II. KONUT TÜRÜ
1.2. Cinsiyet
Assim como o pertencimento a um gênero literário é importante para ligar uma obra às suas semelhantes, conectando-a com histórias semelhantes, a períodos históricos e,
ainda, a formas narrativas, também é para que um texto literário seja considerado bem adaptado, levando-se em conta a fidelidade discutida por Aumont e Marie (2003), André Bazin (1991) e Syd Field (2001).
McKee (2006) chama a atenção para a rigidez do gênero de fantasia, em que as regras e o funcionamento do mundo estabelecido pelo autor da história, uma “‘realidade’ caprichosa” (2006, p. 63) devem ser obedecidas sem possibilidade de falhas ou soluções arbitrárias, não conhecidas previamente pelo leitor.
Cada mundo ficcional cria uma cosmologia única e faz suas próprias “regras” de como e por que as coisas acontecem dentro dele. Não importa quão realista ou bizarro o ambiente seja, uma vez que seus princípios causais sejam estabelecidos, eles não podem mudar. Na verdade, de todos os gêneros, Fantasia é o mais rígido e estruturalmente convencional (MCKEE, 2006, p. 78).
Os apontamentos de McKee (2006) se aproximam da definição de literatura maravilhosa de Todorov (2014) e Propp (1984), tanto na rigidez do gênero quanto na questão da coerência interna do ambiente criado pelo autor.
Além de manifestar características do gênero maravilhoso ou de fantasia, a obra de George R. R. Martin tem como aspecto importante a ambientação semelhante ao período feudal da história humana. Em entrevista à revista Enterteinment Week, publicada em 3 de junho de 201533, Martin diz: “Os livros refletem uma sociedade patriarcal baseada na Idade Média34”. Assim, a adaptação de As crônicas de gelo e fogo para uma série televisiva e para outros produtos de entretenimento deve levar em conta as convenções de gênero e o costume de demais adaptações que levam o período medieval para produtos audiovisuais. Portanto, a audiência consegue identificar o que Elliott (2011) chama de “sinais do passado35” (ELLIOTT, 2011, p. 177). O autor afirma que há convenções acerca da construção de um mundo medieval para o cinema, mas que elas não significam fórmulas rígidas ou padrões estabelecidos, ainda que deem às produções uma forma facilmente reconhecível. Um exemplo dado por Elliott (2011, p. 181) são os filmes de cavalaria que, por décadas, estabeleceram
33 HIBBERD, James. George R.R. Martin explains why there's violence against women on 'Game of Thrones'.
Enterteinment Week, 3 jun. 2015. Disponível em: <http://ew.com/article/2015/06/03/george-rr-martin-thrones- violence-women/>. Acesso em: 27 jan. 2017.
34
No original: “The books reflect a patriarchal society based on the Middle Ages” (Tradução nossa).
informações seguidas pelos diretores até hoje, visto que a plateia de cinema já se formou tendo se acostumado a elas.
Como os elementos que chama de “medievalidade”, Elliot apresenta: “[...] o rei adornado com coroa, por exemplo, um cavaleiro em armadura, um monge corpulento com tonsura ou um camponês vestido com roupas de saco [...]”36 (ELLIOT, 2011, p. 182). Além disso, ele evoca características de direção de produção, que retratam desolação, isolamento, grandes misérias em oposição a grandes luxos, florestas e relações inocentes e harmônicas com a natureza, os castelos, as batalhas e a presença constante da religião (Ibidem, p. 182- 183).
Assim, além dos elementos mágicos e fantásticos de As crônicas de gelo e fogo, os demais produtos analisados nesta pesquisa devem carregar também as características de ambientação que fazem com que o espectador/jogador acredite estar vendo algo em que a atmosfera medieval prevaleça.
* * *
Para a análise dos produtos originários da narrativa de A dança dos dragões, quinto livro da saga As crônicas de gelo e fogo, partiremos dos personagens com ponto de vista (que possuem capítulos próprios) no livro e de suas ações e relações, de acordo com os procedimentos metodológicos adotados nesta pesquisa, explicitados no terceiro capítulo.
A seguir, apresentamos a discussão sobre o ambiente da convergência de mídias, que possibilitou a ascensão da narrativa transmídia como forma de narrar contemporânea e ampliou o alcance de produtos de entretenimento para diferentes grupos consumidores.
36
No original: “[...] the king adorned with crow, for exemplo, a knight in armor, a tonsured priest, corpulent monk or a peasant in sack-cloth [...]” (Tradução nossa).
2 NARRATIVA TRANSMÍDIA
“No entanto, Castelo Negro não é Harrenhal. A Patrulha da Noite não é o conselho real. Há uma ferramenta para cada tarefa, e uma tarefa para cada ferramenta.”
(Twyn Lannister - A Tormenta de Espadas)
O objetivo deste capítulo é tratar da narrativa transmídia como uma técnica narrativa que teve seu uso ampliado em virtude da emergência de um cenário comunicacional no qual, em um processo semelhante ao que acontece no mundo biológico, as mídias começam a convergir, e os atores tradicionais do campo midiático podem desempenhar novas funções ou alterar a forma como as exerciam anteriormente. Assim, pela metáfora da ecologia de mídias, é possível compreender o advento de um ambiente de mídias diferente, em que os meios tradicionais passam a conviver com novas plataformas, e todos precisam se adaptar ao novo cenário para que sua sobrevivência seja garantida. Quando a convergência de mídias entra em cena, a narrativa transmídia passa a ter uma importância maior no cenário da comunicação. Assim, para verificar se a trama de A dança dos dragões é adaptada para produtos originários, em suportes diferenciados, ou se são utilizados elementos que expandem o universo ficcional, é preciso que o cenário da convergência seja apreciado.
Com essa perspectiva, observam-se as características da convergência de mídias, sob a abordagem da ecologia de mídias, e as principais mudanças trazidas por ela à cena da comunicação, com destaque para as transmutações impostas à indústria do entretenimento. A perspectiva ecológica entende que o surgimento de novas tecnologias da comunicação possibilitou a ampliação da participação do público, algo que se reflete na construção de produtos de entretenimento.
Ainda que, em um primeiro momento, a discussão sobre a ecologia de mídias e sobre a convergência aparente não ter conexão com nosso objeto de estudos, é importante ressaltar que a coevolução das mídias e a convergência aproxima a narrativa transmídia da discussão sobre adaptação de textos literários para suportes audiovisuais. Portanto, a vinculação do objeto desta pesquisa tanto à ecologia de mídias quanto à convergência se dá, especial e diretamente, por meio do processo de evolução que possibilita a ampliação o uso da narrativa transmídia no entretenimento.
Dessa forma, as histórias que, antes, eram contadas em apenas um suporte passam a ser levadas a outros, com o objetivo de ampliar o público e a experiência do espectador/leitor. Além de produzir conteúdo adicional às tramas já conhecidas e admiradas pelo público, na cultura da convergência, a distribuição também é facilitada. A audiência pode se encontrar, mesmo que virtualmente, para debater, criar e propagar novas histórias sobre um mesmo universo narrativo.
Para Jenkins (2009), os universos narrativos são a principal característica da narrativa transmídia, sendo importantes também para as adaptações a novas linguagens midiáticas. Com eles, um autor é capaz de expandir sua história e explorar novos formatos para o desenvolvimento de tramas e/ou de personagens. Tão relevante para as narrativas da era da convergência quanto os universos narrativos é a serialidade de produtos do entretenimento. Os três produtos do mundo de As crônicas de gelo e fogo que analisamos nesta pesquisa são seriados. Tanto os universos narrativos como a ficção seriada servem de cenário para a ampliação das narrativas de entretenimento e para a fidelização do público.