II. KONUT TÜRÜ
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Outra característica de As crônicas de gelo e fogo que pode ser observada como aspecto da cultura da convergência é a sua serialização. A trama não foi, originalmente, escrita, para ser adaptada ao cinema ou à televisão, conforme já declarou seu autor. Porém, foi planejada para ser publicada em sete volumes (A guerra dos tronos, Fúria de reis, A tormenta
das espadas, O festim dos corvos, A dança dos dragões, Os ventos do inverno e Um sonho de primavera), sendo que cinco já foram lançados, tanto no Brasil como nos Estados Unidos, seu
local de origem, e em outros países. Os dois livros que finalizam a narrativa ainda estão em processo de escrita, sem previsão de publicação. “Minha série é muito grande, muito complexa. Um dos meus volumes, sozinho, é tão grande quanto os três do professor Tolkien70 juntos”, afirma Martin, no prefácio do livro Por dentro da série HBO Game of Thrones (COGMAN, 2013, p. 5).
É importante ressaltar que, além da obra original, os dois produtos selecionados para a análise nesta pesquisa também são apresentados de forma seriada. O produto originário principal é a série de TV Game of Thrones, produzida pela rede de televisão HBO, com a proposta de adaptar cada livro em uma temporada com dez capítulos de duração aproximada de 50 minutos, cada. Atualmente, seis temporadas já foram ao ar, sendo a sexta exibida mesmo sem a publicação do livro-base. Fundamentado na série de TV e licenciado por seus produtores, o jogo Game of Thrones: A Telltale Games Series também foi lançado em série: sua primeira temporada tem seis episódios, e uma segunda temporada já foi confirmada pela empresa produtora.
70 Aqui, George R. R. Martin se refere à saga O senhor dos anéis, publicada por J. R. R. Tolkien em três
volumes: A sociedade do anel, As duas torres e O retorno do rei. É importante ressaltar que a obra de Tolkien foi dividida em três porque ficou grande demais para ser publicada em um único volume e não por ter sido pensada em uma série de três. Hoje, livros volumosos já são impressos sem que haja a necessidade de divisão em mais volumes.
Narrativas divididas em capítulos, divulgadas por um período extenso, fazem sucesso desde a existência dos romances em folhetim do século XIX, surgidos com a criação de periódicos. A serialização de histórias aumentou o público leitor de jornais e levou à criação, posteriormente, dos seriais cinematográficos (ESQUENAZI, 2011, p. 9) e das séries televisivas, além de poder ser vista, também, na pintura moderna e até mesmo da música clássica (Ibidem, p. 27).
Jenkins et al. (2014) indicam que “o entretenimento serializado foi adotado para exigir um leitor comprometido e engajado, que pudesse acompanhar cada novo episódio e fazer links entre segmentos de informações dispersas pelo desdobramento da narrativa” (JENKINS et al., 2014, p. 173). A serialização abre espaço a um consumidor compromissado em longo prazo com uma trama, ávido por conhecer mais meandros da história contada. Para Esquenazi (2011), as narrativas ficcionais serializadas são constituídas com determinadas características – o autor também as chama de fórmulas –, que se repetem em cada uma das partes do conjunto. A quebra do rigor na repetição descaracteriza as produções seriadas, independente da sua natureza (ESQUENAZI, 2011, p. 27-28).
Segundo Jenkins (2011), a serialização implica que a história possa se desenrolar através do tempo, por meio da fragmentação e da dispersão dos temas. Ganchos são deixados ao longo das partes, sejam capítulos ou episódios, de forma a mexer com a curiosidade do público, fazendo, assim, com que ele volte à trama, acompanhando os capítulos. Na cultura da convergência, Jenkins et al. (2014) apontam que esse compromisso a longo prazo, firmado entre o público e o produto serializado, favorece a participação dos espectadores, por meio de debates, fóruns e redes de discussão, virtuais ou presenciais.
A forma de ficção seriada com mais destaque, atualmente, são as séries de televisão com temporadas bem delimitadas. Para Comparato (2000, p. 476), elas são um tipo de dramaturgia fechada, com personagens fixos. Possuem, ainda, número predeterminado de episódios por temporada, cada uma com duração média de três meses, em geral. Game of
Thrones, série televisiva baseada nos livros de As crônicas de gelo e fogo, encaixa-se nessa
perspectiva. Esquenazi (2011, p. 16) lembra que o espectador não espera para ver um capítulo específico, mas anseia por uma produção inteira. Segundo ele, uma característica fundamental das séries é sua regularidade.
[...] por um lado, pode ser pontualmente programada e inscrever-se na grelha de programas de forma simples semana após semana – adapta-se facilmente à ritualidade familiar; por outro, apresenta um programa cujas regularidades são
aparentes e explícitas: o telespectador reconhece-as facilmente e pode reencontrar-se nelas sem qualquer dificuldade (ESQUENAZI, 2011, p. 26).
Ainda de acordo com Esquenazi (2011, p. 113), uma série como Game of Thrones se encaixa na categoria de folhetim “puro” [grifo do autor], em que “a ação depende estritamente daquela que a precede e o suspense deixado no fim de cada episódio constitui o motivo principal do desejo do telespectador de continuar a ver a série” (ESQUINAZI, 2011, p. 113, grifo do autor). As outras duas características indicadas pelo autor são as folhetinescas com enigma e as marcadas por uma fatalidade.
Game of Thrones: A Telltale Game Series, outro produto derivado de As crônicas de gelo e fogo, também se insere na categoria de ficção seriada. O jogo71, baseado na série televisiva Game of Thrones, conta a história de uma família nobre, habitante do universo criado por George R. R. Martin, que participa dos acontecimentos desencadeados pela guerra dos reis de As crônicas de gelo e fogo. O game é estruturado em seis episódios, lançados ao longo de um ano, na modalidade stand alone72, em que um único jogador determina os rumos da história a cada partida. Suas escolhas, entre um cardápio de opções oferecidas em determinados momentos do game, produzem narrativas diferenciadas.
* * *
No próximo capítulo, abordamos as estratégias metodológicas utilizadas para a análise de A dança dos dragões e dos produtos originários selecionados.
71 Baseado nas informações do site do jogo. Disponível em: <https://www.telltalegames.com/gameofthrones/>.
Acesso em: 9 jan. 2016.
72
Nesta modalidade, apenas um jogador pode participar do jogo, não sendo possível que duas ou mais pessoas joguem, ao mesmo tempo, a mesma partida.
3 PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
“Lembre-se das histórias da Velha Ama, Bran. Lembre-se da maneira como ela as contava, do som da voz dela. Enquanto se lembrar, parte dela estará sempre viva com você.”
(Meera Reed – A Tormenta de Espadas)
O objetivo deste capítulo é explicitar os procedimentos metodológicos utilizados na análise de nossos objetos de pesquisa. Os produtos selecionados para o estudo têm características bem específicas. Temos um romance, com narrativa literária ficcional tradicional; uma temporada de série de televisão, com dez episódios de duração aproximada de 50 minutos cada; além de um jogo de videogame em modalidade stand alone. Para que a investigação seja fiel a cada um dos produtos, é necessário definir estratégias metodológicas que possibilitem observar as particularidades de cada peça estudada. Assim, são empregados três instrumentos metodológicos combinados.
A análise dos objetos está ancorada na Análise Estrutural da Narrativa, como delimitada por Tzetan Todorov (1972). Devido às especificidades do produto narrativo original, os personagens que apresentam ponto de vista no livro A dança dos dragões são a base da análise. A estrutura narrativa dos capítulos, com os personagens relacionados ao protagonista de cada parte e os acontecimentos narrados, norteia a verificação da atuação desses mesmos personagens em Game of Thrones – 5ª Temporada e em Game of Thrones – A
Telltale Games Series. Porém, os dois últimos produtos são observados, também, de acordo
com suas características específicas.
A quinta temporada da série de televisão Game of Thrones foi selecionada para esta pesquisa por ser a última produzida a partir de um livro-base já publicado. Além disso, é nessa parte da trama televisiva que alterações significativas no enredo puderam ser notadas pelo público, com personagens tomando rumos diferentes do ocorrido na obra original. Esses acontecimentos podem indicar que a trama passou a ser expandida, e não apenas adaptada, como podemos verificar nas temporadas anteriores. As características do produto precisam ser consideradas para a análise. É necessário, portanto, recorrer à Análise Fílmica, de acordo com Vanoye e Goliot-Lété (2012), para que os operadores de análise sejam determinados e a Análise Estrutural da Narrativa possa ser aplicada.
Já para Game of Thrones – A Telltale Games Series, é preciso observar como o algoritmo do jogo influencia a narrativa construída conforme as escolhas do jogador. Assim, a Análise de Jogos, com base em Manovich (2005), será realizada, seguida pela Análise Estrutural da Narrativa.
Na sequência, as estratégias metodológicas são mostradas em detalhes, bem como os operadores que norteiam a análise dos produtos selecionados.