Se a razão é parte intrínseca do homem, é fundamental tentarmos entendê-la melhor. Para Giussani, “razão é a capacidade de dar-se conta do real segundo a totalidade de seus fatores”.49 A natureza humana é dotada por esse instrumento próprio que lhe dá a capacidade de dar-se conta, isto é, de contatar e tornar possível conhecer todos os fatores componentes da realidade.
47 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 45.
48 Geralmente o conceito de razão é confundido com razão instrumental que restringe o âmbito de sua
atividade ao campo matemático-instrumental, destinado a descobrir as leis que regem a natureza e, dessa forma, permitir ao homem criar e descobrir os meios (instrumentos) para dominá-la ou manipulá-la de acordo com seus objetivos específicos.
Quando fala em totalidade de fatores da realidade Giussani chama a atenção para a capacidade, inerente à razão humana, de explorar todo e qualquer objeto com que se depara de forma não fechada ou exclusivista, ou com a pretensão de esgotá-los. Refere-se, na verdade, a um tender a buscar sempre mais a compreensão do significado, do sentido último desses objetos.
Por sua vez, o autor entende razoabilidade como um dos fatores componentes da experiência elementar, daquele núcleo de exigências e evidências estruturais do homem, e representa “um modo de agir que exprima e realize a razão – essa capacidade de tomar consciência da realidade”.50 A razoabilidade diz respeito à experiência comum nas relações cotidianas da vida, “coincide com a atuação do valor da razão ao agir”.51 Ou seja, é a capacidade de avaliar se o nosso agir ou o nosso comportamento são razoáveis ou não diante de uma determinada circunstância, se nossas ações estão de acordo com as exigências da razão.
Uma melhor compreensão do que acima foi dito sobre razoabilidade se dará na verificação do significado da palavra razoável. Isso nos permitirá, de início, perceber sua relação direta com a nossa atitude frente ao cotidiano da vida ou, seria o mesmo dizer, do nosso comportamento diante do objeto de interesse que queremos conhecer.
Poderíamos, então, fazer-nos a pergunta: como saber se uma atitude é razoável ou não? Igualmente, como foi descrito na primeira premissa, identificaremos melhor suas características se olharmos para a nossa própria experiência, já que a razoabilidade é parte integrante do fenômeno humano.
A experiência acontece nos afazeres diários. É nesse contato significativo, onde o específico do homem se manifesta, que a pessoa se percebe compreendida e, também, superada por suas implicações. Esse contato possibilita conhecer o fenômeno humano em sua raiz concreta ao identificar sua “densidade ontológica em uma ‘intuição imediata’”.52
50 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 31. 51 Ibid., p. 31.
Nesse contexto, as diversas circunstâncias da vida, seus encontros e acontecimentos são conteúdos de experiência. Há uma passagem de João Paulo II que diz:
Não é possível compreender o homem considerando-o unilateralmente a partir do setor da economia, nem é possível defini-lo simplesmente tomando como base seu pertencer a uma classe social. O homem se compreende de maneira mais exaustiva se é visto (...) através das (...) atitudes que assume ante os acontecimentos fundamentais da existência, como são nascer, amor, trabalhar, morrer.53
È através das atitudes que assumimos que se expressam os fatores constitutivos do humano e é em um olhar atento a essas mesmas atitudes que percebemos se o nosso agir é ou não razoável.
Se em nossas relações cotidianas um amigo, fora da época de carnaval, aparecesse vestido como um cavaleiro medieval e justificasse sua atitude dizendo seriamente que achava oportuno usar uma armadura para se precaver de possíveis agressões, sua atitude não seria considerada razoável, pois não teria razão de ser.54 Ou se um palestrante, diante do auditório, sentisse a necessidade de usar uma aparelhagem de som equivalente à usada no Maracanã, e se justificasse alegando rouquidão, sua atitude também não seria razoável, pois, apesar de haver uma razão para usar a aparelhagem, o motivo seria inadequado à circunstância.
Portanto, para Giussani, é através da experiência, nas atitudes assumidas frente às várias circunstâncias da vida, que “o ‘razoável’ mostra-se a nós enquanto tal, na medida que a postura do homem se manifesta com razões adequadas”,55 ou seja, com motivos adequados às circunstâncias.
Em contrapartida, os exemplos acima nos lembram que muitas vezes o agir humano, a nossa atuação ordinária em uma situação determinada, procede sem razões justificáveis ou de forma inadequada às circunstâncias, isto é, com uma postura não-razoável.
Valeria a pena, aqui, uma reflexão sobre formas não-razoáveis forjadas por vários tipos de pensamentos proferidos nos últimos séculos sobre o que vem a ser o humano. A esse respeito encontramos no mexicano Ramón Díaz Olguín uma síntese significativa:
53 Apud, Ramón Díaz OLGUÍN, Reflexiones Antropológicas, p. 25-26. 54 Cf. Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 32.
Se olhamos rapidamente as concepções mais influentes que sobre o “específico” do homem se tem forjado no âmbito das distintas ciências no lapso de tempo que compreende os dois últimos séculos – isto é, a que considera o homem mais como um produto da evolução da matéria (positivismo) ou a que o vê, ao invés, como uma manifestação de um espírito absoluto (idealismo); a que o concebe como um fragmento de uma totalidade social mais englobante (marxismo e nacional-socialismo) ou a que faz parte das leis deterministas da vida psíquica e biológica (biologismo e psicoanálises); e, finalmente, a que joga o homem a viver uma existência carente de sentido a partir de uma liberdade apoiada no vazio (existencialismo e niilismo) –, poderemos apreciar a infinidade de contradições existentes acerca de um ser que, sem embargo, não se encontra no distante do espaço interplanetário ou nas profundidades abismais do oceano, senão que sensivelmente “está ai”, “diante” de nós, “frente a” nossa visão espiritual, como objeto de experiência, porque se trata de nós mesmos. Sem embargo, para as ciências – de que índole seja – o homem se apresenta sempre como algo “problemático”.56
Não é o caso de invalidarmos essas correntes de pensamentos julgando-as falsas, mas sim evidenciar, com o autor dessa síntese, as contradições existentes entre essas concepções que não levam em conta a totalidade dos fatores constitutivos do humano. “Se a razão é dar-se conta da realidade, tal relação cognitiva com o real deve desenvolver-se de modo razoável. E é razoável quando os passos para essa relação cognitiva são determinados por motivos adequados”.57
Isto é, se o objeto determina o método, como fala Giussani na primeira premissa, aqui encontramos o seu correspondente em relação à natureza do sujeito que determina a melhor maneira de empregar tal método. Assim, reconhecer o homem definido por quaisquer dessas correntes, em última instância, significaria reduzir a pessoa comum a imagens referentes a aspectos particulares.
Podemos dizer que essas posturas não são razoáveis, pois não reproduzem o melhor método para conhecer o homem que está ai, diante de nós, que somos nós mesmos. Ou seja, não existem motivos adequados para empregar um método que exalta um aspecto – de maneira exclusivista – em detrimento do todo.
56 Ramón Díaz OLGUÍN, Reflexiones Antropológicas, p. 15-16. 57
Segundo Giussani, é razoável afirmar que o ser do homem ultrapassa essas correntes de pensamentos. Conforme o autor, ele possui um coração que clama pelo infinito, é exigência de felicidade, de amor, de eternidade e essas correntes não correspondem a esse coração. Assim,
A mentalidade moderna reduz a razão a um conjunto de categorias nas quais a realidade é obrigada a entrar: aquilo que não entra nessas categorias é definido como irracional; pelo contrário, a razão é como um olho arregalado para a realidade, bebe a realidade com avidez, grava os seus nexos, as suas implicações, discorre sobre ela, corre dentro do real, de uma coisa à outra, conservando-as todas dentro da memória e tende a abraçar tudo. O homem enfrenta a realidade com a razão. A razão é o que nos define como homens. Por isso devemos ter paixão pela razoabilidade.58
A exigência própria da razão, assim como Giussani a concebe, nos revela que um conhecimento adequado do fenômeno humano se efetiva através da “totalidade dos fatores” que o constituem. Portanto, exaltar certos fatores e excluir outros tantos significa ter como resultado uma visão reduzida sobre o que vem a ser o homem. Toda concepção parcial diminui a potencialidade da razão e, conseqüentemente, afeta o método.
Como vimos, as modificações concernentes na estrutura do conhecimento levou-nos a uma postura de abstração diante da totalidade do real, onde poder e conhecimento tornaram-se sinônimos. Dessa forma, “o que importa não é aquela satisfação que, para os homens, se chama ‘verdade’, mas a ‘operation’, o procedimento eficaz”.59
Essa mentalidade efetivada pelo desenvolvimento de uma racionalidade cognitivo- instrumental acabou por penetrar outros âmbitos da realidade. Podemos dizer, que, como conseqüência, atualmente são consideradas racionais apenas as conclusões obtidas a partir do método matemático-experimental.
58 Luigi GIUSSANI, O senso religioso, p. 17.