rotina do dia-a-dia. [...].
E daí em termos assim na vida de uma cidade do interior, toda Universidade sabe, os alunos inclusive os nossos colegas de trabalho e tudo mais.
Percebemos que não há um marco que configure a união do casal, assim como um evento que determina, muitas vezes, o momento em que as pessoas passam a viver juntas. Nas uniões consensuais, assim como no caso dos entrevistados, são as próprias circunstâncias de cada momento que desenham e determinam em que tempo ou em qual momento estes permanecerão juntos no sentido de união.
O retorno de J ao Brasil e a vinda dos dois para o interior do Estado de São Paulo constituiu-se num momento especial da vida do casal, que se estabilizou profissionalmente e também estabeleceu as relações de amizade na cidade. A afirmação de J de que todos sabem na universidade qual o vínculo entre ele e F vem num sentido de explicitar que, apesar de ser cidade do interior, de porte médio e, portanto, de costumes provincianos, são assumidos e são aceitos. Assim, o casal vivencia um cotidiano condizente com as características do espaço geográfico, como também as relações entre a população universitária – colegas de trabalho e alunos – e amigos a quem se vincularam na cidade e, inclusive, elegeram como família.
De acordo com Castañeda (2007, p. 110):
[...] Os casais que partilham o mesmo espaço sabem que uma parte importante de seu entendimento desenvolve-se justamente a partir dos ínfimos detalhes da vida cotidiana: isso pode parecer prosaico, mas as pessoas que dormem juntas e acordam juntas todos os dias, que fazem as compras e lavam a louça juntas, conseguem se conhecer, se entender e se aceitar melhor. A coabitação exige também uma consideração para com o outro, uma flexibilidade e um certo costume da negociação, que levam as pessoas a amadurecerem como indivíduos e como casais. Há também, na vida em comum, um elemento social: os parceiros que coabitam tornam-se uma unidade frente a seus amigos, suas famílias e à sociedade em geral. Isso pode parecer secundário, mas essa identificação social enquanto casal contribui provavelmente para a estabilidade desse.
A autora apresenta elementos sobre a importância da coabitação, tanto para o casal como para sua visibilidade social, reafirmando que a vida cotidiana propicia condições necessárias para o entrelaçamento profundo entre as pessoas e que firma sua imagem para amigos e familiares enquanto unidade e isto para os casais de mesmo sexo pode representar, inclusive, uma forma de eliminação de preconceitos vinculados à idéia de que a união entre eles é algo efêmero e fugaz.
Neste sentido, reafirmamos que a legalização das uniões entre pessoas do mesmo sexo é um elemento considerável a ser analisado também no caso de J e F.
A questão dos amparos legais não fica tão somente restrita às uniões, mas sua referência amplia-se também às possibilidades de mudanças que possam acenar para o futuro, corroborando com a variação de paradigmas e maior alcance da cidadania pelos casais do mesmo sexo.
Para F a questão da legalidade poderá trazer essa diferença na visibilidade das uniões entre os casais:
F) [...] Como nós não temos direitos ainda garantidos, tudo está na jurisprudência, eu acho que fica difícil dizer se efetivamente vai mudar alguma coisa, eu sei que efetivamente vai mudar, eu acredito que sim, porque eu estou na militância eu acho que vai mudar, eu posso te garantir que eu tenho a impressão que sim, por quê? Porque aí nós passamos a ter um estatuto de cidadão, essa relação, além da visibilidade que ela pode alcançar, vai ter uma legalidade! E isso vai modificar com certeza, eu acredito que sim, agora não posso te responder se vai ou não, é curioso isso, não é? Porque tem que acontecer, mas eu até tenho hipótese de aonde vai se modificar e aonde não vai se modificar, eu acredito!
Apesar das indagações colocadas por F do que pode realmente mudar ou não diante da legalização de direitos, é apontado, ao mesmo tempo, com muita pertinência, o impacto da efetivação da cidadania que a questão legal poderá trazer para a vida, não só dos indivíduos como também dos casais, quanto à
respeitabilidade e dignidade, pois de acordo com Dias
<www.mariaberenicedias.com.br> Acesso em: 05 dez. 2007:
A dimensão metajurídica de respeito à dignidade humana impõe que se tenham como protegidos pela Constituição Federal os relacionamentos afetivos independentemente da identificação do sexo do par: se formados por homens e mulheres ou só por mulheres ou só por homens. A orientação sexual integra esfera de privacidade e não admite restrições, o que configura afronta a liberdade fundamental, a que faz jus todo ser humano, no que diz com sua condição de vida. Ainda que, quase intuitivamente, se conceitue a família como uma relação interpessoal entre um homem e uma mulher tendo por base o afeto, necessário reconhecer que há relacionamentos que, mesmo sem a diversidade de sexos, são cunhados também por um elo de afetividade.
Portanto, observa-se que para ocorrerem mudanças, primeiramente se faz premente o alcance das garantias de direitos junto às novas configurações familiares, desprovidas da peculiaridade de gênero.
Novamente apontamos a própria Constituição Federal de 1988, que não traz nenhuma menção específica sobre as uniões entre pessoas do mesmo sexo, a mudança verificada é quanto ao reconhecimento da união estável entre homem e
mulher e o lar formado por um dos pais e seus filhos, portanto, apesar da ampliação no que se refere às organizações familiares não contempla aquelas constituídas por pessoas do mesmo sexo.
Cabe aqui considerar que a Lei Maior trata do casamento entre homem e mulher e do reconhecimento da união estável entre estes, sendo que ambos não se aplicam (pelo menos até agora no Brasil) aos casais do mesmo sexo e, por isso, a proposta do Projeto de Lei nº. 1.151/95 se refere à parceria civil registrada.
De acordo com a Desembargadora Maria Berenice Dias <www.mariaberenicedias.com.br> Acesso em: 15 nov. 2007:
As uniões entre pessoas do mesmo sexo, ainda que não tuteladas expressamente nem na Constituição Federal nem na legislação infraconstitucional, existem e fazem jus à tutela jurídica. A ausência de regulamentação impõe que as uniões homoafetivas sejam identificadas como entidades familiares no âmbito do Direito de Família. A natureza afetiva do vínculo em nada o diferencia das uniões heterossexuais, merecendo ser reconhecido como união estável.
Mesmo diante de tais afirmações e admitindo a veracidade destas, inclusive consideradas pelos próprios sujeitos de pesquisa quando se reconhecem plenamente enquanto família, ainda assim não contam com o reconhecimento legal de entidade familiar.
Discorrendo, por conseguinte, sobre a importância que cada casal destina aos amparos legais, J, ao ser questionado sobre possuir alguma proteção legal que ampare a união, afirma que:
J) Não, ainda não, não, não. Nós temos simplesmente a nossa forte