A ocorrência do elevado crescimento populacional em Fortaleza na década de 1930 (causado não pelo aumento da taxa de natalidade mas pelas migrações) foi um dos elementos decisivo na perda da função residencial. Segundo Santiago (2002), esse acontecimento se justificaria pela fascinação e a atração do migrante por Fortaleza, estando intrinsecamente relacionado à estrutura agrária (a seca, concentração de terras, etc.) ao déficit de confiança nas instituições (civis, eclesiásticas, estatais) e aos acontecimentos da ordem do desejo (a fascinação das camadas pobres pelo exotismo e pelo “soberbo” da cultura urbana, e a cidade como espaço possível da concretização das necessidades sociais e dos desejos de reconhecimento individual e coletivo).
A seca, a descrença da ação do poder público em solucionar os problemas do campo; a sedução que a Cidade impõe sobre os migrantes como “modelo hegemônico de bem-estar e estar bem” no mundo e a possibilidade de ascensão social provocou a migração para Fortaleza.
Essa população vinha para a Capital atraída pela concentração de atividades industriais, comerciais, sociais e culturais, mas, ao contrário do que pensavam, Fortaleza não tinha condições de atender a demanda dessa população crescente.
Os novos habitantes eram admitidos aos trabalhos de baixa remuneração ou quando não eram desempregados ou subempregados. Vivendo nesta situação, ficavam impossibilitados de usufruir de uma moradia dotada de infra-estrutura e conforto. A solução encontrada foi instalarem-se em locais desocupados, desvalorizados ou mesmo precários, como terrenos baldios, proximidade da rede ferroviária, terrenos da Marinha (leia-se litoral)26.
Apropriando-se desses terrenos, construíam suas casas precárias e desalinhadas, dando origem às favelas, localizadas principalmente nas áreas litorâneas.
26 Segundo a Lei 9.636, de 15 de maio de 1998, os terrenos de Marinha se estendem da posição da LINHA DA PREAMAR-MÈDIA, de 1831, até a distância de 33 metros medidos horizontalmente para a parte da terra. Eles são considerados bens imóveis da União. Situam-se no continente, na costa marítima, nas margens dos rios e lagoas, bem como contornando ilhas, aonde se faça sentir a influência das marés. Os acrescidos de Marinha são aqueles formados, de modo natural ou artificialmente, para o lado do mar ou dos rios e lagoas, em seguimentos aos terrenos de marinha (NEUHAUS, 2004, p. 33).
Naquele período, esses retirantes instalavam-se no aglomerado populacional denominado Moura Brasil27, quando apareceu a favela Grande Pirambu, ambos localizados no setor oeste.
Para Linhares (1999), este crescimento, como vinha acontecendo até então, acentuou-se em direção ao oeste. Tanto as elites foram para Jacarecanga, como os migrantes de baixa renda estavam já se instalando na periferia oeste.
Certamente a presença desses aglomerados como vizinhos não agradava à classe média e à elite, ainda instalada no centro e em suas proximidades. Tal fato promoveu a saída da classe média para o Benfica e a praia de Iracema. Após alguns anos, a elite dá origem ao bairro da Aldeota (1930), fazendo com que o centro “perca” sua função residencial, ou seja, não se pode negar que esta área ainda tem residências, mas o deslocamento para outras áreas foi tão significativo que aponto como perda.
Silva (1992) anota que a escolha da elite em morar em outros bairros não foi somente pela presença de operários e migrantes, mas também está relacionada as vias de acesso introduzidas por Adolfo Herbster na planta de Fortaleza. Este projeto promoveu o direcionamento e a expansão da Cidade, pois à proporção que aumentava a população, surgiam novos bairros ao longo das vias, principalmente da ferrovia.
Também outro elemento decisivo na perda da função residencial do centro foi quando a população da classe média elegeu o bairro Benfica e a praia de Iracema como áreas residenciais. Assim percebeu-se que,
(...) mais ao sul, na estrada de Arroches em zona arborizada, onde se localizavam as fontes de água que abastecem Fortaleza até a seca 1877/79, começa a se desenhar, no final do século XIX, o bairro
27 Antes do “boom” das favelas, nos anos de 1930, os subúrbios de Alto Alegre, de Barro Vermelho e, sobretudo do Arraial Moura Brasil eram considerados pela imprensa e pela polícia os mais perigosos da cidade. A partir dos anos de 1930, os pescadores que ali viviam começam a migrar em direção ao Pirambu, conhecido na época por Arpoadores, núcleo de pescadores. A acuidade controladora não bastou e o boom das favelas se materializou. Outra cronologia urbana emerge juntamente com a favela do Cercado Zé Padre, que nasce em 1930, e a do Mucuripe, em 1939. A partir dos anos de 1940, surgem as favelas do Morro do Ouro, que data de 1940, da Varjota, formada em 1945; a do Meireles e do Papoquinho são de 1950; a do Campo do América é de 1952; e, enfim, a do Lagamar surge em 1953. Ao longo desse período de favelização, aqueles núcleos de pobres iriam participar de uma imensa luta pelo reconhecimento, pela integração espacial e pela inserção social de seus moradores (SANTIAGO, 2002, p. 127).
do Benfica, com sobrados, bangalôs, chácaras e casas mais recuadas. O bairro foi dotado de infra-estrutura pelo prefeito Álvaro Weyne (1930-35). Nos anos trinta, era o bairro mais chique de Fortaleza, atraindo a população por sua paisagem, bosques, praça arborizada (Praça da Gentilândia), clubes, campo do Prado (hoje CEFET) e missa na igreja dos Remédios (MOTA, 2000 apud COSTA 2003b).
Não só o bairro Benfica se destaca neste período, mas também a praia de Iracema, não só pela valorização do ponto de vista residencial, mas também recreativo, ou seja, do lazer, momento em que a sociedade fortalezense, timidamente, passa a olhar o litoral.
O porto exerceu papel importante nesse processo de valorização do litoral de Fortaleza como área de lazer, por atrair a elite da Cidade, movida pela curiosidade sobre as inovações européias. Nessas visitas, as novas práticas marítimas da Europa, incluindo os banhos de mar, influenciaram a sociedade de Fortaleza, como aponta Dantas (2002):
(...) as relações derivadas das práticas terapêuticas, de recreação e de lazer, resultam diretamente de comunicação tornada possível por meio do porto. Entre as práticas vizinhas das práticas terapêuticas ocidentais, podemos incluir os banhos de mar e os usos associados ao tratamento de tuberculose (p. 14).
O escritor cearense Gustavo Barroso, em seu livro Mississipi, de 1996, escreveu sobre a realização dessas práticas marítimas:
O povo de Fortaleza costumava dizer que o Ceará Gás Company fizera contrato com a lua. A seu modo tinha razão. Porque nas noites de luar não se acendiam os combustores da iluminação. O céu nordestino quase sempre espanado de nuvens permitia isso. Ficava, então, a cidade envolta na luz prateada e misteriosa que os poetas contam e os namorados adoram. E as famílias aproveitavam a pouca claridade das ruas e a muita claridade das praias para tomarem banho de mar.
Meninas, môços e senhoras acompanhadas de mucamas e moleques, guardadas pelos homens da casa, de cabelos caídos aos ombros, saia e blusa, arrastando chinelas, desciam pelas ladeiras do Gasômetro, da rua de Baixo, de Boris e da Conceição para as praias
da Alfândega e do Pocinho. Na primeira, sobre o costão arenoso, alinhava-se uma dezena de barraquinha de madeira, construídas por gente de recursos, nas quais se operava a mudança de roupas. Quem não possuía um desses refúgios, despia-se empanada de lençóis estendido pelos criados. A ocasião era propicia para certos namoros ou breves recados dos coiós, mas com os maiores cuidados, porque, pais e irmãos vigiavam ciosamente o mulherio. Os costumes da época obrigavam os homens a se banharem separados das mulheres, que usavam sungas de baeta grossa, geralmente vermelha, as mangas chegando aos punhos, as calças descendo até os tornozelos e a gola afogando o pescoço. Não se via afora a cabeça, as mãos e os pés, um tico de carne (p. 159).
Tais práticas promoveram a ocupação da praia de Iracema, antes ocupada por pescadores. Rocha Júnior (1984) informa que esta área, até então local de ”fogo de caipira, pinga e facada de pescador”, adquire novas funções urbanas. A praia, constituída por jangadeiros com suas casas de palhas, com suas areias muito limpas e repletas de coqueiros, desperta a cobiça dos veranistas mais abastados. Um dos primeiros foi o coronel Porto, comerciante vindo de Recife, que em 1926 inaugura seu palacete eclético, onde hoje funciona o restaurante Estoril. Em torno da casa dos Portos, novos pequenos palacetes se levantaram, formando aos poucos um casario de feição eclética, onde se destacam os telhados de telha francesa.
Assim, uma parcela da população transfere-se do centro para outras áreas em busca de novos espaços de moradia.
E a instalação das primeiras indústrias28 no setor oeste de Fortaleza também contribuiu para a perda da função residencial do centro. Para Souza (1978), a maior concentração de indústrias verifica-se ao oeste, tornando-se como preferência o centro da Cidade, ao longo do eixo viário da avenida Francisco Sá, começando no bairro de Jacarecanga e se estendendo até a Barra do Ceará.
A ocupação dessa área pelo setor secundário pode ser explicada pela presença da ferrovia, que não só facilitava o recebimento das matérias-primas e escoamento da produção bem como desvalorizava os terrenos por onde passavam os trilhos de RVC...
28 A preferência pela parte ocidental da Cidade, já se faz sentir a partir da implantação das primeiras indústrias. Em 1926, instalam-se no bairro Jacarecanga, nas indústrias têxtil e de cigarros (SOUZA, 1978).
A presença das indústrias e da população de baixa renda no setor oeste da Cidade fez com que a elite abandonasse o bairro Jacarecanga, elegendo a Aldeota como nova área residencial, como demonstra Silva (1992):
(...) a concentração da população operária, a transformação dessa área na mais promissora concentração industrial do Estado, e o posterior surgimento de favelas foram os maiores motivos29 para que
a burguesia que se instalava com suas confortáveis e belas residências no bairro de Jacarecanga, em sua maioria e, menos escola no bairro do Benfica, no início da expansão da cidade, elegesse outro espaço onde pudesse se instalar, distante de indústrias e da presença incômoda de operários. Assim surge a Aldeota, que tem suas origens em forma de bairro organizado no mesmo tempo em que se registra o surgimento das favelas de Fortaleza, que se instalam nas proximidades do Centro, naquelas áreas não valorizadas pelos segmentos ricos da população para a fixação de suas residências (p. 50).
Este bairro surgiu por volta de 1930, mas a ocupação mais intensa ocorreu nos anos 1940, delimitado ao norte pelas ruas Pereira Filgueiras e av. Dom Luís; ao sul pela av. Antônio Sales, ao leste pela rua Frei Mansueto e via-férrea Parangaba- Mucuripe e ao oeste pela rua João Cordeiro, mas Pontes (2005) comenta que o fortalezense passa a designar “Aldeota” extrapolando a área geográfica considerada pela Prefeitura. Certamente este fato se liga ao desejo do fortalezense em habitar no bairro mais elegante da Cidade.
Jáder de Carvalho (2003), em Aldeota, aponta a procedência dos moradores deste bairro, denunciando a maneira suja de se fazer fortuna no Ceará, ao descrever a trajetória de Chicó (personagem principal da obra) e o seu retorno a Fortaleza, onde faz fortuna. Assim, mostra como a personagem passou a adquirir posses no comércio de exportação, do qual se utilizava para realizar o contrabando:
O contrabando anula terrenos baldios e alarga para o nascente o bairro aristocrático de Fortaleza. Já muda a geografia. Já mudam os
29 Segundo Dantas (2002), a rejeição aos pobres não foi o fator determinante para a fuga das classes abastadas, uma vez que passou a ocupar outros espaços que também eram ocupados pelos pobres ao se instalarem ao norte e ao leste da Cidade; mas em razão, também, da especificação do Centro, os planos urbanísticos que provocaram a valorização de determinadas áreas e a chegada do automóvel possibilitaram a sociedade fortalezense distanciar-se.
horizontes. Aqui e ali, brotam do chão aquilo que as estatísticas da fortuna privada jamais poderão explicar e justificar: os palácios, as moradas luxuosas, as vivendas nascidas à feição do clima, também brancas, linda e criminosamente brancas. Numa topografia diferente, microgeográfica, Aldeota se personaliza, assume limites certos, cria a sua própria alma, amadurece enfim. O câmbio negro dos pneumáticos, o subfaturamento da cera de carnaúba, o contrabando de peles silvestres, os incêndios propositais, lucrativos e sem mistério, transformam-se pela varinha mágica da fraude, num dos bairros mais ricamente famosos de que há notícia em cidades do Brasil (p. 325).
Pelo olhar de Catá (paraense, esposa de Chicó), que costumava escrever suas impressões sobre a Cidade, o autor mostra as regalias adquiridas pelo casal, como a moradia no Benfica, o convívio com a elite de Fortaleza (geralmente, comerciantes que enriqueceram em negócios fraudulentos) e a mudança do casal para o bairro Aldeota30, o mais luxuoso da Cidade.
Certamente, por meio dos três processos apresentados (migração, presença de indústrias e origem dos bairros Benfica, Praia de Iracema e, posteriormente, o da Aldeota) foi provocada a transferência do fortalezense do Centro para outras áreas da Cidade, o que levou à perda de função de moradia.