B- Temel Politikalar ve Öncelikler
III- FAALİYETLERE İLİŞKİN BİLGİ VE DEĞERLENDİRMELER
Embora se configure como um desafio à cultura hoje dominante, herdeira do Iluminismo, a visão giussânica apresentada sobre o senso religioso não é, nem pretende ser, uma crítica meramente condenatória à modernidade.70 Giussani não pretende negar, mas assegurar e aprofundar a subjetividade e a liberdade modernas, por isso é levado a rejeitar a leitura fragmentada que delas é feita em boa parte do pensamento moderno e contemporâneo.
Além de rejeitar essa leitura no processo, por ele detectado, de redução e esvaziamento das perguntas últimas, Giussani aponta seis atitudes não-razoáveis diante dessas questões. Essas atitudes, segundo o autor, “definem estatisticamente a postura, pelo menos prática, da maioria”.71
Segundo ele, se levarmos em conta as questões últimas que se encontram no âmago do ser humano e que o definem como tal, constituindo o seu senso religioso, uma entre elas parece englobar todas as outras: “Qual o sentido de tudo?” Qualquer tentativa de resposta a essa pergunta que tenha de deixar de lado algum aspecto da realidade constituirá, para Giussani, uma daquelas atitudes não-razoáveis que trataremos agora.
1. A primeira atitude não-razoável diz respeito a uma negação teórica da pergunta última, considerando-a como “sem sentido”. Nessa atitude, J. Francis Stafford observa um “alívio” do peso real das coisas significativas através de um certo tipo de liberdade eufórica.72 Quem toma esse tipo de atitude considera a pergunta última apenas uma questão formal. Giussani cita, em O senso religioso, um trecho emblemático do pensador americano John Dewey a esse respeito – e que pode ser diretamente relacionado à análise que David L. Schindler faz da religião nos Estados Unidos, comentada anteriormente:
70 Vide cap. 1, p. 56-57.
71 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 90. 72
Abandonar a busca da realidade e do valor absoluto e imutável pode parecer um sacrifício, mas essa renúncia é a condição para empenhar-se numa vocação mais vital. A procura de valores que possam ser assegurados e compartilhados por todos, porque ligados à vida social, é uma procura na qual a filosofia encontrará não rivais, mas auxiliares nos homens de boa vontade.73
2. A segunda atitude não-razoável diante da pergunta última, segundo Giussani, é um voluntarismo “auto-afirmativo”, nos moldes de Schopenhauer, em que a única energia que conta é aquela da vontade de agir. Na análise que Stafford faz dessas reduções apontadas por Giussani, muitas das pessoas que assumem essa posição após terem rompido com o cristianismo, buscam uma espécie de libertação nas religiões orientais, procurando o significado em uma fuga do eu, do mundo e de Deus a um só tempo.74
Para Giussani, uma vez que o instrumento de afirmação de si mesmo é a vontade, essa atitude pode ser tratada como uma afirmação voluntarista, que pode partir de um gosto pessoal pela práxis, de um sentimento utópico ou de um projeto social.75
3. A terceira atitude não-razoável diante da pergunta última Giussani chama de negação prática desta. Trata-se de uma condução da vida de modo tal que essa pergunta – ou qualquer daquelas questões últimas – jamais venha à tona. É algo que Giussani detecta, por exemplo, na geração beat e seus slogans que incentivavam a ir, não importando aonde. O importante seria apenas ir. Isto é, agir sempre e de forma tal que a inquietude motivadora da pergunta última não apareça ou, se aparecer, não se aprofunde.
Essa atitude pode ser também identificada, de acordo com Giussani, com o ideal estóico da ataraxia, da imperturbabilidade. Uma vez que não é possível responder a essas perguntas é necessário anestesiar-se diante de sua presença. Assim agindo, o homem atinge um equilíbrio racional e constrói uma firmeza impávida perante os acontecimentos da vida.76
Para Giussani esse é o máximo ideal a que chega uma concepção não-religiosa do homem, seja qual for a filosofia na qual ele se baseie. Segundo ele, é este o ideal de muitos
73 Apud, Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 92.
74 Cf. J. Francis STAFFORD,.The religious sense. In: Elisa BUZZI, A generative thought, p. 68. 75 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 92.
escritores do século XX, como o poeta russo Evtuschenko e o americano Ernest Hemingway.
No entanto, apesar de todo aspecto de nobreza que possa ter, o ideal da ataraxia é considerado por Giussani como ilusório e inadequado. Para ele, tal posição não teria consistência, além de estar à mercê do acaso.77
4. A quarta atitude não-razoável é descrita por Giussani como uma evasão estética ou sentimental. Essa atitude reflete, de modo especial, as características do Romantismo.78 Aqui, embora aceite as perguntas a pessoa não se empenha existencialmente com elas, contentando-se com a expressão dos sentimentos suscitados por elas. As necessidades últimas do homem tornam-se, nessa atitude, um mero espetáculo de beleza, apenas assumem uma forma estética.79
Para Giussani, “a seriedade existencial das perguntas humanas não pode sentir-se à vontade no esteticismo evanescente da sua reverberação”.80 Da mesma forma que nas atitudes anteriores, aqui também encontramos uma grave redução da real dimensão totalizante presente nas perguntas últimas, isto é, uma redução ao sentimento de sua expressão estética. O homem reconhece a presença inexorável dessa pergunta última, mas contenta-se com uma abordagem sentimental, em uma espécie de narcisismo esteticista que não leva a um empenho verdadeiramente existencial.
5. Temos, no que Giussani chama de negação desesperada, a quinta e, segundo ele, a mais dramática, séria e apaixonante atitude não-razoável diante da pergunta última. Isso acontece porque “aqui se joga, entre o sim e o não, a pura opção do homem”.81 Giussani
cita Adorno, quando este fala que “a verdade não é separável da obsessão de que das figuras da aparência venha à tona, sem aparência, a salvação”, e afirma: “Aquilo a que Adorno chama de ‘obsessão’ é a estrutura do homem, (...) o ‘coração’ ou experiência elementar: negá-la (...) é desumano”.82
77 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 98-100.
78 Cf. J. Francis STAFFORD, The religious sense. In: Elisa BUZZI, A generative thought, p. 68. 79 Cf. Ibid., p. 68; Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 103-104.
80 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 104. 81 Ibid., p. 106.
Apesar de, aqui, a negação se dar por uma opção provavelmente sugerida por alguma experiência dolorosa, ela tampouco abrange todos os fatores em jogo. Na verdade, segundo Giussani, é como se a pessoa se detivesse no limiar da verdadeira conclusão e ficasse prisioneiro de uma ferida constantemente aberta diante de uma impossível aspiração. Um bom exemplo disso, para ele, é o verso de Leopardi, “Mistério eterno / do nosso ser”, do poema Sobre o retrato de uma bela mulher esculpida em seu sepulcro.
De acordo com a abordagem de Giussani, essa negação pode assumir três diferentes enfoques. Além da aspiração impossível a que aludimos acima, pode-se optar pelo nada como essência e, ainda, ter em conta a realidade como ilusão, diante da possibilidade de que as coisas não tenham consistência em si mesmas.
6. A sexta e última postura não-razoável descrita por Giussani é a alienação do eu a uma positividade que nega uma verdade pessoal. Ou seja, o grande ideal da vida seria um empenho que visa um futuro hipoteticamente perfeito para as gerações posteriores.
A grande redução operada, aqui, segundo Giussani, é o esquecimento da dimensão pessoal do homem, do que ele chama “a originalidade irredutível de sua personalidade”.83 O autor se vale de Dostoievski para apoiar seu ponto de vista:
Preciso de uma compensação, senão me destruo. E não uma compensação no infinito, sabe-se lá onde e quando, mas aqui, na terra; quero vê-la com os meus olhos! Eu acreditei, e por isso também quero ver, e se então já estivesse morto, ressuscitem-me porque seria aviltante se tudo acontecesse sem mim. Não sofri para adubar com minhas culpas e meus sofrimentos uma harmonia futura em favor de sabe-se lá quem!84
Essa postura, em nome do progresso, isola e marginaliza o eu, pois não possui um sentido ou significado outro senão uma contribuição para alguma realização coletiva no futuro desconhecido. Dessa forma, reduz o desejo de realização plena que está no coração de todo indivíduo humano a um projeto de cujos resultados esse indivíduo não desfrutará.
83 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 111. 84 Apud, Ibid., p. 112.