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De cunho autobiográfico, na medida em que o desencadeador deste trabalho é a experiência da pesquisadora e jornalista com o tema do envelhecimento, levando em conta inquietações de ordem objetivas (aquele ambiente do jornal) e de ordem subjetiva (na emoção de se sentir velha de alguém), o que se vai levar em conta como foco principal é o entrelaçamento dos tempos cronológico e kairós na trajetória de vida das pessoas, optando aqui em procurar compreender melhor o processo de amadurecimento na profissão e na vida pessoal diante da condição da velhice. Para isso, recorreu-se a entrevistas com um grupo de jornalistas ativos na profissão (um total de seis), que contassem com mais de 60anos de idade, padrão etário estabelecido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para definir, cronologicamente, o idoso nos países em desenvolvimento.

Os depoentes foram escolhidos de modo livre pela pesquisadora, que adotou como critério básico de seleção o exercício profissional específico, concentrado, em grande parte, na imprensa paulistana, assim como procurou equilibrar a quantidade de homens e mulheres entrevistados (foram três de cada sexo). Importante ressaltar ainda que esses seis entrevistados são jornalistas expressivos em seus campos de atuação e trazem consigo informações relevantes a respeito.

A pesquisa se propõe seguir metodologia qualitativa, utilizando a técnica da entrevista semiestruturada, em que se mesclaram algumas perguntas abertas com uma conversa informal.

Com dez questões propostas, abaixo relacionadas, procurou-se entender o significado da velhice e do envelhecimento para esses jornalistas, diante do impacto da variável idade no desenvolvimento da carreira profissional e na vida pessoal. Por meio das perguntas, buscou-se igualmente verificar a relação entre envelhecimento e amadurecimento para os entrevistados, observando, em suas falas, quais significados são mobilizados para se referir à questão da velhice. Que

peso a velhice ocuparia na carreira deles, sobretudo, com o advento das novas tecnologias no âmbito da comunicação. Aliás, processo na grande maioria das vezes conciliado em nosso meio social ao jovem, o que acaba contribuindo para o desenvolvimento de algumas relações mais ou menos conflituosas entre as gerações e também na tomada de decisões no próprio trabalho com os profissionais jornalistas mais novos e mais velhos.

Como base teórica, a pesquisadora apoiou-se em autores que apontam para a construção social de uma identidade de velho em nosso meio, como Beauvoir, Minayo, Coimbra, Mercadante, Tótora. Procurou-se compreender os mecanismos do biopoder e a regulação dos sujeitos baseando-se em Foucault – autor fundamental para elucidar a forte analogia que nossa sociedade costuma fazer entre a velhice e a doença.

A passagem do tempo na vida dos jornalistas entrevistados articula-se neste material através de uma busca para melhor entender como dialogam os tempos cronológico e kairós, tomando como base as ideias de Martins, bem como de Medeiros.

Cabe ressaltar ainda que, no referente à metodologia aplicada neste trabalho, a pesquisadora recorre ao autor Richard Sennett que, em seu livro A corrosão do

caráter (2007), chama atenção para o envolvimento pessoal e teórico que mantém

com seus entrevistados. Um dado importante para a compreensão da vida dos sujeitos entrevistados na relação com o trabalho.

Da mesma forma, no tocante à metodologia, em Sennett (2007) procura-se reunir fontes diversas para alicerçar informações e narrativas históricas e de trabalho, e, aqui, ao mesmo tempo, reflexões teóricas sociogerontológicas, relacionando-as à história pessoal e profissional da jornalista pesquisadora.

O leitor muitas vezes encontrará ideias filosóficas aplicadas a experiências concretas de indivíduos ou por elas testadas. Não me desculpo por isso; uma ideia precisa suportar o peso da experiência concreta, senão se torna mera abstração. (2007, p. 11).

Ouvindo esses colegas, dando voz a um segmento fundamental na área da grande imprensa, o intuito deste estudo esteve todo momento concentrado na

possibilidade de contribuir para uma reflexão mais acurada a respeito do exercício profissional, sensível e comprometido com as humanidades, baseando-se na ideia de que a velhice é uma questão complexa, que envolve vários níveis de manifestação, seja no âmbito do biológico, do histórico, do social, do cultural, do psicológico, etc.

Às perguntas que se seguem abaixo, os entrevistados fornecem informações e dados repletos de significados e interpretações. Nesta pesquisa de cunho qualitativo, ressalta-se mais uma vez o intuito de analisar tais informações e interpretações fornecidas por eles, procurando com isso ampliar suas respostas na busca de uma sistematização crítica.

Cito Geertz (1973), porém trazendo-o, agora, para uma perspectiva gerontológica:

(...) o objetivo da antropologia é o alargamento do universo do discurso humano. De fato, esse não é seu único objetivo (...). No entanto, esse é um objetivo ao qual o conceito de cultura semiótico se adapta especialmente bem. Como sistemas entrelaçados de signos interpretáveis (o que eu chamaria símbolos, ignorando as utilizações provinciais), a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimentos sociais, os comportamentos e as instituições ou os processos; ela é um contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível – isto é, descritos com densidade. (p. 24).

Questões

1. Quando e por que decidiu ser jornalista?

2. Como foi o processo de construção de sua carreira como jornalista?

3. Você considera que a passagem do tempo beneficiou o exercício do seu trabalho profissional? Por quê?

4. Que avaliação faz da sua produção, do início da carreira até agora?

5. O que é ser velho para você (ou como define o seu envelhecimento e a sua velhice)?

6. Você acha que o jornalismo influenciou – positivamente ou não – a visão que você tem hoje sobre o seu próprio envelhecimento e o dos outros?

7. Acha que o profissional jornalista tem mais vantagens sobre outros no tocante à questão da tecnologia (maior familiaridade com as ferramentas, por exemplo), por conta de sua necessidade em se valer desse recurso para se manter no mercado como freelancer e mesmo para se atualizar e manter contato com outros colegas? Que tipo de vantagens – ou não – isso poderia lhe trazer, do ponto de vista físico, psicológico e social?

8. No seu dia a dia de trabalho, convive ou já conviveu com pessoas de idade muito diferentes da sua? Se sim, de que forma avalia essa convivência intergeracional?

9. Conte um fato marcante na sua vida de jornalista? Marcante por quê? 10. O que imagina para o seu futuro profissional e pessoal?

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