensão à neutralidade, característica do que comentamos acima. Como se sabe, a heresia pelagiana remonta aos tempos de Santo Agostinho e afirmava – contrariamente à doutrina católica – que o pecado original se restringia a Adão. Cada homem nasceria “neutro”, ou isento do pecado original e, assim, com total liberdade para escolher entre pecar ou não pecar.

A natureza totalizante do infinito, na forma como é tratada por Luigi Giussani, nos ajudaria, então, a perceber o positivismo religioso que permeia a cultura americana, e evidenciar o seu ateísmo implícito, de acordo com Schindler. Afinal, como afirma Giussani, se Deus não afeta tudo todo o tempo não é Deus, no fim das contas.64

62 Cf. David L. SCHINDLER, The religious sense and american culture. In: Elisa BUZZI, A generative

thought, p. 90-91.

63 Ibid., p. 91-92.

64 “Um Deus assim não só é inútil e prejudicial como também não é Deus”. Cf. Luigi GIUSSANI, O senso de

Na percepção desse ateísmo implícito na religiosidade positivista americana, Schindler também adverte as raízes de uma profunda crise antropológica. Também aqui ele se utiliza da ausência do elemento totalizante de um senso religioso autêntico e operante para afirmar que, sem esse elemento, as criaturas perdem o seu centro de integração e tornam-se indivíduos fragmentados e “compartimentados”, diríamos, de acordo com sua atividade ou utilidade sócio-econômica.

Para Schindler, enfim, o senso religioso, na forma como este é proposto na obra de Luigi Giussani, ajuda a libertar a completude do humano em sua integridade através, principalmente, de três aspectos: a) em primeiro lugar, através de uma definição de razão e liberdade em seu movimento rumo à realidade na totalidade de seus fatores; b) na abertura estrutural e não-neutralidade do homem com respeito ao infinito; e c) em uma nova integração entre subjetividade e objetividade.

No primeiro aspecto, Schindler recorda que, para Giussani, a razão está aberta, em seu âmago, ao mistério. Essa visão da razão amplia consideravelmente aquela noção empírica reducionista da razão que prevalece em boa parte da cultura contemporânea. Ao mesmo tempo, Giussani coloca a liberdade em uma posição anterior à mera capacidade de escolher isso ou aquilo, ou seja, como uma capacidade para o infinito, para Deus.

Isso nos leva, como conseqüência direta, para o segundo aspecto: a inter-relação entre a razão e a liberdade é sempre dramática, portanto jamais neutra. Tal acontece porque elas sempre implicam uma relação engajada com Deus (seja ela positiva ou negativa). Dessa forma, a paixão é recolocada no cerne da vida humana, não como uma categoria moral, mas como categoria ontológica,65 uma vez que a capacidade de infinito vai ao fundo do ser de cada indivíduo e compreende sua razão e sua liberdade.

De acordo com Schindler, a proposta de Giussani ajuda a revelar o sentido verdadeiro da mentalidade consumista66 e empirista, amplamente difundida nos Estados Unidos – “brotos gêmeos do ramo positivista” –, como um “infinito deficiente”. Tanto o consumismo como o empirismo consistem, segundo Schindler, em uma interminável e sucessiva preocupação com entidades finitas. É uma preocupação interminável – e, por

65 Ver cap. 2, p. 98-107.

isso, “infinita” – com coisas finitas: um infinito baseado em coisas finitas, por isso deficiente.67

A proposta de Giussani surge como uma alternativa integradora ao colocar, como critério de juízo para todo e qualquer aspecto da vida, aquilo que ele chama de experiência elementar. Com isso, chegamos ao terceiro aspecto vislumbrado por Schindler: uma nova integração da subjetividade com a objetividade. Essa nova integração se dá no evento dinâmico do encontro entre sujeito e objeto: todo empenho com a realidade é um drama que

... sempre pressupõe a imanência da liberdade em cada abordagem razoável da realidade. Ao mesmo tempo, esse empenho sempre desvela, em seu âmago, a presença de um outro (e sempre, ao menos implicitamente, o Outro...) – uma presença melhor definida em termos estéticos.68

A abordagem de Giussani apresenta um desafio, segundo Schindler, a duas características dominantes da cultura pós-iluminista. Em primeiro lugar, substitui a idéia de que conhecimento é poder (que vem de Bacon, e também Descartes) com a idéia de que conhecimento é uma questão de afeição ou amor. Em segundo lugar, questiona o moralismo, que não consegue perceber que o engajamento com o outro não é uma manipulação deste efetuada por uma construção do eu, mas uma atração pela beleza do outro que me leva além de mim mesmo – para Giussani, a moral, como já afirmamos, está sempre incluída na estética.69

67 Cf. David L. SCHINDLER, The religious sense and the american culture. In: Elisa BUZZI, A generative

thought, p. 94.

68 Ibid., p. 95-96.

Benzer Belgeler